‘Devolve,
Lula’: quando a Lava Jato acusou o presidente de roubar uma obra que era dele
A
campanha histérica movida pela Lava Jato para tentar criminalizar e prender
Lula resultou uma série de abusos e episódios absurdos. Ainda assim, poucos
foram tão tragicômicos e emblemáticos da perseguição política quanto a acusação
de que o líder petista teria roubado um objeto que era seu.
A obra
em questão era uma imagem de Cristo crucificado, esculpida em madeira por um
artista europeu do século 16. A escultura era um dos mais de 8.500 presentes
pessoais que Lula recebeu durante seus dois primeiros mandatos.
O
crucifixo pertencia originalmente a Mauro Morelli, o bispo da Diocese de Duque
de Caxias, que o pôs à venda em 2002. A obra foi adquirida por José Alberto de
Camargo, conselheiro do Instituto da Cidadania e presidente da CBMM. Por
sugestão de Frei Betto, Camargo presenteou Lula com a obra.
Frei
Betto abençoou a peça e convenceu Lula a instalá-la no gabinete presidencial do
Palácio do Planalto. A escultura permaneceu no mesmo local durante oito anos,
sendo registrada em dezenas de fotografias oficiais.
Em
janeiro de 2011, logo após Lula deixar o palácio, o crucifixo foi retirado do
gabinete junto com todos os seus pertences. Tão logo foram divulgadas imagens
do gabinete sem o crucifixo, surgiram boatos na internet de que a nova ocupante
do palácio, Dilma Rousseff, teria ordenado sua remoção “por ser ateia”.
O
jornal Folha de S. Paulo foi um dos veículos responsáveis por espalhar o boato,
acusando Dilma de ter ordenado a remoção do crucifixo e de uma Bíblia que
ficava sobre uma mesa do gabinete. As acusações não cessaram mesmo após o
desmentido. Influenciadores e blogueiros antipetistas passaram a divulgar
erroneamente que a peça seria do parte do acervo do Palácio do Planalto e que
teria sido roubada por Lula.
Surgiu
dessa forma a campanha “Devolve, Lula”, que exigia que Lula devolvesse “o
acervo roubado do palácio”. Em 26 de fevereiro de 2011, a revista Época chegou
a publicar uma matéria contando a história do crucifixo e esclarecendo que a
peça não pertencia ao acervo palaciano, mas sim ao ex-presidente.
Os
boatos, entretanto, persistiram, ancorados sobretudo em uma fotografia de
Itamar Franco sentado na poltrona presidencial tendo o crucifixo atrás de si.
Alegou-se, com base nessa imagem, que o crucifixo já estaria no Planalto desde
o governo Itamar Franco, nos anos 1990.
A
fotografia era verdadeira, mas não foi tirada durante a década de 1990. O
registro era de uma visita que Itamar fez ao Palácio do Planalto em 2006, já no
fim do primeiro mandato de Lula. O boato, aliás, já havia sido desmentido na
reportagem da Época publicada em 2011.
O fato
de o histórico da peça ser bem conhecido não impediu que a grande mídia
recorresse ao boato para criminalizar Lula e incitar o antipetismo. O boato
logo foi incorporado como mais uma justificativa para a guerra jurídica travada
contra o PT pela Lava Jato.
A
“Veja” tratou de turbinar o boato. Em uma matéria publicada em março de 2016, a
revista não apenas induziu o leitor ao erro recorrendo à fotografia anacrônica
de Itamar Franco como transformou a peça de um escultor anônimo europeu em uma
“obra de Aleijadinho”. Um salto atributivo apto a valorizar enormemente a obra
e o tamanho do suposto roubo.
Elevando
o conceito de “cara de pau” a um novo patamar, a revista Época — a mesma que
havia desmentido os boatos sobre o roubo do crucifixo em 2011 — publicou, em
março de 2016, uma reportagem sensacionalista afirmando que o crucifixo havia
“desaparecido de uma hora para outra” do gabinete.
A busca
pelo “crucifixo roubado de Aleijadinho” virou uma obsessão para a Polícia
Federal e para o procurador Deltan Dallagnol. Era a desculpa perfeita para
prender Lula. Durante a operação Aletheia, policiais federais vasculharam o
apartamento o ex-presidente em busca de pistas.
Os
agentes encontraram documentos informando que o acervo pessoal de Lula estava
guardado em um cofre no Banco do Brasil. É difícil compreender por que alguém
tentaria ocultar um bem roubado mantendo registros sobre sua existência e
depositando-o em um cofre regular de um banco. Mas isso não parece ter
incomodado a PF.
Em
março de 2016, em uma ação transformada em espetáculo pelos holofotes da grande
mídia, a Polícia Federal divulgou ter encontrado 23 caixas com os presentes de
Lula no cofre do Banco do Brasil — incluindo o crucifixo.
A mídia
entrou em êxtase, apresentando a operação como a tão buscada prova inequívoca
dos “crimes de Lula”. Empolgado, Reinaldo Azevedo, ainda imerso em sua fase
mais visceralmente antipetista, se apressou em acusar Lula de ter “passado a
mão” em um “crucifixo entalhado em madeira, datado do século 16, que pertence
ao estado brasileiro”.
O
estardalhaço da mídia ultrapassou as fronteiras nacionais e virou notícia no
mundo inteiro. Replicando as informações da mídia nativa, os jornais
internacionais, divulgaram que o presidente brasileiro havia surrupiado obras
de arte e joias do Palácio do Planalto. Em Portugal, noticiou-se que Lula havia
“roubado um Aleijadinho”.
Mas
ninguém estava tão empolgado quanto Deltan Dallagnol. O procurador da Lava Jato
ficou extasiado ao ser informado que a PF havia “achado” o crucifixo de
“Aleijadinho”. As mensagens de diálogos da Vaza Jato publicadas pelo “The
Intercept” confirmam que Deltan mal conseguia se conter. Prender Lula em
flagrante por roubar um objeto tão simbólico quanto uma representação da
crucificação de Cristo era a apoteose dos procuradores da Lava Jato para
destruir o PT.
A
alegria durou pouco tempo. Cinco dias após a descoberta do crucifixo, Deltan
foi informado pelo procurador Januário Paludo que a Lava Jato havia caído em
uma fake news de Whatsapp. O crucifixo era de Lula e a informação podia ser
facilmente verificada por qualquer pessoa com uma simples pesquisa no Google.
Foi
somente após essa informação que os procuradores da Lava Jato resolveram olhar
a Lei 8.934, que trata sobre os bens de ex-presidentes da República, e
descobriram que Lula não havia cometido absolutamente nenhuma irregularidade.
Apesar
da frustração da Lava Jato, o episódio serviu para atacar ainda mais a imagem
pública de Lula e criminalizar o PT. Não houve desmentidos significativos na
imprensa, ao passo que as matérias acusando Lula de roubar seu próprio
patrimônio seguem circulando na internet até os dias de hoje.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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