quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O que Lula perdeu nas ruas? Segundo turno expõe desgaste do lulismo e crise de representação do PT

A eleição presidencial de 2026 coloca o Partido dos Trabalhadores (PT) e o lulismo diante de uma circunstância complexa. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permaneça como uma das principais referências da política brasileira e também tenha alcançado o segundo turno das eleições, sua candidatura evidencia sinais de desgaste que não podem ser explicados exclusivamente pela força eleitoral da direita ou mesmo pela polarização construída em torno do bolsonarismo.

O resultado do primeiro turno evidencia uma inversão politicamente significativa, qual seja, a de que uma liderança como Lula, construída ao longo de décadas como uma das figuras mais expressivas da política brasileira e historicamente associada às demandas das classes populares, deixou de impor sua reconhecida força eleitoral e, além disso, terminou atrás de um adversário cuja trajetória política e capacidade de formulação apresentam, sob diversos aspectos, alcance e densidade muitíssimo mais limitados.

Mais do que a proximidade numérica entre as candidaturas, o resultado do primeiro turno expõe a dimensão do desgaste de Lula, uma liderança de incontestável capital político e simbólico que foi incapaz de converter essa trajetória em superioridade eleitoral diante de um candidato que, em condições anteriores, dificilmente seria identificado como apto a ameaçá-la em uma disputa presidencial.

<><> Institucionalidade versus hegemonia

A hipótese que orienta a análise que essa professora graduada em História se atreve a fazer é a de que a atual vulnerabilidade eleitoral de Lula é resultante da convergência de processos distintos, tais como a institucionalização do PT e de sua relação com os movimentos sociais; a dificuldade de transformar resultados governamentais em percepção social positiva; a permanência de desigualdades materiais que limitam a eficácia simbólica das políticas públicas; as transformações provocadas pelas redes digitais na formação da opinião pública; a dificuldade de seu partido em formular um horizonte político capaz de articular redistribuição, soberania nacional, desenvolvimento econômico e expectativas concretas das novas gerações e, por último, o personalismo, que impediu a construção de uma/um sucessor/a de Lula.

Não me aterei a todas essas dimensões, pelos motivos óbvios. Mas uma primeira questão desse processo encontra-se na própria transformação do lulismo e do PT. A trajetória política de Lula foi construída pela combinação entre liderança popular, organização sindical, mobilização social e capacidade de negociação institucional. Isso permitiu ao PT ocupar, simultaneamente, o espaço da representação das classes trabalhadoras e o espaço da institucionalidade estatal. Entretanto, o exercício prolongado do poder produziu, inevitavelmente, mudanças nessa relação.

A aproximação com setores do centro e da direita parlamentar ampliou, de certo modo, a capacidade de governança do lulismo, mas não necessariamente ampliou sua capacidade de mobilizar politicamente esses setores (e nós sabemos os porquês!). Governar com o chamado Centrão não significa, necessariamente, conquistá-lo como eleitorado. É somente uma relação predominantemente utilitarista, fundada na negociação de interesses, na distribuição de espaços institucionais, na construção de maiorias parlamentares e na preservação das condições da tal governabilidade.

O Centrão, aliás, nem constitui um bloco ideológico homogêneo, tampouco pode ser reduzido a uma organização partidária específica. Sua identidade é resultante dessa capacidade de funcionar como elemento de mediação (para usar um termo educado) entre o Executivo e um Legislativo fragmentado, que produz uma consequência política preocupante para o lulismo e, consequentemente, para o PT, qual seja, o governo pode conquistar votos no Congresso sem conquistar votos na sociedade.

Um/uma parlamentar pode apoiar determinada medida do Poder Executivo porque essa decisão atende a interesses políticos concretos, mas isso não significa que seu eleitorado passe a identificar-se com o governo ou com o projeto político do PT.

Há, portanto, uma diferença crucial entre a tão apregoada governabilidade e a hegemonia política, sendo que a primeira diz respeito à capacidade de construir maiorias suficientes para aprovar medidas e administrar o Estado; e a segunda envolve a capacidade de produzir identificação social, de estabelecer valores, de organizar expectativas e de convencer determinados setores a reconhecer um projeto político como expressão de seus próprios interesses. E esta segunda (que, a meu ver, é a mais importante) não aconteceu!

Além do mais, a avaliação objetiva de políticas públicas, bem como a percepção subjetiva da população sobre sua própria situação, é outro fator que não deve ser negligenciado. Porque um governo pode apresentar indicadores econômicos favoráveis, expansão de determinados programas sociais, crescimento do emprego ou aumento da renda (como é o caso do governo de Lula) e, ainda assim, encontrar dificuldades para transformar esses resultados em aprovação política capaz de lhe assegurar a “cadeira do poder”.

Isso acontece porque a confiança social não é produzida por indicadores. E isso Lula e o PT não entendem (sobretudo porque perderam a experiência das ruas!). Essa confiança é construída por condições objetivas favoráveis no que se refere ao custo de vida, à qualidade dos serviços públicos, à expectativa de futuro, entre outras. A política econômica só se converte em capital político quando os resultados macroeconômicos são reconhecidos na experiência cotidiana — no supermercado, no posto de combustíveis, no barzinho, na barraca de praia etc. E, infelizmente, não está sendo o caso.

<><> O que é prioritário?

A percepção de bem-estar depende, principalmente, da capacidade de transformar renda em condições concretas de reprodução da vida. E, em uma sociedade marcada por desigualdades profundas, como é o nosso caso, o aumento de determinados indicadores pode coexistir com experiências persistentes de precariedade. E, infelizmente, as cidades brasileiras estão repletas de exemplos, comprovando que a expansão do consumo não elimina, necessariamente, o sentimento de insegurança econômica quando famílias permanecem submetidas ao crédito, ao endividamento e à instabilidade ocupacional.

Por isso mesmo, o fenômeno das apostas esportivas constitui um exemplo significativo. A expansão das chamadas bets não deve ser compreendida unicamente como questão regulatória ou comportamental; ela precisa ser lida como expressão de uma economia na qual expectativas de ascensão rápida passam a disputar espaço com formas tradicionais de renda e de proteção social.

Quando parcelas da população economicamente vulnerabilizadas desviam os poucos recursos que têm para sistemas de aposta, isso expõe uma contradição entre políticas de proteção social e um ambiente econômico no qual a promessa de enriquecimento individual é permanentemente estimulada.

Outra questão que quero destacar nesta análise é a incapacidade do governo para traduzir questões estruturais em linguagem socialmente mobilizadora. Explico. A hegemonia política não se constrói somente por meio do controle institucional ou mesmo da capacidade de produzir políticas públicas.

Constrói-se, sobretudo, pela capacidade de definir quais problemas são considerados prioritários, quem é responsabilizado por eles e quais soluções aparecem como plausíveis. A direita tem conseguido fazer isso — de uma forma abominável, perversa. Mas tem. O apelo à segurança, à liberdade para empreender, à redução de impostos etc. tem chegado aos ouvidos e ao sentimento da sociedade.

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Se a direita consegue fazer da segurança, da corrupção, da liberdade econômica ou do antipetismo os principais enquadramentos interpretativos da conjuntura nacional, ela estabelece os termos dentro dos quais o debate ocorrerá. E é o que está acontecendo em nosso país. Mas o lulismo e o PT, por não terem essa capacidade de se conectar com os anseios populares (que, repito, perderam porque se desconectaram das ruas), estão sofrendo as consequências. E uma delas é a perda da afetividade.

Sim. Afetividade. Uma geração que não possui memória direta dos primeiros governos Lula não necessariamente estabelece com o lulismo a mesma relação afetiva construída pelas gerações anteriores.

Para essa nova geração de eleitoras/eleitores, a comparação política ocorre dentro de outro repertório, o qual envolve as redes sociais, o empreendedorismo digital, a precarização do trabalho, a inteligência artificial, a crise climática, novas formas de sociabilidade e incerteza quanto ao futuro profissional. A memória das políticas sociais dos anos 2000 possui importância histórica, mas não pode substituir a construção de um projeto destinado às condições concretas do presente.

Durante boa parte de sua trajetória, Lula e o PT conseguiram associar sua identidade a um processo de inclusão social. O horizonte era relativamente compreensível — redução da pobreza, expansão do emprego, acesso ao consumo, políticas sociais e democratização de oportunidades (tenho muitas críticas a fazer, mas aqui não é o espaço nem este é o momento). Atualmente, contudo, essas conquistas precisam ser redimensionadas. E precisa inteligência para isso, coisa que não estamos vendo nos quadros que têm voz e vez no PT.

Por falar em voz e vez, o PT tem uma cultura de expulsar todas e todos que ousam apontar equívocos, sugerir caminhos distintos. Essa arrogância tem dado seus frutos (negativos), tendo culminado no resultado das eleições de 2018 e agora, em 2026. Falta humildade, disposição para ouvir críticas. E isso não combina se se busca construir um Estado (e governo) capaz de superar os desafios que o Brasil precisa superar.

<><> A luta de classes continua vigente

A discussão sobre soberania nacional também se insere nesse problema. O debate político brasileiro frequentemente permanece reduzido a conflitos internos, disputas partidárias e escândalos conjunturais, enquanto questões estruturais — soberania tecnológica, capacidade industrial, dependência financeira, segurança energética, controle de recursos estratégicos e posição do Brasil na reorganização geopolítica internacional — recebem atenção insuficiente. O PT e o lulismo não convocam a sociedade neste sentido. Isso deveria ser uma prioridade. Mas não está sendo.

A mesma redução do debate acontece com relação à pobreza, esta que não pode ser compreendida apenas como insuficiência de renda, porque se trata de um fenômeno multidimensional, que envolve educação, saúde, moradia, saneamento, mobilidade, segurança, cultura e participação política. Uma política progressista que pretenda preservar legitimidade social precisa, portanto, ultrapassar a lógica compensatória e apresentar uma estratégia de transformação das estruturas que reproduzem a desigualdade.

O que o PT e o lulismo não entendem é que a questão da luta de classes continua pertinente — ainda que tenha adquirido formas diferentes das existentes no século 20. A desigualdade brasileira não desapareceu porque a linguagem política do PT e do lulismo passou a enfatizar a conciliação. Ao contrário. A concentração patrimonial, a desigualdade racial, a precarização do trabalho e a assimetria no acesso aos serviços públicos demonstram que conflitos distributivos permanecem no centro da sociedade brasileira.

Por falar em distribuição, estudos recentes demonstram que, em 2025, a renda real daqueles que formam 1% dos mais ricos da população subiu quase 10%. O problema é que o lulismo e o PT frequentemente evitam explicitar esses conflitos em nome da “estabilidade política” e da ampliação de sua capacidade de negociação. A falida governabilidade!

Essa escolha produziu uma consequência paradoxal. Ao reduzir a centralidade do conflito distributivo, o lulismo pôde ampliar sua aceitação institucional (até agora), mas também foi perdendo sua razão de existir enquanto força política. Se a diferença entre governo petista e governo de direita passa a ser percebida somente em termos de intensidade das políticas sociais, enquanto questões estruturais permanecem relativamente intocadas, a identidade política se enfraquece. E, ao que me parece, foi isso que aconteceu.

Há, ainda, um problema de natureza estratégica que se tornou evidente no atual ciclo político, qual seja, a dificuldade do PT e de seus partidos aliados em produzir uma liderança nacional capaz de suceder Lula. A longevidade política do presidente contribuiu, também paradoxalmente, para ampliar esse problema. Sua centralidade tem sido tamanha que, ao longo de sucessivos ciclos eleitorais, a construção de uma alternativa interna parece ter sido frequentemente subordinada à necessidade imediata de preservar sua liderança. É o personalismo fazendo das suas!

O resultado é uma dependência excessiva de uma figura individual para organizar a identidade, a mobilização e a competitividade eleitoral do campo progressista. Nem o PT nem os partidos aliados alcançaram, até o momento, a combinação de reconhecimento nacional, capacidade de comunicação popular, autoridade política e capacidade de agregação que Lula acumulou ao longo dessas décadas.

Isso produz um problema que ultrapassa a sucessão eleitoral. Porque, quando a força de um projeto político depende demasiadamente de uma única liderança, a renovação deixa de ser um processo orgânico e transforma-se em uma urgência quando a sucessão já está próxima. E não funciona (como o que aconteceu em 2018 com Fernando Haddad).

Penso que é nessa perspectiva que devemos interpretar a situação eleitoral de Lula em 2026. Sua vulnerabilidade não é decorrente de um único erro, tampouco pode ser explicada exclusivamente pela ação de seus adversários. A meu ver, ela é a consequência de um governo socialmente identificado com os setores populares, mas operacionalmente submetido a instituições dominadas por forças conservadoras. É também resultado do fato de se ter forte tradição política, mas não saber formular uma linguagem adequada às novas gerações; e, também, consequência de uma sociedade que demanda proteção e transformação ao mesmo tempo.

Por isso, a principal questão desta minha análise se concentra no fato de nos perguntarmos se o PT e o lulismo poderão renovar sua capacidade de representação diante de uma sociedade que se transformou mais rapidamente do que suas formas tradicionais de organização política.

Sinceramente, minha resposta é não!

<><> O Brasil necessita girar à esquerda

Há muita arrogância, muito personalismo, muita falta de humildade. Não que isso também não esteja na direita bolsonarista. A questão é que o povo brasileiro, para além de ter uma identidade conservadora, está ávido por mudança. Pode até não saber que mudança será essa (e muita gente não sabe!). Porém, o que está prevalecendo é o antipetismo e o antilulismo.

O problema central está na relação entre Lula, o PT, as instituições, os movimentos sociais e uma sociedade brasileira profundamente desigual, digitalizada, polarizada e atravessada por novas formas de precarização. A eleição de 2026 expõe essa tensão com nitidez. Mesmo que Lula conquiste seu quarto mandato, não poderá governar com o Congresso que se está constituindo, sobretudo no Senado.

Lula e o PT passaram muito tempo buscando vencer eleições, quando deveriam reconstruir uma interpretação convincente do Brasil e, a partir dela, formular um projeto capaz de responder, simultaneamente, à pobreza, à desigualdade, à insegurança, à transformação tecnológica, à soberania nacional e às expectativas de uma sociedade que já não é a mesma daquela que produziu a ascensão política do lulismo.

É nessa capacidade de produzir novamente um horizonte coletivo — e não uma candidatura competitiva — que se encontra a questão decisiva para o futuro político do Brasil, se é que ainda teremos país nas próximas eleições.

E o que realmente penso que seja melhor para o nosso país é girarmos à esquerda. Porque o PT e Lula nunca quererão fazer o que é necessário.

 

Fonte: Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global

 

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