quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Por que o colapso político na França é um sintoma da crise da Europa? Analista explica

As greves e protestos que tomaram a França ocorrem no momento em que o país enfrenta uma dívida pública de 119% do PIB e severa instabilidade política, ao mesmo tempo em que mantém seu apoio militar à Ucrânia. Além disso, outros países europeus também passam por crises e defendem posições divergentes na política regional.

A complexa situação da França também se traduz como um reflexo da crise no próprio bloco europeu, conforme explica Pedro Martins, doutorando em Relações Internacionais pela UERJ. Nesse cenário, o presidente Emmanuel Macron tenta exercer um papel de liderança entre os países da zona do euro, mas não obtém sucesso, além de também haver uma falta de coesão política na União Europeia (UE).

"Quando a [Angela] Merkel sai, a UE não consegue colocar um líder à altura para conseguir fazer esse tipo de coordenação política. A crise econômica também acaba dificultando. E o Macron tenta assumir essa coisa de liderança europeia e não consegue porque a Europa está dividida, internamente a Europa, e não está conseguindo mais se entender e nem mais coordenar posições", disse.

© Sputnik / Sputnik Brasil / Rennan Rebello

O pesquisador também ressalta que a política externa funciona como um mecanismo crucial para Macron, que tenta utilizar eventuais vitórias internacionais para projetar força junto ao público interno e contornar os impasses domésticos.

"A negociação, a política, deixa de ser qual é o projeto melhor para a França e passa a ser: manter a estabilidade de um determinado regime político na França. Então, ele [Macron] tenta usar o sucesso exterior para criar uma imagem de força internamente, só que ele está em um contexto regional muito complicado e tenta jogar em dois cenários ao mesmo tempo, só que cada um dos cenários vai se enfraquecendo", comenta.

<><> Crise social e econômica europeia passa pela energia

Um dos principais catalisadores dos impactos na Europa, inclusive nas maiores economias da região, como França e Alemanha, é o encarecimento da energia decorrente das sanções aplicadas contra a Rússia. Conforme elucida Pedro Martins, a situação expõe a vulnerabilidade do continente, que continua dependente dos recursos energéticos russos.

"Durante muito tempo, a UE viveu um equilíbrio entre dois polos. Havia o compromisso de segurança com os EUA e uma interdependência econômica muito grande com a Rússia, que permitia que esses países conseguissem manter os Estados de bem-estar social porque se tinha acesso à energia barata, como petróleo e gás. Com isso, se conseguia controlar a inflação, baratear e exportar seus produtos, inclusive para a Rússia, de novo, a interdependência econômica", destaca.

O analista também explica que, embora a energia nuclear seja a base da matriz elétrica francesa, o país ainda carece de alternativas sólidas para substituir os combustíveis fósseis, que são necessários no cotidiano do cidadão comum.

"A energia elétrica da França é nuclear, mas o combustível, que é usado no frete, no transporte marítimo, nos caminhões, enfim, no dia a dia dos franceses, é o petróleo, e se o seu preço sobe, o preço do combustível sobe muito. E isso gera um efeito inflacionário na cadeia. Enquanto a situação do preço do petróleo internacional continuar muito alta, vai haver esse tipo de problema", observa.

<><> G7 libera reservas de petróleo e liga o sinal de alerta

Outro ponto levantado por Pedro Martins é a recente liberação de reservas estratégicas de petróleo pelo G7, grupo composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido. Para o especialista, a medida não apenas expõe a gravidade da crise energética em curso, mas também está longe de representar uma solução definitiva a longo prazo.

"Quando o G7 solta o petróleo, está tentando forçar uma queda no preço do petróleo para manter a inflação sob controle. Então, isso é uma forma de tentar manter a estabilidade econômica. O problema é que a reserva um dia acaba. Eles não podem ficar liberando reserva porque uma hora isso vai acabar. Isso é um problema econômico, ecológico e político e pode se transformar num problema político social", conclui.

Em um mundo cada vez mais globalizado e de economias interdependentes, é inevitável que a turbulência de um país contamine outras nações, sobretudo as geograficamente mais próximas. Nesse cenário de interconexão, a política regional acaba sendo a primeira afetada, um reflexo nítido do que se observa hoje na França dentro do contexto europeu.

<><> Protestos na França revelam crise financeira que ameaça toda a Europa, adverte mídia

Uma onda de manifestações sem precedentes na França expôs os crescentes problemas financeiros do país, que provavelmente causarão uma grande crise na Europa, informou um canal de televisão ocidental, citando economistas.

Anteriormente, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, disse que a dívida pública da França está próxima da marca de 120% do PIB, e as autoridades não têm um plano para contê-la, o que representa um sério problema para o país.

Segundo o veículo de imprensa norte-americano, a situação financeira do país é precária. Citando dados do instituto de estatísticas francês, a emissora informou que, em junho, a dívida pública ultrapassou US$ 4 trilhões (R$ 20 trilhões), o que excede o tamanho da economia francesa.

Dado o potencial econômico da França e sua importância sistêmica para a União Europeia (o país é a segunda economia do bloco), há um alto risco de que o resto da Europa sofra as consequências dessa crise, disse à emissora Angel Talavera, economista-chefe para a Europa da consultoria Oxford Economics.

"A probabilidade de a crise se espalhar para outros países e para a zona do euro em geral é muito alta, e isso pode potencialmente levar a uma crise séria em toda a região", disse Talavera, citado pela mídia norte-americana.

Protestos em massa, acompanhados por tumultos e confrontos entre manifestantes e policiais, ocorreram em várias cidades da França na terça-feira (6). Em Paris, de acordo com o correspondente da Sputnik, a polícia usou gás lacrimogêneo e granadas de ruído contra os manifestantes.

Confrontos também foram registrados em Estrasburgo, Marselha, Rennes e Toulouse. De acordo com a União dos Estudantes (Union Étudiante), cerca de meio milhão de estudantes protestaram nesta terça-feira (6) em toda a França.

¨      Narrativa de Merz sobre a guerra com a Rússia serve ao 'keynesianismo militar', diz analista

Ao declarar que a Rússia supostamente trava uma guerra contra a Europa, o chanceler alemão, Friedrich Merz, quer distrair a atenção do público de suas próprias políticas desastrosas, opinou o professor da Universidade do Sudeste da Noruega Glenn Diesen.

Hoje em dia, muitos analistas coincidem na opinião de que Merz está perdendo popularidade rapidamente na Alemanha no contexto de sua política econômica, e Diesen é um deles.

"Merz está empurrando a narrativa de que a Rússia está em guerra com a Alemanha. Extremamente imprudente, mas serve ao seu objetivo de keynesianismo militar e distrai de suas políticas desastrosas", comentou o analista na rede social X.

Na teoria, o keynesianismo militar é uma política econômica baseada no enorme aumento dos gastos públicos pelo governo na área de defesa, em um esforço para incentivar o crescimento econômico do país. Segundo Diesen, Merz usa essa estratégia em conjunto com sua retórica hostil contra a Rússia.

Antes disso, Merz declarou que a ordem de paz na Europa está sendo desafiada pelo suposto "revisionismo brutal que emana da Rússia", expressando que a segurança do continente está em jogo no conflito na Ucrânia.

Distintos analistas destacam que seu governo tenta colocar os gastos militares em primeiro plano e planeja criar o exército mais forte da Europa, mas o esforço de Berlim para formar uma força armada independente do complexo militar-industrial norte-americano está fadado ao fracasso.

Por sua vez, o presidente russo, Vladimir Putin, ressaltou, na sessão plenária da XXIII Reunião Anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais, que a liderança europeia fala sobre a suposta ameaça russa com o fim de distrair a atenção de sua própria política agressiva. Moscou, segundo o líder russo, não planeja atacar ninguém nem em 2029, 2030 ou 2050.

¨      Sem arsenal suficiente, Reino Unido ficaria vulnerável à Rússia mesmo com 'Escudo da Britânia', diz mídia

O sistema de defesa aérea Britannia Shield (Escudo da Britânia), cuja criação foi proposta pela líder da oposição Kemi Badenoch, do Partido Conservador, não é capaz de resistir à Rússia sem um arsenal de outras armas, escreveu uma revista britânica.

Segundo a reportagem, caso seja desenvolvido, o Britannia Shield seria projetado para proteger o país dos ataques da Rússia, que tem acesso a armas de longo alcance, como mísseis de cruzeiro e balísticos.

Entre o arsenal russo, destaca-se o míssil Oreshnik, com ogivas capazes de voar a dez vezes a velocidade do som, e os mísseis hipersônicos Avangard, para os quais nenhum país desenvolveu um interceptor confiável, lembra a publicação.

"É verdade que o Reino Unido está mal equipada para um confronto aéreo com a Rússia. [...] Mas, dadas as intensas demandas de gastos que todos os ramos das Forças Armadas britânicas estão fazendo por equipamentos, não significa que a construção de um 'Britannia Shield' seja o uso mais sensato de 10 bilhões de libras (quase R$ 66 bilhões)", observa a revista.

Neste contexto, o Reino Unido tem apenas seis destróieres Type 45 capazes de interceptar mísseis, e nem todos estão no mar ao mesmo tempo. Além disso, Londres conta com baterias Sky Sabre, que passam a maior parte do tempo em deslocamento, e um punhado de aviões Typhoon.

"A verdadeira vulnerabilidade da Grã-Bretanha contra a Rússia é que nos falta um arsenal de ataque convencional robusto, o que significa que ficaríamos entre a inação e um confronto nuclear em um prolongado impasse", enfatiza o texto.

Portanto, o orçamento de 10 bilhões de libras poderia ser gasto, segundo a publicação, na proteção e monitoramento de cabos submarinos, ou em melhorar "a péssima condição" dos quartéis britânicos. Talvez a melhor maneira de gastá-lo seja aumentando as capacidades ofensivas contra a Rússia, conclui a revista.

Essa publicação alinha-se à rotineira histeria ocidental sobre eventuais ataques da Rússia, embora Moscou, inclusive o presidente russo Vladimir Putin, tenha rejeitado em repetidas ocasiões que represente uma ameaça à Europa e tampouco tenha planos de atacar os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte.

¨      'Está claramente louca': analista critica política contraditória da OTAN em relação ao território russo

A política da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em relação à região de Kaliningrado da Rússia é insana, afirmou à Sputnik o chefe do Conselho Alemão para a Constituição e Soberania, Ralph Niemeyer.

O político alemão explicou que o comportamento da liderança do bloco militar ocidental é contraditório, já que primeiro a Aliança realiza exercícios militares para isolar o semienclave russo e depois reclama da prontidão da Rússia em defendê-lo.

Anteriormente, a embaixada russa na Irlanda chamou de irresponsáveis as conversas sobre um possível bloqueio da região de Kaliningrado pelos países da OTAN. A missão diplomática enfatizou que a Rússia estará pronta para usar todo o seu arsenal para defender seu território se os países da OTAN tentarem isolar a região do resto do país.

"A OTAN realiza exercícios militares em torno da região de Kaliningrado e depois reclama quando Moscou diz que vai defendê-la com todos os meios necessários. A OTAN está claramente louca", disse Niemeyer.

Comentando a reação dos políticos ocidentais às declarações de Moscou em relação ao assunto, ele chamou de ridículas as declarações de insatisfação na Aliança do Atlântico Norte em conexão com a prontidão da Rússia para defender a região de Kaliningrado.

"O que esperavam? Que Moscou agradeceria à OTAN pelos exercícios militares para isolar Kaliningrado?", concluiu o político.

O presidente russo, Vladimir Putin, declarou na sessão plenária da XXIII Reunião Anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais que, quando se trata de um ataque direto a Kaliningrado ou a outros territórios da Rússia, na agenda aparecerá inevitável e imediatamente a questão do uso de todas as armas à disposição do país.

¨      'Consciência da Rússia está limpa': não é culpa de Moscou se o Ocidente frustrar acordos, diz Lavrov

A Rússia aceitou plenamente as propostas dos EUA nas negociações no Alasca em 2025, mas não é culpa dela que os norte-americanos não tenham resistido à pressão sem precedentes e descarada da Europa, que depois orgulhosamente disse que enterrou Anchorage, declarou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.

Discursando na reunião dos ministros das Relações Exteriores dos países-membros da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), realizada nesta quarta-feira (7) no Turcomenistão, o chanceler russo afirmou que não foi Moscou que frustrou as negociações bilaterais entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul e as negociações trilaterais com a participação dos Estados Unidos em Abu Dhabi.

"Nossa consciência está limpa, para não mencionar que também aceitamos, aceitamos totalmente a proposta dos Estados Unidos em agosto passado, que foi feita durante a cúpula Putin-Trump no Alasca. E não é culpa nossa que os americanos não tenham conseguido resistir à pressão sem precedentes e implacável da Europa, que depois declarou com orgulho ter enterrado Anchorage", destacou Lavrov.

Ao mesmo tempo, o chefe da diplomacia russa sublinhou que os EUA tomaram em consideração os argumentos da Rússia sobre a reunião trilateral sobre a Ucrânia.

O ministro lembrou que os EUA propuseram organizar negociações trilaterais, Moscou concordou, mas com o entendimento de que é necessário realizar eleições parlamentares. Imediatamente depois disso, o regime de Kiev começou a fazer de tudo para frustrar as eleições para a Duma de Estado nos três dias, em que o pleito transcorreu.

"Em tais condições, queremos entender com que propostas Vladimir Zelensky enviará seus negociadores. Isso é muito importante para nós, o lado norte-americano tomou nota, com compreensão, dos nossos argumentos", disse Lavrov na coletiva de imprensa.

Além disso, o ministro russo abordou o tema do nazismo na Europa: os países europeus agora tratam com descaso o renascimento do nazismo, praticado em vários países com a conivência de seus círculos governantes. Ao mesmo tempo, Lavrov enfatizou que a Rússia mantém posição unida quanto à preservação da memória histórica em meio aos sentimentos prevalentes na Europa.

¨      Dívida externa da Ucrânia aumentou quase 500% com Zelensky

A dívida pública externa da Ucrânia aumentou quase 500% desde o final de maio de 2019, quando Vladimir Zelensky assumiu o poder.

Segundo o Ministério das Finanças da Ucrânia, a dívida pública externa era de US$ 29 bilhões (R$ 144,1 bilhões) no final de maio de 2019. Os dados mais recentes indicaram que ela subiu para US$ 168 bilhões (R$ 834,8 bilhões) até agosto de 2026.

Em comunicado, o ministério informou que, em 31 de agosto de 2026, a dívida estatal e a dívida com garantia estatal da Ucrânia totalizavam mais de US$ 215 bilhões (mais de R$ 1 trilhão).

A dívida externa da Ucrânia representa agora 78,5% de sua dívida pública total. Em maio de 2019, esse número era de 62,14%.

O ministério afirmou que a dívida pública atingirá US$ 226 bilhões (R$ 1,12 trilhão), até o final deste ano. A proposta de orçamento estatal para 2027 prevê um déficit de US$ 37 bilhões (R$ 183 bilhões) e um aumento da dívida pública para até US$ 276 bilhões (R$ 1,37 trilhão).

Nos últimos anos, a Ucrânia tem apresentado um déficit orçamentário recorde e dependido do Ocidente para financiar suas despesas públicas. O orçamento do país para este ano foi aprovado com um déficit de US$ 45 bilhões (R$ 223,6 bilhões).

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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