O
enfrentamento da questão urbana brasileira como parte do projeto nacional de
desenvolvimento
Após
termos apresentado, no primeiro artigo deste especial, as bases da nossa
hipótese de que o planejamento do desenvolvimento urbano e regional brasileiro
pode atuar como espécie de força motriz do desenvolvimento econômico e social
nacional, pretendemos agora aprofundar essa abordagem, avançando em uma
perspectiva de caráter mais programático. Partimos do entendimento de que a
economia política expressa o que há de mais fundamental na organização de uma
sociedade, condicionando os processos de produção, circulação e reprodução
social e do capital. De modo que qualquer estratégia de desenvolvimento, para
ser efetiva, deve ser capaz de compreender essa dinâmica e, diante dos desafios
de cada tempo, reorientá-la, a fim de atingir determinados objetivos.
Quando
falamos em desenvolvimento, e particularmente em planejamento do
desenvolvimento, a dimensão do financiamento adquire centralidade. Afinal, a
capacidade de mobilizar recursos e direcioná-los para objetivos estratégicos
constitui uma das condições para a transformação das estruturas produtivas e
sociais de um país. É justamente nesse ponto que a dimensão urbana possui um
importante papel a cumprir. Como mencionado no artigo anterior, o enfrentamento
dos desafios urbanos brasileiros pode tanto elevar a produtividade sistêmica da
economia, fomentando a industrialização e a inovação tecnológica, quanto
contribuir para a redução das desigualdades sociais e territoriais, e para a
construção de uma relação mais sustentável com o meio ambiente.
A
questão que se coloca, portanto, é de como criar as condições econômicas,
financeiras e institucionais para que esse potencial possa efetivamente se
realizar. Para isso, não basta reconhecer a importância estratégica do urbano,
é necessário pensar os mecanismos capazes de mobilizar recursos, direcionar
investimentos e articular os diferentes setores da economia em torno de uma
nova frente de expansão das forças produtivas. É a partir dessa perspectiva que
organizamos nossa argumentação em quatro eixos complementares.
1. A tarefa primordial: desarticular o
rentismo e construir uma economia política do desenvolvimento
A
economia política em vigor no Brasil tem como uma de suas principais
características a elevada centralidade assumida pela dinâmica rentista, baseada
na remuneração de ativos financeiros sob a forma de juros, particularmente dos
títulos da dívida pública. Nessa dinâmica, a remuneração dos ativos financeiros
encontra-se fortemente condicionada ao nível das taxas de juros praticadas no
país. Quanto mais elevadas as taxas de juros, maior tende a ser a remuneração
desses ativos, o que contribui para fortalecer interesses econômicos e
políticos comprometidos com a preservação de juros elevados e com uma política
fiscal orientada prioritariamente para a contenção das despesas públicas.
Isso se
explica por dois motivos em especial. Primeiro, os detentores de títulos
públicos devem confiar na capacidade do Estado de honrar seus compromissos, de
deter recursos para remunerar seus credores com juros da dívida, sem
necessariamente ter que ampliar a oferta monetária. Isso faz com que, aos olhos
dos credores, as despesas primárias com serviços públicos e investimentos
concorram com as despesas financeiras, com os gastos governamentais destinados
ao pagamento de juros da dívida pública. Segundo, para maximizar seus ganhos
com as taxas de juros, é importante que a inflação esteja controlada, e assim o
valor de seus ativos financeiros sejam preservados. Assim, a estabilidade dos
preços se torna uma condição fundamental para a proteção da riqueza financeira.
Predomina, nesse contexto, uma concepção segundo a qual o controle da inflação
deve ocorrer prioritariamente por meio da contenção da demanda agregada,
mediante a elevação das taxas de juros e a restrição dos gastos públicos e do
consumo.
Forma-se,
assim, um mecanismo que bloqueia as possibilidades de desenvolvimento econômico
ao desestimular o financiamento do investimento produtivo. Tanto no âmbito
privado, uma vez que taxas de juros elevadas tornam a aplicação em ativos
financeiros mais atrativa, especialmente diante dos riscos e incertezas
associados ao investimento produtivo; quanto no público, uma vez que a
prioridade atribuída ao controle dos déficits fiscais e à contenção da demanda
tende a restringir a capacidade do Estado de financiar despesas de capital e
investimentos de longo prazo. Porém, embora frequentemente apresentada como uma
condição economicamente incontornável, é preciso reconhecer que essa dinâmica
resulta de escolhas políticas e institucionais que organizam a relação entre
Estado, sistema financeiro e o processo produtivo.
O foco
na contenção da demanda oculta o fato de que o financiamento, quando
direcionado à criação de novas capacidades produtivas, resulta na ampliação da
oferta de bens e serviços, da produtividade, do emprego e da renda,
justificando, do ponto de vista contábil e econômico, o adiantamento de
dinheiro sob a forma de crédito ou gastos públicos. Se quisermos trilhar uma
trajetória de desenvolvimento nacional será indispensável, portanto, ter como
ponto de partida uma reorientação substancial da economia política brasileira.
A ênfase na contenção da demanda deverá ceder lugar para uma concepção que
priorize a expansão da oferta por meio do financiamento da elevação das forças
produtivas. Isso exigirá atuar para a redução estrutural das taxas de juros, de
modo que o financiamento do investimento produtivo, da inovação tecnológica e
da expansão das capacidades econômicas ocupem posição central na dinâmica de
acumulação.
Em
síntese, a tarefa primária de uma estratégia nacional de desenvolvimento passa
por desarticular o rentismo e construir uma nova economia política. Uma
economia política que, ao centrar-se no aumento da produtividade e,
consequentemente, na ampliação da oferta de bens e serviços, crie uma dinâmica
de acumulação nova. Onde mais investimentos representam maior produção, mais
empregos, maior renda e massa salarial, ampliando simultaneamente a base
tributária e a capacidade de arrecadação do Estado. Um círculo virtuoso no qual
a expansão das forças produtivas fortalece as condições econômicas, financeiras
e fiscais necessárias para a realização de novos investimentos, permitindo
ampliar progressivamente sua capacidade de reprodução.
2. Reorientação do Sistema Financeiro como
inovação institucional do desenvolvimento
Se uma
nova economia política é condição indispensável para uma estratégia efetiva de
desenvolvimento do Brasil, a reorientação do sistema financeiro é o fator
determinante para sua implementação. Trata-se de uma alavanca institucional com
a função de realizar a transfusão intersetorial de recursos, essencial para o
pleno desenvolvimento das forças produtivas nacionais. O grande desafio
consiste, nesse sentido, em identificar os setores e atividades mais e menos
desenvolvidos da economia brasileira, de modo a engendrar, por meio de
inovações jurídico-institucionais, um nexo financeiro capaz de carrear recursos
dos setores superinvestidos para aqueles ainda subinvestidos.
Para
isso, recuperamos a formulação de Ignácio Rangel, segundo a qual a economia
nacional pode ser compreendida a partir da relação entre um setor passivo e um
setor ativo. O setor passivo corresponde, nesse esquema, aos elos relativamente
mais desenvolvidos do sistema econômico, nos quais podem se concentrar recursos
sob a forma de capacidade produtiva ociosa, elevada produtividade, poupança,
renda ou excedentes acumulados. É justamente a existência desses recursos que
permite que esse setor funcione como base financeira para a expansão de sua
contraparte, o setor ativo. Este, por sua vez, corresponde aos elos
relativamente mais débeis do sistema econômico, nos quais se manifestam os
principais pontos de estrangulamento do processo de desenvolvimento.
A
tarefa central consiste, portanto, em criar mecanismos institucionais capazes
de estabelecer um nexo financeiro entre esses dois polos, transferindo recursos
disponíveis nos setores relativamente superinvestidos para aqueles cuja
expansão possa desencadear uma nova vaga de investimentos, propagando seus
efeitos de encadeamento e seus ganhos sistêmicos de produtividade para toda a
economia nacional. O que propomos é que, para além da utilização dos bancos
públicos de desenvolvimento no financiamento das atividades que compõem o setor
ativo a ser mobilizado, um projeto nacional de desenvolvimento para o Brasil
deve também ser capaz de criar mecanismos financeiros destinados a direcionar
parte da poupança privada, da renda fundiária e de outros recursos acumulados
para o financiamento de uma nova frente de expansão das forças produtivas.
Trata-se
de criar alternativas capazes de retirar esses recursos da predominância do
circuito rentista-especulativo e conectá-los ao financiamento de investimentos
de longo prazo. Nesse sentido, a constituição de mercado de títulos e de
capitais, e demais instrumentos de crédito – não como fim em si mesmo, mas como
meio de captação e mobilização de recursos – voltado ao financiamento dos
setores até então subinvestidos adquire importância estratégica. O objetivo
fundamental seria transformar recursos disponíveis em capacidade produtiva
nova, infraestrutura, inovação, bens e serviços.
Se, na
estrutura econômico-produtiva brasileira contemporânea, destacam-se sobretudo
setores e atividades vinculados ao complexo agromineral-exportador, é possível
identificar, entre os principais pontos de estrangulamento do desenvolvimento
nacional, as infraestruturas urbanas e regionais, os serviços de utilidade
pública e suas cadeias tecnológico-produtivas adjacentes. Tal como Rangel já
apontava na passagem das décadas de 1970 e 1980, compreendemos que o desafio
atual consiste em transformar as carências urbanas, territoriais e tecnológicas
do país em uma nova alavanca do desenvolvimento nacional.
Esse
novo ciclo de investimentos poderia abranger desde a ampliação das conexões
regionais, por meio de sistemas ferroviários de alta e média velocidade, até os
sistemas urbanos de transporte coletivo de massa, como metrôs e trens
metropolitanos, passando pelas infraestruturas de energia, saneamento,
habitação e infraestrutura digital. Articulados aos setores industriais e às
atividades científico-tecnológicas capazes de fornecer os equipamentos,
sistemas e conhecimentos necessários à sua implantação e operação, esses
investimentos poderiam conformar aquilo que denominamos de um complexo
urbano-produtivo: uma nova frente de expansão econômica fundada na articulação
entre a transformação do território, a produção industrial, a inovação
tecnológica e a ampliação dos serviços públicos e coletivos.
Essa
perspectiva encontra diálogo com o debate contemporâneo sobre a necessidade de
uma reindustrialização brasileira. O livro Desindustrialização e
Neoindustrialização no Brasil: uma perspectiva crítica e prospectiva,
recentemente publicado pela Fundação Perseu Abramo e pela Hucitec, chama a
atenção para o caráter prematuro da desindustrialização brasileira e para a
necessidade de reconstrução e adensamento das cadeias produtivas como condição
para recuperar produtividade e dinamismo econômico. Entre as agendas de
política industrial discutidas na obra, a infraestrutura urbana, o saneamento,
a habitação e a mobilidade aparecem, inclusive, como campos capazes de
articular investimento, inovação e diferentes setores industriais e
tecnológicos.
É
justamente essa capacidade de articular diferentes setores e atividades que
confere ao complexo urbano-produtivo seu caráter estratégico. A demanda social
por infraestrutura e serviços urbanos pode, assim, converter-se em demanda
econômica capaz de estimular a produção nacional, criar mercados para setores
industriais e tecnológicos, induzir processos de inovação e ampliar as
capacidades produtivas existentes. O investimento urbano deixa de ser
compreendido apenas como gasto necessário à melhoria das condições de vida e
passa a ser também concebido como mecanismo de ativação e transformação da
estrutura produtiva nacional.
3. O Urbano como motor da produtividade e do
desenvolvimento regional
O
enfrentamento da questão urbana no Brasil, que é também uma questão econômica,
e, antes de tudo, uma questão social, remete a duas dimensões principais, que
se expressam, politicamente, em duas tarefas fundamentais do tempo presente. A
primeira se refere à sua função produtiva, de oferta de bens e serviços, e da
elevação da produtividade a partir do desenvolvimento das forças produtivas do
país. A segunda, intimamente vinculada à primeira, faz alusão à função
distributiva e mesmo redistributiva da riqueza social. Relacionada à demanda
efetiva e ao consumo de bens e serviços e suas consequências para a elevação
das condições de vida das pessoas, considerando sua relação com o meio
ambiente.
Do
ponto de vista das forças produtivas, o desenvolvimento urbano tem o potencial
de elevar a produtividade sistêmica da economia através das economias de
aglomeração, provenientes, por exemplo, da redução dos custos logísticos, da
aceleração da circulação e intercâmbio de mercadorias, pessoas e conhecimento,
e do acesso a um amplo e diversificado mercado consumidor. Os investimentos em
infraestruturas de conexão urbana e regional podem atuar inclusive na formação
de complexos tecnológico-produtivos regionais, integrando grandes, médias e
pequenas cidades de distintos níveis de desenvolvimento. De modo que cada uma
exerça uma função como parte de uma estratégia geral onde o desenvolvimento
urbano é visto como parte de uma organização planejada e integrada de
diferentes escalas territoriais e produtivas.
As
principais metrópoles do Brasil, por exemplo, articuladas a uma estratégia de
planejamento territorial, podem atuar como polos de irradiação do
desenvolvimento para suas regiões de influência, integrando-se produtivamente
com as cidades do interior. A partir da articulação entre universidades,
centros de pesquisa, empresas e instituições públicas, as regiões
metropolitanas, enquanto ambientes privilegiados de inovação, podem servir como
base física e social necessária para o fortalecimento da capacidade tecnológica
do país, abrigando atividades de pesquisa e desenvolvimento vinculadas às novas
tecnologias de fronteira, como IA, Big Data, Internet das Coisas, contribuindo
para a criação de ecossistemas produtivos capazes de transformar pesquisa
científica em produção industrial e inovação escalável.
Para
isso, propomos duas frentes. A primeira, visando a eficiência, qualidade e
abrangência dos serviços urbanos e coletivos, deve se concentrar na integração
entre infraestrutura física e digital, incorporando tecnologias da informação e
comunicação aos sistemas urbanos, como mobilidade, abastecimento de água e
saneamento, energia, iluminação, gestão de resíduos, segurança e à
administração pública. A segunda frente diz respeito à constituição de um
complexo urbano-produtivo propriamente dito, entendido como o conjunto
articulado de setores e atividades científicas, tecnológicas, industriais,
financeiras e de serviços voltadas à produção, implantação, operação e
manutenção das infraestruturas, equipamentos e sistemas necessários à
organização e reprodução da vida urbana. Esse complexo poderia abranger desde a
construção civil e a indústria de materiais até os setores metalmecânico, de
máquinas e equipamentos, ferroviário, elétrico, eletrônico, digital e de
tecnologias ambientais.
A
importância dessa articulação está no fato de que os investimentos urbanos
possuem capacidade de produzir efeitos que ultrapassam amplamente o
empreendimento ou a infraestrutura diretamente realizada. A implantação de um
sistema de transporte, por exemplo, requer trilhos, trens, sistemas de
sinalização e controle, equipamentos elétricos, obras de engenharia, materiais,
softwares e serviços especializados. A expansão do saneamento demanda
equipamentos hidráulicos, sistemas de tratamento, produtos químicos, máquinas,
tecnologias ambientais e serviços de engenharia. A construção e adaptação do
parque habitacional mobilizam a indústria de materiais, máquinas, equipamentos
e uma ampla rede de fornecedores. Em todos esses casos, a necessidade de
transformar materialmente o território produz uma demanda econômica que se
transmite para diferentes elos da estrutura produtiva.
O
complexo urbano-produtivo pode, portanto, funcionar como um importante
mecanismo de indução da reindustrialização nacional. Ao estabelecer uma demanda
continuada e de grande escala por bens de capital, equipamentos, materiais,
sistemas tecnológicos e serviços especializados, os investimentos urbanos podem
estimular a formação e expansão de capacidades produtivas nacionais, inclusive
em setores de maior intensidade tecnológica. Essa possibilidade converge com a
perspectiva de neoindustrialização discutida na recente publicação da Fundação
Perseu Abramo, segundo a qual a reconstrução da indústria brasileira depende do
adensamento das cadeias produtivas, da incorporação de novas tecnologias e da
articulação entre investimento, inovação e políticas públicas. O próprio debate
em torno da Nova Indústria Brasil identifica infraestrutura, saneamento,
habitação e mobilidade como uma de suas missões estratégicas. E a realização
dos projetos passa a constituir, assim, um processo de aprendizagem e
acumulação de capacidades em engenharia, ciência, tecnologia, gestão e
produção, criando condições para que empresas e instituições nacionais avancem
para segmentos de maior produtividade e complexidade.
Os
efeitos desse processo também se propagam sobre o mercado de trabalho e a
renda. A constituição de um complexo urbano-produtivo tende a gerar empregos de
diferentes níveis de qualificação, tanto diretamente nos setores responsáveis
pela produção e implantação das infraestruturas quanto indiretamente em suas
cadeias de fornecedores e nos serviços associados à operação e manutenção dos
sistemas. A expansão do emprego e da massa salarial amplia a renda das famílias
e, consequentemente, a demanda por bens e serviços, produzindo novos efeitos
multiplicadores sobre a economia. Ao mesmo tempo, a ampliação da atividade
econômica e da renda contribui para expandir a própria base tributária e a
capacidade de arrecadação do Estado, fortalecendo as condições fiscais e
financeiras para a realização de novos investimentos.
Forma-se,
desse modo, uma dinâmica cumulativa na qual o investimento urbano pode produzir
simultaneamente transformação territorial, expansão da capacidade produtiva,
aumento da produtividade, geração de emprego e renda e ampliação da capacidade
de financiamento do próprio desenvolvimento. O complexo urbano-produtivo
constitui, nessa perspectiva, uma forma de conectar as necessidades sociais
concretas das cidades à expansão das forças produtivas nacionais, fazendo com
que a melhoria das condições urbanas participe ativamente de um novo ciclo de
desenvolvimento econômico e social.
O
urbano deixa, portanto, de ocupar uma posição meramente passiva no processo de
desenvolvimento – como simples espaço onde os efeitos da dinâmica econômica se
manifestam – para assumir uma função ativa na própria transformação da
estrutura produtiva nacional. Investir na cidade significaria, simultaneamente,
aprimorar as condições gerais de produção, a produtividade sistêmica da
economia, a inovação tecnológica e a melhoria das condições de vida da
população.
4. O desenvolvimento urbano como forma de
enfrentar as desigualdades e emergências climáticas
Do
ponto de vista de sua função distributiva e redistributiva da riqueza social
sob a forma de bens e serviços, o desenvolvimento urbano tem o potencial de
atuar simultaneamente em diversas frentes.
A
primeira delas reside na própria natureza dos bens e serviços de caráter
urbano, em geral de consumo público ou coletivo. A distribuição da riqueza
social não ocorre apenas por meio da distribuição direta da renda monetária,
mas também através da socialização do acesso a bens e serviços de consumo
coletivo. A universalização do acesso, por exemplo, aos equipamentos e serviços
de educação, saúde, cultura, lazer, bem como às infraestruturas de energia,
saneamento, transporte e comunicação, constitui uma forma fundamental de
socialização da riqueza e produz impactos diretos sobre a qualidade de vida das
pessoas. De modo que, a depender da localização e distribuição dessas
infraestruturas, equipamentos e serviços tipicamente urbanos, tem-se o poder de
reduzir profundamente as diferentes manifestações de desigualdade social e
territorial.
Uma
segunda dimensão distributiva decorre das próprias repercussões econômicas do
complexo urbano-produtivo sobre o emprego e a renda. Como vimos, a
transformação material das cidades mobiliza uma ampla rede de atividades
produtivas, tecnológicas e de serviços, fazendo com que os investimentos
urbanos produzam efeitos de encadeamento que ultrapassam o setor diretamente
responsável pela execução dos projetos. Os efeitos multiplicadores dos
investimentos no desenvolvimento urbano e nos setores e atividades que dão
suporte à sua construção poderiam criar uma miríade de empregos industriais e
de serviços produtivos e tecnológicos, bem remunerados, assim como na
construção civil. Além de que, como consequência da maior disponibilidade de
renda e massa salarial na economia, fomentaria novas oportunidades de trabalho
no comércio e nos serviços pessoais.
As
demais frentes de atuação do desenvolvimento urbano dizem respeito à construção
de cidades capazes de enfrentar a crise climática, articulando políticas de
adaptação aos seus impactos e de mitigação das emissões que contribuem para seu
agravamento. A emergência climática impõe novas exigências à organização do
território e à reprodução da vida urbana, transformando a adaptação das cidades
em uma necessidade social e em uma nova frente de investimentos, inovação
tecnológica e desenvolvimento das forças produtivas.
Para
reduzir a vulnerabilidade da população diante de deslizamentos, enchentes,
ondas de calor, elevação do nível do mar, tempestades e incêndios, será
necessário mobilizar um amplo conjunto de capacidades científicas,
tecnológicas, industriais e institucionais. Isso envolve desde sistemas de
monitoramento e prevenção de riscos até novas tecnologias de engenharia,
drenagem, construção, energia e infraestrutura ambiental.
Nesse
sentido, experiências como as chamadas cidades-esponja demonstram a importância
de articular infraestruturas tradicionais e soluções baseadas na natureza. A
implementação de parques inundáveis, sistemas de drenagem, contenção de
encostas, programas de arborização urbana, requalificação de áreas vulneráveis
e adaptação habitacional pode simultaneamente proteger a população, melhorar as
condições de habitabilidade e mobilizar novas cadeias produtivas e
tecnológicas. O enfrentamento da crise climática torna-se, assim, não apenas
uma política defensiva diante dos riscos ambientais, mas uma dimensão
constitutiva de uma nova estratégia nacional de desenvolvimento.
Em
síntese, a tese central deste artigo é a de que os desafios sociais,
territoriais e climáticos das cidades brasileiras constituem, simultaneamente,
necessidades sociais urgentes e oportunidades para uma nova vaga de
desenvolvimento das forças produtivas nacionais. Transformar esse potencial em
realidade, entretanto, exige mais do que ampliar isoladamente os investimentos
urbanos. Requer, antes de tudo, uma reorientação da própria economia política
brasileira, capaz de desarticular a predominância rentista, reorganizar o
sistema financeiro em torno do financiamento do investimento produtivo e
mobilizar os recursos disponíveis para uma nova frente de expansão econômica.
É nesse
sentido que o enfrentamento da questão urbana pode assumir uma função
estratégica no projeto nacional de desenvolvimento. Ao articular a
transformação do território, a produção industrial, a inovação tecnológica, a
ampliação dos bens e serviços públicos e coletivos, a geração de emprego e
renda e a construção de cidades social e ambientalmente mais resilientes, o
urbano deixa de ser compreendido apenas como o espaço onde se manifestam as
contradições do desenvolvimento brasileiro para tornar-se também um dos
principais campos a partir dos quais essas contradições podem ser enfrentadas.
Planejar
e transformar as cidades brasileiras significa, nessa perspectiva, organizar
uma nova relação entre financiamento, produção e reprodução social, fazendo das
necessidades históricas da população e do território não um obstáculo ao
desenvolvimento, mas uma de suas principais forças motrizes.
Fonte:
Por Elias Jabbour, Luiz Cesar Ribeiro e Vitor Boa Nova, no Le Monde

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