quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Hugo Albuquerque: A normalidade foi a grande derrotada e o comunismo um dos vencedores

ontrariando as principais pesquisas, Flávio Bolsonaro largou na frente de Lula no primeiro turno das eleições presidenciais. Para piorar, a extrema direita fez inúmeras cadeiras no Senado e elegeu uma bancada substancial na Câmara. Apesar de tudo isso, no entanto, houve vitórias importantes da esquerda em todo país e, acima de tudo, características comuns desses êxitos, o que nos ajuda a pensar o futuro e a resistir.

Primeiramente, ainda que não fosse o mais provável, o resultado presidencial não foi nada fora da realidade ou impossível de acontecer. O choque com isso, na verdade, diz mais sobre os erros que levaram a essa derrota parcial do que sobre os fatos em si. Qualquer um sabia que a eleição seria disputada, e como os candidatos menores desidratariam na reta final: era possível que os principais candidatos chegassem assim na reta final.

Mas o mais importante foram as vitórias de Elias Jabbour (PC do B) para deputado federal no Rio de Janeiro, Jones Manoel (PSOL) e Renato Freitas (PT) para o mesmo cargo em Pernambuco e Paraná, com Humberto Matos (PC do B) ganhando para deputado estadual no Rio Grande do Sul. De comum entre eles não é apenas a presença nas redes sociais, mas a constância em debates diretos contra a extrema direita e um discurso comunista.

Em Minas Gerais, a surpreendente vitória de Ana Elisa, de 21 anos, foi um raro caso de renovação em partido muitas vezes resistente a isso, como o PT. No mesmo estado, a vitória de Marília Campos, apesar de não ser uma iniciante na política, mostra algo diferente sobretudo por ser uma mulher vencendo e, ainda mais, na contramão da política mineira dos últimos anos.

O que essas campanhas têm em comum com a extrema direita vencedora em tantas campanhas? Certamente, não o conteúdo, mas como elas dialogam organicamente com a realidade como ela se encontra, propondo mudanças e não a velha normalidade – que embora melhor que a distopia apocalíptica do bolsonarismo já não atrai mais ninguém: a maioria dos brasileiros está infeliz com a realidade que temos – e aceita arriscar.

<><> A revolução ainda é o melhor caminho para a crises

Liberais são apegados em demasia à institucionalidade, mas também aos seus velhos vícios. E hoje, depois de terem se tornado quase que totais à direita e à esquerda nas democracias representativas, veem seu castelo de cartas desabar rapidamente: o capitalismo, em seus nada incomuns solavancos, produz fascistas para simularem o papel de revolucionários e, assim, evitarem precisamente uma revolução.

Um corte do liberal Foro de Teresina viralizou recentemente, com o analista Miguel Lago falando que o resultado do primeiro turno brasileiro é expressão de “uma revolução” – e que o problema estaria nas esquerdas por romantizar o conceito. A questão é outra. Não há qualquer revolução em curso, seja no Brasil ou no mundo, inclusive porque a classe dominante continua a mesmíssima.

Por sinal, é o que diz o insuspeito João Moreira Salles, fundador, idealizador e durante muito tempo mecenas da Revista Piauí, da qual o Foro de Teresina é um subproduto. Quem se sentou à mesa com Flávio Bolsonaro não foi uma nova classe, mas a velha burguesia que Salles conhece tão bem – até por fazer parte dela. Quem quer ruptura não são apenas estudantes radicalizados de universidade pública.

O que a extrema direita faz no Brasil não é nada diferente do resto do mundo e, inclusive, muito parecido com a agenda europeia dos anos 1920-1930, quando o fascismo nasce vendendo uma versão dark das revoluções comunistas: o ditador italiano Benito Mussolini não se apresentava como um conservador, mas como um agente da ruptura e da transformação – ainda que fosse para mudar tudo para nada mudar.

Políticos liberais e social-democratas foram pouco capazes de fazer frente ao nazismo na Alemanha pelos mesmos motivos: inclusive porque em momentos de ruptura, setores da direita parlamentar se aliam à extrema direita rapidamente. Cordões sanitários democráticos e frentes amplas ou populares se desmontam em momentos de crise do capitalismo.

O discurso da extrema direita, ainda que explicavelmente incômodo para as esquerdas, traz na forma de mensagens simples uma proposta de ruptura contra uma realidade insuportável — ainda que da forma e pelas razões erradas. Um Lucas Pavanato ou um Nikolas Ferreira vendem a mudança, não a continuidade de uma realidade modorrenta, mas fazem isso jogando com preconceitos, ilusões e ambições. Nada de novo sob o Sol.

<><> Um caminho para o suicídio, outro para a vida

Gerir a normalidade em tempos de ruptura, ainda que pelas melhores razões, é atrair para si a ira difusa das multidões – sobretudo dos mais jovens.  Anos atrás, apontamos nesta mesma Jacobina como o Arcabouço Fiscal, enquanto um instrumento mais racional e ameno do Teto de Gastos de Michel Temer, terminaria descontentando burgueses e trabalhadores, em vez de produzir uma conciliação estável.

Ainda que adotando um discurso favorável ao governo, Elias Jabbour não se furtou de apontar caminhos por meio da utopia concreta da China, seu grande investimento público e sua aposta na ciência – inclusive no célebre debate de 2022 contra a economista neoliberal Renata Barreto, com mais de 4 milhões de views até hoje, e que abriu o caminho para outros debates icônicos de comunistas contra a extrema direita.

Jones Manoel, que já possuía uma dimensão gigantesca nas redes sociais, com comentários sobre política e análises sobre marxismo, também se tornou presença constante nesses debates e, assim, furou mais e mais bolhas – vencendo uma eleição bem difícil em Pernambuco, até pela necessidade de precisar fazer os votos da sua federação partidária praticamente sozinho.

É possível apontar que Jabbour e Jones – só pra ficar nesses dois exemplos – possuem personalidades muito diferentes – assim como estilos de comunicação quase opostos – e, ainda por cima, usem de táticas inclusive diferentes perante a conjuntura em que vivemos. Contudo, ambos lançam mão de um discurso de que as coisas devem mudar e é preciso seguir novos caminhos em termos de sistema – longe do discurso usual tolerado ou estimulado pelos liberais.

Grande parte desses mesmos liberais, ou aqueles que são coniventes com eles, estão em uma certa paralisiam justamente porque entre perder ou ousar romper, eles optam pela primeira posição. Nada estranho às reflexões sobre o realismo capitalista que Mark Fisher esboçou tão bem há alguns anos – e onde esses setores terminam viciados, restando incapazes de imaginar outra coisa a não ser alguma forma de capitalismo, ainda que mais humano.

Diante disso, o que esperar do segundo turno que nos aguarda? Basicamente, é possível que Lula vire, embora seja difícil. Isso, entretanto, não é qualquer mensagem de auto-ajuda: nem uma vitória, nem uma derrota muda o fato de que é preciso mais organização e mobilização e, acima de tudo, que elas apresentem um novo horizonte e uma superação do sistema em que vivemos.

Nada disso deveria ser uma novidade. A ascensão do PT se deu justamente por eventos disruptivos, que desafiavam os ritos e costumes das esquerdas dos anos 1970. É isso que alçou Lula à posição de liderança e futuramente presidente. Talvez não seja possível contar com uma epifania de Lula sobre isso. Mas é preciso organização e auto-organização agora contra o fascismo e depois em relação à normalidade falida, que serviu de armadilha nos últimos anos.

¨      Quais as chances de Lula obter virada histórica no 2° turno

Segundo colocado no primeiro turno das eleições deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o duro desafio de obter uma virada histórica nas urnas. Desde a redemocratização, nunca houve uma mudança desse tipo no fim da corrida presidencial.

Lula tem um ponto a favor quando comparado a candidatos que também terminaram o primeiro turno em segundo lugar anteriormente: ele encerrou essa fase da disputa presidencial com 2,2 milhões de votos a menos do que Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 1,9 ponto percentual. É a menor diferença entre dois candidatos à Presidência no primeiro turno desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas.

"Embora nunca tenha havido uma virada de segundo turno em eleições presidenciais no Brasil, também nunca houve uma diferença tão pequena", avalia o cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o presidente tem uma "missão improvável" pela frente. "Mas não é impossível", destaca o cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral.

Afinal, Lula atualmente tem uma situação mais favorável que segundos colocados de disputas anteriores?

<><> Os percalços do segundo lugar

A pouca diferença entre os primeiros colocados na disputa é um item destacado pelos especialistas ao avaliar aspectos positivos no segundo turno para Lula. Outro ponto é o recorde de abstenção, que alcançou 33,4 milhões de eleitores, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto a votar.

"Em termos numéricos, o Lula está com vantagem [em comparação a eleições anteriores], porque ele tem, por exemplo, uma diferença muito menor do que o Jair Bolsonaro tinha dele no primeiro turno em 2022. Mas talvez seja a única diferença. Lula e Bolsonaro foram mandatários que estavam no poder, mas nenhum conseguiu se projetar à frente na disputa", diz a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O atual cargo de presidente pode ser um diferencial na busca da vitória no segundo turno para Lula, avalia Barbosa. "Ele tem o uso da máquina, e vimos que isso pode ser um fato relevante mesmo em tempos digitais. Em 2022, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu diminuir significativamente a diferença para o Lula, que então estava na oposição, fazendo isso ao longo do segundo turno."

A força que Flávio demonstrou nas urnas, diz Barbosa, dificulta o futuro de Lula na Presidência do país. "O Flávio teve um desempenho acima do esperado. Terminou na frente do Lula. Vindo como candidato da oposição, ele está demonstrando uma força enorme. E eu penso que não apenas o desempenho dele foi melhor do que o do pai em 2022, como a direção geral das eleições está mostrando o crescimento do bolsonarismo no país."

O atual presidente tem poucos dias para mudar o cenário a seu favor, lembra Souza. "Qual é a dificuldade nesse processo? É que, basicamente, precisa ser feito em um espaço de tempo muito curto, de menos de 20 dias, para a campanha alcançar grupos que não alcançou até aqui ou que, em algum sentido, foram suavemente perdidos durante esse primeiro turno."

<><> O fator abstenção

A abstenção é citada por especialistas como uma possível esperança de melhora no desempenho de Lula no segundo turno. Mas parte dela também pode migrar para o adversário do petista.

"Esse nível de abstenção significa dizer que você tem alguma esperança, porque tem um estoque de votos alto. Lembrando que o Flávio também vai potencialmente ter um número maior de votos", diz Souza.

O apoio daqueles que não votaram é parte das metas dos candidatos no segundo turno. "Eu não acho que a abstenção seja tão fácil de tocar via campanha de um candidato, porque ela é histórica. As pessoas sabiam dos candidatos, elas já passaram por esses embates antes e podem ter, por diferentes motivos, decidido se abster", ressalta Veiga.

A cientista política não acredita que haverá mudança considerável na ausência de eleitores no segundo turno. Na eleição presidencial passada, por exemplo, a diferença de abstenção foi pouca: caiu de 32,7 milhões de eleitores no primeiro turno (20,95%) para 32,2 milhões no segundo (20,59%).

<><> O apoio de ex-adversários

Uma estratégia tradicional no segundo turno é buscar o apoio de candidatos derrotados, para tentar ampliar a coalizão política e alcançar parte do eleitorado. Neste ano, porém, os candidatos Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), que obtiveram respectivamente 2,89% e 2,24% votos, disseram que não vão apoiar nem Lula e nem Flávio.

Já Ronaldo Caiado (PSD), que obteve 2,18%, e Romeu Zema (Novo), que obteve 0,27%, manifestaram apoio ao bolsonarista. Os especialistas avaliam que, enquanto os nomes de Caiado e Zema podem ajudar a fortalecer a candidatura de Flávio, as ausências de Cury e Santos podem favorecer Lula.

"Ao não ter a dinâmica de que são todos contra o Lula, o Lula pode dizer: ‘Olha, o Flávio não é um candidato tão bom à direita, porque, se ele fosse bom mesmo, esses outros caras que estão se colocando como direita estariam no palanque dele'", afirma Souza.

Já Veiga avalia que os eleitores de Renan e Cury têm tendência a seguir com o filho de Jair Bolsonaro. "Eleitores de Caiado, Cury e Santos escolheram não votar em Flávio no primeiro turno, aproveitando o sistema de dois turnos: no primeiro, vota-se em quem se vê representado. O voto útil, para evitar o que mais se rejeita, fica para o segundo. Ao final, dizem: ‘Nem Lula nem Flávio são meus preferidos'. Muitos, no entanto, já sabiam que, em um segundo turno, tenderiam a votar em Flávio, pela proximidade ideológica."

Para ela, o primeiro turno presidencial deste ano vai muito além de 1,9% de diferença de votos entre Lula e Flávio. "Não são apenas 2,2 milhões de votos a menos para Lula. O PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores. Foi uma vitória muito avassaladora para reduzirmos a análise a esses 2,2 milhões de votos", afirma.

 

Fonte: Jacobin Brasil/DW Brasil

 

Nenhum comentário: