quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Paralelos entre o comunismo e o cristianismo primitivo

“Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”.

A advertência consta do Evangelho de Mateus, um dos quatro evangelhos canônicos e primeiro livro do Novo Testamento. Ainda assim, não são poucas as lideranças religiosas contemporâneas interessadas em transformar essa passagem bíblica em uma espécie de nota de rodapé inconveniente.

Muitas igrejas têm preferido substituir a admoestação bíblica contra a ganância por um cristianismo mais palatável ao capitalismo, no qual Deus e o dinheiro não apenas convivem como firmam sociedade, com direito a promessas generosas de retorno aos “investimentos” dos fiéis.

<><> Engels e o cristianismo primitivo

Não foi sempre assim. Muitos séculos antes de o socialismo se tornar uma corrente política organizada, as primeiras comunidades cristãs já experimentavam formas de convivência e organização social baseadas na partilha e na solidariedade.

No texto “Contribuição Para a História do Cristianismo Primitivo”, publicado em 1895, o teórico alemão Friedrich Engels, discorre sobre os paralelos entre a opressão imposta aos primeiros seguidores de Cristo e a situação dos trabalhadores explorados pelo capitalismo em seu tempo.

Na leitura de Engels, o cristianismo surgiu em um ambiente marcado pela pobreza, pela escravidão e pela exclusão social, reunindo pessoas que ocupavam posições subalternas na sociedade romana. Seus primeiros adeptos também enfrentaram a repressão das autoridades e eram rotuladas como uma ameaça aos valores e às estruturas estabelecidas. Tanto o cristianismo primitivo quanto o comunismo foram perseguidos por representaram uma ameaça à ordem social que privilegiava as classes dominantes.

A comparação, porém, tinha um limite fundamental. O cristianismo oferecia aos seus seguidores uma perspectiva de redenção vinculada à vida após a morte, enquanto o comunismo defendia a luta pela emancipação humana em nossa própria realidade especial. Em vez de esperar a justiça divina no plano espiritual, os socialistas defendiam a transformação das condições materiais nessa vida.

Na mesma obra, Engels analisa semelhanças entre o modo de organização social dos primeiros cristãos e o ideário comunista e aborda os paralelismos dos dois fenômenos ao longo da história, pontuando que as sublevações camponesas medievais quase sempre foram permeadas pelo ideal de restauração dos princípios do cristianismo primitivo.

Engels cita exemplos históricos de movimentos cristãos organizados de forma similar aos princípios socialistas e aborda a influência das ideias cristãs sobre os operários franceses que se juntaram aos levantes de 1830. Essa semelhança foi sintetizada de forma enfática pelo historiador Ernest Renan, um dos principais estudiosos do cristianismo, ao afirmar: “Se quiserem ter uma ideia de como eram as primeiras comunidades cristãs, visitem uma seção local da Primeira Internacional”.

<><> Jesus, o primeiro comunista

Jesus Cristo foi descrito por diversos socialistas cristãos como “o primeiro comunista”. Suas críticas à ganância dos ricos, sua insubmissão aos interesses dos poderosos e sua predileção pela defesa dos famintos, dos pobres e dos excluídos influenciaram a ação de diversas comunidades cristãs ao longo da Idade Média. E, com efeito, há diversas passagens bíblicas que repreendem a avareza dos ricos e o acúmulo dos bens.

O “irmão” de Jesus, São Tiago, o Justo, é registrado na Bíblia como autor de uma severa advertência aos aristocratas que exploram os trabalhadores, como se lê em Tiago 5:1-6: “Ouçam agora vocês, ricos! Chorem e lamentem-se, tendo em vista a miséria que lhes sobrevirá. A riqueza de vocês apodreceu e as traças corroeram as suas roupas. O ouro e a prata de vocês enferrujaram e a ferrugem deles testemunhará contra vocês e como fogo lhes devorará a carne. Vocês acumularam bens nestes últimos dias. O salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês foi retido com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Vocês viveram luxuosamente na terra, desfrutando prazeres, e fartaram-se de comida em dia de abate. Vocês têm condenado e matado o justo, sem que ele ofereça resistência.”

Há ainda versículos da Bíblia que indicam semelhanças entre as formas de organização dos apóstolos de Cristo e o ideário comunista. Em Atos 2:44-45 e 4:32-35, por exemplo, lê-se: “E todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam entre todos, conforme a necessidade de cada um. (…) E era um só o coração e uma só a alma da multidão dos que criam, e ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas todas as coisas lhes eram comuns. Não havia entre eles nenhum necessitado, pois todos os que possuíam heranças ou casas as vendiam e traziam o valor do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. E se repartia a qualquer um, conforme a sua necessidade.”

<><> As sociedades cristãs comunais

As primeiras comunidades cristãs viviam em sociedades comunais, sob regimes de cooperação mútua e repartição de bens. Durante a Baixa Idade Média, muitos mosteiros conseguiram manter esse sistema de organização social comunal e alguns teólogos como João Crisóstomo e Basílio de Cesareia advogaram ideais de justiça social e de ação da igreja em prol da ajuda aos mais necessitados.

A institucionalização do cristianismo, reconhecido como religião oficial do Império Romano, entretanto, levou ao um processo gradual de elitização do clero e de acomodação da interpretação da doutrina à ordem econômica e aos poderes organizados. A igreja se tornou um instrumento de domínio ideológico e controle social. Com isso, as organizações cristãs comunais entraram em colapso e os “dissidentes” que pregavam a retomada das origens cristãs comunais passaram a ser perseguidos e reprimidos pelas autoridades eclesiásticas.

São Francisco de Assis, por exemplo, teve inúmeros conflitos com o clero por pregar a renúncia aos bens materiais em favor dos necessitados. Pedro Valdo, criador da comunidade dos “Pobres de Lyon”, chegou a ser expulso e excomungado pela Igreja Católica por questionar a avareza dos aristocratas cristãos.

A defesa de formas mais igualitárias de organização social reapareceu em diversos movimentos religiosos posteriores. Em 1476, o pregador alemão Hans Böhm mobilizou milhares de camponeses com uma mensagem que combinava fervor religioso e críticas às desigualdades sociais. Acabou sendo preso e executado pelas autoridades.

Em 1516, Thomas More, mártir da Igreja Católica, publicou “Utopia”, obra que defende a criação de uma nova forma de organização social, onde a propriedade privada seria abolida e os bens seriam divididos entre os necessitados. Em 1533, Jacob Hutter fundou as comunidades anabatistas — a “ala radical” da Reforma Protestante, que vivia em sistema de cooperação mútua e comunhão econômica. Engels chegou a se referir aos anabatistas como “protocomunistas”.

Na Inglaterra do século 17, Gerrard Winstanley levou essas ideias para o terreno da contestação social. Ligado aos “Diggers”, ele defendia que a terra não deveria pertencer exclusivamente a proprietários privados e que aqueles que a cultivavam deveriam ter o direito de administrá-la coletivamente. Seus seguidores chegaram a ocupar terras e estabelecer experiências comunitárias, mas foram reprimidos pelas autoridades e pelos proprietários. Na Rússia, os Doukhobors também desenvolveram comunidades religiosas nas quais a cooperação e, em determinados períodos, a posse coletiva da terra desempenhavam papel importante.

Esses movimentos não formavam uma tradição política homogênea e tampouco podem ser identificados diretamente com o socialismo ou o comunismo modernos. Eram experiências distintas, separadas por séculos e baseadas em diferentes interpretações do cristianismo. Ainda assim, tinham em comum a crítica à concentração da riqueza, aos privilégios sociais e à pobreza extrema. Suas experiências seriam posteriormente recuperadas por pensadores do século 19 interessados em encontrar antecedentes históricos para as propostas de transformação da sociedade.

O socialismo cristão oitocentista retomou parte dessa tradição ao procurar conciliar os ensinamentos do cristianismo com a defesa dos trabalhadores e a crítica às desigualdades produzidas pelo capitalismo industrial. Embora divergisse do materialismo marxista e, em muitos casos, rejeitasse a luta de classes como instrumento de transformação, essa corrente contribuiu para a disseminação de reivindicações relacionadas à justiça social, à organização dos trabalhadores e à crítica da exploração econômica.

<><> De Rosa Luxemburgo à Teologia da Libertação

No início do século 20, Rosa Luxemburgo também se dedicou a analisar os paralelos entre o cristianismo e o socialismo. No texto “O Socialismo e as Igrejas”, publicado em 1905, Luxemburgo critica as posturas reacionárias do clero, identificando-as como contraditórias em relação aos ensinamentos de Cristo: “O clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão, põe-se em flagrante contradição com a doutrina cristã. (…) Os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos, pois estes não passavam de ardentes comunistas. (…) Se Cristo aparecesse na terra, atacaria com certeza os padres, os bispos e arcebispos que defendem os ricos e vivem explorando os desafortunados, como outrora atacou os comerciantes que expulsou do templo para que a presença ignóbil destes não maculasse a Casa de Deus. (…) Hoje sois vós, com as vossas mentiras e ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós que trazemos aos pobres e aos explorados as novas da fraternidade e da igualdade. Somos nós quem estamos a marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar no reino do céu”.

O século 20, entretanto, seria marcado pelo distanciamento cada vez maior entre os defensores do socialismo e a religião organizada, atenuado apenas por algumas iniciativas esparsas e de um reformismo bem mais abrandado, como a emergência da democracia cristã e fundação da Liga Socialista da Igreja Episcopal.

Na América Latina, o socialismo cristão influenciou o surgimento da Teologia da Libertação — uma síntese entre a teologia cristã e análises socioeconômicas enfocadas na preocupação social com os pobres e com a libertação política dos povos oprimidos, que se tornaria práxis de alguns teólogos como Leonardo Boff, Gustavo Gutiérrez, Juan Luis Segundo e Jon Sobrino.

A Teologia da Libertação influenciou o desenvolvimento de movimentos análogos em outras partes do mundo, tais como a Teologia Negra nos Estados Unidos e África do Sul, a Teologia da Libertação Palestina, a Teologia Dalit na Índia e a Teologia Minjung na Coreia do Sul.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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