quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Luís Felipe Miguel: Como explicar a vitória de Flávio Bolsonaro?

Não existe eufemismo possível para descrever o resultado de anteontem. Foi uma tragédia. A extrema direita saiu na frente na corrida presidencial e fez barba, cabelo e bigode no Senado, na Câmara dos Deputados e nos governos estaduais.

O mais triste de tudo é sermos confrontados a esta imagem, sem disfarces, de quem são os nossos concidadãos. Afinal, nesta altura do campeonato, é improvável que ainda exista um único brasileiro que não tenha noção de quem é Flávio Bolsonaro: um despreparado. Um frouxo. Um mentiroso. Um corrupto. Um amigo de assassinos. Sob este ponto de vista, o voto no 22 foi “consciente”. Não foi desavisado. E isto é algo que precisamos encarar de frente.

Como sempre, depois de uma derrota dessas, não falta quem venha dizer que não se pode culpar o eleitorado, que a esquerda tem que aprender a respeitá-lo e pensar em seus próprios erros. A “soberba da esquerda” é, em geral, apresentada como a causa. Será mesmo?

Sim, há muitos erros sobre os quais pensar. Vou falar deles depois. Mas cabe, em primeiro lugar, entender o que estão dizendo os 56 milhões de votos no candidato do PL no primeiro turno.

Não dá para explicar a vitória de Flávio Bolsonaro pela manipulação da informação. Ela existe, é claro, mas não a ponto de apagar a imagem de quem é o candidato. Não dá sequer para explicá-la só pela burrice das pessoas, que serão as primeiras vítimas das políticas que ele eventualmente implementará, mas que não aprenderam nem depois já terem passado pelo governo do pai. Sim, burrice: vamos chamar as coisas pelo nome.

Alguns argumentam que o voto na extrema direita tem suas razões. Por exemplo, que o sacerdote pilantra que orienta as escolhas políticas reacionárias é também alguém que oferece consolo e apoio espiritual em algumas circunstâncias. Ou que a violência urbana que atinge em primeiro lugar as classes populares explica a sedução de propostas “duras” de segurança pública.

Mas isso apenas nos diz que esse voto não é aleatório, que tem alguma motivação. Permanece o fato de que ele expressa uma profunda incapacidade de relacionar as escolhas políticas com suas consequências esperadas, de vinculá-las aos interesses ligados às condições reais de vida.

Ter uma motivação para o voto não significa que o voto é esclarecido, pelo simples fato de que essa motivação pode ser… burra. Por exemplo: eu posso ter votado em Augusto Cury porque acredito em autoajuda. Isso faz com que meu voto tenha uma razão de ser. Nem por isso ele demonstra qualquer discernimento.

A ignorância política das massas – e incluo aqui, igualmente, trabalhadores pobres e classes médias – é um componente do sistema político vigente, ativamente produzido e reproduzido por inúmeros aparelhos. Cabe ao campo popular trabalhar permanentemente para combatê-la. A constatação da burrice dominante é, portanto, uma acusação contra a esquerda, que não fez ou fez mal o seu trabalho.

Mas, além disso, um componente central do voto em Flávio Bolsonaro é o desinteresse pela sorte dos outros, a ausência de sentimento de solidariedade, o desprezo pela vida alheia. É o triunfo da antiga lei de Gerson, de que o que importa é levar vantagem tudo. Se pudesse, cada um queria vender um pedaço do país, cobrar uma rachadinha dos funcionários, ganhar um agrado do Daniel Vorcaro, participar de uma orgia com prostitutas de luxo, arranjar um pistoleiro para liquidar os desafetos.

De brinde, vem a submissão das mulheres, a inferiorização dos negros, a pancada nos gays, nas lésbicas e nos travestis. O bolsonarismo revela uma pulsão pela violência que habita muitas pessoas. Racismo, misoginia, homofobia e desprezo pelos mais pobres seriam atrativos tão poderosos que compensariam todas as perdas. Não tem só burrice, tem perversidade. O que é muito pior.

É preciso investigar como chegamos a essa decadência moral generalizada, que é própria da metástase da sociedade capitalista. E reconhecer que o nosso campo tem fracassado na disputa dos valores que devem organizar o mundo social. Ou, pior do que fracassado: desistido da disputa.

As mentalidades são produzidas socialmente. Nós sabemos disso. Mas chega um ponto em que temos que atribuir responsabilidade às pessoas por suas escolhas. Senão, perdoaremos todos. Quem sabe dos dissabores sofridos por Jack, o estripador? Os traumas de Adolf? Os complexos de Jair?

Tem um samba de Wilson Batista, que Paulinho da Viola canta, que fala de um filósofo popular e termina com uma síntese de seu pensamento, de claros ecos rousseaunianos: “Se o homem nasceu bom, e bom não se conservou/A culpa é da sociedade que o transformou”.

Não sei se nascemos realmente bons, mas com certeza somos frutos do ambiente. Só que, a partir de certo momento, não tem jeito, cada um de nós assume seus BOs. Passou dos 18 anos, responde por seus atos – e a gente deixa a filosofia no seu canto.

Sendo assim, investiguemos as causas, lutemos contra elas, mas também enfrentemos a verdade: metade do eleitorado brasileiro é, se não perverso, seduzível pela perversidade. Não vamos romantizar o povo. Embora essa romantização tenha uma longa tradição na sensibilidade da esquerda, de Nicolau Maquiavel a Jean-Jacques Rousseau e em diante, ela não é boa conselheira.

O rehab dessas pessoas é uma tarefa de longo prazo. Muitas delas são irrecuperáveis e a questão sempre será como contê-las. No curtíssimo prazo, porém, o desafio é outro: como virar a eleição presidencial.

Há pouca esperança de virar votos de bolsonaristas. Não há escândalo que resolva: rachadinha, milícia, Daniel Vorcaro, orgia, nem Nossa Senhora dá conta. É preciso garimpar o que for possível nos menos de 10 milhões de votos dos candidatos que não chegaram ao segundo turno, mas sabemos que a colheita será magra. Afinal, mais da metade desses votos foram para extremistas de direita: Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. O melhor resultado possível é que se transformem em voto nulo.

A luta principal é pelos eleitores que não foram votar (33,5 milhões) ou que votaram em branco ou nulo (6 milhões). Esse pessoal é potencialmente mais sensível a temas como o fim da escala seis por um, a proibição das bets, a manutenção do SUS ou a conveniência de não ter um miliciano no Palácio do Planalto.

É difícil? Sim. É impossível? Não. O mais difícil é superar o desânimo depois do resultado de domingo. Um desânimo que não é só com a eleição. Não sabemos se haverá um futuro para a humanidade – com Flávio Bolsonaro na presidência, com a política de devastação ambiental que certamente implantará, fica ainda mais difícil. Mas não sabemos, sobretudo, se a humanidade merece ter futuro.

Como sou otimista inveterado, digo que devemos deixar esse desânimo para lá e retomar a campanha. São 20 dias para superar uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos. Um pouco mais de 100 mil votos por dia.

É difícil? Sim. É impossível? Não.

•        O voto subterrâneo. Por Jean Pierre Chauvin

O paulistano que percorreu as ruas, zonas e seções eleitorais neste domingo, 4 de outubro, terá notado que – diferentemente dos pleitos de 2018 e 2022, quando o clima na cidade parecia ainda mais tenso – a proporção de verdes-e-amarelos estava sensivelmente menor que a dos vermelhos.

Qual a razão dessa curiosa estatística? Seria ingênuo supor que o fato se justifica meramente porque Luiz Inácio foi mais bem votado que seu principal e rasteiro oponente, na maior parte da capital. Decerto o fenômeno não se explica apenas quantitativamente; tampouco poderíamos supor que os bolsonaristas aprenderam a ser mais discretos, antes e durante a votação para postos tão decisivos.

Suspeito que assistimos a um modo diferente de sacanear o país pelo voto. Uma espécie de simulação de jogo limpo, “dentro das quatro linhas da constituição”, como aquele fulano chegou a afirmar, enquanto fingia presidir a nação. O fato questão é que, se nos pleitos anteriores, esses mesmos eleitores envergavam a bandeira do Brasil e a camiseta da CBF, de modo “impávido e colosso”, desta vez o figurino mudou.

Cabe perguntar se isso decorreu de uma orientação do partido ao gado, via redes sociais e aplicativos de mensagem. Ou terá sido mera coincidência, um despertar simultâneo da consciência totalitária? O fato é que essa postura (mais silenciosa e menos extravagante) do lado de lá foi detectada em numerosos bairros da Pauliceia, assim como em diversos municípios do interior pseudotexano. Ou seja, em vez de alardear o voto nas legendas antidemocráticas, parte desse eleitorado fingiu ser do tipo low file, ou seja, seus adeptos mentiram mais uma vez.

Claro esteja, a menor ostentação da habitual virulência extremista não é um fator isolado. Decorre daí especularmos se ela teria relação com certo constrangimento (ou pura desfaçatez) em votar no filho do golpista negacionista. Seja como for, havemos de lembrar que a unidade da extrema direita brasileira for export reside: (i) na inexistência de projeto em prol da soberania; (ii) na anulação de direitos básicos dos cidadãos; (iii) na falta de combate à concentração de renda; (iv) na proliferação de todas as formas de preconceito; (v) em acordos espúrios e escancarados com sujeitos tão ou mais corruptos que eles; (vi) no fake civismo; (vii) na demolição do Estado de direito…

Poderíamos sugerir que, desta feita, o eleitor bolsonarista foi sorrateiro. Dirigiu-se até as urnas simulando patriotismo e dissimulando perversidades. Feito víbora, ele atravessou as avenidas sedento por inocular nova dose de veneno. Provavelmente seguiu de cabeça erguida, como um autômato – quando muito, um soldado raso à disposição da camarilha que visa a implantar um novo-velho regime, com tintas ainda mais fortes que o verniz pseudoculto e disciplinado dos milicos, entre 1964 e 1985.

É justamente a restrição do horizonte, prometida por esses tipos, que naturaliza o empobrecimento e a postura indigna do país em benefício dos rentistas; que enaltece a derrocada das duras e lentas conquistas sociais (como recomenda a política do Big Stick, reeditada pelo Tio Sam); a postura subserviente e entreguista em relação aos Estados Unidos.

Eis que chega a hora de apurar os votos e a surpresa, no campo de cá, ao constatarmos o expressivo aumento de representantes da extrema direita no legislativo e no executivo (sem contar os “terrivelmente evangélicos” que, há tempos, contaminam o judiciário). Ora, em parte esse efeito também se deve à camuflagem pseudo-ordeira (e irreponsável); a essa aura de alegada respeitabilidade (hipócrita) que reveste os homens e as mulheres “de bem”, como aconteceu durante seu brejeiro passeio matinal, domingo passado, contra toda e qualquer política de efetiva inclusão social.

Creio que uma parte considerável dos votos creditados ao bando de pulhas, que tomará assento em menos de três meses, se deve não à alegada ingenuidade dos eleitores; tampouco ao desejo de mudança dos mais jovens – como pretendiam alguns comentaristas, durante a apuração eleitoral, no domingo.

Como se sabe, há uma inesgotável cota de ódio reservada a qualquer política que faculte o acesso dos mais pobres aos direitos básicos de moradia, educação, saúde, trabalho e transporte.

Desagregador por excelência, esse sentimento se confunde com o preconceito multifacetado contra certas legendas partidárias e a bronca que esse mesmo eleitorado sadomasoquista retroalimenta com relação ao Presidente Lula. Bastaria folhear os jornais corporativos, publicados desde o final da década de 1970 para constatar o papel enviesado da imprensa, ao se referir às iniciativas sociais, culturais e econômicas adotadas pelo PT (Partidos dos Trabalhadores) e seus aliados.

Ao persistir em sua trajetória política com a postura “Lulinha, paz-e-amor”, Luiz Inácio aplica uma um dos maiores ensinamentos de Empédocles: se o ódio desagrega e destrói, o amor une e constrói. A formulação é simplezinha e pode emprestar a esta crônica certa coloração piegas. Correrei o risco. Ademais, é bem possível que esse derramamento se deva aos limites de contenção do próprio articulista, que continua sem compreender por que parte de seus colegas de ofício votam em sujeitos desumanos que encaram os professores como pelotão descamisado de sua extensa e duradoura lista de inimigos.

Ninguém ignora que o descaso crônico dos governantes de São Paulo com a carreira docente costuma caminhar a par com o ressentimento pela própria limitação intelectual de seus algozes. É sintomático que o atual prefeito desta megalópole tenha referido a Fernando Haddad como “professorzinho arrogante”.

Ao se referir ao ex-prefeito (2013-2016) e ex-ministro da educação (2005 a 2012) dessa maneira, a ofensa não se limita ao cidadão Fernando Haddad, mas sim a todas as categorias onde os professores ainda se enquadram e aos múltiplos papéis que tentam desempenhar com vistas à formação do pensamento crítico: ingrediente que parece ter faltado ao café da manhã dos não têm capacidade de amar seu país e preferem manter máxima distância do povo.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

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