Paralelos
entre o comunismo e o cristianismo primitivo
“Ninguém
pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou será fiel a
um e desprezará o outro. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”.
A
advertência consta do Evangelho de Mateus, um dos quatro evangelhos canônicos e
primeiro livro do Novo Testamento. Ainda assim, não são poucas as lideranças
religiosas contemporâneas interessadas em transformar essa passagem bíblica em
uma espécie de nota de rodapé inconveniente.
Muitas
igrejas têm preferido substituir a admoestação bíblica contra a ganância por um
cristianismo mais palatável ao capitalismo, no qual Deus e o dinheiro não
apenas convivem como firmam sociedade, com direito a promessas generosas de
retorno aos “investimentos” dos fiéis.
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Engels e o cristianismo primitivo
Não foi
sempre assim. Muitos séculos antes de o socialismo se tornar uma corrente
política organizada, as primeiras comunidades cristãs já experimentavam formas
de convivência e organização social baseadas na partilha e na solidariedade.
No
texto “Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo”, publicado em
1895, o teórico alemão Friedrich Engels, discorre sobre os paralelos entre a
opressão imposta aos primeiros seguidores de Cristo e a situação dos
trabalhadores explorados pelo capitalismo em seu tempo.
Na
leitura de Engels, o cristianismo surgiu em um ambiente marcado pela pobreza,
pela escravidão e pela exclusão social, reunindo pessoas que ocupavam posições
subalternas na sociedade romana. Seus primeiros adeptos também enfrentaram a
repressão das autoridades e eram rotuladas como uma ameaça aos valores e às
estruturas estabelecidas. Tanto o cristianismo primitivo quanto o comunismo
foram perseguidos por representaram uma ameaça à ordem social que privilegiava
as classes dominantes.
A
comparação, porém, tinha um limite fundamental. O cristianismo oferecia aos
seus seguidores uma perspectiva de redenção vinculada à vida após a morte,
enquanto o comunismo defendia a luta pela emancipação humana em nossa própria
realidade especial. Em vez de esperar a justiça divina no plano espiritual, os
socialistas defendiam a transformação das condições materiais nessa vida.
Na
mesma obra, Engels analisa semelhanças entre o modo de organização social dos
primeiros cristãos e o ideário comunista e aborda os paralelismos dos dois
fenômenos ao longo da história, pontuando que as sublevações camponesas
medievais quase sempre foram permeadas pelo ideal de restauração dos princípios
do cristianismo primitivo.
Engels
cita exemplos históricos de movimentos cristãos organizados de forma similar
aos princípios socialistas e aborda a influência das ideias cristãs sobre os
operários franceses que se juntaram aos levantes de 1830. Essa semelhança foi
sintetizada de forma enfática pelo historiador Ernest Renan, um dos principais
estudiosos do cristianismo, ao afirmar: “Se quiserem ter uma ideia de como eram
as primeiras comunidades cristãs, visitem uma seção local da Primeira
Internacional”.
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Jesus, o primeiro comunista
Jesus
Cristo foi descrito por diversos socialistas cristãos como “o primeiro
comunista”. Suas críticas à ganância dos ricos, sua insubmissão aos interesses
dos poderosos e sua predileção pela defesa dos famintos, dos pobres e dos
excluídos influenciaram a ação de diversas comunidades cristãs ao longo da
Idade Média. E, com efeito, há diversas passagens bíblicas que repreendem a
avareza dos ricos e o acúmulo dos bens.
O
“irmão” de Jesus, São Tiago, o Justo, é registrado na Bíblia como autor de uma
severa advertência aos aristocratas que exploram os trabalhadores, como se lê
em Tiago 5:1-6: “Ouçam agora vocês, ricos! Chorem e lamentem-se, tendo em vista
a miséria que lhes sobrevirá. A riqueza de vocês apodreceu e as traças
corroeram as suas roupas. O ouro e a prata de vocês enferrujaram e a ferrugem
deles testemunhará contra vocês e como fogo lhes devorará a carne. Vocês
acumularam bens nestes últimos dias. O salário dos trabalhadores que ceifaram
os seus campos, e que por vocês foi retido com fraude, está clamando contra
vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos.
Vocês viveram luxuosamente na terra, desfrutando prazeres, e fartaram-se de comida
em dia de abate. Vocês têm condenado e matado o justo, sem que ele ofereça
resistência.”
Há
ainda versículos da Bíblia que indicam semelhanças entre as formas de
organização dos apóstolos de Cristo e o ideário comunista. Em Atos 2:44-45 e
4:32-35, por exemplo, lê-se: “E todos os que criam estavam juntos e tinham tudo
em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam entre todos,
conforme a necessidade de cada um. (…) E era um só o coração e uma só a alma da
multidão dos que criam, e ninguém considerava como próprias as coisas que
possuía, mas todas as coisas lhes eram comuns. Não havia entre eles nenhum
necessitado, pois todos os que possuíam heranças ou casas as vendiam e traziam
o valor do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. E se
repartia a qualquer um, conforme a sua necessidade.”
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As sociedades cristãs comunais
As
primeiras comunidades cristãs viviam em sociedades comunais, sob regimes de
cooperação mútua e repartição de bens. Durante a Baixa Idade Média, muitos
mosteiros conseguiram manter esse sistema de organização social comunal e
alguns teólogos como João Crisóstomo e Basílio de Cesareia advogaram ideais de
justiça social e de ação da igreja em prol da ajuda aos mais necessitados.
A
institucionalização do cristianismo, reconhecido como religião oficial do
Império Romano, entretanto, levou ao um processo gradual de elitização do clero
e de acomodação da interpretação da doutrina à ordem econômica e aos poderes
organizados. A igreja se tornou um instrumento de domínio ideológico e controle
social. Com isso, as organizações cristãs comunais entraram em colapso e os
“dissidentes” que pregavam a retomada das origens cristãs comunais passaram a
ser perseguidos e reprimidos pelas autoridades eclesiásticas.
São
Francisco de Assis, por exemplo, teve inúmeros conflitos com o clero por pregar
a renúncia aos bens materiais em favor dos necessitados. Pedro Valdo, criador
da comunidade dos “Pobres de Lyon”, chegou a ser expulso e excomungado pela
Igreja Católica por questionar a avareza dos aristocratas cristãos.
A
defesa de formas mais igualitárias de organização social reapareceu em diversos
movimentos religiosos posteriores. Em 1476, o pregador alemão Hans Böhm
mobilizou milhares de camponeses com uma mensagem que combinava fervor
religioso e críticas às desigualdades sociais. Acabou sendo preso e executado
pelas autoridades.
Em
1516, Thomas More, mártir da Igreja Católica, publicou “Utopia”, obra que
defende a criação de uma nova forma de organização social, onde a propriedade
privada seria abolida e os bens seriam divididos entre os necessitados. Em
1533, Jacob Hutter fundou as comunidades anabatistas — a “ala radical” da
Reforma Protestante, que vivia em sistema de cooperação mútua e comunhão
econômica. Engels chegou a se referir aos anabatistas como “protocomunistas”.
Na
Inglaterra do século 17, Gerrard Winstanley levou essas ideias para o terreno
da contestação social. Ligado aos “Diggers”, ele defendia que a terra não
deveria pertencer exclusivamente a proprietários privados e que aqueles que a
cultivavam deveriam ter o direito de administrá-la coletivamente. Seus
seguidores chegaram a ocupar terras e estabelecer experiências comunitárias,
mas foram reprimidos pelas autoridades e pelos proprietários. Na Rússia, os
Doukhobors também desenvolveram comunidades religiosas nas quais a cooperação
e, em determinados períodos, a posse coletiva da terra desempenhavam papel
importante.
Esses
movimentos não formavam uma tradição política homogênea e tampouco podem ser
identificados diretamente com o socialismo ou o comunismo modernos. Eram
experiências distintas, separadas por séculos e baseadas em diferentes
interpretações do cristianismo. Ainda assim, tinham em comum a crítica à
concentração da riqueza, aos privilégios sociais e à pobreza extrema. Suas
experiências seriam posteriormente recuperadas por pensadores do século 19
interessados em encontrar antecedentes históricos para as propostas de
transformação da sociedade.
O
socialismo cristão oitocentista retomou parte dessa tradição ao procurar
conciliar os ensinamentos do cristianismo com a defesa dos trabalhadores e a
crítica às desigualdades produzidas pelo capitalismo industrial. Embora
divergisse do materialismo marxista e, em muitos casos, rejeitasse a luta de
classes como instrumento de transformação, essa corrente contribuiu para a
disseminação de reivindicações relacionadas à justiça social, à organização dos
trabalhadores e à crítica da exploração econômica.
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De Rosa Luxemburgo à Teologia da Libertação
No
início do século 20, Rosa Luxemburgo também se dedicou a analisar os paralelos
entre o cristianismo e o socialismo. No texto “O Socialismo e as Igrejas”,
publicado em 1905, Luxemburgo critica as posturas reacionárias do clero,
identificando-as como contraditórias em relação aos ensinamentos de Cristo: “O
clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão,
põe-se em flagrante contradição com a doutrina cristã. (…) Os padres de hoje,
que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos
cristãos, pois estes não passavam de ardentes comunistas. (…) Se Cristo
aparecesse na terra, atacaria com certeza os padres, os bispos e arcebispos que
defendem os ricos e vivem explorando os desafortunados, como outrora atacou os
comerciantes que expulsou do templo para que a presença ignóbil destes não
maculasse a Casa de Deus. (…) Hoje sois vós, com as vossas mentiras e
ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós que trazemos aos pobres e aos
explorados as novas da fraternidade e da igualdade. Somos nós quem estamos a
marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é
mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar
no reino do céu”.
O
século 20, entretanto, seria marcado pelo distanciamento cada vez maior entre
os defensores do socialismo e a religião organizada, atenuado apenas por
algumas iniciativas esparsas e de um reformismo bem mais abrandado, como a
emergência da democracia cristã e fundação da Liga Socialista da Igreja
Episcopal.
Na
América Latina, o socialismo cristão influenciou o surgimento da Teologia da
Libertação — uma síntese entre a teologia cristã e análises socioeconômicas
enfocadas na preocupação social com os pobres e com a libertação política dos
povos oprimidos, que se tornaria práxis de alguns teólogos como Leonardo Boff,
Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino.
A
Teologia da Libertação influenciou o desenvolvimento de movimentos análogos em
outras partes do mundo, tais como a Teologia Negra nos Estados Unidos e África
do Sul, a Teologia da Libertação Palestina, a Teologia Dalit na Índia e a
Teologia Minjung na Coreia do Sul.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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