Hugo
Albuquerque: A normalidade foi a grande derrotada e o comunismo um dos
vencedores
ontrariando
as principais pesquisas, Flávio Bolsonaro largou na frente de Lula no primeiro
turno das eleições presidenciais. Para piorar, a extrema direita fez inúmeras
cadeiras no Senado e elegeu uma bancada substancial na Câmara. Apesar de tudo
isso, no entanto, houve vitórias importantes da esquerda em todo país e, acima
de tudo, características comuns desses êxitos, o que nos ajuda a pensar o
futuro e a resistir.
Primeiramente,
ainda que não fosse o mais provável, o resultado presidencial não foi nada fora
da realidade ou impossível de acontecer. O choque com isso, na verdade, diz
mais sobre os erros que levaram a essa derrota parcial do que sobre os fatos em
si. Qualquer um sabia que a eleição seria disputada, e como os candidatos
menores desidratariam na reta final: era possível que os principais candidatos
chegassem assim na reta final.
Mas o
mais importante foram as vitórias de Elias Jabbour (PC do B) para deputado
federal no Rio de Janeiro, Jones Manoel (PSOL) e Renato Freitas (PT) para o
mesmo cargo em Pernambuco e Paraná, com Humberto Matos (PC do B) ganhando para
deputado estadual no Rio Grande do Sul. De comum entre eles não é apenas a
presença nas redes sociais, mas a constância em debates diretos contra a
extrema direita e um discurso comunista.
Em
Minas Gerais, a surpreendente vitória de Ana Elisa, de 21 anos, foi um raro
caso de renovação em partido muitas vezes resistente a isso, como o PT. No
mesmo estado, a vitória de Marília Campos, apesar de não ser uma iniciante na
política, mostra algo diferente sobretudo por ser uma mulher vencendo e, ainda
mais, na contramão da política mineira dos últimos anos.
O que
essas campanhas têm em comum com a extrema direita vencedora em tantas
campanhas? Certamente, não o conteúdo, mas como elas dialogam organicamente com
a realidade como ela se encontra, propondo mudanças e não a velha normalidade –
que embora melhor que a distopia apocalíptica do bolsonarismo já não atrai mais
ninguém: a maioria dos brasileiros está infeliz com a realidade que temos – e
aceita arriscar.
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A revolução ainda é o melhor caminho para a crises
Liberais
são apegados em demasia à institucionalidade, mas também aos seus velhos
vícios. E hoje, depois de terem se tornado quase que totais à direita e à
esquerda nas democracias representativas, veem seu castelo de cartas desabar
rapidamente: o capitalismo, em seus nada incomuns solavancos, produz fascistas
para simularem o papel de revolucionários e, assim, evitarem precisamente uma
revolução.
Um
corte do liberal Foro de Teresina viralizou recentemente, com o analista Miguel
Lago falando que o resultado do primeiro turno brasileiro é expressão de “uma
revolução” – e que o problema estaria nas esquerdas por romantizar o conceito.
A questão é outra. Não há qualquer revolução em curso, seja no Brasil ou no
mundo, inclusive porque a classe dominante continua a mesmíssima.
Por
sinal, é o que diz o insuspeito João Moreira Salles, fundador, idealizador e
durante muito tempo mecenas da Revista Piauí, da qual o Foro de Teresina é um
subproduto. Quem se sentou à mesa com Flávio Bolsonaro não foi uma nova classe,
mas a velha burguesia que Salles conhece tão bem – até por fazer parte dela.
Quem quer ruptura não são apenas estudantes radicalizados de universidade
pública.
O que a
extrema direita faz no Brasil não é nada diferente do resto do mundo e,
inclusive, muito parecido com a agenda europeia dos anos 1920-1930, quando o
fascismo nasce vendendo uma versão dark das revoluções comunistas: o ditador
italiano Benito Mussolini não se apresentava como um conservador, mas como um
agente da ruptura e da transformação – ainda que fosse para mudar tudo para
nada mudar.
Políticos
liberais e social-democratas foram pouco capazes de fazer frente ao nazismo na
Alemanha pelos mesmos motivos: inclusive porque em momentos de ruptura, setores
da direita parlamentar se aliam à extrema direita rapidamente. Cordões
sanitários democráticos e frentes amplas ou populares se desmontam em momentos
de crise do capitalismo.
O
discurso da extrema direita, ainda que explicavelmente incômodo para as
esquerdas, traz na forma de mensagens simples uma proposta de ruptura contra
uma realidade insuportável — ainda que da forma e pelas razões erradas. Um
Lucas Pavanato ou um Nikolas Ferreira vendem a mudança, não a continuidade de
uma realidade modorrenta, mas fazem isso jogando com preconceitos, ilusões e
ambições. Nada de novo sob o Sol.
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Um caminho para o suicídio, outro para a vida
Gerir a
normalidade em tempos de ruptura, ainda que pelas melhores razões, é atrair
para si a ira difusa das multidões – sobretudo dos mais jovens. Anos atrás, apontamos nesta mesma Jacobina
como o Arcabouço Fiscal, enquanto um instrumento mais racional e ameno do Teto
de Gastos de Michel Temer, terminaria descontentando burgueses e trabalhadores,
em vez de produzir uma conciliação estável.
Ainda
que adotando um discurso favorável ao governo, Elias Jabbour não se furtou de
apontar caminhos por meio da utopia concreta da China, seu grande investimento
público e sua aposta na ciência – inclusive no célebre debate de 2022 contra a
economista neoliberal Renata Barreto, com mais de 4 milhões de views até hoje,
e que abriu o caminho para outros debates icônicos de comunistas contra a
extrema direita.
Jones
Manoel, que já possuía uma dimensão gigantesca nas redes sociais, com
comentários sobre política e análises sobre marxismo, também se tornou presença
constante nesses debates e, assim, furou mais e mais bolhas – vencendo uma
eleição bem difícil em Pernambuco, até pela necessidade de precisar fazer os
votos da sua federação partidária praticamente sozinho.
É
possível apontar que Jabbour e Jones – só pra ficar nesses dois exemplos –
possuem personalidades muito diferentes – assim como estilos de comunicação
quase opostos – e, ainda por cima, usem de táticas inclusive diferentes perante
a conjuntura em que vivemos. Contudo, ambos lançam mão de um discurso de que as
coisas devem mudar e é preciso seguir novos caminhos em termos de sistema –
longe do discurso usual tolerado ou estimulado pelos liberais.
Grande
parte desses mesmos liberais, ou aqueles que são coniventes com eles, estão em
uma certa paralisiam justamente porque entre perder ou ousar romper, eles optam
pela primeira posição. Nada estranho às reflexões sobre o realismo capitalista
que Mark Fisher esboçou tão bem há alguns anos – e onde esses setores terminam
viciados, restando incapazes de imaginar outra coisa a não ser alguma forma de
capitalismo, ainda que mais humano.
Diante
disso, o que esperar do segundo turno que nos aguarda? Basicamente, é possível
que Lula vire, embora seja difícil. Isso, entretanto, não é qualquer mensagem
de auto-ajuda: nem uma vitória, nem uma derrota muda o fato de que é preciso
mais organização e mobilização e, acima de tudo, que elas apresentem um novo
horizonte e uma superação do sistema em que vivemos.
Nada
disso deveria ser uma novidade. A ascensão do PT se deu justamente por eventos
disruptivos, que desafiavam os ritos e costumes das esquerdas dos anos 1970. É
isso que alçou Lula à posição de liderança e futuramente presidente. Talvez não
seja possível contar com uma epifania de Lula sobre isso. Mas é preciso
organização e auto-organização agora contra o fascismo e depois em relação à
normalidade falida, que serviu de armadilha nos últimos anos.
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Quais as chances de Lula obter virada histórica no 2°
turno
Segundo
colocado no primeiro turno das eleições deste ano, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o duro
desafio de obter uma virada histórica nas urnas. Desde a redemocratização, nunca houve uma mudança desse tipo no fim da
corrida presidencial.
Lula
tem um ponto a favor quando comparado a candidatos que também terminaram o
primeiro turno em segundo lugar anteriormente: ele encerrou essa fase da
disputa presidencial com 2,2 milhões de votos a menos do que Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença
de 1,9 ponto percentual. É a menor diferença entre dois candidatos à
Presidência no primeiro turno desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições
presidenciais diretas.
"Embora
nunca tenha havido uma virada de segundo turno em eleições presidenciais no
Brasil, também nunca houve uma diferença tão pequena", avalia o cientista
político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise
e Planejamento (Cebrap).
Para
especialistas ouvidos pela reportagem, o presidente tem uma "missão
improvável" pela frente. "Mas não é impossível", destaca o
cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral.
Afinal,
Lula atualmente tem uma
situação mais favorável que segundos colocados de disputas anteriores?
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Os percalços do segundo lugar
A pouca
diferença entre os primeiros colocados na disputa é um item destacado pelos especialistas
ao avaliar aspectos positivos no segundo turno para Lula. Outro ponto é o
recorde de abstenção, que alcançou 33,4 milhões de eleitores, o equivalente a
21,08% do eleitorado apto a votar.
"Em
termos numéricos, o Lula está com vantagem [em comparação a eleições
anteriores], porque ele tem, por exemplo, uma diferença muito menor do que
o Jair Bolsonaro tinha dele no
primeiro turno em 2022. Mas talvez seja a única diferença. Lula e Bolsonaro
foram mandatários que estavam no poder, mas nenhum conseguiu se projetar à
frente na disputa", diz a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio
Vargas (FGV).
O atual
cargo de presidente pode ser um diferencial na busca da vitória no segundo
turno para Lula, avalia Barbosa. "Ele tem o uso da máquina, e vimos que
isso pode ser um fato relevante mesmo em tempos digitais. Em 2022, por exemplo,
o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu diminuir significativamente a
diferença para o Lula, que então estava na oposição, fazendo isso ao longo do
segundo turno."
A força que Flávio demonstrou nas
urnas, diz Barbosa, dificulta o futuro de Lula na Presidência do país. "O
Flávio teve um desempenho acima do esperado. Terminou na frente do Lula. Vindo
como candidato da oposição, ele está demonstrando uma força enorme. E eu penso
que não apenas o desempenho dele foi melhor do que o do pai em 2022, como a
direção geral das eleições está mostrando o crescimento do bolsonarismo no
país."
O atual
presidente tem poucos dias para mudar o cenário a seu favor, lembra Souza.
"Qual é a dificuldade nesse processo? É que, basicamente, precisa ser
feito em um espaço de tempo muito curto, de menos de 20 dias, para a campanha
alcançar grupos que não alcançou até aqui ou que, em algum sentido, foram
suavemente perdidos durante esse primeiro turno."
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O fator abstenção
A
abstenção é citada por especialistas como uma possível esperança de melhora no
desempenho de Lula no segundo turno. Mas parte dela também pode migrar para o
adversário do petista.
"Esse
nível de abstenção significa dizer que você tem alguma esperança, porque tem um
estoque de votos alto. Lembrando que o Flávio também vai potencialmente ter um
número maior de votos", diz Souza.
O apoio
daqueles que não votaram é parte das metas dos candidatos no segundo turno.
"Eu não acho que a abstenção seja tão fácil de tocar via campanha de um
candidato, porque ela é histórica. As pessoas sabiam dos candidatos, elas já
passaram por esses embates antes e podem ter, por diferentes motivos, decidido
se abster", ressalta Veiga.
A
cientista política não acredita que haverá mudança considerável na ausência de
eleitores no segundo turno. Na eleição presidencial passada, por exemplo, a
diferença de abstenção foi pouca: caiu de 32,7 milhões de eleitores no primeiro
turno (20,95%) para 32,2 milhões no segundo (20,59%).
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O apoio de ex-adversários
Uma
estratégia tradicional no segundo turno é buscar o apoio de candidatos
derrotados, para tentar ampliar a coalizão política e alcançar parte do
eleitorado. Neste ano, porém, os candidatos Augusto Cury (Avante) e Renan
Santos (Missão), que obtiveram respectivamente 2,89% e 2,24% votos, disseram
que não vão apoiar nem Lula e nem Flávio.
Já
Ronaldo Caiado (PSD), que obteve 2,18%, e Romeu Zema (Novo), que obteve 0,27%,
manifestaram apoio ao bolsonarista. Os especialistas avaliam que, enquanto os
nomes de Caiado e Zema podem ajudar a fortalecer a candidatura de Flávio, as
ausências de Cury e Santos podem favorecer Lula.
"Ao
não ter a dinâmica de que são todos contra o Lula, o Lula pode dizer: ‘Olha, o
Flávio não é um candidato tão bom à direita, porque, se ele fosse bom mesmo,
esses outros caras que estão se colocando como direita estariam no palanque
dele'", afirma Souza.
Já
Veiga avalia que os eleitores de Renan e Cury têm tendência a seguir com o
filho de Jair Bolsonaro. "Eleitores de Caiado, Cury e Santos escolheram
não votar em Flávio no primeiro turno, aproveitando o sistema de dois turnos:
no primeiro, vota-se em quem se vê representado. O voto útil, para evitar o que
mais se rejeita, fica para o segundo. Ao final, dizem: ‘Nem Lula nem Flávio são
meus preferidos'. Muitos, no entanto, já sabiam que, em um segundo turno,
tenderiam a votar em Flávio, pela proximidade ideológica."
Para
ela, o primeiro turno presidencial deste ano vai muito além de 1,9% de
diferença de votos entre Lula e Flávio. "Não são apenas 2,2 milhões de
votos a menos para Lula. O PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores. Foi uma vitória
muito avassaladora para reduzirmos a análise a esses 2,2 milhões de
votos", afirma.
Fonte:
Jacobin Brasil/DW Brasil

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