Quando
restringir direitos se torna promessa de proteção
A
radicalização política ganha força quando transforma inseguranças reais em
autorização para controlar corpos, limitar direitos e escolher quem merece
proteção.
A
promessa de proteção pode carregar um projeto de submissão. Quando uma
liderança afirma que salvará a família, restaurará a ordem ou defenderá a
sociedade, é necessário perguntar o que pretende fazer em nome dessas palavras.
Quem terá sua liberdade restringida? Quem será obrigado a obedecer? E quem
receberá o poder de definir quais vidas são aceitáveis?
É nesse
terreno que Gilead, a sociedade de O conto da aia, de Margaret Atwood, oferece
uma referência incômoda. Seu poder organiza a subordinação das mulheres por
meio de uma ordem que reivindica legitimidade religiosa. O corpo feminino passa
a cumprir uma função determinada pelo regime. A autonomia torna-se uma ameaça;
a obediência, uma virtude pública.
O
Brasil não é Gilead. A comparação interessa porque permite examinar uma
operação política: apresentar a retirada de direitos como condição para
preservar a sociedade. Sua eficácia depende de fazer com que parte da população
aceite a perda da liberdade alheia como garantia de sua própria segurança.
A
radicalização do Congresso precisa ser discutida a partir dessa operação. O
problema ultrapassa a classificação dos parlamentares em conservadores e
progressistas. Está na força adquirida por projetos que prometem resolver
conflitos sociais mediante o controle de determinados grupos e na tolerância
que encontram para transformar essa promessa em legislação. A restrição de
direitos raramente precisa se anunciar dessa maneira. Pode chegar como defesa
da infância, preservação dos valores, combate à criminalidade ou proteção da
vida. Essas finalidades têm apelo porque dizem respeito a preocupações
legítimas. É justamente por isso que exigem exame: uma justificativa
socialmente valorizada pode encobrir medidas que agravam a vulnerabilidade de
quem dizem proteger.
Um
exemplo concreto está no texto original do PL 1904/2024. A proposta equiparava
a homicídio simples o aborto após 22 semanas, inclusive em gravidez decorrente
de estupro. Em junho de 2024, a Câmara aprovou sua urgência, permitindo que
fosse levado diretamente ao plenário. A aprovação da urgência não tornou a
proposta lei, mas demonstrou que uma medida com esse alcance punitivo conseguiu
obter prioridade institucional.
A
pergunta política é incontornável: que proteção se oferece a uma vítima de
estupro quando sua possibilidade de interromper a gestação é colocada sob a
ameaça de punição equivalente à de homicídio? A retórica da defesa da vida
precisa responder pela vida concreta da pessoa submetida à violência. Precisa
explicar por que sua integridade, sua saúde e sua capacidade de decidir recebem
menor importância que a obrigação que se pretende impor.
Nesse
caso, a crítica deve alcançar a autoridade que o Estado reivindica sobre o
corpo. Uma convicção moral particular passa a disputar a condição de comando
jurídico obrigatório. Quem dispõe de poder legislativo procura definir quanto
sofrimento outra pessoa deverá suportar para cumprir uma concepção de sociedade
que talvez sequer compartilhe.
Gilead
ajuda a enxergar esse deslocamento: a mulher é reconhecida pela função que deve
desempenhar, e sua liberdade fica subordinada a essa função. A analogia não
exige identidade entre a ficção e o Brasil. Exige atenção ao momento em que a
autonomia passa a ser tratada como um obstáculo à ordem.
Os
dados eleitorais acrescentam uma contradição importante. A cobertura inicial
das eleições de 2026, registrou 109 mulheres eleitas para a Câmara, diante de
91 em 2022. Se confirmada na base oficial consolidada, essa contagem
corresponderá a aproximadamente 21,2% das cadeiras. O crescimento merece
reconhecimento, mas mantém uma ampla desigualdade na distribuição do poder
parlamentar.
Também
exige abandonar uma expectativa simplificadora: a presença de mulheres não
determina, por si só, uma agenda favorável à autonomia feminina. Mulheres podem
defender projetos conservadores, assim como homens podem atuar pela igualdade
de gênero. Isso não diminui a importância da representação. Obriga a avaliar
presença e atuação conjuntamente.
A
questão não pode terminar na contagem de quantas mulheres chegaram ao
Parlamento. Deve alcançar o uso que todos os representantes fazem do poder
conquistado. Uma instituição pode ampliar sua diversidade e continuar a
produzir normas que restringem as possibilidades de vida de parte da população.
O reconhecimento da identidade de uma liderança não dispensa o exame de suas
propostas. O mesmo cuidado vale para a composição partidária. A Câmara informou
que o PL elegeu 121 deputados em 2026, aproximadamente 23,6% das cadeiras. O
número dimensiona uma capacidade expressiva de negociação e influência, embora
não dê ao partido maioria absoluta nem autorize presumir o comportamento
individual de todos os eleitos.
O que
esse poder poderá produzir depende de alianças, prioridades e disputas
internas. É exatamente por isso que a análise precisa ir além do resultado
eleitoral. Uma bancada ganha consequências políticas quando controla comissões,
influencia a pauta, negocia apoio e transforma certas propostas em prioridades.
A normalização de uma ideia se completa institucionalmente quando ela deixa de
ser apenas uma declaração e passa a organizar o trabalho do Estado.
Como
chegamos a esse ponto? Uma explicação séria precisa investigar a organização
política construída entre eleições, a distribuição de recursos, as redes de
comunicação e os vínculos territoriais. Mas também deve examinar a oferta de
sentido feita ao eleitorado: quem explica seu sofrimento, quem lhe oferece
pertencimento e quem consegue dar um nome à ameaça que parece cercá-lo?
A
insegurança econômica, o medo da violência e a sensação de abandono não são
invenções. Podem, contudo, ser mobilizados para sustentar respostas que
concentram poder e restringem direitos. O sofrimento ganha uma explicação
acessível: a sociedade teria perdido o rumo porque concedeu liberdade demais a
determinadas pessoas. A solução proposta é recuperar o controle.
Essa
narrativa transforma relações de igualdade em sinais de desordem. A autonomia
das mulheres pode aparecer como ataque à família; a visibilidade LGBTQIA+, como
ameaça à infância; garantias processuais, como obstáculo à segurança. São
associações que precisam ser identificadas e contestadas sempre que surgem no
debate público, porque deslocam a responsabilidade pelos problemas sociais para
a existência ou para os direitos de grupos específicos. O ganho político está
na fabricação de uma fronteira entre quem merece proteção e quem pode ser
sacrificado em seu nome. Uma sociedade atravessada por desigualdades torna-se
especialmente vulnerável a essa divisão: é possível prometer segurança a alguns
enquanto se amplia a exposição de outros à violência, à punição e ao abandono.
Para
mulheres negras e moradores de periferias, essa distinção merece atenção
particular. A pergunta sobre proteção estatal deve considerar quem consegue
acessar serviços, fazer uma denúncia ser ouvida, obter defesa jurídica e
contestar uma decisão. Uma restrição formalmente geral pode ter consequências
profundamente desiguais quando as condições para enfrentá-la já são desiguais.
A
crítica também precisa alcançar os setores que oferecem respeitabilidade ou
apoio a essas agendas por conveniência. Uma aliança deve ser avaliada pelo que
viabiliza. Apoiar a ascensão de uma força política em troca de benefícios
econômicos ou posições institucionais produz responsabilidade pelas condições
criadas para o avanço de seu programa. A moderação declarada perde consistência
quando convive com a aceitação prática de medidas que corroem direitos.
Isso
não autoriza tratar toda posição conservadora como autoritária. Uma democracia
comporta disputas sobre valores e políticas públicas. O critério deve ser o
conteúdo das propostas: preservam a igualdade jurídica, o pluralismo e a
legitimidade dos adversários? Ou procuram subordinar certos grupos a uma ordem
em cuja definição eles terão menos voz?
A
participação religiosa merece o mesmo rigor. Pessoas religiosas têm pleno
direito à atuação política. O problema aparece quando uma interpretação
particular reivindica poder estatal para obrigar toda a sociedade a viver
segundo seus preceitos. A liberdade religiosa pressupõe também a possibilidade
de não professar aquela fé e de não ser submetido a suas regras por imposição
pública.
A
normalização do autoritarismo se fortalece quando essa distinção deixa de
importar. O debate passa a premiar a contundência da promessa e a dispensar o
exame de suas consequências. A capacidade de produzir medo torna-se um recurso
de autoridade. Quem apresenta a ameaça reivindica também o direito de definir a
resposta. Uma vitória eleitoral amplia essa capacidade, mas não elimina os
limites democráticos. O mandato autoriza governar e legislar sob a
Constituição. Não transforma toda medida em legítima nem retira da sociedade o
direito de contestá-la. Uma maioria política continua obrigada a reconhecer os
direitos daqueles que não a elegeram.
A
resposta democrática exige mais que denunciar o extremismo. Precisa enfrentar
as condições que tornam atraente a promessa de ordem: insegurança material,
violência, ausência de serviços e dificuldade de participar das decisões.
Direitos devem chegar à experiência cotidiana como proteção efetiva. Quando
essa proteção falha, cresce o espaço para quem oferece submissão como solução.
O
roteiro de Gilead é útil porque nos obriga a examinar o preço da segurança
prometida. A pergunta decisiva é quem será obrigado a pagá-lo. Quando a
liberdade de algumas pessoas se torna moeda para conquistar votos e negociar
poder, o problema já ultrapassou o discurso: alcançou a definição de quem
poderá viver com autonomia.
A
democracia se enfraquece quando aceita que proteger uns exige retirar direitos
de outros. Sua defesa começa por recusar essa autorização, especialmente quando
ela chega às urnas com linguagem de cuidado e ao Congresso com poder para
legislar.
• Trabalho é custo para quem? Por Andréia
Galvão e Eduardo Rezende Pereira
O
segundo turno da eleição presidencial de 2026 envolve a escolha entre dois
projetos de país muito distintos em termos de garantia de direitos,
compromissos com a democracia e defesa de interesses, bem como dos aliados
políticos que sustentam cada candidatura. De um lado, está Lula (PT), cuja
candidatura representa não apenas a continuidade do projeto de desenvolvimento
econômico atrelado à promoção de políticas sociais, como também o
fortalecimento da soberania nacional e a manutenção do regime democrático,
frente à ameaça golpista que assola o país.
Do
outro, está Flávio Bolsonaro (PL), que além de herdar o legado do pai,
assumindo a direção do movimento bolsonarista, defende a diminuição do papel do
Estado enquanto indutor do desenvolvimento e a subordinação do país ao
imperialismo estadunidense.
Nomeado
“Para o Brasil vencer o atraso: diretrizes do plano de governo 2027-2030”, o
programa de Flávio Bolsonaro se estrutura em torno da perspectiva de redução
dos investimentos públicos, usando recorrentemente o bordão do “tesouraço” para
se referir a essa redução, bem como à diminuição do próprio Estado. Mas qual
sua política para a defesa de quem trabalha?
As
principais propostas de Flávio Bolsonaro relacionadas ao trabalho estão
contidas no eixo “Brasil que prospera” e enfatizam os direitos individuais
sobre os coletivos. A prosperidade financeira é apresentada como resultado do
esforço individual dos próprios trabalhadores, que devem se comportar como se
empresas fossem. O interesse dos indivíduos é equiparado ao interesse das
empresas, como se as condições de ambas as partes fossem iguais.
A
defesa da prevalência do negociado sobre o legislado é justificada como forma
de “permitir que trabalhador e empresa combinem diretamente as condições de
trabalho que funcionam para os dois”. O programa defende medidas como a redução
gradual do chamado “custo do trabalho” para as empresas e a criação de novas
formas de contratação, apostando na flexibilidade das jornadas e tendo como
base o argumento da liberdade de escolha – como se ela fosse possível diante do
poder das empresas frente a seus empregados e diante da desigualdade econômica
vigente na sociedade.
Não há
nenhuma referência à política para o salário mínimo, e tampouco a defesa da
redução da jornada de trabalho ou o fim da escala 6X1, pelo contrário: o
candidato se posicionou publicamente contra o fim da escala 6×1,¹ endossando a
tese de que sua aprovação quebraria a economia. Não por acaso, a bolsa de
valores registrou alta e o dólar caiu após sua vitória no primeiro turno.
O
documento estimula o empreendedorismo e o trabalho autônomo, prevendo a criação
de novas linhas de crédito e programas para fomentar a abertura do próprio
negócio, afinal, “quem emprega a si mesmo tira o país das costas do Estado”.
Não se discute as consequências da falta de investimento público para o mercado
de trabalho, tampouco o impacto da flexibilização do trabalho e da precarização
dos contratos para a sociedade.²
Para
levantar algumas questões: como trabalhadores com contratos precários e mesmo
prestadores de serviço, inclusive os inscritos como MEI, vão preencher os
requisitos para se aposentar? Como financiar políticas públicas, uma vez que
direitos rebaixados e salários insuficientes reduzem as contribuições patronais
para a seguridade social e impactam o fundo público? Uma sociedade sem Estado,
sem políticas públicas e sem direitos é viável?
Embora
a reforma previdenciária de 2019 não seja mencionada, vislumbra-se uma nova
reforma no curto prazo, que dificultará ainda mais o acesso à aposentadoria e à
proteção social, uma vez que a perspectiva é a redução no valor dos benefícios.
O
programa também afirma que “Milhões de brasileiros não querem emprego: querem o
próprio negócio”. Faltou dizer que, conforme demonstram diversas pesquisas, os
trabalhadores também querem direitos³ e a instituição responsável pela garantia
de direitos sociais e trabalhistas é o próprio Estado. Sem direitos, por mais
que os trabalhadores se esforcem, sua situação se torna instável, pois só podem
contar consigo mesmo.
Mas,
conforme o programa, o Estado não é um ator importante na redução das
desigualdades e na promoção de uma sociedade mais justa; não é um órgão que
pode ser defendido e melhorado, e sim um empecilho à liberdade de
empreendimento. O texto sustenta que são os auto-empregados “que geram a maior
parte das vagas de trabalho no país, e é a eles que o Estado mais atrapalha,
com burocracia, imposto e falta de crédito”. É uma perspectiva cínica, própria
de quem defende o Estado para si e propõe deixar a população trabalhadora
jogada ao trabalho sem limites e às incertezas do mercado.
Uma
perspectiva que não se baseia na lógica da cidadania e sim das particularidades
dos indivíduos, de sua capacidade de comprar proteção social no mercado ou de
contar com redes de apoio familiares e religiosas. Uma perspectiva de quem
promove a sociedade do salve-se quem puder.
Os
trabalhadores por aplicativos são parte dos auto-empregados e a posição do
programa é favorável ao não reconhecimento do vínculo empregatício. É certo que
esta é uma questão controversa entre os próprios trabalhadores, o que pode
ajudar a entender a menção genérica à proteção social e previdenciária, mas não
se menciona de que forma isso será feito, tampouco qual o papel do Estado e das
empresas nesse processo.
Tanto o
Estado quanto o sindicato são vistos como entraves aos “interesses de quem
trabalha” e dos usuários. Não se considera que os usuários/clientes dos
aplicativos, embora beneficiados pelo preço baixo dos serviços que consomem,
são potencialmente afetados pela falta ou pelo rebaixamento de direitos, na
medida em que o modelo de negócio por aplicativo se alastra para outros tipos
de trabalho. Na batalha entre cálculo econômico, ganhos imediatos e direitos,
descartam-se os direitos e os trabalhadores ficam à mercê do mercado.
A
expansão do modelo de trabalho sem direitos afetará o conjunto dos
trabalhadores, mesmo os que hoje contam com alguma proteção. A reforma
trabalhista de 2017, que consagra esse modelo com a criação da figura do
autônomo permanente, do trabalho intermitente e da expansão da terceirização
para qualquer atividade, é qualificada como uma medida de “pacificação” – não
havendo, portanto, nenhuma crítica ou proposta voltada à sua revogação.
O
tópico “O trabalhador em primeiro lugar, não o sindicato” tece críticas ao
sindicalismo brasileiro e ao modelo de diálogo social. O programa recupera o
bordão utilizado nos anos 1950-1960 para criticar a política trabalhista dos
governos de Getúlio Vargas e de Jango, afirmando que “o país precisa se
posicionar contra a República Sindical” e que “o governo tem a audácia de
propor que os sindicalistas sejam parte da formulação de políticas públicas,
mesmo não tendo sido eleitos para tanto”.
Ora, os
sindicatos, como qualquer outra instituição, podem ser criticados, mas é
forçoso reconhecer sua importância para a conquista de direitos. No entanto, o
programa de Flávio Bolsonaro joga os trabalhadores contra suas entidades de
representação, despreza o papel da participação política dos trabalhadores –
por intermédio de sindicatos e movimentos populares – e ignora sua contribuição
para o aprimoramento da democracia.
Há uma
continuidade entre a posição dos que apoiaram o “Programa Ponte para o Futuro”,
que fundamentou a reforma trabalhista de Michel Temer (MDB) e Rogério Marinho
(PL), e a posição dos Bolsonaro em matéria trabalhista. Enquanto o programa de
Flávio Bolsonaro defende a redução do papel do Estado, a centralidade do
empreendedorismo e a flexibilização de direitos, retomando a ideia, presente na
campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro de que é preciso aproximar as relações
de trabalho da informalidade⁴ o programa de Lula defende direitos para todas as
pessoas que trabalham. Há muita coisa em jogo em 25 de outubro. Lutemos pela
defesa dos direitos que hoje existem, e pela possibilidade de ampliá-los!
Fonte:
Por Fernanda Macedo, no Le Monde/A Terra é Redonda

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