Eleição
de 2026: O 1º turno acabou, mas a disputa para definir quem é o “povo
brasileiro” está só começando
Ao
amanhecer após um dia de votação, a crônica política costuma se apressar em
produzir suas tabelas de acertos e erros. Multiplicam-se as análises de
gabinete empenhadas em responder às perguntas de sempre: Quem venceu? Quem
perdeu? Qual marqueteiro acertou o tom? Qual candidatura errou a estratégia na
reta final? Essa aritmética eleitoral, contudo, é insuficiente para
apreender a transformação mais profunda que se move por baixo do resultado das
urnas.
Tomar o
resultado de um primeiro turno apenas pelo prisma da eficiência das campanhas é
confundir a febre com a infecção. A eleição não é o ponto de partida para
explicar o Brasil; é um sintoma que revela, no momento, o estágio de
transformação em que a sociedade se encontra.
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I. Para além das urnas: a eleição como sintoma
Para
interpretar o cenário desenhado pelas urnas, é preciso deslocar o eixo da
pergunta. O debate relevante não está apenas em saber por que determinado
candidato obteve êxito ou naufragou em sua estratégia, mas em formular uma
questão sociológica essencial: que sociedade é esta que tornou possível,
desejável e representativo esse resultado?
A urna
eletrônica registra uma escolha feita em um determinado momento, mas aquilo que
ela expressa não foi produzido nos poucos meses de campanha e de propaganda
oficial. O voto é o resultado de processos sociais, econômicos, culturais e
simbólicos que se acumulam muito antes da abertura das urnas.
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Ele é
atravessado pelas experiências concretas do cotidiano, pelas relações de
trabalho, pela percepção de segurança e de pertencimento, pelas igrejas, pelas
redes sociais, pelas conversas nos aplicativos de mensagem e pelas formas como
cada indivíduo interpreta o mundo e reconhece a si mesmo dentro dele.
Por
isso, reduzir a eleição ao cálculo das alianças, ao desempenho dos marqueteiros
ou ao tempo de televisão é olhar apenas para a superfície de um processo muito
mais amplo. A política não se organiza exclusivamente em torno de programas,
propostas e interesses materiais.
Ela
também mobiliza valores, identidades, afetos, medos, expectativas e formas de
pertencimento. O eleitor não escolhe apenas entre diferentes maneiras de
administrar o Estado; em determinadas circunstâncias, escolhe também a
comunidade política à qual deseja pertencer e a visão de sociedade que
reconhece como legítima.
É nesse
deslocamento que a eleição deixa de ser apenas um resultado a ser explicado e
passa a ser um fenômeno a ser interpretado. O voto do último domingo não revela
somente quem venceu ou perdeu uma disputa eleitoral. Ele expõe, ainda que de
maneira fragmentária, as fraturas e transformações que atravessam a sociedade
brasileira. Para compreender o mapa das urnas, é preciso olhar menos para os
candidatos e começar a encarar a sociedade que os produziu.
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II. O nó do pertencimento: a fratura entre o material e o simbólico
A
política não deixou de ser uma disputa entre programas de governo. Mas, para
parcelas importantes da sociedade, ela passou a incorporar com força crescente
dimensões de identidade, pertencimento, comunidade, reconhecimento e modo de
vida. É nesse terreno que aparece um dos paradoxos centrais das últimas
décadas: conquistas sociais importantes não foram acompanhadas, na mesma
proporção, por uma transformação das estruturas que produzem e reproduzem as
desigualdades brasileiras.
Os
avanços sociais foram reais. Milhões de pessoas tiveram acesso a direitos,
renda, educação, consumo e políticas públicas que alteraram concretamente suas
condições de vida. O problema foi interpretar esses avanços como se eles, por
si mesmos, fossem capazes de enfrentar as raízes mais profundas do
subdesenvolvimento brasileiro.
Melhorar
a conjuntura da vida das pessoas não significa, necessariamente, transformar as
estruturas que organizam a sociedade. A concentração de renda e patrimônio, a
desigualdade territorial, a concentração fundiária, o racismo estrutural, a
dependência econômica e a precarização do trabalho continuaram operando, ainda
que sob novas formas.
Mudou-se
muito na vida cotidiana, mas não se transformou suficientemente a estrutura que
produz as desigualdades. E essa contradição teve consequências que ultrapassam
a dimensão econômica.
Enquanto
se imaginava que a inclusão material seria capaz de consolidar uma nova
experiência de cidadania, enfraqueciam-se os espaços coletivos nos quais essa
cidadania poderia produzir vínculos, solidariedade e identidade política.
Sindicatos,
associações comunitárias, organizações de trabalhadores e bases partidárias
perderam parte de sua capacidade de organizar a vida coletiva, pressionados
pela precarização do trabalho, pela fragmentação social, pela uberização e pelo
individualismo associado à lógica neoliberal.
Não se
trata de idealizar essas estruturas nem de supor que tenham desaparecido.
Trata-se de reconhecer que se enfraqueceram algumas das instituições que
historicamente transformavam indivíduos em sujeitos coletivos.
É nesse
ponto que a dimensão simbólica ganha centralidade. A política não se sustenta
apenas na entrega de políticas públicas. Ela também precisa produzir vínculos,
reconhecimento, identidade e sentido de comunidade. Quando essas formas de
pertencimento se enfraquecem, abre-se um espaço que será necessariamente
disputado.
E
nenhum espaço social permanece vazio por muito tempo.
Na
ausência dos laços comunitários tradicionais, o sentimento de desamparo e o
desejo de comunidade foram acolhidos por novas estruturas.
Redes
de templos neopentecostais, ecossistemas de influenciadores digitais, fóruns em
redes sociais e movimentos de reação conservadora passaram a oferecer não
apenas um discurso político, mas uma verdadeira comunidade imaginada.
Uma
rede de solidariedade concreta, acolhimento espiritual, suporte econômico
informal e uma gramática moral capaz de dar sentido ao caos do mundo cotidiano,
oferecendo algo que muitas vezes é mais poderoso do que um programa de governo:
a sensação de pertencimento a um “Nós” coeso contra o “Eles”.
A força
eleitoral de candidaturas tão distintas quanto as de Nikolas Ferreira (jovem
articulador das pautas cristãs, conservadoras e antipetistas), Lucas Pavanato
(igualmente jovem, alinhado ao antifeminismo e à oposição às pautas
identitárias) e Erika Hilton (expressiva voz da população LGBTQIA+, dos
movimentos negros e do campo progressista) é altamente simbólica e ajuda a
revelar essa transformação. Seus eleitorados não são homogêneos, nem podem ser
reduzidos a uma única identidade. Mas suas trajetórias expressam, em campos
políticos distintos, a capacidade de transformar identidade, reconhecimento e
pertencimento em linguagem de mobilização.
A
questão, portanto, não é afirmar que os eleitores deixaram de se preocupar com
políticas públicas ou interesses materiais. É perceber que esses elementos
passaram a ser interpretados, cada vez mais, a partir de comunidades de
pertencimento e de visões de mundo compartilhadas.
Essa
reorganização do pertencimento reflete-se diretamente no perfil da
representação política eleita. A força de candidaturas tão distintas quanto as
de Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton é altamente simbólica e
ajuda a revelar essa transformação. Seus eleitorados não são homogêneos, nem
podem ser reduzidos a uma única identidade. Mas suas trajetórias expressam, em
campos políticos distintos, a capacidade de transformar identidade,
reconhecimento e pertencimento em linguagem de mobilização.
Por
isso, o que se manifesta nas urnas não pode ser compreendido simplesmente como
rejeição às conquistas sociais ou como uma reação irracional a elas. Há algo
mais profundo em movimento. Melhoramos a conjuntura, mas não transformamos
suficientemente a estrutura. E a estrutura permaneceu produzindo condições
sociais, econômicas e simbólicas para que diferentes projetos de sociedade
disputassem o imaginário brasileiro.
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III. A batalha pelo imaginário e a invenção do “povo”
Deslocar
a leitura da eleição da engenharia partidária para o campo das disputas por
identidade e pertencimento conduz a uma questão ainda mais profunda: quem tem o
poder de definir o que é o povo brasileiro?
Ao
refletir sobre a formação histórica e cultural do país, Darcy Ribeiro mostrou
que o povo brasileiro não é uma realidade pronta, anterior à própria história.
Ele é resultado de um processo longo, contraditório e violento, no qual povos
indígenas, populações africanas e europeias, submetidos a relações
profundamente desiguais de dominação, produziram uma sociedade nova, marcada
simultaneamente pela mistura e pela hierarquia, pela diversidade e pela
desigualdade. A brasilidade, nesse sentido, não é uma essência imutável: é uma
construção histórica.
É
justamente por isso que a identidade nacional não pode ser tratada como algo
neutro ou definitivamente estabelecido. Se o Brasil foi historicamente
construído por diferentes povos e experiências, permanece aberta a disputa
sobre qual Brasil deve ser reconhecido como legítimo. Quem pertence
verdadeiramente à comunidade nacional? Quais valores podem ser apresentados
como autenticamente brasileiros? Quem pode falar em nome do povo? E, sobretudo,
quem tem autoridade para definir quem pertence ao “nós”?
O
imaginário nacional participa diretamente dessa disputa. Ele não se resume a
símbolos folclóricos, hinos ou imagens oficiais. É uma estrutura de
representação que organiza a maneira como uma sociedade interpreta a si mesma:
de onde veio, quais valores considera legítimos, quais ameaças reconhece, quem
identifica como parte de sua comunidade e que futuro considera desejável.
Disputar o imaginário, portanto, é disputar a própria definição da realidade
nacional.
É nesse
terreno que parte dos conflitos políticos contemporâneos ganha uma dimensão que
ultrapassa programas de governo. Religião, família, pátria, raça, gênero,
tradição e moralidade deixam de ser apenas dimensões da vida social e passam a
funcionar como marcadores de pertencimento. A disputa já não consiste somente
em definir quais políticas públicas devem ser implementadas, mas em estabelecer
quais valores podem falar em nome da sociedade e quais grupos podem reivindicar
a condição de representantes legítimos do Brasil.
Os
símbolos nacionais tornam-se, assim, objetos de disputa. Nossa Senhora
Aparecida é um exemplo particularmente revelador. Ao longo da história, sua
imagem foi incorporada a diferentes representações da identidade brasileira,
inclusive como símbolo de uma sociedade marcada pela diversidade e pela
experiência religiosa popular.
Mais
recentemente, porém, outros discursos procuram associar a identidade nacional a
uma determinada concepção cristã de sociedade, sintetizada em expressões como
“Brasil de Jesus”. Não se trata apenas de uma disputa teológica. Trata-se
também da tentativa de estabelecer quais valores religiosos, morais e culturais
devem ocupar o centro da representação legítima do país.
É nesse
contexto que a recuperação contemporânea de expressões como “Deus, Pátria e
Família” ganha significado político. O lema, associado historicamente ao
integralismo brasileiro, movimento de inspiração fascista dos anos 1930,
reaparece ressignificado em novos contextos e linguagens, especialmente no
campo conservador brasileiro. O que importa analiticamente não é apenas sua
origem histórica, mas aquilo que sua recuperação revela: a tentativa de
articular religião, nacionalidade, família e ordem em uma determinada
representação do que deveria ser o Brasil. Sob essa lógica, a pátria deixa de
ser o espaço comum da pluralidade para se tornar o monopólio de uma maioria
moral legítima.
O
debate eleitoral, portanto, descola-se das propostas de gestão e atinge o seu
núcleo mais inflamável. Quando categorias como religião, raça, classe, família
e patriotismo são instrumentalizadas para estipular a “autenticidade” do
cidadão, a disputa do primeiro turno revela sua dimensão mais radical: o embate
não é mais apenas sobre qual projeto de governo aplicar, mas sobre quem
tem o direito de ser e de falar em nome do Brasil.
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IV. Imaginário é poder: a infraestrutura da hegemonia
Constatar
que a política se converteu, em parte, em uma disputa pelo imaginário nacional
e pelo sentido de pertencimento é apenas metade do diagnóstico. Para não recair
em uma leitura idealista da realidade, é preciso dar um passo adiante e
reconhecer uma premissa fundamental: imaginários não flutuam no ar. Eles são
produzidos, sustentados e difundidos por relações materiais de poder.
Disputar
quem é o “povo brasileiro” ou qual moralidade deve reger a nação não é um mero
exercício de oratória. Essa disputa exige infraestrutura, financiamento,
presença territorial e controle sobre os meios de mediação da vida social. O
imaginário é o terreno no qual a hegemonia se constrói, mas a hegemonia depende
de uma infraestrutura capaz de fazer determinadas visões de mundo circularem,
encontrarem comunidades que as reconheçam e se transformarem em senso comum.
É nesse
ponto que a dimensão estrutural do poder aparece em sua forma mais concreta. A
pergunta sobre quem tem autoridade para definir o Brasil desdobra-se em outra,
talvez ainda mais decisiva: quem dispõe dos meios para fazer essa definição
prevalecer? Quem controla ou influencia os canais de comunicação e as
plataformas digitais que organizam a circulação das informações?
Quem
dispõe de recursos econômicos para financiar redes permanentes de comunicação,
produção cultural e formação de opinião? Quem possui presença capilarizada nos
territórios e oferece, por meio de igrejas, associações, redes de solidariedade
e outros espaços comunitários, não apenas serviços, mas também acolhimento,
sociabilidade e sentido de pertencimento? E quem consegue ocupar instituições e
espaços de formação de opinião a ponto de transformar valores particulares em
referências aparentemente universais?
A
questão, portanto, não é apenas quem fala, mas quem consegue ser ouvido, por
quem, em quais espaços e com quais recursos. É essa desigualdade na capacidade
de produzir e fazer circular sentidos que transforma determinadas
interpretações do país em referências dominantes, enquanto outras permanecem
restritas, marginalizadas ou invisíveis.
A
vitória eleitoral de um projeto de sociedade, nesse sentido, não começa no
período oficial de campanha. As urnas registram, em determinado momento, o
resultado de processos de socialização política que se desenvolvem muito antes
delas. Enquanto a política institucional frequentemente se concentra no
calendário eleitoral, nas alianças partidárias e nas disputas imediatas pelo
governo, outras formas de organização atuam continuamente sobre a vida
cotidiana, articulando recursos econômicos, presença territorial, redes
comunitárias, comunicação e tecnologias digitais.
A
disputa pelo poder passa, assim, também pela capacidade de construir
comunidades, produzir identidades e definir aquilo que parece natural, legítimo
ou desejável.
É sob
essa perspectiva que o resultado eleitoral não pode ser explicado apenas pela
eficiência de uma campanha ou pela escolha racional entre diferentes programas
de governo. A eleição expressa também uma disputa anterior e mais profunda pela
produção de sentidos: quem consegue oferecer uma interpretação do país na qual
determinados indivíduos se reconhecem, quem consegue transformar inseguranças e
expectativas em uma narrativa comum e quem consegue estabelecer os limites
simbólicos entre o “nós” e os “outros”.
Por
essa razão, reconhecer que a política se tornou também uma disputa pelo
pertencimento e pelo imaginário não significa abandonar a luta por
transformações econômicas e sociais. Significa compreender que não há
transformação estrutural duradoura sem disputar também as formas de
pertencimento, os vínculos comunitários e os sentidos por meio dos quais uma
sociedade interpreta a si mesma. A estrutura produz desigualdades, mas a
permanência dessas desigualdades também depende das representações que as tornam
aceitáveis, naturais ou inevitáveis.
A
eleição passa. O resultado das urnas também. A disputa pelo poder de definir o
Brasil, porém, continua no dia seguinte — nos territórios, nas igrejas, nas
redes, nas instituições, nas escolas, nos meios de comunicação e em todos os
espaços nos quais se produz aquilo que uma sociedade reconhece como seu “nós”.
É ali, muito antes da próxima eleição, que continua sendo disputado o direito
de dizer o que é o Brasil e quem tem o direito de falar em seu nome.
Fonte:
Por Maurício Alfredo, em Diálogos do Sul Global

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