Luís
Felipe Miguel: Como explicar a vitória de Flávio Bolsonaro?
Não
existe eufemismo possível para descrever o resultado de anteontem. Foi uma
tragédia. A extrema direita saiu na frente na corrida presidencial e fez barba,
cabelo e bigode no Senado, na Câmara dos Deputados e nos governos estaduais.
O mais
triste de tudo é sermos confrontados a esta imagem, sem disfarces, de quem são
os nossos concidadãos. Afinal, nesta altura do campeonato, é improvável que
ainda exista um único brasileiro que não tenha noção de quem é Flávio
Bolsonaro: um despreparado. Um frouxo. Um mentiroso. Um corrupto. Um amigo de
assassinos. Sob este ponto de vista, o voto no 22 foi “consciente”. Não foi
desavisado. E isto é algo que precisamos encarar de frente.
Como
sempre, depois de uma derrota dessas, não falta quem venha dizer que não se
pode culpar o eleitorado, que a esquerda tem que aprender a respeitá-lo e
pensar em seus próprios erros. A “soberba da esquerda” é, em geral, apresentada
como a causa. Será mesmo?
Sim, há
muitos erros sobre os quais pensar. Vou falar deles depois. Mas cabe, em
primeiro lugar, entender o que estão dizendo os 56 milhões de votos no
candidato do PL no primeiro turno.
Não dá
para explicar a vitória de Flávio Bolsonaro pela manipulação da informação. Ela
existe, é claro, mas não a ponto de apagar a imagem de quem é o candidato. Não
dá sequer para explicá-la só pela burrice das pessoas, que serão as primeiras
vítimas das políticas que ele eventualmente implementará, mas que não
aprenderam nem depois já terem passado pelo governo do pai. Sim, burrice: vamos
chamar as coisas pelo nome.
Alguns
argumentam que o voto na extrema direita tem suas razões. Por exemplo, que o
sacerdote pilantra que orienta as escolhas políticas reacionárias é também
alguém que oferece consolo e apoio espiritual em algumas circunstâncias. Ou que
a violência urbana que atinge em primeiro lugar as classes populares explica a
sedução de propostas “duras” de segurança pública.
Mas
isso apenas nos diz que esse voto não é aleatório, que tem alguma motivação.
Permanece o fato de que ele expressa uma profunda incapacidade de relacionar as
escolhas políticas com suas consequências esperadas, de vinculá-las aos
interesses ligados às condições reais de vida.
Ter uma
motivação para o voto não significa que o voto é esclarecido, pelo simples fato
de que essa motivação pode ser… burra. Por exemplo: eu posso ter votado em
Augusto Cury porque acredito em autoajuda. Isso faz com que meu voto tenha uma
razão de ser. Nem por isso ele demonstra qualquer discernimento.
A
ignorância política das massas – e incluo aqui, igualmente, trabalhadores
pobres e classes médias – é um componente do sistema político vigente,
ativamente produzido e reproduzido por inúmeros aparelhos. Cabe ao campo
popular trabalhar permanentemente para combatê-la. A constatação da burrice
dominante é, portanto, uma acusação contra a esquerda, que não fez ou fez mal o
seu trabalho.
Mas,
além disso, um componente central do voto em Flávio Bolsonaro é o desinteresse
pela sorte dos outros, a ausência de sentimento de solidariedade, o desprezo
pela vida alheia. É o triunfo da antiga lei de Gerson, de que o que importa é
levar vantagem tudo. Se pudesse, cada um queria vender um pedaço do país,
cobrar uma rachadinha dos funcionários, ganhar um agrado do Daniel Vorcaro,
participar de uma orgia com prostitutas de luxo, arranjar um pistoleiro para
liquidar os desafetos.
De
brinde, vem a submissão das mulheres, a inferiorização dos negros, a pancada
nos gays, nas lésbicas e nos travestis. O bolsonarismo revela uma pulsão pela
violência que habita muitas pessoas. Racismo, misoginia, homofobia e desprezo
pelos mais pobres seriam atrativos tão poderosos que compensariam todas as
perdas. Não tem só burrice, tem perversidade. O que é muito pior.
É
preciso investigar como chegamos a essa decadência moral generalizada, que é
própria da metástase da sociedade capitalista. E reconhecer que o nosso campo
tem fracassado na disputa dos valores que devem organizar o mundo social. Ou,
pior do que fracassado: desistido da disputa.
As
mentalidades são produzidas socialmente. Nós sabemos disso. Mas chega um ponto
em que temos que atribuir responsabilidade às pessoas por suas escolhas. Senão,
perdoaremos todos. Quem sabe dos dissabores sofridos por Jack, o estripador? Os
traumas de Adolf? Os complexos de Jair?
Tem um
samba de Wilson Batista, que Paulinho da Viola canta, que fala de um filósofo
popular e termina com uma síntese de seu pensamento, de claros ecos
rousseaunianos: “Se o homem nasceu bom, e bom não se conservou/A culpa é da
sociedade que o transformou”.
Não sei
se nascemos realmente bons, mas com certeza somos frutos do ambiente. Só que, a
partir de certo momento, não tem jeito, cada um de nós assume seus BOs. Passou
dos 18 anos, responde por seus atos – e a gente deixa a filosofia no seu canto.
Sendo
assim, investiguemos as causas, lutemos contra elas, mas também enfrentemos a
verdade: metade do eleitorado brasileiro é, se não perverso, seduzível pela
perversidade. Não vamos romantizar o povo. Embora essa romantização tenha uma
longa tradição na sensibilidade da esquerda, de Nicolau Maquiavel a
Jean-Jacques Rousseau e em diante, ela não é boa conselheira.
O rehab
dessas pessoas é uma tarefa de longo prazo. Muitas delas são irrecuperáveis e a
questão sempre será como contê-las. No curtíssimo prazo, porém, o desafio é
outro: como virar a eleição presidencial.
Há
pouca esperança de virar votos de bolsonaristas. Não há escândalo que resolva:
rachadinha, milícia, Daniel Vorcaro, orgia, nem Nossa Senhora dá conta. É
preciso garimpar o que for possível nos menos de 10 milhões de votos dos
candidatos que não chegaram ao segundo turno, mas sabemos que a colheita será
magra. Afinal, mais da metade desses votos foram para extremistas de direita:
Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. O melhor resultado possível é que se
transformem em voto nulo.
A luta
principal é pelos eleitores que não foram votar (33,5 milhões) ou que votaram
em branco ou nulo (6 milhões). Esse pessoal é potencialmente mais sensível a
temas como o fim da escala seis por um, a proibição das bets, a manutenção do
SUS ou a conveniência de não ter um miliciano no Palácio do Planalto.
É
difícil? Sim. É impossível? Não. O mais difícil é superar o desânimo depois do
resultado de domingo. Um desânimo que não é só com a eleição. Não sabemos se
haverá um futuro para a humanidade – com Flávio Bolsonaro na presidência, com a
política de devastação ambiental que certamente implantará, fica ainda mais
difícil. Mas não sabemos, sobretudo, se a humanidade merece ter futuro.
Como
sou otimista inveterado, digo que devemos deixar esse desânimo para lá e
retomar a campanha. São 20 dias para superar uma diferença de pouco mais de
dois milhões de votos. Um pouco mais de 100 mil votos por dia.
É
difícil? Sim. É impossível? Não.
• O voto subterrâneo. Por Jean Pierre
Chauvin
O
paulistano que percorreu as ruas, zonas e seções eleitorais neste domingo, 4 de
outubro, terá notado que – diferentemente dos pleitos de 2018 e 2022, quando o
clima na cidade parecia ainda mais tenso – a proporção de verdes-e-amarelos
estava sensivelmente menor que a dos vermelhos.
Qual a
razão dessa curiosa estatística? Seria ingênuo supor que o fato se justifica
meramente porque Luiz Inácio foi mais bem votado que seu principal e rasteiro
oponente, na maior parte da capital. Decerto o fenômeno não se explica apenas
quantitativamente; tampouco poderíamos supor que os bolsonaristas aprenderam a
ser mais discretos, antes e durante a votação para postos tão decisivos.
Suspeito
que assistimos a um modo diferente de sacanear o país pelo voto. Uma espécie de
simulação de jogo limpo, “dentro das quatro linhas da constituição”, como
aquele fulano chegou a afirmar, enquanto fingia presidir a nação. O fato
questão é que, se nos pleitos anteriores, esses mesmos eleitores envergavam a
bandeira do Brasil e a camiseta da CBF, de modo “impávido e colosso”, desta vez
o figurino mudou.
Cabe
perguntar se isso decorreu de uma orientação do partido ao gado, via redes
sociais e aplicativos de mensagem. Ou terá sido mera coincidência, um despertar
simultâneo da consciência totalitária? O fato é que essa postura (mais
silenciosa e menos extravagante) do lado de lá foi detectada em numerosos
bairros da Pauliceia, assim como em diversos municípios do interior
pseudotexano. Ou seja, em vez de alardear o voto nas legendas antidemocráticas,
parte desse eleitorado fingiu ser do tipo low file, ou seja, seus adeptos
mentiram mais uma vez.
Claro
esteja, a menor ostentação da habitual virulência extremista não é um fator
isolado. Decorre daí especularmos se ela teria relação com certo
constrangimento (ou pura desfaçatez) em votar no filho do golpista
negacionista. Seja como for, havemos de lembrar que a unidade da extrema
direita brasileira for export reside: (i) na inexistência de projeto em prol da
soberania; (ii) na anulação de direitos básicos dos cidadãos; (iii) na falta de
combate à concentração de renda; (iv) na proliferação de todas as formas de
preconceito; (v) em acordos espúrios e escancarados com sujeitos tão ou mais
corruptos que eles; (vi) no fake civismo; (vii) na demolição do Estado de
direito…
Poderíamos
sugerir que, desta feita, o eleitor bolsonarista foi sorrateiro. Dirigiu-se até
as urnas simulando patriotismo e dissimulando perversidades. Feito víbora, ele
atravessou as avenidas sedento por inocular nova dose de veneno. Provavelmente
seguiu de cabeça erguida, como um autômato – quando muito, um soldado raso à
disposição da camarilha que visa a implantar um novo-velho regime, com tintas
ainda mais fortes que o verniz pseudoculto e disciplinado dos milicos, entre
1964 e 1985.
É
justamente a restrição do horizonte, prometida por esses tipos, que naturaliza
o empobrecimento e a postura indigna do país em benefício dos rentistas; que
enaltece a derrocada das duras e lentas conquistas sociais (como recomenda a
política do Big Stick, reeditada pelo Tio Sam); a postura subserviente e
entreguista em relação aos Estados Unidos.
Eis que
chega a hora de apurar os votos e a surpresa, no campo de cá, ao constatarmos o
expressivo aumento de representantes da extrema direita no legislativo e no
executivo (sem contar os “terrivelmente evangélicos” que, há tempos, contaminam
o judiciário). Ora, em parte esse efeito também se deve à camuflagem
pseudo-ordeira (e irreponsável); a essa aura de alegada respeitabilidade
(hipócrita) que reveste os homens e as mulheres “de bem”, como aconteceu
durante seu brejeiro passeio matinal, domingo passado, contra toda e qualquer
política de efetiva inclusão social.
Creio
que uma parte considerável dos votos creditados ao bando de pulhas, que tomará
assento em menos de três meses, se deve não à alegada ingenuidade dos
eleitores; tampouco ao desejo de mudança dos mais jovens – como pretendiam
alguns comentaristas, durante a apuração eleitoral, no domingo.
Como se
sabe, há uma inesgotável cota de ódio reservada a qualquer política que faculte
o acesso dos mais pobres aos direitos básicos de moradia, educação, saúde,
trabalho e transporte.
Desagregador
por excelência, esse sentimento se confunde com o preconceito multifacetado
contra certas legendas partidárias e a bronca que esse mesmo eleitorado
sadomasoquista retroalimenta com relação ao Presidente Lula. Bastaria folhear
os jornais corporativos, publicados desde o final da década de 1970 para
constatar o papel enviesado da imprensa, ao se referir às iniciativas sociais,
culturais e econômicas adotadas pelo PT (Partidos dos Trabalhadores) e seus
aliados.
Ao
persistir em sua trajetória política com a postura “Lulinha, paz-e-amor”, Luiz
Inácio aplica uma um dos maiores ensinamentos de Empédocles: se o ódio
desagrega e destrói, o amor une e constrói. A formulação é simplezinha e pode
emprestar a esta crônica certa coloração piegas. Correrei o risco. Ademais, é
bem possível que esse derramamento se deva aos limites de contenção do próprio
articulista, que continua sem compreender por que parte de seus colegas de
ofício votam em sujeitos desumanos que encaram os professores como pelotão
descamisado de sua extensa e duradoura lista de inimigos.
Ninguém
ignora que o descaso crônico dos governantes de São Paulo com a carreira
docente costuma caminhar a par com o ressentimento pela própria limitação
intelectual de seus algozes. É sintomático que o atual prefeito desta
megalópole tenha referido a Fernando Haddad como “professorzinho arrogante”.
Ao se
referir ao ex-prefeito (2013-2016) e ex-ministro da educação (2005 a 2012)
dessa maneira, a ofensa não se limita ao cidadão Fernando Haddad, mas sim a
todas as categorias onde os professores ainda se enquadram e aos múltiplos
papéis que tentam desempenhar com vistas à formação do pensamento crítico:
ingrediente que parece ter faltado ao café da manhã dos não têm capacidade de
amar seu país e preferem manter máxima distância do povo.
Fonte:
A Terra é Redonda

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