Processo
da Advocacia da União contra bets tem 14 empresas que passaram impunes por CPI
Em
junho de 2025, a CPI das Bets terminou em pizza – como se diz quando uma
investigação acaba sem punir ninguém. Mas agora, mais de um ano depois, as
empresas que passaram impunes pela comissão estão de volta, desta vez como
alvos de uma ação civil pública na Justiça.
No dia
28 de setembro, a Advocacia-Geral da União (AGU) entrou na Justiça Federal em
Pernambuco contra 17 empresas ligadas a 20 marcas de apostas online, pedindo
ressarcimento de gastos pela União. A Agência Pública cruzou essa lista com a
documentação reunida pelos senadores da CPI e descobriu que ao menos 14 delas
estavam nos documentos da comissão como remetentes ou beneficiárias de
transferências financeiras. Dessas, 12 foram citadas no relatório final. Esse
documento, da então senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) – que não foi
reeleita neste ano -, foi rejeitado por 4 votos a 3.
Na ação
da AGU, o órgão pede que as empresas de apostas ressarcem o Sistema Único de
Saúde (SUS) pelo tratamento de apostadores adoecidos, custo que o Ministério da
Saúde (MS) estima em, no mínimo, R$ 2,6 bilhões. Pede também R$ 1 bilhão por
danos morais coletivos e a devolução em dobro do que as pessoas diagnosticadas
com ludopatia apostaram.
Aparecer
nos papéis da CPI não indica, por si só, irregularidade. Nem todas as empresas
aparecem como suspeitas. A Superbet, por exemplo, surge como titular legítima
de uma autorização que outra plataforma teria usado indevidamente. Duas, a OIG
e a Ventmear (Sportingbet), estão ligadas a pedidos de indiciamento, todos
contra pessoas, não contra as empresas. Seis delas, OIG, Esportes Gaming, NSX,
Ventmear, BPX e Foggo (Blaze), somam cerca de 31% do mercado, segundo as contas
da própria AGU, e ocupam lugar de destaque nas 541 páginas deixadas por
Thronicke.
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Muitas siglas: Bets, CPI, MP de Lula e Fux no STF
A ação
da AGU veio três dias depois da Medida Provisória 1.394, assinada pelo
presidente Lula, que proíbe as apostas de quota fixa, tira as plataformas do ar
até 6 de outubro e extingue as autorizações em 30 dias, sem devolver o que as
empresas pagaram pelas outorgas. Se o Congresso não aprovar a MP em até 120
dias de tramitação, prazo suspenso durante o recesso parlamentar, ela perde a
validade. A CPI já havia ido nessa direção: entre as vinte medidas do relatório
derrubado estava a proibição de cassinos on-line, como o Tigrinho.
A
Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo
Responsável (IBJR) já apresentaram pedido a Luiz Fux, do Supremo Tribunal
Federal (STF), para suspensão dos efeitos da medida provisória.
Nesta
segunda-feira, 5 de outubro, a AGU pediu que o STF rejeite a suspensão da
Medida Provisória. Na manifestação, assinada pelo advogado-geral Jorge Messias,
a AGU sustenta que o marco legal das bets, formado pelas leis 13.756/2018 e
14.790/2023, era “extensamente falho” e falhava em autorização, fiscalização,
publicidade e prevenção à lavagem de dinheiro. Para concluir, a peça diz que “o
‘dragão’ era indomável”. O órgão cita dados oficiais segundo os quais os
registros no SUS ligados ao jogo patológico cresceram 140% entre 2018 e 2025, e
as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões dos orçamentos familiares só em 2025. A
AGU também pediu que o procurador-geral da República seja ouvido em 72 horas e
sugeriu uma nova audiência pública sobre o tema, atualizando a realizada em
novembro de 2024.
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Como a CPI terminou em pizza
Em 26
de novembro de 2024, Fernando Oliveira Lima, o Fernandim OIG, sentou-se diante
dos senadores da CPI das Bets amparado por um habeas corpus. Tinha 33 anos,
disse ter estudado até o primeiro ano do ensino médio e se apresentou como
empresário de tecnologia, criador de jogos para o Facebook que teriam alcançado
250 milhões de usuários durante a pandemia. Os senadores exibiram dois vídeos e
perguntaram se ele conhecia os sites 7Games, R7Games e Betão. Ele conhecia e
disse que pertenciam à OIG Gaming Brazil, da qual é sócio. Perguntaram se era
dono do “jogo do tigrinho”, mas ele negou. Respondeu que a OIG pagava para
oferecê-lo. O empresário contou ainda que, naquela mesma semana, a empresa
havia sido uma das primeiras a obter a aprovação completa do Ministério da
Fazenda para operar.
Fernando
não era o único convocado do dia. A pauta listava também João Studart, dono da
Betnacional, e Marcus Vinicius Freire de Lima e Silva, apresentado no
requerimento como “diretor do Grupo Entain e proprietário do Sportingbet”.
Studart faltou e só depôs uma semana depois. Marcus Vinicius não apareceu: na
véspera, seus advogados alegaram que ele não fora intimado e que morava no
exterior. As três empresas ligadas a eles, a OIG, a NSX (dona da Betnacional) e
a Ventmear (operadora do Sportingbet), estão hoje entre as rés da AGU.
Seis
meses depois, o relatório final propôs indiciar Fernando, um primo dele e o
administrador da OIG, por lavagem de dinheiro e por associação criminosa.
Marcus Vinicius e as influenciadoras Virginia Fonseca e Deolane Bezerra estavam
entre os alvos de 16 pedidos de indiciamento, mas nenhum deles vingou com a
derrubada do texto.
No
especial Jogo Perigoso: o Brasil das Bets, a Pública contou os bastidores dessa
votação. Votaram contra o relatório de Thronicke os senadores Ângelo Coronel
(Republicanos-BA), Efraim Filho (PL-PB), Eduardo Gomes (PL-TO) e Professora
Dorinha Seabra (União-GO). Eduardo Girão (Novo-CE), que votou a favor ao lado
de Alessandro Vieira (MDB-SE), atribuiu o resultado a uma manobra do Centrão,
com senadores que não acompanharam os depoimentos e só apareceram para votar.
Thronicke contou à reportagem que passou a andar com seguranças do Senado após
receber “recados” e ameaças veladas. Mesmo com a rejeição, ela levou o material
às autoridades e diz ter apresentado, desde então, projetos de lei para
endurecer o controle sobre as apostas.
A
apuração também mostra quem atuou na comissão a favor do setor. Ciro Nogueira
(PP-PI) foi apontado por colegas como “advogado” de Fernandim OIG, que havia
comprado três apartamentos de uma incorporadora da família do senador. Ângelo
Coronel justificou o voto pela “falta de tempo” para analisar as 541 páginas do
relatório e declarou abertamente ser favorável aos jogos como fonte de receita.
O presidente da CPI, Dr. Hiran (PP-RR), foi criticado por não pautar todos os
depoimentos aprovados. Os bastidores incluem ainda uma investigação da Polícia
Federal sobre um lobista que teria cobrado R$ 50 milhões de empresários do
setor para evitar convocações e indiciamentos, acusação sem comprovação
oficial. Selfies de senadores com Virginia Fonseca durante o depoimento dela
ajudaram a minar a credibilidade da comissão, cujo desfecho um integrante
descreveu como “melancólico”.
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Ação da AGU se apoia em números do setor
Na
Justiça, a AGU seguiu outro caminho. As empresas foram escolhidas por um único
critério, o tamanho. A AGU usou as vinte marcas de um levantamento da
consultoria Blask, que juntas concentrariam cerca de 80% da receita do setor, e
chegou às empresas que as operam, num mercado em que a Fazenda tinha 85
autorizadas em agosto deste ano. A Betano, sozinha, responderia por 21% do
mercado. A OIG, com 7Games e Betão, pouco mais de 5%. Para justificar o foro em
Pernambuco, a AGU invoca o Código de Defesa do Consumidor e a concentração de
população vulnerável no Nordeste.
O país
tem 28 milhões de apostadores, 10,9 milhões deles com padrão de risco. Os
atendimentos no SUS por jogo patológico cresceram cerca de 140% entre 2018 e
2025. Quase 1,3 milhão de pessoas pediram para serem excluídas das plataformas.
No primeiro semestre de 2026, o INSS concedeu 260 afastamentos do trabalho por
vício em jogo; em todo o ano de 2022, foram 11, segundo dados obtidos pelo UOL
e citados na ação. Pela lei, cabe ao Ministério da Saúde 0,12% da arrecadação
do setor, cerca de R$ 50 milhões no último exercício.
A tese
é que o dano à saúde mental é inerente ao negócio, e não fruto do desvio de uma
ou outra empresa. Por isso, a AGU propõe calcular a parcela das doenças
atribuível às apostas e distribuir a conta conforme a fatia de mercado de cada
ré. A fórmula vem de um julgamento de 1980 na Suprema Corte da Califórnia,
contra fabricantes de um remédio para gestantes, e já foi usada pela Justiça do
Rio Grande do Sul contra a Souza Cruz. A ação segue o molde da que a AGU move
desde 2019 contra a indústria do cigarro.
A
própria peça avisa que a participação no mercado “não constitui presunção de
ilicitude”. O relatório de Thronicke, aliás, recomendava ao Ministério Público
ajuizar ações civis públicas para indenizar consumidores lesados e já
registrava a pressão sobre a rede de atenção psicossocial do SUS, cujos
atendimentos por jogo patológico tinham passado de 841, em 2022, para 1.290 no
ano seguinte.
A peça
da AGU também traz estimativa do Ministério da Fazenda de que, somente em 2025,
as apostas tenham retirado cerca de R$ 62,5 bilhões dos orçamentos das famílias
brasileiras.
Fonte:
Por Thiago Domenici, da Agencia Pública

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