Sanções
e crise do petróleo levam EUA e Europa à beira de uma crise pior que a de 1929,
diz analista
Em
entrevista à Sputnik Brasil, especialistas avaliam que a estratégia ocidental
de impor sanções a países prejudicou o acesso ao petróleo e gás, o que
encareceu a energia, elevou o custo de vida das camadas mais pobres e
beneficiou elites europeias que enriquecem com a especulação.
Em
encontro recente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o prefeito de Nova
York, Zohran Kwame Mamdani, afirmou que o maior problema da cidade, hoje, é o
alto custo de vida, principalmente com o aluguel.
No
restante dos EUA, a situação é similar. Em pesquisa recente encomendada pela
CNN, 61% dos entrevistados afirmaram ter mudado as compras no mercado para
conseguir colocar os gastos dentro do orçamento. Outra sondagem, feita pelo
instituto Gallup, apontou que a confiança econômica no país caiu para -45
pontos, em uma escala que varia de -100 (pessimismo total) a +100 (otimismo
total). O índice é o menor registrado desde 2022, quando atingiu -58 pontos.
O alto
custo de vida reflete também na dinâmica das famílias e perspectivas em relação
ao futuro. Segundo um relatório da consultora estadunidense Northwestern
Mutual, 42% dos norte-americanos são financeiramente dependentes dos pais, e
20% acreditam que nunca serão independentes.
O
cenário não é diferente na Europa. Na Alemanha, por exemplo, a disparada no
custo de vida no continente levou o partido socialista Die Linke (A Esquerda) a
vencer as eleições estaduais pela primeira vez, tendo como motor de campanha o
combate à crise de habitação causada pelo alto valor do aluguel.
À
Sputnik Brasil, Jonatan Nuñez, doutor em ciências sociais pela Universidade de
Buenos Aires (UBA) e pesquisador em economia política, afirma que a energia tem um
papel na alta
no custo de vida por ser insumo de quase tudo.
"O
choque de 2022 no gás e no petróleo, causado pelo conflito na Ucrânia, passou
para a eletricidade, o transporte, o frete e os fertilizantes, que dependem de
gás, e esses custos costumam demorar a ceder mesmo quando o preço da commodity
recua", avalia.
Nuñez
aponta que, para os governos, o problema é que combustíveis e tarifas são os
preços que o eleitor mais enxerga; logo, o custo político é imediato. Diante
disso, a reação habitual é subsidiar, liberar estoques estratégicos e buscar
produção própria e novos fornecedores, o que tende a colocar a segurança
energética na frente da agenda de transição, pelo menos em curto prazo.
No que
diz respeito às sanções, ele diz que é importante separar os casos. No recorte
da Rússia, o principal choque veio do conflito e do corte do gás fornecido por
gasoduto para a Europa, que obrigou o continente a comprar mais gás natural
liquefeito (GNL) e a disputar cargas com a Ásia.
"As
sanções ao petróleo foram desenhadas justamente para não tirar barris do
mercado e, por isso, houve um teto de preço em vez de um embargo total, mas
elas encareceram frete, seguro e logística e deram origem a circuitos paralelos
de transporte."
Já no
caso do Irã, Nuñez diz que as sanções limitam as exportações formais, mas boa
parte do petróleo continua a chegar à China, então o efeito sobre o preço
global é bem menor.
Vinicius
Modolo Teixeira, professor de geopolítica na Universidade do Estado do Mato
Grosso (Unemat), inclui nesse cenário o bloqueio no mar Vermelho contra embarcações sauditas realizado pelo
movimento iemenita Ansar Allah. Tudo isso se interliga ao transporte de
petróleo, gás e fertilizantes que saem do golfo Pérsico e da Rússia.
"As
sanções que são colocadas contra esses fornecedores por países ocidentais
afetam a cadeia global de suprimentos e geram uma inflação em cadeia, e isso
acaba afetando diretamente os nossos preços em todas as áreas por depender de
transporte, de insumo, energia."
Teixeira
destaca que, na Europa, a ascensão de partidos da direita é uma consequência
desse cenário, que surge com respostas fáceis para o aumento no custo de vida
que não solucionam o problema, mas capturam o voto de eleitores afetados pela
crise econômica.
"Isso
é um grande problema a nível mundial. Governos ocidentais, Europa e Estados
Unidos têm sofrido e podem sofrer nas próximas eleições com esse tipo de crise
e votos que são de protesto da população em busca de soluções que, muitas
vezes, não são viáveis, mas são o que eles observam ali como uma chance de
mudança. E isso cai na perspectiva de uma alteração para um governo ainda
pior."
Na
visão de Teixeira, a política de sanções tem um papel crucial nesse cenário,
pois quando aplicadas a um grande fornecedor, como é o caso de Rússia, Belarus
e países do golfo Pérsico, levam a uma busca por outros fornecedores, que não
conseguem suprir essa demanda, e os preços atingem "níveis
escandalosos".
"Acaba
levando a um encarecimento absurdo dos preços dessas fontes de energia, de
fertilizantes, de insumos agrícolas, e levando a um aumento em efeito em cadeia
em todos os preços dos alimentos e outros tipos de commodities que dependem de
transporte", complementa.
Fábio
Sobral, professor de economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma
que, além dos conflitos ucraniano e iraniano, a guerra comercial lançada pelos
EUA desde o primeiro governo de Donald Trump (2017–2021) dificultou a chegada
de produtos nos Estados Unidos, encarecendo os preços internos.
"Há
um agravante no caso do Irã, porque o golfo Pérsico é o grande produtor de
petróleo com ácido sulfúrico, que é fundamental para a produção de diesel e de
querosene de aviação. A economia americana é profundamente dependente do
transporte rodoviário e aéreo. Então isso eleva os custos de transporte e,
consequentemente, os preços dos produtos" avalia.
No caso
dos Estados Unidos, ele aponta que o efeito é mais imediato por conta da
proximidade das eleições de meio de mandato, pois a rejeição ao governo Trump
está alta e pode provocar a perda de controle tanto da Câmara dos
Representantes quanto do Senado.
"Isso
traria duas possibilidades para o governo Trump: ou viraria o que se chama de
'pato manco', ou seja, não consegue aprovar nada, ou ele pode até sofrer um
processo de impeachment, que eu acho que é o mais provável, se Senado e Câmara
passarem ao comando dos democratas."
Quanto
aos governos europeus, ele considera que aqueles que apoiam o conflito na
Ucrânia e o isolamento da Rússia tendem a se desgastar.
"É
o que nós temos visto, por exemplo, na Alemanha, onde o chanceler Friedrich
Merz, do Democracia Cristã, tem perdido todas as eleições que tem
participado", observa.
Sobral
enfatiza que a explosão dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, o rompimento de grande
parte das relações econômicas com a Rússia e a política de sanções provocaram o
desaparecimento de uma série de matérias-primas essenciais para a economia
europeia funcionar, e o continente não consegue suprir suas necessidades
energéticas e de fertilizantes sozinho. No entanto, ele destaca que não são
todos na Europa que sofrem as consequências.
"Para
as altas burguesias financeiras europeias, o pessoal que aposta em mercado de
commodities, bolsas de valores, em derivativos, esses mercados especulativos, a
situação está extraordinariamente boa. Essa camada altamente rica e separada da
população, em geral, tem se beneficiado enormemente. A economia não atinge
igualmente a todos e todas."
Na
visão de Sobral, as perspectivas de futuro são as mais sombrias, pois o
bloqueio continua no estreito de Ormuz, assim como os ataques no estreito de
Bab el-Mandeb, no mar Vermelho, e nos Estados Unidos as reservas estratégicas
de combustíveis tendem a se esgotar, aumentando ainda mais os preços de todos
os produtos.
"Já
se fala em uma crise maior do que a de 1929, provocada por essa escassez de
combustíveis, de querosene de aviação, do despencar das viagens aéreas, aumento
imenso do transporte de todas as mercadorias por meio de caminhões nas
estradas. As perspectivas para a economia mundial, não só de uma recessão, mas
de uma depressão, são grandes."
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Como a tendência afeta o Brasil?
Nuñes
avalia que o Brasil está em uma posição melhor do que a Europa em energia, pois
produz petróleo, sobretudo no pré-sal, e tem uma matriz energética com muito
peso de renováveis, o que o protege de choques de gás, como o europeu. Porém,
ele frisa que o país não está isolado.
"Os
combustíveis acompanham o mercado internacional, o país ainda importa parte do
diesel que consome e o diesel pesa no frete e nos alimentos. A política de
preços da Petrobras e a tributação dos combustíveis funcionam como
amortecedores, com custos fiscais e para o investimento."
Teixeira
destaca que o Brasil tem lidado com essa tendência com bastante pragmatismo.
Como parte do BRICS, o país mantém o diálogo com a Rússia, continuando a
importar fertilizantes do país, não adere às sanções contra Moscou nem toma
partido no conflito ucraniano e apoia as
negociações de paz.
"Porém,
no preço do barril do petróleo, que a gente é afetado diretamente pela nossa
empresa de petróleo ter sido, em partes privatizada, a rede de distribuição
privatizada, o que a gente tem feito é subsidiar para amortecer os efeitos da
elevação dos preços dos combustíveis nesse tempo de crise", aponta.
No
entanto, ele aponta que essa estratégia tem efeito limitado, e se a crise no
petróleo escalar ainda mais, o Brasil também não vai suportar um déficit nesses
subsídios.
"O
Brasil tem algumas medidas a serem tomadas, mas não é totalmente imune a essa
situação global."
Sobral,
por sua vez, considera que a decisão de não romper com a Rússia blindou
relativamente o Brasil da alta de preços, e a importação de fertilizantes russo
garantiu que a agricultura brasileira continuasse sem limitações.
"Somos
autossuficientes em petróleo leve, o da camada do pré-sal, […] somos
autossuficientes em 80% pelo menos na produção de diesel […]. Então o Brasil
escapa desse problema energético, também não sofre com o desabastecimento
agrícola, ele tem se beneficiado com isso. Além do mais, o encarecimento de
certas commodities acaba favorecendo as exportações brasileiras."
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Quais são os paralelos entre as crises de 1929 e 2026?
Em
1929, os Estados Unidos e, por consequência, o mundo, viveram uma das maiores
recessões econômicas do século 20. Causada, entre outros motivos, pela alta
especulação financeira. A quebra da Bolsa de Nova York em 24 de outubro daquele
ano levou o país ao período de uma década cunhado como Grande Depressão,
marcado por alta do desemprego e falências.
Quase
um século depois, o país se questiona se o aumento inflacionado dos
investimentos em big techs de IA sem retorno imediato ou de curto prazo pode
criar uma bolha tecnológica, como ocorreu com a internet nos anos 2000.
Há
paralelos entre o cenário atual e a crise econômica de 1929. O editor do The
New York Times, Andrew Ross Sorkin, autor de 1929: Inside the Greatest Crash
in Wall Street History, comparou a ascensão da Nvidia, por exemplo, à da
Radio Corporation of America (RCA), da década de 1920. A empresa de eletrônicos
foi pioneira na televisão, com patentes para os tubos de câmera e imagem
introduzidos na época. Ela era descrita como o futuro da tecnologia.
O
período também introduziu os empresários da tecnologia à fama com o objetivo de
democratizar o acesso ao mercado financeiro. Nomes como John Raskob, executivo
da DuPont e General Motors, — que criou o crédito para consumidores adquirirem
carros — passaram a figurar na mídia e em capas de revistas, assim como
acontece hoje com Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk (xAI e Tesla), apontou.
As
diferenças entre os dois períodos são relevantes: em 1929, as margens de
investimento eram maiores — investidores compravam ações depositando US$ 1 para
cada dez emprestados pela corretora. Quando a bolsa caiu 50%, empresas e
indivíduos não tinham aporte para se recuperar da queda, mesmo que o mercado
tenha encerrado o ano com 17% de queda.
“As
pessoas davam a vida delas sem perceber, porque era a primeira vez que faziam
isso e porque o mercado crescia muito, tipo 90% ao ano. Acho que a expressão
FOMO (sigla para fear of missing out) não existia na época, mas esse era o
sentimento. Subir no trem antes dele sair da estação”, descreveu.
A
distribuição de informações sobre investimentos e oportunidades de aquisição de
ações escalou por conta da internet. Se no século passado Nova York tinha casas
de corretagem a cada esquina, hoje, elas ficam no bolso do consumidor.
A
velocidade e democratização da informação marcam outra diferença entre os
períodos. O preço nos painéis da bolsa estava sempre de quatro a cinco horas
atrasadas. Alguns investidores iam presencialmente para Wall Street para
descobrir se ainda tinham dinheiro.
O
sentimento do público também era diferente. “Não sei se, como sociedade,
buscamos coisas para se preocupar. Esse momento, em termos de tecnologia e
geopolítica, nos leva a isso. Em 1920, estávamos passando por revolução
tecnológica. As pessoas estavam animadas. Hoje, parece mais complicado”,
descreveu.
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Cenário econômico e político atual dos Estados Unidos
Sorkin
descreve a inteligência artificial como uma faca de dois gumes, uma vez que ela
pode provocar uma bolha especulativa que pode estourar quando as receitas não
acompanham os investimentos, mas também pode promover uma automação massiva e
destruir a economia do mesmo jeito.
Em seus
contatos com líderes de grandes empresas, o jornalista percebe um descompasso
entre o que os CEOs dizem publicamente e o que pensam sobre a política
econômica do governo de Donald Trump.
Alguns
consideram a política tarifária ruim e se preocupam com uma possível perda da
independência do Banco Central, mas não retaliam o governo publicamente por
medo de represália. Ao mesmo tempo, alguns consideram que Trump mantém um
diálogo mais aberto com as empresas, o que torna sua política boa para o
empresariado.
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Papel do jornalismo
Para
Sorkin, o papel do jornalismo é alertar para os riscos iminentes, como foi
feito na década de 1920 e em demais contextos semelhantes, mas o público não
aceita bem os alertas dos veículos ou especialistas, pois preferem assumir seus
riscos.
Fonte:
Sputnik Brasil/Meio&Mensagem

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