O
orçamento da saúde cresceu, e o Congresso passou a controlar uma fatia maior
dele
Após
anos de restrição fiscal, o orçamento federal da saúde voltou a crescer. Entre
2023 e 2025, já sob o Novo Arcabouço Fiscal, a despesa real do governo federal
com saúde foi, em média, 26,2% maior do que no triênio que antecedeu a pandemia
(2017 a 2019), quando vigorava o teto de gastos da Emenda Constitucional 95.
Trata-se de uma expansão expressiva, que afasta a ideia de estagnação do
financiamento federal da saúde. Mais relevante ainda é observar como esses
recursos adicionais foram distribuídos. A atenção básica cresceu 57%, a
formação de recursos humanos, 55%, e os investimentos, 59%, diante de um
aumento de 26% no custeio. A composição do crescimento sugere, à primeira
vista, uma recomposição voltada a dimensões centrais da capacidade do sistema. Em
qualquer discussão sobre resiliência dos sistemas de saúde, esse poderia ser o
retrato de uma recuperação bem direcionada.
Há, no
entanto, um segundo retrato, e ele conta uma história diferente.
O
orçamento público se divide entre despesas obrigatórias e discricionárias. Na
saúde, cerca de três quartos da despesa federal são obrigatórios, incluindo
transferências constitucionais, pisos legais e folha de pessoal. Resta em torno
de um quarto de margem discricionária. É nesse espaço mais estreito que se
concentram escolhas importantes de política pública: ampliar uma rede de
vigilância epidemiológica, expandir equipes de Saúde da Família ou financiar
equipamentos e serviços em determinados territórios. A pergunta que importa,
portanto, não é apenas quanto o orçamento da saúde cresceu, mas quem decide
sobre a destinação dessa parcela mais flexível.
Em 2016
e 2017, a resposta era relativamente simples: cerca de 90% da despesa
discricionária da saúde estava sob controle do Poder Executivo, enquanto as
emendas parlamentares tinham peso muito menor. Em 2025, essa relação havia
mudado substancialmente. O Executivo respondeu por cerca de 53,5% dessa
parcela, e as emendas parlamentares, por aproximadamente 46,5%. As duas curvas
se aproximaram e se cruzaram por volta de 2022, mantendo-se desde então em
patamares próximos. Em uma década, portanto, o Ministério da Saúde, responsável
pela coordenação federal do SUS, perdeu quase metade de sua capacidade de
planejar e priorizar a parcela discricionária do próprio orçamento.
Esse
deslocamento não foi acidental nem repentino. Ele resulta de uma sequência de
mudanças institucionais que ampliaram progressivamente o peso das emendas
parlamentares no orçamento. Primeiro vieram as emendas individuais impositivas,
com a Emenda Constitucional 86, de 2015, que determinou ainda que metade de seu
valor fosse destinada à saúde e computada para o cumprimento do piso
constitucional do setor. Isso significa que esses recursos não necessariamente
se somam ao mínimo federal: passam a disputar, dentro dele, espaço com despesas
definidas pelo próprio Ministério da Saúde. Depois vieram as emendas de bancada
estadual, tornadas obrigatórias pela Emenda Constitucional 100, de 2019. No
mesmo ano, a Emenda Constitucional 105 criou as transferências especiais, que
ficaram conhecidas como “emendas Pix”. Nesse percurso ganharam peso também as
emendas de relator-geral, associadas ao chamado orçamento secreto, que
ampliaram fortemente o uso desse mecanismo até serem declaradas
inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, em 2022. A decisão coincide
com o pico da participação parlamentar mostrado na curva. O que veio depois,
porém, não foi uma reversão ao padrão anterior, mas uma recomposição das
emendas por outras modalidades.
Vale
notar que o Brasil é um caso fora da curva. Segundo estudo do Insper, em mais
da metade dos países da OCDE, os parlamentos sequer podem emendar o orçamento.
Na França e na Espanha, as emendas representam menos de 1% das despesas
discricionárias e estão submetidas a regras de compensação fiscal. No México,
ficam entre 1% e 5%. Em nenhum desses casos há cotas obrigatórias de execução
comparáveis às brasileiras. Aqui, elas se tornaram simultaneamente vultosas e
impositivas – uma combinação sem paralelo evidente entre democracias
comparáveis.
O
problema não é que parlamentares queiram levar recursos para suas bases. Isso é
legítimo e esperado de representantes eleitos territorialmente. O problema é
mais específico e tem a ver justamente com o tipo de capacidade que um sistema
de saúde precisa desenvolver para ser resiliente.
Capacidades
de resiliência são, quase por definição, bens sistêmicos. Uma rede nacional de
vigilância epidemiológica só funciona se cobrir o território inteiro, inclusive
os lugares onde nada acontece na maior parte do tempo. A capacidade de produzir
vacinas e insumos estratégicos exige continuidade e horizonte de longo prazo.
Uma estratégia robusta de atenção primária depende de parâmetros comuns,
formação de pessoal, organização da oferta e coordenação entre milhares de
municípios. Nenhum desses bens é divisível em pedaços que caibam
confortavelmente numa emenda individual. São investimentos de retorno difuso,
pouco visíveis e muitas vezes distantes do ciclo eleitoral – exatamente o
perfil de gasto que uma lógica alocativa pulverizada tende a desfavorecer.
Há uma
segunda razão, mais concreta: economias de escala. O SUS não foi desenhado como
uma coleção de municípios comprando, cada um, o seu equipamento. O sistema se
organiza em Regiões de Saúde, sob a premissa de que um hospital de média
complexidade, um centro de oncologia ou um serviço de imagem não atendem apenas
uma cidade, mas uma rede de municípios. A coordenação da alocação permite
justamente capturar ganhos de escala: comprar em maior volume a preços menores,
evitar a duplicação de serviços em municípios vizinhos e instalar equipamentos
nos pontos da rede em que possam atender ao maior número de pessoas. A lógica
das emendas parlamentares introduz uma tensão nesse desenho, porque a alocação
dos recursos permanece vinculada à base territorial de quem as apresenta.
Some-se
a isso um problema recorrente na expansão da oferta: financiar a aquisição de
equipamentos, a construção de unidades ou a abertura de novos serviços não
significa garantir sua capacidade de funcionamento ao longo do tempo. Emendas
parlamentares podem viabilizar investimentos importantes e responder a
necessidades concretas dos territórios, mas frequentemente financiam a expansão
da capacidade instalada sem assegurar, na mesma proporção, os recursos
continuados necessários para mantê-la – profissionais, insumos, manutenção de
equipamentos, medicamentos e demais despesas de custeio. O resultado pode ser a
criação de equipamentos subutilizados ou estruturas que os governos locais
terão dificuldade para sustentar e operar em plena capacidade.
Além
disso, decisões desse tipo não deveriam estar dissociadas do planejamento da
rede nem dos critérios de incorporação de tecnologias. A aquisição de um
equipamento, por exemplo, não depende apenas da disponibilidade de recursos,
mas também de sua pertinência assistencial, de sua localização na rede e da
capacidade de mantê-lo em funcionamento. Em um sistema organizado em redes,
portanto, a decisão de investir deveria considerar não apenas onde instalar um
equipamento ou serviço, mas também sua sustentabilidade financeira, sua
inserção na rede regional e a capacidade dos diferentes entes de garantir seu
funcionamento no longo prazo.
Essa
questão importa também porque o financiamento não apenas distribui recursos:
ele cria incentivos sobre a forma como os serviços se organizam. A fragmentação
do cuidado é um gargalo histórico dos sistemas de saúde, e diferentes países
vêm reformando seus mecanismos de pagamento justamente para reduzi-la,
substituindo a remuneração de atos isolados (fee-for-service) por arranjos que
favoreçam maior coordenação entre serviços e ao longo das trajetórias
assistenciais. No Brasil, mudanças recentes caminham nessa mesma direção. As
Ofertas de Cuidados Integrados (OCIs), por exemplo, reúnem diferentes etapas do
cuidado em percursos financiados de forma integrada.
Trata-se
de utilizar os mecanismos de pagamento não apenas para remunerar aquilo que já
é produzido, mas também para induzir mudanças na própria organização do
cuidado. O financiamento, nesse sentido, deixa de ser apenas um mecanismo de
transferência de recursos e passa a ser também um instrumento de coordenação e
transformação do sistema. A lógica das emendas parlamentares pode operar no
sentido contrário quando financia serviços, equipamentos ou territórios
específicos sem assegurar sua articulação com os demais componentes da rede,
nem a continuidade e a previsibilidade necessárias às trajetórias
assistenciais.
O
desalinhamento tem ainda uma dimensão territorial. A distribuição de recursos
segue a geografia da representação política, não necessariamente a geografia da
necessidade sanitária. Não existe razão para supor que essas duas geografias
coincidam. Quando quase metade do espaço discricionário passa a ser alocada por
critérios que não são o perfil epidemiológico, a vulnerabilidade social ou o
déficit de cobertura, o risco de que o dinheiro deixe de chegar onde é mais
necessário deixa de ser hipotético. Em um sistema universal que ainda convive
com desigualdades territoriais persistentes, isso enfraquece uma função central
do financiamento federal: compensar diferenças de capacidade e necessidade
entre os territórios.
Mas
talvez o custo menos discutido seja institucional. O SUS construiu, ao longo de
três décadas, uma arquitetura própria para decidir esse tipo de questão. Não é
o Ministério da Saúde que delibera sozinho: a Comissão Intergestores Tripartite
reúne União, estados e municípios – representados pelo Conselho Nacional de
Secretários de Saúde (Conass) e pelo Conselho Nacional de Secretarias
Municipais de Saúde (Conasems) –, enquanto as Comissões Intergestores
Bipartites fazem a pactuação entre estados e municípios. É nesses fóruns que
são negociados aspectos da organização das redes, da alocação de
responsabilidades e do financiamento. A isso somam-se os conselhos de saúde,
com participação social, e os instrumentos de planejamento previstos em lei. O
processo é lento e imperfeito, mas tem uma virtude decisiva: nele, uma decisão
sobre onde instalar um serviço, ampliar uma oferta ou incorporar um novo
equipamento passa pelo crivo de quem conhece o território, de quem organiza a
rede e de quem terá de sustentar seu funcionamento ao longo do tempo.
A
alocação parlamentar contorna sistematicamente essas instâncias. Configura-se
como uma decisão unilateral, tomada fora dos processos de pactuação federativa
e planejamento do SUS, que pode fazer o recurso chegar ao município com objeto
e destinação já definidos. Quando esse canal passa a responder por quase metade
do espaço discricionário, o que está em causa não é apenas um deslocamento de
poder entre Executivo e Legislativo: é também o enfraquecimento dos mecanismos
de governança que o SUS construiu para coordenar decisões entre União, estados
e municípios. Um sistema que passou três décadas desenvolvendo mecanismos de
pactuação e controle social vê uma parcela crescente de seu orçamento manejável
ser alocada por um circuito que, por desenho, contorna esses mecanismos.
Pesquisadores
do IEPS já haviam apontado, em nota técnica, que entre 2016 e 2023, o valor das
emendas destinadas à saúde saltou de R$ 5,7 bilhões para R$ 22,9 bilhões, e que
o Congresso passou a exercer influência crescente sobre a destinação de
recursos da atenção básica e especializada. A série histórica mais longa
confirma e aprofunda esse diagnóstico: não se trata de um sobressalto
conjuntural, mas de uma tendência de uma década, que atravessou governos de
orientações distintas e persistiu mesmo após a intervenção do Supremo Tribunal
Federal (STF). Nos últimos anos, cresceram também as tentativas de disciplinar
esse processo. Em 2024, um acordo firmado em reunião entre os presidentes do
Senado, da Câmara e do STF, com participação de representantes do Executivo e
da Procuradoria-Geral da República, estabeleceu compromissos de transparência,
rastreabilidade e vinculação das emendas à receita corrente líquida. Foi um
passo necessário. Mas ele enfrenta sobretudo problemas de controle, volume e
visibilidade do mecanismo, sem resolver, por si só, sua racionalidade
alocativa. Saber para onde o dinheiro foi é diferente de garantir que ele tenha
ido para onde deveria.
O que
os números sugerem, afinal, é que recuperar recursos e recuperar a capacidade
de governar não são a mesma coisa. O SUS recuperou fôlego financeiro e
prioridade política, mas continua precisando de mais financiamento para
responder ao envelhecimento da população, reduzir desigualdades assistenciais e
sustentar capacidades estratégicas de longo prazo. O problema, portanto, não
está na existência de recursos adicionais, inclusive aqueles mobilizados por
meio de emendas parlamentares, mas na capacidade de incorporá-los a uma lógica
sistêmica e redistributiva de alocação, orientada pelas necessidades de saúde e
pelas desigualdades de capacidade entre os territórios.
É
importante vincular esses recursos ao planejamento em saúde. Sua destinação
deveria considerar necessidades epidemiológicas, vazios assistenciais, redes já
existentes, escala adequada da oferta, sustentabilidade futura do custeio,
monitoramento dos resultados e prioridades pactuadas entre União, estados e
municípios. Mais do que criar um novo circuito de decisão, trata-se de fazer
com que as emendas dialoguem com os instrumentos e instâncias de planejamento
que o SUS já construiu. Isso permitiria deslocar o debate de uma disputa sobre
quem controla o orçamento – Executivo ou Legislativo – para uma questão mais
substantiva: como integrar diferentes fontes de financiamento à governança do
SUS, preservando a representação política sem abrir mão do planejamento
regional, da coordenação federativa e da equidade.
O
desafio para o próximo ciclo do SUS é fazer com que o volume dos recursos, sua
distribuição territorial e os mecanismos pelos quais eles chegam aos serviços
apontem na mesma direção. Financiar o SUS é também governá-lo. Em um cenário de
crescentes exigências assistenciais, a resiliência do sistema dependerá cada
vez mais da capacidade de transformar recursos em ações desenvolvidas por redes
coordenadas e estritamente orientadas pelas necessidades de saúde da população.
Fonte:
Por Guilherme Bayma, Matías Mrejen, Michelle Fernandez, Andreza Davidian e
Laura Schiesari, no Le Monde

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