O
que Lula perdeu nas ruas? Segundo turno expõe desgaste do lulismo e crise de
representação do PT
A
eleição presidencial de 2026 coloca o Partido dos Trabalhadores (PT) e o lulismo diante
de uma circunstância complexa. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva
permaneça como uma das principais referências da política brasileira e também
tenha alcançado o segundo turno das eleições, sua candidatura evidencia sinais
de desgaste que não podem ser explicados exclusivamente pela força eleitoral da
direita ou mesmo pela polarização construída em torno do bolsonarismo.
O
resultado do primeiro turno evidencia uma inversão politicamente significativa,
qual seja, a de que uma liderança como Lula, construída ao longo de décadas
como uma das figuras mais expressivas da política brasileira e historicamente
associada às demandas das classes populares, deixou de impor sua reconhecida
força eleitoral e, além disso, terminou atrás de um adversário cuja trajetória
política e capacidade de formulação apresentam, sob diversos aspectos, alcance
e densidade muitíssimo mais limitados.
Mais do
que a proximidade numérica entre as candidaturas, o resultado do primeiro turno
expõe a dimensão do desgaste de Lula, uma liderança de incontestável capital
político e simbólico que foi incapaz de converter essa trajetória em
superioridade eleitoral diante de um candidato que, em condições anteriores,
dificilmente seria identificado como apto a ameaçá-la em uma disputa
presidencial.
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Institucionalidade versus hegemonia
A
hipótese que orienta a análise que essa professora graduada em História se
atreve a fazer é a de que a atual vulnerabilidade eleitoral de Lula é
resultante da convergência de processos distintos, tais como a
institucionalização do PT e de sua relação com os movimentos sociais; a
dificuldade de transformar resultados governamentais em percepção social
positiva; a permanência de desigualdades materiais que limitam a eficácia
simbólica das políticas públicas; as transformações provocadas pelas redes digitais
na formação da opinião pública; a dificuldade de seu partido em formular um
horizonte político capaz de articular redistribuição, soberania nacional,
desenvolvimento econômico e expectativas concretas das novas gerações e, por
último, o personalismo, que impediu a construção de uma/um sucessor/a de Lula.
Não me
aterei a todas essas dimensões, pelos motivos óbvios. Mas uma primeira questão
desse processo encontra-se na própria transformação do lulismo e do PT. A
trajetória política de Lula foi construída pela combinação entre liderança
popular, organização sindical, mobilização social e capacidade de negociação
institucional. Isso permitiu ao PT ocupar, simultaneamente, o espaço da
representação das classes trabalhadoras e o espaço da institucionalidade
estatal. Entretanto, o exercício prolongado do poder produziu, inevitavelmente,
mudanças nessa relação.
A
aproximação com setores do centro e da direita parlamentar ampliou, de certo
modo, a capacidade de governança do lulismo, mas não necessariamente ampliou
sua capacidade de mobilizar politicamente esses setores (e nós sabemos os
porquês!). Governar com o chamado Centrão não significa, necessariamente,
conquistá-lo como eleitorado. É somente uma relação predominantemente
utilitarista, fundada na negociação de interesses, na distribuição de espaços
institucionais, na construção de maiorias parlamentares e na preservação das
condições da tal governabilidade.
O
Centrão, aliás, nem constitui um bloco ideológico homogêneo, tampouco pode ser
reduzido a uma organização partidária específica. Sua identidade é resultante
dessa capacidade de funcionar como elemento de mediação (para usar um termo
educado) entre o Executivo e um Legislativo fragmentado, que produz uma
consequência política preocupante para o lulismo e, consequentemente, para o
PT, qual seja, o governo pode conquistar votos no Congresso sem conquistar
votos na sociedade.
Um/uma
parlamentar pode apoiar determinada medida do Poder Executivo porque essa
decisão atende a interesses políticos concretos, mas isso não significa que seu
eleitorado passe a identificar-se com o governo ou com o projeto político do
PT.
Há,
portanto, uma diferença crucial entre a tão apregoada governabilidade e a
hegemonia política, sendo que a primeira diz respeito à capacidade de construir
maiorias suficientes para aprovar medidas e administrar o Estado; e a segunda
envolve a capacidade de produzir identificação social, de estabelecer valores,
de organizar expectativas e de convencer determinados setores a reconhecer um
projeto político como expressão de seus próprios interesses. E esta segunda
(que, a meu ver, é a mais importante) não aconteceu!
Além do
mais, a avaliação objetiva de políticas públicas, bem como a percepção
subjetiva da população sobre sua própria situação, é outro fator que não deve
ser negligenciado. Porque um governo pode apresentar indicadores econômicos
favoráveis, expansão de determinados programas sociais, crescimento do emprego
ou aumento da renda (como é o caso do governo de Lula) e, ainda assim,
encontrar dificuldades para transformar esses resultados em aprovação política
capaz de lhe assegurar a “cadeira do poder”.
Isso
acontece porque a confiança social não é produzida por indicadores. E isso Lula
e o PT não entendem (sobretudo porque perderam a experiência das ruas!). Essa
confiança é construída por condições objetivas favoráveis no que se refere ao
custo de vida, à qualidade dos serviços públicos, à expectativa de futuro,
entre outras. A política econômica só se converte em capital político quando os
resultados macroeconômicos são reconhecidos na experiência cotidiana — no
supermercado, no posto de combustíveis, no barzinho, na barraca de praia etc.
E, infelizmente, não está sendo o caso.
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O que é prioritário?
A
percepção de bem-estar depende, principalmente, da capacidade de transformar
renda em condições concretas de reprodução da vida. E, em uma sociedade marcada
por desigualdades profundas, como é o nosso caso, o aumento de determinados
indicadores pode coexistir com experiências persistentes de precariedade. E,
infelizmente, as cidades brasileiras estão repletas de exemplos, comprovando
que a expansão do consumo não elimina, necessariamente, o sentimento de
insegurança econômica quando famílias permanecem submetidas ao crédito, ao
endividamento e à instabilidade ocupacional.
Por
isso mesmo, o fenômeno das apostas esportivas constitui um exemplo
significativo. A expansão das chamadas bets não deve ser compreendida
unicamente como questão regulatória ou comportamental; ela precisa ser lida
como expressão de uma economia na qual expectativas de ascensão rápida passam a
disputar espaço com formas tradicionais de renda e de proteção social.
Quando
parcelas da população economicamente vulnerabilizadas desviam os poucos
recursos que têm para sistemas de aposta, isso expõe uma contradição entre
políticas de proteção social e um ambiente econômico no qual a promessa de
enriquecimento individual é permanentemente estimulada.
Outra
questão que quero destacar nesta análise é a incapacidade do governo para
traduzir questões estruturais em linguagem socialmente mobilizadora. Explico. A
hegemonia política não se constrói somente por meio do controle institucional
ou mesmo da capacidade de produzir políticas públicas.
Constrói-se,
sobretudo, pela capacidade de definir quais problemas são considerados
prioritários, quem é responsabilizado por eles e quais soluções aparecem como
plausíveis. A direita tem conseguido fazer isso — de uma forma abominável,
perversa. Mas tem. O apelo à segurança, à liberdade para empreender, à redução
de impostos etc. tem chegado aos ouvidos e ao sentimento da sociedade.
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Se a
direita consegue fazer da segurança, da corrupção, da liberdade econômica ou do
antipetismo os principais enquadramentos interpretativos da conjuntura
nacional, ela estabelece os termos dentro dos quais o debate ocorrerá. E é o
que está acontecendo em nosso país. Mas o lulismo e o PT, por não terem essa
capacidade de se conectar com os anseios populares (que, repito, perderam
porque se desconectaram das ruas), estão sofrendo as consequências. E uma delas
é a perda da afetividade.
Sim.
Afetividade. Uma geração que não possui memória direta dos primeiros governos
Lula não necessariamente estabelece com o lulismo a mesma relação afetiva
construída pelas gerações anteriores.
Para
essa nova geração de eleitoras/eleitores, a comparação política ocorre dentro
de outro repertório, o qual envolve as redes sociais, o empreendedorismo
digital, a precarização do trabalho, a inteligência artificial, a crise
climática, novas formas de sociabilidade e incerteza quanto ao futuro
profissional. A memória das políticas sociais dos anos 2000 possui importância
histórica, mas não pode substituir a construção de um projeto destinado às
condições concretas do presente.
Durante
boa parte de sua trajetória, Lula e o PT conseguiram associar sua identidade a
um processo de inclusão social. O horizonte era relativamente compreensível —
redução da pobreza, expansão do emprego, acesso ao consumo, políticas sociais e
democratização de oportunidades (tenho muitas críticas a fazer, mas aqui não é
o espaço nem este é o momento). Atualmente, contudo, essas conquistas precisam
ser redimensionadas. E precisa inteligência para isso, coisa que não estamos
vendo nos quadros que têm voz e vez no PT.
Por
falar em voz e vez, o PT tem uma cultura de expulsar todas e todos que ousam
apontar equívocos, sugerir caminhos distintos. Essa arrogância tem dado seus
frutos (negativos), tendo culminado no resultado das eleições de 2018 e agora,
em 2026. Falta humildade, disposição para ouvir críticas. E isso não combina se
se busca construir um Estado (e governo) capaz de superar os desafios que o
Brasil precisa superar.
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A luta de classes continua vigente
A
discussão sobre soberania nacional também se insere nesse problema. O debate
político brasileiro frequentemente permanece reduzido a conflitos internos,
disputas partidárias e escândalos conjunturais, enquanto questões estruturais —
soberania tecnológica, capacidade industrial, dependência financeira, segurança
energética, controle de recursos estratégicos e posição do Brasil na
reorganização geopolítica internacional — recebem atenção insuficiente. O PT e
o lulismo não convocam a sociedade neste sentido. Isso deveria ser uma
prioridade. Mas não está sendo.
A mesma
redução do debate acontece com relação à pobreza, esta que não pode ser
compreendida apenas como insuficiência de renda, porque se trata de um fenômeno
multidimensional, que envolve educação, saúde, moradia, saneamento, mobilidade,
segurança, cultura e participação política. Uma política progressista que
pretenda preservar legitimidade social precisa, portanto, ultrapassar a lógica
compensatória e apresentar uma estratégia de transformação das estruturas que
reproduzem a desigualdade.
O que o
PT e o lulismo não entendem é que a questão da luta de classes continua
pertinente — ainda que tenha adquirido formas diferentes das existentes no
século 20. A desigualdade brasileira não desapareceu porque a linguagem
política do PT e do lulismo passou a enfatizar a conciliação. Ao contrário. A
concentração patrimonial, a desigualdade racial, a precarização do trabalho e a
assimetria no acesso aos serviços públicos demonstram que conflitos
distributivos permanecem no centro da sociedade brasileira.
Por
falar em distribuição, estudos recentes demonstram que, em 2025, a renda real
daqueles que formam 1% dos mais ricos da população subiu quase 10%. O problema
é que o lulismo e o PT frequentemente evitam explicitar esses conflitos em nome
da “estabilidade política” e da ampliação de sua capacidade de negociação. A
falida governabilidade!
Essa
escolha produziu uma consequência paradoxal. Ao reduzir a centralidade do
conflito distributivo, o lulismo pôde ampliar sua aceitação institucional (até
agora), mas também foi perdendo sua razão de existir enquanto força política.
Se a diferença entre governo petista e governo de direita passa a ser percebida
somente em termos de intensidade das políticas sociais, enquanto questões
estruturais permanecem relativamente intocadas, a identidade política se
enfraquece. E, ao que me parece, foi isso que aconteceu.
Há,
ainda, um problema de natureza estratégica que se tornou evidente no atual
ciclo político, qual seja, a dificuldade do PT e de seus partidos aliados em
produzir uma liderança nacional capaz de suceder Lula. A longevidade política
do presidente contribuiu, também paradoxalmente, para ampliar esse problema.
Sua centralidade tem sido tamanha que, ao longo de sucessivos ciclos
eleitorais, a construção de uma alternativa interna parece ter sido
frequentemente subordinada à necessidade imediata de preservar sua liderança. É
o personalismo fazendo das suas!
O
resultado é uma dependência excessiva de uma figura individual para organizar a
identidade, a mobilização e a competitividade eleitoral do campo progressista.
Nem o PT nem os partidos aliados alcançaram, até o momento, a combinação de
reconhecimento nacional, capacidade de comunicação popular, autoridade política
e capacidade de agregação que Lula acumulou ao longo dessas décadas.
Isso
produz um problema que ultrapassa a sucessão eleitoral. Porque, quando a força
de um projeto político depende demasiadamente de uma única liderança, a
renovação deixa de ser um processo orgânico e transforma-se em uma urgência
quando a sucessão já está próxima. E não funciona (como o que aconteceu em 2018
com Fernando Haddad).
Penso
que é nessa perspectiva que devemos interpretar a situação eleitoral de Lula em
2026. Sua vulnerabilidade não é decorrente de um único erro, tampouco pode ser
explicada exclusivamente pela ação de seus adversários. A meu ver, ela é a
consequência de um governo socialmente identificado com os setores populares,
mas operacionalmente submetido a instituições dominadas por forças
conservadoras. É também resultado do fato de se ter forte tradição política,
mas não saber formular uma linguagem adequada às novas gerações; e, também,
consequência de uma sociedade que demanda proteção e transformação ao mesmo
tempo.
Por
isso, a principal questão desta minha análise se concentra no fato de nos
perguntarmos se o PT e o lulismo poderão renovar sua capacidade de
representação diante de uma sociedade que se transformou mais rapidamente do
que suas formas tradicionais de organização política.
Sinceramente,
minha resposta é não!
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O Brasil necessita girar à esquerda
Há
muita arrogância, muito personalismo, muita falta de humildade. Não que isso
também não esteja na direita bolsonarista. A questão é que o povo brasileiro,
para além de ter uma identidade conservadora, está ávido por mudança. Pode até
não saber que mudança será essa (e muita gente não sabe!). Porém, o que está
prevalecendo é o antipetismo e o antilulismo.
O
problema central está na relação entre Lula, o PT, as instituições, os
movimentos sociais e uma sociedade brasileira profundamente desigual,
digitalizada, polarizada e atravessada por novas formas de precarização. A
eleição de 2026 expõe essa tensão com nitidez. Mesmo que Lula conquiste seu
quarto mandato, não poderá governar com o Congresso que se está constituindo,
sobretudo no Senado.
Lula e
o PT passaram muito tempo buscando vencer eleições, quando deveriam reconstruir
uma interpretação convincente do Brasil e, a partir dela, formular um projeto
capaz de responder, simultaneamente, à pobreza, à desigualdade, à insegurança,
à transformação tecnológica, à soberania nacional e às expectativas de uma
sociedade que já não é a mesma daquela que produziu a ascensão política do
lulismo.
É nessa
capacidade de produzir novamente um horizonte coletivo — e não uma candidatura
competitiva — que se encontra a questão decisiva para o futuro político do
Brasil, se é que ainda teremos país nas próximas eleições.
E o que
realmente penso que seja melhor para o nosso país é girarmos à esquerda. Porque
o PT e Lula nunca quererão fazer o que é necessário.
Fonte:
Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global

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