Reynaldo
Aragon: O algoritmo venceu
A
eleição de 2026 não produziu apenas um Congresso mais conservador. Ela
transferiu poder para forças que já demonstraram capacidade de bloquear a
regulação das plataformas, fortaleceu no Senado parte do núcleo mais ativo
contra limites às Big Techs e entregou à próxima legislatura decisões sobre
inteligência artificial, cibersegurança, mercados digitais, data centers e
minerais críticos. Por trás de agendas que parecem separadas emerge uma única
disputa sobre quem comandará a cadeia que liga o subsolo brasileiro ao
algoritmo e, com ela, uma parcela crescente do poder econômico, informacional e
político do país.
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A noite em que o veto ganhou oito anos
Na
noite de 4 de outubro de 2026, uma mudança maior do que a distribuição de
cadeiras apareceu no mapa eleitoral. O PL havia elegido 19 senadores e
caminhava para iniciar 2027 com 28 dos 81 lugares do Senado. Na Câmara, chegava
a 121 deputados. Bia Kicis, Gustavo Gayer e Marcel van Hattem, nomes
recorrentes nas disputas contra diferentes formas de regulação digital,
passavam da Câmara para mandatos de oito anos. Não era apenas uma vitória
partidária. A Casa que revisa leis e participa da escolha de autoridades
permanentes do Estado ficava mais favorável às forças que, na legislatura
anterior, já haviam mostrado capacidade de bloquear ou retardar limites ao
poder das plataformas.
A
mudança chega depois de quatro anos em que Lula tentou deslocar tecnologia do
lugar de simples mercado para o terreno da soberania. O governo apoiou a
regulação das plataformas, defendeu novas regras para inteligência artificial,
fortaleceu a proteção de dados, criou incentivos para infraestrutura
computacional e colocou minerais críticos dentro de uma política nacional de
industrialização. Perdeu a batalha mais ampla do PL 2630, não conseguiu
concluir o marco da inteligência artificial nem a regulação concorrencial dos
mercados digitais e viu a cibersegurança chegar ao fim do ciclo sem uma
arquitetura nacional consolidada. Ainda assim, deixou instrumentos que não
existiam ou eram frágeis quando tomou posse, entre eles o ECA Digital, a nova
estrutura da ANPD, o Redata e a política de minerais críticos.
O
balanço é menos confortável do que parece. Lula conseguiu abrir frentes de
soberania, mas não alterou a estrutura de poder que tornou necessárias essas
políticas. O próximo ciclo começa com o problema maior e a margem parlamentar
menor. O Senado que tomará posse em fevereiro terá entre seus integrantes
parlamentares que atravessarão toda a década enquanto o Estado brasileiro tenta
decidir quem regula os dados, quem controla a infraestrutura digital, onde fica
o valor extraído dos minerais estratégicos e até onde empresas estrangeiras
podem determinar as condições do mercado brasileiro.
A
eleição de 2026 decidiu tudo isso sem que quase nada disso aparecesse na
cédula. A partir de 2027, a soberania tecnológica brasileira será discutida
diante de um Congresso mais hostil às formas de regulação que procuram limitar
poder econômico, exigir transparência e criar capacidade estatal própria.
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A Bancada do Like deixa de ser metáfora
A
influência das empresas de tecnologia em Brasília nunca coube perfeitamente no
modelo das bancadas tradicionais. Não existe uma porta com o nome Bancada do
Like. Existe algo mais eficiente. Frentes parlamentares, associações
empresariais, audiências, produção técnica, acesso permanente ao Congresso e
parlamentares que, por razões ideológicas ou econômicas distintas, convergem
quando a regulação alcança o modelo de negócios das grandes plataformas.
A
Frente Parlamentar Mista da Economia e Cidadania Digitais foi registrada em
2023 com 204 assinaturas e reúne parlamentares de quase todo o espectro
político. Assinar a frente não transforma ninguém em representante de empresa
alguma. O dado relevante está na infraestrutura que se formou ao redor dela. O
Instituto Cidadania Digital foi criado por associações do setor para
secretariar a frente, depois passou a aceitar empresas diretamente e se
transformou no Conselho Digital do Brasil. Em 2026, entre seus associados
estavam Amazon, Google, Meta, OpenAI e TikTok.
O PL
2630 mostrou o que essa capacidade significava quando o conflito saiu dos
gabinetes. Às vésperas da votação, o Google usou sua própria página de busca
para divulgar argumentos contra o projeto. Google e Meta foram investigados
pelo Cade diante de denúncias de uso indevido de suas plataformas na campanha.
Ao mesmo tempo, parlamentares apresentavam alternativas que retiravam
mecanismos de responsabilização e ampliavam a autorregulação. O projeto não
chegou ao voto final.
Foi ali
que a expressão Bancada do Like deixou de ser apenas provocação. O poder não
estava numa ordem centralizada. Estava na convergência. Um levantamento
independente da CTRL+Z acompanhou sete disputas regulatórias e identificou mais
de vinte parlamentares com pelo menos três ações classificadas como favoráveis
aos interesses das grandes plataformas. Treze apareceram em quatro ou mais.
Parte desse núcleo sobreviveu intacta à eleição de 2026 e três de seus nomes
mais conhecidos chegaram ao Senado.
O PL
4675 confirmou que o padrão não terminou com o PL 2630. O projeto trata de
concorrência, permite ao Cade identificar empresas com relevância sistêmica e
impor obrigações quando a concentração ameaça o mercado. A Câmara aprovou sua
urgência por 276 votos a 186. A lei, porém, não veio. Novas audiências foram
abertas, entidades empresariais reagiram e o Conselho Digital passou a atacar
pontos centrais da proposta.
É isso
que a Bancada do Like nomeia. Não uma conspiração, mas uma relação de forças.
As empresas não precisam escrever cada voto. Basta que tenham recursos para
produzir conhecimento, ocupar o debate, pressionar, oferecer enquadramentos e
tornar certas decisões mais custosas. Quando essa capacidade encontra
parlamentares dispostos a transformar a mesma visão em emendas, obstrução e
voto, a influência deixa de depender de uma ordem explícita. Ela passa a
funcionar como ambiente.
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O algoritmo tem subsolo
A
imagem mais enganosa da inteligência artificial é a nuvem. Ela sugere leveza,
abstração, algo que paira acima da matéria. Na prática, cada resposta produzida
por um sistema de IA depende de mineração, metal refinado, semicondutor,
servidor, fibra óptica, refrigeração, eletricidade, propriedade intelectual e
capital. O algoritmo começa muito antes do código.
Essa
materialidade aproxima agendas que Brasília ainda insiste em separar. Cobre,
grafita, lítio, níquel e terras raras alimentam baterias, redes elétricas,
eletrônica avançada, sistemas militares e infraestrutura computacional. O
Brasil possui recursos minerais e energia em escala rara, mas continua
dependente justamente das etapas em que se concentram tecnologia, conhecimento
e maior valor. Exporta matéria e importa compostos refinados, ligas especiais,
ímãs, componentes e equipamentos. Entre a jazida e o chip existe uma cadeia que
decide quem participa e quem comanda.
A
Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada por Lula em
2026, tentou atacar essa distância ao incluir beneficiamento, industrialização
e agregação de valor entre seus objetivos. O Redata fez movimento semelhante na
infraestrutura digital ao criar incentivos para data centers com contrapartidas
de pesquisa, desenvolvimento e atendimento ao mercado interno. São políticas
importantes. Nenhuma delas, sozinha, altera a posição brasileira na cadeia.
Um data
center pode estar no Ceará e continuar subordinado a hardware, software, nuvem,
propriedade intelectual e decisões tomadas fora do país. Território não é
comando. Da mesma maneira, possuir lítio ou terras raras não significa
controlar baterias, ímãs ou semicondutores. A soberania não está apenas no
recurso. Está nas etapas capazes de transformar recurso em capacidade de
decisão.
O risco
brasileiro é repetir no século XXI uma estrutura conhecida. Fornecer minério,
energia, água, território e agora dados para depois comprar capacidade
computacional, inteligência e decisão na forma de serviço. A dependência
digital não substitui a velha divisão internacional do trabalho. Ela pode
aprofundá-la.
Por
isso, mineração, data centers, inteligência artificial e cibersegurança são
partes da mesma disputa. Um Estado que protege dados em sistemas que não
controla, executa políticas públicas em nuvens de terceiros e industrializa
minerais sem dominar as etapas tecnológicas de maior valor pode ter leis
soberanas e continuar materialmente dependente.
A nuvem
tem chão. O algoritmo tem subsolo.
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Quando a empresa chega acompanhada do Estado
Em 7 de
julho de 2026, representantes da Embaixada dos Estados Unidos foram ao gabinete
do deputado Aliel Machado, relator do projeto de regulação concorrencial dos
mercados digitais. Segundo o parlamentar, pediram o adiamento da votação depois
de terem sido procurados por empresas de tecnologia. A embaixada confirmou a
reunião e não comentou o conteúdo da conversa. Nenhuma empresa assumiu
publicamente ter solicitado a intervenção.
Poucos
dias depois, o governo Donald Trump adotou medidas comerciais contra o Brasil
ao final de uma investigação baseada na Seção 301 da legislação
norte-americana. Entre os temas examinados pelo USTR estava o comércio digital
e o tratamento dado no Brasil a empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Não
há prova de que os dois episódios tenham sido partes de uma operação única. O
que importa é o patamar alcançado pela disputa. Regular empresas
norte-americanas passou a ter custo potencial na relação entre Estados.
Esse
deslocamento revela o que a retórica da tecnologia global costuma esconder.
Google, Meta, Amazon, Microsoft e outras gigantes operam no mundo inteiro, mas
possuem centros de comando, propriedade intelectual e interesses estratégicos
ancorados nos Estados Unidos. Quando esses interesses entram em contenciosos
diplomáticos, a tecnologia deixa de parecer desterritorializada. Ela reaparece
como instrumento de poder nacional.
É nesse
terreno que guerra informacional e operação psicológica deixam de ser sinônimos
de notícia falsa. O objetivo mais eficiente é alterar a percepção do conflito.
Regulação vira censura. Política industrial vira protecionismo. Controle de
concentração econômica vira hostilidade à inovação. O debate se desloca da
propriedade da infraestrutura para a liberdade do serviço, do domínio dos dados
para a conveniência do aplicativo, da dependência material para a promessa de
eficiência.
As
plataformas possuem uma vantagem que nenhum lobby clássico teve. Participam da
disputa política e controlam parte relevante das infraestruturas por onde a
sociedade percebe essa disputa. São empresas privadas capazes de operar
serviços indispensáveis ao Estado, organizar fluxos massivos de informação e
negociar em escala maior do que a economia de muitos países. A noção de
company-state ajuda a entender esse salto sem confundir empresa e governo. O
poder surge quando funções materiais antes concentradas no Estado passam a
depender de corporações que o próprio Estado tem dificuldade de regular.
O Vale
do Silício não precisa governar Brasília. Basta tornar determinadas escolhas
soberanas economicamente caras, tecnologicamente difíceis e politicamente
minoritárias.
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A soberania que chegará ao Congresso em fevereiro
Quando
o novo Congresso tomar posse, encontrará decisões que a legislatura anterior
deixou abertas e políticas recém-criadas que ainda precisam existir fora do
papel. O marco da inteligência artificial continua sem conclusão. A regulação
concorrencial dos mercados digitais não virou lei. O Marco Legal da
Cibersegurança permanece em tramitação. Redata e a política de minerais
críticos ainda terão de provar se conseguem transformar incentivo e recurso
natural em capacidade tecnológica brasileira.
Lula
passou quatro anos tentando abrir essas frentes num Congresso que já resistia à
regulação. Ganhou instrumentos importantes, perdeu batalhas decisivas e deixou
uma agenda que dependerá de implementação, orçamento, fiscalização e maioria
política. A partir de 2027, a correlação de forças piora justamente quando a
disputa deixa o papel e passa a decidir quem controla as estruturas.
O
Brasil tem energia, água, território, mercado interno, minerais estratégicos,
universidades, empresas públicas e instituições de pesquisa. O que nunca
conseguiu resolver de forma permanente foi a passagem entre possuir recursos e
controlar as cadeias que transformam esses recursos em poder. A tecnologia
torna essa contradição mais severa porque concentra valor justamente onde o
país é mais dependente, no processamento, no hardware, na nuvem, nos modelos,
nas patentes e no capital.
É nesse
espaço entre possuir recursos e controlar a cadeia que o próximo ciclo será
decidido. Uma política pode chamar um mineral de estratégico e continuar
exportando sua inteligência. Um data center pode gerar investimento e continuar
sendo uma extensão física de uma nuvem estrangeira. Uma lei pode exigir
proteção de dados e depender de infraestrutura sobre a qual o Estado não possui
domínio. Soberania escrita não basta.
O
conflito, portanto, não é entre tecnologia e atraso. É entre formas diferentes
de inserção tecnológica. Uma aceita que as infraestruturas decisivas do século
sejam controladas por poucas corporações estrangeiras e procura negociar
condições dentro dessa dependência. A outra tenta usar território, energia,
ciência, mercado e recursos naturais para conquistar posições de comando nas
cadeias que organizarão informação, indústria e segurança.
O
algoritmo não venceu porque uma máquina derrotou a política. Venceu quando
relações econômicas construídas ao redor da tecnologia se tornaram fortes o
suficiente para condicionar as instituições encarregadas de regulá-las.
A
partir de 2027, o Brasil descobrirá se ainda consegue inverter essa relação.
Fonte:
Viomundo

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