EDUCAÇÃO:
Escolas fake-militares e a militarização como privatização
Em
março de 2024, o município de São José de Ribamar, na Região Metropolitana de
São Luís, rescindiu o acordo de cooperação que mantinha desde 2017 com a
Polícia Militar do Maranhão para a implantação de um colégio “militar” em sua
rede municipal. A medida fez com que o Colégio Militar Tiradentes VI voltasse a
se chamar Escola Municipal Parque Vitória.
A
retirada dos militares da escola se deveu à decisão unilateral da PM do
Maranhão de fechar as turmas de Anos Iniciais do Ensino Fundamental, que
obrigaria a Secretaria Municipal de Educação de São José de Ribamar a
transferir centenas de crianças para outras unidades escolares. A resposta da
prefeitura à intromissão da PM foi o cancelamento da parceria, que o governo do
estado do Maranhão tentou reativar com uma estapafúrdia Ação Civil Pública
contra o município.
O
prefeito ribamarense Dr. Julinho (Podemos) não chega a ser um baluarte da
desmilitarização de escolas. São José de Ribamar possui outros dois colégios
“militares” do Corpo de Bombeiros do Maranhão e mais seis escolas “da guarda
municipal”, sendo uma delas a própria Escola Municipal Parque Vitória,
ex-colégio “militar” e atual escola “cívica” com práticas disciplinares
semelhantes às da PM.
Apesar
disso, este caso particular de “desmilitarização” interessa por revelar duas
coisas: 1) o bizarro nível de invasão da competência federativa municipal por
um governo estadual, fenômeno perturbadoramente corriqueiro em redes municipais
militarizadas em parcerias com polícias e corpos de bombeiros; 2) o
funcionamento de escolas “militares” que não são propriamente militares.
Esta
declaração do prefeito de São José de Ribamar, feita alguns meses após a saída
dos policiais da Escola Municipal Parque Vitória, ilustra bem este segundo
ponto: “Não tenho conhecimento de que o governador manda uma cibalena para as
escolas [os colégios ‘militares’]. (…) A prefeitura custeia desde a alimentação
dos alunos até os professores e demais funcionários. (…) O governo do estado
tenta ganhar méritos em uma educação em que ele não investe. O único apoio
estadual nas unidades de ensino é o pagamento dos bombeiros militares que atuam
nas instituições. Todo o restante é responsabilidade da prefeitura”. (Dr.
Julinho, 17 dez. 2024)
Em
números exatos, o Brasil possui 96 escolas/colégios efetivamente militares: 71
estaduais, vinculados às polícias e corpos de bombeiros militares, e 25
federais, vinculados às três forças armadas. Essas escolas de educação básica
são administradas pelas secretarias de segurança pública dos estados e pelo
Ministério da Defesa, e não pelas secretarias de educação ou pelo MEC. Operam,
inclusive, dentro de sistemas de ensino de natureza militar criados por leis
específicas.
A não
ser por um ou outro repasse pontual, essas escolas não são financiadas com
recursos da educação, chegando a funcionar como verdadeiras escolas privadas,
com cobrança regular de mensalidades e taxas de uniforme e material didático,
processos seletivos de ingresso e reserva da maior parte de suas vagas para
dependentes de militares.
Há
variações. Algumas escolas militares são gratuitas, outras disponibilizam mais
vagas para filhos de civis; umas selecionam por sorteios, outras por provas;
algumas tem mais de cinquenta anos, outras foram criadas a partir da conversão
de escolas regulares e da doação de prédios por secretarias estaduais de
educação. Seja como for, elas são autorizadas por lei e sua existência e
funcionamento não estão sendo questionados no debate público ou na justiça.
Em
paralelo a esse universo diminuto de escolas verdadeiramente militares – e, no
limite, privadas –, há um conjunto 344% maior de estabelecimentos públicos de
ensino que também adotam o nome de escola ou colégio “militar”, mas que são, do
ponto de vista administrativo-financeiro, quase idênticos às escolas
denominadas “cívico-militares” que ocupam o centro da controvérsia jurídica e
social no país.
Essas
escolas fake-militares totalizam 330 unidades, sendo 201 estaduais e 129
municipais. Representam 20,6% das 1.601 escolas públicas militarizadas no
Brasil e, além do nome, imitam os colégios militares na estrutura e hierarquia
de quartel, na cobrança de taxas de manutenção e fardamento, nos processos
seletivos e nas reservas de vagas para filhos de militares.
A
diferença essencial é que essas escolas integram formalmente os sistemas de
ensino estaduais e municipais; sendo, portanto, financiadas com verbas da
educação. Todavia, são administradas apenas parcialmente pelas secretarias de
educação, que pagam todas as contas das escolas fake-militares, mas perdem
parte crucial do poder decisório em suas próprias redes de ensino.
Os
termos de cooperação vigentes entre corporações militares e secretarias de
educação Brasil afora para a implantação dessas escolas compreendem exigências
como: concentração de matrículas em etapas/ciclos específicos da educação
básica, fechamento de classes noturnas e da Educação de Jovens e Adultos,
reforma completa e climatização de prédios escolares, corpo docente com
dedicação exclusiva e, em alguns casos, até o fornecimento de viaturas. Isso
vale tanto para as escolas “militares” quanto para aquelas que adotam nomes
mais honestos, como “cívico-militar” ou “militarizada”.
Às
secretarias de educação cabe assegurar que tudo esteja a contento da autoridade
fardada, sob o risco de esta denunciar o descumprimento dos acordos e abandonar
as escolas; inclusive com estardalhaço em redes sociais para fomentar a
antipatia popular contra secretários, prefeitos e governadores. Em nossas
pesquisas, documentamos dezenas de casos assim.
Nas
“parcerias” com estados e municípios, as corporações militares entram com a
vontade de mandar: estabelecem nas escolas a rotina, a ética e a estética do
quartel, aplicam lições de civismo, ameaçam crianças e adolescentes com
castigos físicos e impõem seus padrões de “normalidade”. No entanto, como
explica o Dr. Julinho, não compram nem um comprimidinho para dor de cabeça. Na
verdade, toda a dor de cabeça fica com as secretarias de educação, para as
quais, além da responsabilidade de financiar, também sobra a de lidar com as
consequências mais perversas da substituição de educadores profissionais por
militares, notadamente os incontáveis casos de violência, assédio e abuso de
autoridade registrados diuturnamente nas escolas militarizadas.
Não é à
toa que a quantidade de escolas efetivamente militares é tão menor que a de
escolas militarizadas, sejam elas cívico-militares, fake-militares ou coisa que
o valha. Os orçamentos das corporações militares não permitem o luxo de
sustentar redes escolares com a escala das redes de ensino regulares; tendo em
vista, sobretudo, o tamanho das folhas de pagamento da educação, que são ainda
maiores que as da segurança.
Para se
ter uma ideia, o Exército Brasileiro, que comanda a maioria das escolas
militares na esfera federal, possui apenas dezoito estabelecimentos de educação
básica, incluindo os catorze colégios do Sistema de Ensino do Exército (Lei n.
9.786/1999). No âmbito estadual, as maiores redes militares são as das polícias
de Paraná (7 escolas), Santa Catarina (7), Rio Grande do Sul (8) e Minas Gerais
(30). Essas redes enxutas contrastam com as dos colégios fake-militares em
estados como Rondônia (15 escolas), Mato Grosso (31), Goiás (83) e Maranhão
(136).
Como
aponta a Nota Técnica que acompanhou o lançamento da base de dados “Escolas de
educação básica militarizadas e militares no Brasil”, coordenada por mim, o
número de escolas militarizadas não é um indicador adequado para avaliar o grau
de ocupação militar de uma rede de ensino. Dessa forma, comparar a relevância
das escolas militares e fake-militares nas redes de ensino requer que estimemos
os pesos das matrículas nesses dois tipos de escolas em relação ao total de
matrículas públicas disponíveis.
É assim
que descobrimos que, enquanto os trinta Colégios Militares Tiradentes da
Polícia Militar de Minas Gerais (escolas militares de verdade) respondem por
apenas 1,1% e 1,2% do total de matrículas públicas respectivamente disponíveis
para os Anos Finais do Ensino Fundamental e o Ensino Médio em Minas Gerais, os
quinze Colégios Tiradentes da Polícia Militar de Rondônia (escolas
fake-militares custeadas com recursos da educação estadual) abocanham 8,5% e
6,0% das matrículas da rede rondoniense para as mesmas etapas. Logo, em termos
relativos, as escolas fake-militares têm peso bem maior nas matrículas públicas
do que as efetivamente militares.
Na
média global, as matrículas nas 96 escolas militares estaduais e federais do
país representam no máximo 0,4% da matrícula total para os Anos Finais e 0,5%
para o Ensino Médio nos dezessete estados em que estão localizadas. Nessa
categoria, o caso extremo é o do Distrito Federal, onde três colégios militares
estaduais (duas unidades do Colégio Militar Dom Pedro II do Corpo de Bombeiros
e uma do Colégio Militar Tiradentes da Polícia Militar) e o federal Colégio
Militar de Brasília aglutinam 2,4% e 3,7% das matrículas públicas
respectivamente disponíveis para os Anos Finais e o Ensino Médio.
Por sua
vez, as escolas fake-militares estaduais presentes em dez unidades da federação
comprometem, em valores médios, 3,7% e 4,6% das matrículas públicas dos Anos
Finais e do Ensino Médio nesses estados. Goiás, pioneiro na militarização
massiva de escolas estaduais, é o que possui o maior número de escolas
fake-militares em uma única rede (83), que comprometem 12,7% e 16,9% das
matrículas públicas disponíveis no estado para os Anos Finais do Ensino
Fundamental e o Ensino Médio.
A
despeito dos números aparentemente mais modestos, as escolas “militares” de
Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins ainda dividem espaço nas
redes desses estados com escolas cívico-militares igualmente financiadas com
verbas da educação. Para além da fiscalização disciplinar cotidiana e da
pantomima patriótica encenada em pátios e corredores – tarefas desempenhadas
por monitores (ou instrutores, ou tutores) militares –, dois terços das escolas
militarizadas no Brasil possuem militares atuando em cargos de gestão. Isso
reduz ainda mais as diferenças entre as escolas cívico-militares e as
falsamente militares, já que muitas das primeiras também se esforçam para
copiar a forma organizacional dos quartéis.
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Muito além do cabide de emprego
Os
críticos costumam associar a militarização de escolas a um certo apetite dos
militares por um complemento de renda subvencionado pela educação pública. A
popular boquinha, que beneficia tanto militares aposentados quanto da ativa nas
mais de 1.600 escolas públicas militarizadas pelo país.
Uma
visita ao Siope, o Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em
Educação, permite identificar a presença de militares remunerados com a fração
de 70% dos recursos do Fundeb, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da
Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, reservada para
o pagamento de profissionais da educação. Militares que, nas folhas de
pagamento de pelo menos duas centenas de municípios, aparecem identificados
tanto como profissionais da gestão escolar quanto do magistério, em contratos
temporários ou cargos comissionados. Há militares, inclusive da ativa,
remunerados por mais de um município.
Ocorre
que, nas escolas fake-militares, essa boquinha ultrapassa o pagamento aos
militares e estende-se aos seus dependentes, que podem ter vagas reservadas e
acesso preferencial a escolas diferenciadas em redes públicas de ensino
frequentemente precárias. Com isso queremos dizer que a ocupação militar das
redes públicas tem um inegável caráter de privatização. Em troca da dádiva de
implantar uma pedagogia da violência contra crianças e adolescentes, os
militares recebem tanto ou mais que os profissionais da educação e ainda exigem
do Estado uma escola com infraestrutura melhorada e professores com dedicação
exclusiva para seus próprios filhos.
O caso
mais patológico de privatização de escolas públicas via militarização é o do
Maranhão, com duas “redes” escolares – Colégio Militar Tiradentes (PM) e
Colégio Militar 2 de Julho (Bombeiros) – que cresceram quase exponencialmente
na última década. Embora os processos de militarização escolar tenham se
iniciado no estado em 2006, sua expansão começou no segundo mandato de Flávio
Dino e aprofundou-se de forma assustadora no governo de seu vice e sucessor no
cargo, Carlos Brandão (MDB).
Das 137
escolas hoje militarizadas pela Polícia Militar e pelo Corpo de Bombeiros
Militar do Maranhão, apenas 11 são estaduais. Todas as outras são escolas
municipais que, a exemplo da de São José de Ribamar, migraram para um regime de
gestão “compartilhada” entre as secretarias municipais de educação e uma das
duas corporações militares. Gestão em que, como vimos, uma das partes
efetivamente comanda as escolas, enquanto a outra paga as contas e resolve as
crises.
A
militarização de escolas é um dos pilares da agenda municipalista de Carlos
Brandão (MDB), que tentou emplacar o sobrinho como governador. Orleans Brandão
(MDB), que também era secretário estadual de assuntos municipalistas no governo
do tio, foi derrotado por Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís que não
esboçou a ideia de acabar com as escolas fake-militares no estado.
O
Maranhão é um estado com quase 100% das matrículas do Ensino Fundamental
municipalizadas, de modo que a rede estadual é basicamente responsável pela
oferta do Ensino Médio. Isso significa que, enquanto as 11 escolas
fake-militares estaduais comprometem 0,8 e 2,2% das matrículas dos Anos Finais
do Ensino Fundamental e do Ensino Médio ofertadas no estado, as 126 municipais
comprometem 4,5% das matrículas públicas de Anos Iniciais e 17,7% de Anos
Finais nos 99 municípios onde estão implantadas. Destes, 42 municípios têm
menos de 20 mil habitantes, o que implica um comprometimento elevado das
matrículas do Ensino Fundamental pela militarização e a impossibilidade de
estudar em uma escola pública que não tenha militares no lugar de educadores.
Nos
municípios maranhenses de Milagres do Maranhão (8.818 hab.), São Roberto (4.554
hab.) e Satubinha (8.770 hab.), por exemplo, a quantidade de matrículas
militarizadas ultrapassa 50% das matrículas públicas disponíveis para os Anos
Finais do Ensino Fundamental. As escolas “militares” de São Roberto e Satubinha
foram criadas recentemente, e ainda não há informações disponíveis sobre
processos seletivos. Já na de Milagres do Maranhão, os editais de ingresso
preveem exames de admissão “com reserva de 50% das vagas aos dependentes legais
dos servidores militares do estado do Maranhão, funcionários civis da PMMA,
professores, funcionários dos colégios militares da PMMA, e também alunos
egressos de Colégios Militares Tiradentes de municípios ligados à Diretoria de
Ensino Regular da PMMA”.
O
Colégio Militar Tiradentes X é a única escola na área urbana de Milagres do
Maranhão com oferta de Anos Finais, concentrando 52,8% do total de matrículas
para o ciclo/etapa disponíveis no município. Segundo os dados do Censo Escolar
2025 do Inep, todas as demais matrículas para alunos entre 11 e 14 anos estão
em duas escolas rurais distantes 30 km e 50 km da sede do município. Tal como
ocorre no resto do país, os indicadores de infraestrutura da escola
militarizada de Milagres do Maranhão são melhores que os das demais escolas.
Depois
da Bahia, o Maranhão é o estado do país que mais se beneficia das
complementações da União ao Fundeb, destinadas tanto a estados que não alcançam
o valor anual mínimo por aluno definido nacionalmente (a complementação VAAF)
quanto a entes federados com capacidades fiscais limitadas (a complementação
VAAT).
Em
2026, só a complementação VAAT colocará R$ 2,7 bilhões adicionais do Fundeb nos
municípios maranhenses. É escandaloso que complementações de recursos que
teriam a finalidade de equalizar as condições de oferta educativa desses
municípios com relação ao restante do país sejam canalizadas para custear
escolas “militares” com processos seletivos de ingresso e distribuidoras de
privilégios para descendentes de bombeiros e policiais, inclusive em municípios
pequenos.
A esta
indevida apropriação da escola pública soma-se a alta frequência de cultos
evangélicos e “louvores” nas dependências das escolas “militares” geridas por
policiais e bombeiros do Maranhão, que também impõem seus valores religiosos
privados e violam outro princípio do Estado brasileiro e da educação pública
nacional: o da laicidade. Durante a campanha eleitoral de 2026, alguns desses
colégios “militares” serviram como pontos de encontro de carreatas e motociatas
organizadas por candidatos bolsonaristas nos municípios maranhenses.
Em
comparação às escolas fake-militares do Maranhão, os 83 Colégios Estatuais da
Polícia Militar de Goiás selecionam os seus estudantes por sorteio e deixaram
de reservar vagas para dependentes de militares em 2017, após recomendação do
Ministério Público Estadual. Apesar disso, as escolas “militares” goianas têm
práticas altamente seletivas e, nelas, os policiais também se apossam de uma
gestão pedagógica que deveria ser realizada por educadores profissionais.
Segmentação da rede pública de ensino e amplificação de desigualdades escolares
financiadas com recursos que deveriam servir para combatê-las.
Batizar
escolas públicas financiadas com recursos carimbados da educação como
“Militares” ou “da Polícia Militar” é uma estratégia para livrá-las do
escrutínio público. Afinal, elas seriam militares, amparadas por lei; e não
cívico-militares, abusivas e potencialmente inconstitucionais. Essa confusão
tem servido inclusive como disfarce para o avanço das escolas cívico-militares.
Recentemente,
o governador-tampão de Minas Gerais e candidato derrotado ao governo Mateus
Simões (PSD) tentou levar adiante a bravata de seu antecessor, o presidenciável
Romeu Zema (Novo), e anunciou a intenção de criar setecentas escolas
cívico-militares no estado. Diante da impossibilidade de cumprir a promessa
faraônica num estado altamente endividado e com instâncias de controle
vigilantes, resolveu propor a conversão de trinta escolas estaduais em Colégios
Tiradentes da Polícia Militar. A diferença desses potenciais novos colégios
“militares”, notada inclusive por membros da PM mineira, é que apenas 50% das
vagas seriam destinadas a dependentes de militares, contra os quase 100% das
vagas reservadas nas trinta unidades efetivamente militares atuais.
O
movimento esboçado por Simões não é inédito, e já foi realizado, como mostrou a
pesquisa de Eduardo Junio Ferreira Santos, no estado da Bahia, cujo Colégio da
Polícia Militar (CPM) – inicialmente militar – viabilizou a sua expansão no
estado através de uma parceria com a Secretaria da Educação do Estado da Bahia,
que converteu o CPM de escola militar em fake-militar. Depois, sob o
nome-fantasia “Modelo CPM”, ampliou-se para mais de uma centena de municípios
baianos, em acordos de cooperação que obrigam prefeituras paupérrimas a criar
cargos comissionados para remunerar policiais. Essas escolas, pelo menos, não
se reivindicam militares e aceitam de bom grado a alcunha “cívico-militar”.
A falta
de definições mais precisas de escola militar e militarizada alimenta a
irresponsabilidade de secretários de educação, prefeitos e governadores que,
interessados em auferir dividendos político-eleitorais com a pauta educacional
reacionária, entregam escolas públicas a militares e apostam na desinformação
sobre o que as escolas militares realmente são, como funcionam e quem paga por
elas.
Os
críticos da militarização, com muita justiça, denunciam o cabide de emprego que
as escolas militarizadas representam no Brasil, drenando os disputados recursos
da educação pública para o pagamento de prebendas e sinecuras às castas
fardadas. Sem desconsiderar a relevância desse debate, é preciso que as
críticas às escolas cívico-militares se estendam àquelas que, fingindo-se de
militares, chupinham as verbas da educação com a mesma voracidade e amplificam
desigualdades escolares em esquemas de privatização que excluem a maioria e
agraciam uns poucos e afortunados filhos de Tiradentes.
Fonte:
Por Fernando Cássio, no Le Monde

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