quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

"Trump ou é insano ou é um gangster", resume Jeffrey Sachs

O economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade Columbia, reagiu com indignação ao conteúdo de uma carta atribuída ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na qual o mandatário reivindica “controle completo e total” sobre a Groenlândia e sugere que já não se sente obrigado a pensar “puramente” em paz. A avaliação de Sachs foi contundente: “Eu acho aterrorizante porque ou ele é insano ou ele não é insano. Nós não sabemos qual dos dois”. As declarações foram feitas em entrevista publicada no YouTube, em um programa dedicado a política internacional, no qual o tema central foi a escalada de tensões entre Washington e governos europeus.

No mesmo trecho, Sachs afirmou que, se o documento for verdadeiro e refletir a maneira como um presidente norte-americano está se comportando, a crise é mais profunda do que uma disputa diplomática. “Se isso é sério e é assim que um presidente fala, nós perdemos nosso país, nossa democracia, nosso sistema e nossa segurança”, disse, apontando para o que considera uma degradação institucional acelerada e perigosa, com efeitos que podem ultrapassar as fronteiras dos EUA.

<><> A carta sobre a Groenlândia e o choque com a Europa

A entrevista começa com a leitura da carta atribuída a Trump. No texto, o presidente afirma que a Dinamarca não poderia “proteger” a Groenlândia de supostas ameaças e sugere que a soberania sobre o território seria questionável, concluindo que “o mundo não é seguro” sem que os EUA tenham “controle completo e total” sobre a ilha.

Sachs disse considerar o episódio “selvagem”, “estranho” e incompatível com qualquer padrão institucional minimamente responsável. Para ele, a gravidade não está apenas na ameaça em si, mas na naturalização de um discurso que, na prática, trata a anexação de territórios como opção aceitável de política externa. Ele alertou que tratar esse tipo de postura como algo “normal” é um sinal de colapso moral e político.

<><> Tarifas, intimidação e a lógica do “vale tudo”

O entrevistador também menciona postagens atribuídas a Trump sobre aumento de tarifas contra países europeus e relaciona a agressividade comercial a uma percepção de força política em Washington após ações recentes no exterior. Sachs rebate a tese e afirma que o que está em curso não é estratégia, mas descontrole.

Ele insiste que esse rumo não representaria “a vontade do povo americano” nem do Congresso e não refletiria qualquer processo constitucional. Em seguida, usa uma expressão que atravessa toda a entrevista: “Isso é gangsterismo. E gangsterismo geralmente termina em tiroteios”. Na avaliação do economista, esse tipo de conduta tende a produzir escaladas perigosas, não soluções, porque substitui diplomacia e direito por coerção e ameaça.

Sachs também critica a fragilidade europeia diante da pressão norte-americana. Segundo ele, a Europa teria se tornado um “vassalo” dos Estados Unidos nas últimas décadas, perdendo capacidade de reação autônoma. Ainda assim, observa que governos europeus começam a sinalizar limites, citando manifestações que tratariam a Groenlândia como uma “linha vermelha” e afirmariam que a ideia de anexação não seria tolerada.

<><> Hipocrisia internacional e o precedente de Gaza

Um dos pontos centrais da entrevista é o debate sobre a incoerência do Ocidente ao defender princípios apenas quando lhe convém. O entrevistador questiona como governos europeus podem falar em soberania absoluta da Groenlândia, mas ao mesmo tempo apoiar ou tolerar operações e narrativas em outras regiões, abrindo espaço para que Washington avance sem freios.

Sachs concorda e afirma que a política externa dos EUA é “sem lei” há décadas, com a diferença de que, agora, o caráter agressivo estaria mais explícito e acelerado. Ele cita uma sequência de intervenções e operações para sustentar que a ausência de restrições legais não é novidade, mas que o atual momento teria ampliado a velocidade, a ostentação e a brutalidade do método.

Nesse contexto, ele menciona Gaza como exemplo extremo, afirmando que houve uma “operação genocida” diante dos olhos do mundo e que os EUA teriam financiado, armado e apoiado diplomaticamente a ofensiva, com conivência europeia. Para Sachs, quando violações graves são relativizadas em outras situações, fica mais difícil sustentar, depois, um discurso de princípios quando o alvo passa a ser um aliado ou um território europeu.

<><> O “Conselho da Paz” e a distopia do assento pago

A entrevista aborda ainda a proposta de um “Board of Peace”, descrita durante a conversa a partir de uma reportagem mencionada no programa. O apresentador lê detalhes de um rascunho que sugeriria contribuições bilionárias de países para garantir assentos e uma estrutura na qual Trump atuaria como presidente do órgão, com poder de aprovação sobre decisões.

Sachs reage com ironia e indignação. “Se George Orwell tivesse escrito isso, você acharia levemente engraçado”, afirma, antes de classificar a proposta como “triste” e “patética”. Ele diz que a iniciativa, além de absurda, nasce de um ambiente de coerção, pressão e barganha e não teria condições de substituir organismos internacionais.

Para o economista, há “adultos” e lideranças no mundo que entendem que esse tipo de projeto não se sustenta, embora ele reconheça que, por algum tempo, iniciativas dessa natureza podem produzir ruído, medo e riscos reais. O perigo, segundo ele, é o período em que a intimidação funciona, ampliando instabilidade e aproximando crises de pontos de não retorno.

<><> Um efeito colateral: a aceleração do mundo multipolar

Apesar do tom sombrio, Sachs afirma que a postura errática e agressiva de Washington pode provocar uma reação global na direção contrária, estimulando alianças regionais e acordos que reduzam dependência dos EUA e fortaleçam alternativas. Ele menciona conversas diplomáticas em várias regiões e cita os BRICS como parte dessa reorganização.

Na visão do professor, o comportamento imprevisível do governo norte-americano empurra países a buscar estabilidade, sobretudo em um mundo nuclear, no qual decisões impulsivas podem ter consequências catastróficas. Ele critica a ideia de que bravatas, ameaças e ações espetaculosas significariam força real e sustenta que isso não aumenta segurança nem prosperidade para a população dos EUA, mas sim amplia o risco para todos.

Ao fim, a entrevista deixa uma mensagem clara: se o presidente dos EUA fala e age como se não existissem leis, tratados e limites, a crise deixa de ser apenas diplomática. Para Sachs, trata-se de um colapso político e moral que, se não for contido, pode abrir uma fase de turbulência global, com impactos diretos sobre a paz e a segurança internacional.

<><> Recuo se torna a marca da diplomacia de Trump

 Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, recuou da retórica de anexar ou invadir a Groenlândia depois de semanas de ameaças que elevaram a tensão com governos europeus e intensificaram a percepção de instabilidade na política externa de Washington. As informações foram publicadas pela Bloomberg em uma newsletter na quarta-feira.

De acordo com a Bloomberg, o recuo incluiu a desistência de falar em uso da força e também uma retirada das tarifas prometidas contra países europeus que se opunham às ambições territoriais do presidente. Mesmo assim, Trump insistiu que ainda deseja a Groenlândia e mencionou a existência de uma “estrutura de um futuro acordo”, sem apresentar detalhes.

<><> A diplomacia do recuo e o cálculo dos mercados

A Bloomberg descreveu que, ao longo do ano passado, ganhou notoriedade em Wall Street uma aposta conhecida por um acrônimo popularizado no mercado, baseada na ideia de que ameaças comerciais e pressões públicas do presidente acabariam, com frequência, em recuos acompanhados de declarações de vitória. Segundo o boletim, embora tenham crescido dúvidas recentes sobre essa dinâmica, o movimento da quarta-feira reacendeu a leitura de que Trump pode voltar a optar por desescalar quando enfrenta resistência coordenada.

O episódio da Groenlândia, porém, vai além da reação imediata dos mercados. Ao lançar mão de ameaças e, em seguida, recuar, a Casa Branca produz um ciclo de tensão que desgasta alianças e normaliza a política do ultimato. Mesmo quando a escalada é interrompida, fica a mensagem de que princípios de soberania podem ser tratados como moeda de troca, com impactos sobre confiança diplomática, previsibilidade econômica e estabilidade regional.

<><> Dinamarca fecha a porta e rejeita qualquer base para negociação

Se Trump tentou reposicionar sua ofensiva como uma transição para uma saída “negociada”, a resposta de Copenhague foi direta. A Bloomberg informou que o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, rejeitou qualquer conversa sobre uma tomada do território e disse que seu governo não aceita negociações que violem princípios fundamentais.

Rasmussen afirmou, em Copenhague: “Não entraremos em nenhuma negociação com base na renúncia de princípios fundamentais”. Em seguida, reforçou: “Isso é algo que nunca faremos”. A posição dinamarquesa evidencia que a tentativa de Trump de transformar pressão em resultado encontra limites quando envolve soberania e quando há reação política clara no bloco europeu.

<><> Davos, dívida e o alerta sobre o custo da instabilidade

A newsletter da Bloomberg também conectou o clima geopolítico a preocupações econômicas expressas no Fórum Econômico Mundial, em Davos. O fundador da gestora Citadel, Ken Griffin, comentou que a venda intensa de títulos do governo japonês na semana deveria servir como um alerta a políticos dos Estados Unidos para a situação fiscal do país.

Segundo a Bloomberg, Griffin declarou: “Os vigilantes dos títulos podem aparecer e cobrar seu preço”. Ele acrescentou: “O que aconteceu no Japão é uma mensagem muito importante para a Câmara e para o Senado: vocês precisam colocar as contas públicas em ordem”. O boletim lembrou ainda que o Congresso, controlado por republicanos, aprovou no último verão uma ampla lei tributária e de gastos buscada por Trump, que, em grande medida por cortes de impostos para empresas e ricos, colocou os Estados Unidos em rota de endividamento elevado.

No pano de fundo, a diplomacia do recuo também vira variável econômica. Quando ameaças comerciais e disputas internacionais se somam a fragilidades fiscais, cresce a volatilidade, sobem prêmios de risco e a política externa passa a ser precificada como fator de instabilidade estrutural.

<><> Imigração, disputas judiciais e o limite das instituições

A Bloomberg relatou ainda que a agência federal de imigração dos Estados Unidos intensificou ações em um estado governado por democratas, desta vez com foco em imigrantes somalis no Maine. Autoridades locais em cidades como Portland e Lewiston disseram ter recebido relatos de maior presença de agentes nas ruas. O prefeito de Portland, Mark Dion, afirmou que, até o momento, as ações parecem direcionadas a pessoas previamente identificadas, e não a patrulhamento em massa de bairros.

O boletim informou também que o governo Trump obteve uma trégua temporária em uma disputa judicial sobre táticas dessa agência em Minnesota, enquanto uma corte de apelação suspendeu uma decisão que restringia interferências de agentes em protestos, apontadas como violações de direitos constitucionais.

No campo institucional, a Bloomberg destacou sinais de contenção quando o assunto envolve o banco central dos Estados Unidos. Os ministros da Suprema Corte sugeriram preocupação com a tentativa de Trump de demitir a diretora Lisa Cook, em meio a acusações de fraude hipotecária descritas como não comprovadas. Segundo a Bloomberg, o ministro Brett Kavanaugh avaliou que a posição defendida pelo presidente “enfraqueceria, se não destruísse, a independência do banco central”. Já a ministra Amy Coney Barrett questionou se o risco para os mercados financeiros seria motivo para “cautela da nossa parte”.

<><> Confronto interno e a política do bloqueio

A Bloomberg também registrou um episódio envolvendo o governador da Califórnia, Gavin Newsom, frequentemente apontado como possível nome forte do Partido Democrata para a eleição presidencial de 2028. Newsom afirmou que foi impedido de entrar em um evento paralelo do Fórum Econômico Mundial após pressão do governo federal.

De acordo com o boletim, o gabinete do governador alegou que os organizadores, sob pressão de autoridades de Washington, restringiram sua entrada na área do evento. Em resposta, uma porta-voz do governo Trump atacou Newsom com linguagem ofensiva, segundo a Bloomberg, num episódio que reforça a prática de c<><> onfronto permanente contra adversários internos.

Crise como método e recuo como assinatura

Ao recuar do uso da força contra a Groenlândia e desistir de tarifas prometidas contra europeus, Trump reduziu, por ora, o risco de uma escalada diplomática imediata. Mas, ao manter a ambição territorial e apresentar apenas uma vaga “estrutura” de acordo, sem qualquer base aceita pela Dinamarca, o presidente prolonga a incerteza e deixa aberta a possibilidade de novas rodadas de pressão.

O padrão descrito pela Bloomberg indica que o recuo não encerra a crise: ele apenas desloca o conflito para o próximo capítulo. E, a cada ciclo de ameaça e retirada, a política externa dos Estados Unidos paga um preço acumulado em credibilidade, confiança e previsibilidade, enquanto aliados e mercados tentam se ajustar a uma diplomacia em que o recuo se tornou marca registrada.

¨      Sachs denuncia “embriaguez de poder” em Washington e diz que big tech “comprou a Casa Branca”

Em entrevista exclusiva concedida ao The Indian Express, o economista Jeffrey Sachs fez uma crítica dura ao atual momento da política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump, atual presidente dos EUA, descrevendo uma “loucura” recente marcada por decretos, ataques e decisões concentradas em um círculo restrito de poder.

Sachs afirmou que a Casa Branca vive uma combinação explosiva de personalismo, dinheiro e influência tecnológica, e resumiu de forma direta o que enxerga como o novo centro do comando político em Washington: “Esta é uma Casa Branca dominada pela tecnologia” e “Eles compraram a Casa Branca”.

<><> “Uma pequena turma que acha que manda no mundo”

Ao comentar declarações do secretário de Comércio em um podcast ligado ao ecossistema de bilionários do Vale do Silício, Sachs disse que a postura “casual” e arrogante é sintoma de um ambiente em que autoridades se sentem acima de qualquer freio institucional.

“Ele não precisa ter cuidado. Eu comando o mundo. Estou com meus amigos e nós somos o pequeno grupo que manda no mundo”, afirmou, ao descrever a mentalidade que, segundo ele, passou a orientar o governo.

Sachs também apontou que, na visão dele, os Estados Unidos estão testando limites internos e externos: “Eles estão testando todos os limites para ver se ainda restam limites”.

<><> Decretos, emergências e o enfraquecimento do controle constitucional

Na leitura do economista, o esvaziamento de controles constitucionais sobre a política externa vem de décadas, com um ponto de inflexão no pós-guerra, mas teria atingido um patamar extremo com Trump.

Sachs afirmou que o país passou a funcionar por “decreto presidencial” e criticou o uso recorrente de poderes de emergência: as ordens “começam com ‘pelos poderes a mim conferidos como presidente dos Estados Unidos’ e invocando poderes de emergência”, disse, em referência ao mecanismo usado para impor medidas econômicas.

Ele descreveu o Congresso como “submisso” e afirmou que o cenário atual escancara “o colapso de qualquer governança sistemática” no país.

<><> “Complexo militar-industrial digital” e vigilância total

Sachs disse que a antiga engrenagem do complexo militar-industrial ganhou um novo eixo, com a ascensão da inteligência artificial e de plataformas digitais no centro da guerra e da segurança.

“Agora temos um complexo militar-industrial digital”, afirmou. Ele citou o papel de empresas e figuras do setor, mencionando o uso de tecnologias para vigilância e guerra, e definiu o momento como uma concentração sem precedentes de poder econômico, tecnológico e político.

Na mesma linha, alertou para a extensão do monitoramento cotidiano: “Eles observam cada tecla que digitamos e escutam cada palavra que dizemos, seja pelo relógio, seja pelo telefone”.

<><> Venezuela: “Eu não sequestraria presidentes de outros países”

Ao falar sobre a Venezuela, Sachs condenou explicitamente ações unilaterais e a lógica de intervenção. Questionado sobre um cenário em que um líder venezuelano fosse mantido sob controle dos EUA, foi taxativo: “Eu certamente não manteria presidentes, eu não sequestraria presidentes de outros países”.

Ele afirmou rejeitar a divisão do mundo entre “democracias e autocracias” como justificativa para intervenções e disse que qualquer ação desse tipo deveria passar pelo Conselho de Segurança da ONU: “Se há realmente um problema… vá ao Conselho de Segurança da ONU e obtenha um acordo das grandes potências”.

Sachs descreveu como “chocante” a banalização do uso da força e criticou o abandono de justificativas humanitárias: “Aqui é só bravata”, disse, ao sustentar que a retórica muda ao sabor do momento.

<><> Sanções como arma: “Os EUA destruíram deliberadamente a economia venezuelana”

Sachs atribuiu a disparada do mercado venezuelano à expectativa de redução de sanções e ao poder de Washington de “colocar pressão” e “tirar pressão” conforme interesses políticos.

“De 2015 em diante, mas especialmente de 2017 em diante, os EUA destruíram deliberadamente a economia venezuelana”, afirmou. Segundo ele, como o petróleo era “a única exportação de valor”, tornou-se “cirurgicamente possível destruir toda a economia destruindo o setor petrolífero”.

Ele citou a queda acentuada da produção e resumiu o efeito: “Eles esmagaram a economia”. Na leitura do economista, o mercado reage porque acredita que “pode haver sobrevivência de novo” se o isolamento for revertido.

<><> “A OTAN é uma adaga apontada para a Rússia”

Em outro trecho, Sachs defendeu uma mudança radical na arquitetura de segurança europeia. “Eu acabaria com a OTAN”, declarou, argumentando que, após 1991, a aliança passou a operar como instrumento de expansão e pressão sobre a Rússia.

Ele disse que houve promessas não cumpridas sobre a expansão para o Leste e vinculou essa dinâmica à escalada que desembocou na guerra na Ucrânia. Para o economista, o caminho deveria ser outro: um arranjo de segurança coletiva envolvendo União Europeia e Rússia, com dissuasão nuclear, mas sem a lógica permanente de confronto.

<><> Dólar, BRICS e “desdolarização” como resposta à “arma financeira”

Sachs também contestou a ideia de que o dólar seria “impenetrável”. “Completamente errado”, afirmou, dizendo acreditar que, em uma década, o renminbi terá participação relevante nas transações globais.

Ele criticou a “armamentização” do dólar e afirmou que é “tolo” manter transações na moeda americana quando ela é usada para “segurar o resto do mundo pelo pescoço”. Por isso, defendeu que países do BRICS ampliem rotinas de compensação fora do dólar.

Para Sachs, a discussão não é de “confiança”, mas de soberania e estabilidade: “A Índia deveria dizer: precisamos de relações maduras de superpotência com a China, estáveis, para que os Estados Unidos não nos dividam e conquistem e não nos intimidem”.

<><> ONU, “esferas de segurança” e a recusa em aceitar a “tragédia”

Embora reconheça a descrença generalizada, Sachs insistiu que abandonar a ONU seria um caminho “devastador”. “Não podemos aceitar a tragédia”, disse, ao defender um esforço para preservar o sistema internacional antes que o mundo recaia em guerra aberta.

Ele propôs três pilares: “esferas de segurança” (grandes potências fora do “quintal” umas das outras), uma política de “boa vizinhança” e a reconstrução do papel da ONU.

No diagnóstico do economista, a era imperial ocidental acabou, mas a transição está instável. E, para ele, o que se vê hoje em Washington é perigoso justamente por combinar arrogância, poder tecnológico e decisões sem controle: “Os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que precisam”, citou, lembrando a frase clássica atribuída à lógica de dominação — e advertindo que a história mostra como esse tipo de soberba termina mal.

 

Fonte: Brasil 247

 

O caso banco Master e as controvérsias do ministro Dias Toffoli no STF desde o Mensalão

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, avocou para si, em dezembro de 2025, o inquérito que investiga um esquema de fraudes bilionárias no Banco Master, que tem como personagem central Daniel Vorcaro. Desde então, uma série de decisões monocráticas e sigilosas vem gerando desconforto entre seus pares no Supremo e perplexidade na comunidade jurídica. 

O ministro centralizou a investigação na Corte, restringiu o acesso às provas e chegou a designar nominalmente os peritos da Polícia Federal (PF) que poderiam analisar o material apreendido, um procedimento considerado incomum. A medida gerou reação nos bastidores com Toffoli tentando marcar uma acareação entre investigados e um diretor do Banco Central (BC) antes mesmo que os depoimentos tivessem sido colhidos.

Agora, o epicentro que atingiu o ministro atende pelo nome de Tayayá. Um resort de luxo em Ribeirão Claro, no Paraná, onde Toffoli passou ao menos 168 dias desde dezembro de 2022, ao custo de R$ 548,9 mil em diárias para seus seguranças, pagas com dinheiro público. A história, revelada pelo Metrópoles, indica ainda que o local foi frequentado para descanso e encontros com políticos e empresários. No meio da crise, um pedido de impeachment foi protocolado por um grupo de senadores neste janeiro de 2026, no qual se acusa Toffoli de crime de responsabilidade por sua atuação no caso do Banco Master.

Nos bastidores da Corte, Toffoli tem se mostrado inflexível. A seus pares, nega a existência de conflitos que o impeçam de atuar no caso Master e resiste à ideia de deixar a relatoria, uma solução defendida por alguns ministros para estancar a crise. Sua linha de defesa é que, se ceder, abrirá um precedente, tornando outros colegas vulneráveis a pressões para que abandonem casos de grande repercussão. A discussão expõe as regras sobre suspeição, que em geral vedam a atuação de um juiz quando há, por exemplo, uma relação de amizade íntima com um dos investigados sob sua jurisdição.

<><> Por que isso importa?

  • Ministro do STF Dias Toffoli tornou-se peça-chave do caso Master após tomar o controle do inquérito envolvendo o banco, além de diversas decisões consideradas “atípicas” pela comunidade jurídica.

O atual presidente do STF, Edson Fachin, divulgou uma nota defendendo tanto o tribunal quanto Toffoli das críticas feitas na condução do caso Master. Ele afirmou que o STF “não se curva a ameaças ou intimidações”, que Toffoli atua de forma regular e que eventuais dúvidas sobre procedimentos seriam analisadas conforme os ritos internos. Ao mesmo tempo, Fachin afirmou em entrevista ao portal O Globo que não antecipará julgamentos e que poderá agir caso o colegiado seja provocado a analisar a condução do inquérito do Banco Master.

<><> ​Resort, libertadores e J&F

As conexões familiares no resort indicam que dois irmãos de Toffoli foram sócios do empreendimento até fevereiro de 2025, segundo o jornal O Estado de S. Paulo. Em 2021, parte dessa sociedade foi vendida a um fundo de investimento cujo dono era Fabiano Zettel, o cunhado de Daniel Vorcaro, o controlador do Master. Vorcaro e Zettel chegaram a ser presos durante a Operação Compliance Zero da PF, que investiga as possíveis fraudes envolvendo o banco.

A empresa dos irmãos de Toffoli, que não tem mais participação na gestão do resort desde 2025, tem o endereço registrado em uma casa em Marília, em São Paulo, ainda de acordo com o Estadão. Uma equipe de repórteres do jornal esteve no local e encontrou a esposa de José Eugênio Dias Toffoli, irmão do ministro. Ela disse que mora no local e negou que o marido tenha sido dono do empreendimento.

Some-se a isso uma viagem de jatinho de Toffoli a Lima, no Peru, para a final da Libertadores de 2025, onde um dos advogados do Banco Master estava a bordo. A viagem ocorreu um dia após o caso Master ser sorteado para a relatoria de Toffoli no STF. A aeronave é do empresário Luiz Osvaldo Pastore, amigo do ministro, que aparece em um vídeo divulgado pelo Metrópoles sendo recebido por Toffoli no resort junto com o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual. O encontro teria ocorrido em 25 de janeiro de 2023.

As controvérsias, no entanto, não vêm de hoje. Em dezembro de 2025, uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo revelou que sua ex-esposa, a advogada Roberta Maria Rangel, viu o número de processos em que atuava no STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ) saltar 140% desde que o ministro tomou posse em 2009, passando de 53 para 127. O divórcio ocorreu no primeiro semestre do ano passado. Entre os clientes de Rangel figuram gigantes como o grupo J&F.

Em 2023, Toffoli suspendeu uma multa de R$ 10,3 bilhões do acordo de leniência da J&F. Na época, sua esposa prestava consultoria jurídica ao grupo em outro processo. Questionado, o ministro se declarou impedido em um julgamento posterior envolvendo a empresa, mas a decisão sobre a multa bilionária permaneceu como um foco de questionamentos. A lei não proíbe parentes de ministros de advogarem nos tribunais superiores, mas veda a participação dos magistrados em julgamentos em que seus familiares atuem. Uma flexibilização de 2023, contudo, passou a permitir que juízes julguem causas de escritórios que empreguem seus parentes, desde que estes não assinem a peça processual.

<><> Mensalão e perdão de Lula

Outro episódio em sua trajetória foi o pedido de perdão feito ao então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, em dezembro de 2022. Durante a cerimônia de diplomação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Toffoli se aproximou de Lula e se desculpou pela decisão de 2019, quando, na presidência do STF, negou ao petista o direito de ir ao velório de seu irmão, Genival Inácio da Silva, o Vavá. À época, Lula cumpria pena na superintendência da Polícia Federal em Curitiba. “O senhor tinha direito de ir ao velório. Me sinto mal com aquela decisão e queria dormir nesta noite com o seu perdão”, teria dito o ministro, segundo a Folha de S.Paulo. O presidente, que acabava de ser diplomado, afirmou que os dois poderiam conversar de maneira reservada, afirma a reportagem, e não divulgou se o perdão foi conquistado.

Indicado ao STF por Lula em 2009, Toffoli foi assessor jurídico do PT na Câmara, advogado do partido nas campanhas presidenciais de Lula e subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, antes de chegar à Advocacia-Geral da União (AGU) em 2007. Sua nomeação para a mais alta Corte do país foi recebida com críticas por sua forte ligação com o PT e por uma trajetória acadêmica considerada modesta para o cargo – bacharel em direito pela USP, foi reprovado em dois concursos para juiz e não possui títulos de mestre ou doutor.

Em 2012, no processo do Mensalão, votou pela absolvição do ex-ministro José Dirceu, de quem fora subordinado na Casa Civil. Argumentou que a única prova contra Dirceu era o depoimento de um “inimigo”, o delator Roberto Jefferson. Dirceu acabou condenado pelos demais ministros. 

Toffoli também foi o responsável por, anos depois, derrubar restrições impostas a Dirceu no âmbito da Operação Lava Jato. A lista de decisões do Mensalão também inclui uma canetada que anulou as condenações do empreiteiro Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, de quem era próximo.

<>< ​Coaf, Flávio Bolsonaro e movimento de 64

Outra atuação controversa de Toffoli ocorreu em julho de 2019, quando uma decisão sua, atendendo a um pedido da defesa do senador Flávio Bolsonaro, suspendeu todas as investigações criminais do país que utilizassem dados detalhados de órgãos de controle, como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), sem autorização judicial prévia. A decisão, na prática, paralisou centenas de apurações, incluindo a que mirava o próprio filho do então presidente Jair Bolsonaro por suspeitas de desvio de recursos em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O impacto da medida foi tão grande que gerou manifestações de preocupação de órgãos internacionais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Na esteira dessa mesma polêmica, revelou-se que Toffoli havia determinado ao Coaf o acesso irrestrito a todos os relatórios de inteligência financeira produzidos nos últimos três anos, um universo de dados sigilosos de cerca de 600 mil pessoas e empresas. A ordem, criticada por juristas por extrapolar as atribuições investigativas do STF, foi revogada dias depois pelo próprio ministro, que alegou ter recebido a senha de acesso ao sistema, mas jamais a ter utilizado. Meses mais tarde, o plenário do Supremo reverteu a decisão original que paralisou as investigações, com o próprio Toffoli votando para derrubar sua liminar, considerando constitucional o compartilhamento dos dados.

Em 2018, já como presidente do STF, Toffoli causou espanto ao declarar, em uma palestra, que não se referia mais ao evento de 1964 como “golpe” ou “revolução”, mas como “movimento”. A justificativa, segundo ele, era que tanto a esquerda quanto a direita, por conveniência, jogaram toda a culpa do regime militar nas Forças Armadas, eximindo-se de suas próprias responsabilidades. “O desgaste de todo esse período acabou recaindo sobre essa importante instituição nacional que são as Forças Armadas”, disse à época, o que foi encarado como revisionismo histórico. 

 

Fonte: Por Thiago Domenici, da Agencia Pública

 

'A arte da diplomacia econômica' exposta: um pilar fundamental da guerra híbrida dos EUA à vista de todos

John Maynard Keynes escreveu, em sua célebre obra "As Consequências Econômicas da Paz" (1919): "Não há meio mais sutil, nem mais seguro, de subverter as bases existentes da sociedade do que depreciar a moeda. O processo mobiliza todas as forças ocultas da lei econômica a seu favor, e o faz de uma maneira que nem uma em um milhão de pessoas é capaz de diagnosticar."Os Estados Unidos dominaram essa arte da destruição ao instrumentalizar o dólar e usar sanções econômicas e políticas financeiras para levar ao colapso das moedas dos países visados. Em 19 de janeiro, publicamos “A Guerra Híbrida EUA-Israel contra o Irã”, descrevendo como os Estados Unidos e Israel estão travando guerras híbridas contra a Venezuela e o Irã por meio de uma estratégia coordenada de sanções econômicas, coerção financeira, operações cibernéticas, subversão política e guerra da informação. Essa guerra híbrida foi planejada para desestabilizar as moedas do Irã e da Venezuela a fim de provocar agitação interna e, em última instância, uma mudança de regime.

Em 20 de janeiro, apenas um dia após a publicação do nosso artigo, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, confirmou publicamente, sem ressalvas, desculpas ou ambiguidades, que a nossa descrição corresponde, de fato, à política oficial dos EUA.

Já passou da hora de as nações do mundo confrontarem o comportamento econômico desonesto dos Estados Unidos... Essa ilegalidade é imprudente, prejudicial, desestabilizadora e, em última análise, ineficaz para alcançar os próprios objetivos dos Estados Unidos, muito menos os objetivos globais.

Em entrevista em Davos , o Secretário Bessent explicou detalhadamente como as sanções do Tesouro dos EUA foram deliberadamente concebidas para levar ao colapso da moeda iraniana, paralisar seu sistema bancário e levar a população do Irã às ruas. Esta é a campanha de “pressão máxima” para negar ao Irã o acesso a sistemas financeiros, comerciais e de pagamento internacionais. Bessent explicou:

O presidente Trump ordenou ao Departamento do Tesouro e à nossa divisão OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros) que exercessem pressão máxima sobre o Irã. E funcionou, porque em dezembro a economia deles entrou em colapso. Vimos um grande banco falir; o banco central começou a imprimir dinheiro. Há escassez de dólares. Eles não conseguem importar produtos, e é por isso que a população foi às ruas.

Esta é a cadeia causal explícita pela qual as sanções dos EUA causaram o colapso da moeda e a falência do sistema bancário. Essa instabilidade monetária levou à escassez de importações e ao sofrimento econômico, causando os distúrbios. Bessent concluiu caracterizando as ações dos EUA como "estratégia econômica de Estado" e o colapso econômico do Irã como um desenvolvimento "positivo".

Portanto, trata-se de uma estratégia econômica diplomática, sem confrontos diretos, e as coisas estão caminhando de forma muito positiva por aqui.

O que a Secretária Bessent descreve não é, obviamente, "estratégia econômica" no sentido tradicional. Trata-se de uma guerra conduzida por meios econômicos, tudo planejado para produzir uma crise econômica e agitação social que leve à queda do governo. Isso é orgulhosamente aclamado como "estratégia econômica".

O sofrimento humano causado por guerras declaradas e sanções econômicas devastadoras não é tão diferente quanto se poderia pensar. O colapso econômico gera escassez de alimentos, medicamentos e combustível, além de destruir poupanças, aposentadorias, salários e serviços públicos. O colapso econômico deliberado leva as pessoas à pobreza , à desnutrição e à morte prematura, assim como acontece com uma guerra declarada.Esse padrão de sofrimento resultante das sanções dos EUA está bem documentado. Um estudo marcante publicado na revista The Lancet por Francisco Rodríguez e seus colegas mostra que as sanções estão significativamente associadas a aumentos acentuados na mortalidade, com os efeitos mais fortes observados em sanções unilaterais, econômicas e impostas pelos EUA, e um número total de mortes comparável ao de conflitos armados.A guerra econômica desse tipo viola os princípios fundamentais do direito internacional e da Carta da ONU . Sanções unilaterais impostas fora da autoridade do Conselho de Segurança da ONU, especialmente quando concebidas para causar sofrimento à população civil, são ilegais. A guerra híbrida não burla o direito internacional simplesmente por evitar bombardeios (embora os EUA e Israel também tenham bombardeado o Irã ilegalmente, é claro). A ilegalidade da "estratégia econômica" dos EUA aplica-se não apenas ao Irã e à Venezuela, mas a dezenas de outros países prejudicados pelas sanções estadunidenses.

Embora as sanções dos EUA criem sofrimento a curto prazo, seu uso incessante está incentivando rapidamente outras economias a se desvincularem do domínio financeiro americano.

A Europa talvez tenha começado a perceber que ser cúmplice dos crimes econômicos dos Estados Unidos não é salvação, já que o governo Trump agora se volta contra a Europa da mesma forma, embora com tarifas em vez de sanções. Trump ameaçou a Europa com tarifas por não ceder a Groenlândia aos EUA, embora tenha revogado essa ameaça, pelo menos temporariamente. Quando Trump "convidou" a França a participar do seu Conselho de Paz, ameaçou impor uma tarifa de 200% sobre o vinho francês caso a França recusasse o convite. E assim por diante.

Os Estados Unidos podem travar esse tipo de guerra econômica abrangente porque o dólar é a moeda-chave no sistema financeiro global. Se países terceiros não cumprirem as sanções americanas contra o Irã e a Venezuela, os EUA ameaçam impor sanções aos bancos desses países, especificamente para excluí-los das transações em dólar (conhecidas como sistema SWIFT). Dessa forma, os EUA impõem suas sanções a países que, de outra forma, continuariam negociando com os países que os EUA estão tentando levar ao colapso econômico.

Embora as sanções americanas causem sofrimento a curto prazo, seu uso incessante está incentivando rapidamente outras economias a se desvincularem do domínio financeiro dos EUA. Os países do BRICS, e muitos outros, estão expandindo o comércio internacional utilizando suas próprias moedas, criando alternativas ao dólar americano e, assim, evitando essas sanções. A capacidade dos EUA de impor sanções financeiras e comerciais a outros países diminuirá em breve, provavelmente de forma acentuada nos próximos anos.

Já passou da hora de as nações do mundo confrontarem o comportamento econômico desonesto dos Estados Unidos. Os EUA vêm travando uma guerra econômica com intensidade crescente, chamando-a de "estratégia econômica". Essa ilegalidade é desrespeitosa, imprudente, prejudicial, desestabilizadora e, em última análise, ineficaz para alcançar os próprios objetivos dos EUA, muito menos os objetivos globais. A Europa tem se mantido indiferente até agora. Talvez agora que a Europa também esteja sob ameaça, ela desperte e se junte ao resto do mundo para pôr um fim ao comportamento descarado e ilegal dos Estados Unidos.

•        Analista geopolítico sino-canadense explica por que o Império americano está acabando e prevê a grande crise de 2026

O educador, pesquisador e teórico geopolítico sino-canadense Jiang Xueqin, radicado em Pequim, sustenta que o mundo entrou numa fase em que os Estados Unidos já não conseguem operar uma grande estratégia de longo prazo e, por isso, recorrem cada vez mais ao uso ostensivo da força para produzir “imagens” de poder. Para ele, esse deslocamento — da diplomacia e do “poder brando” para ações militares espetaculares — não é sinal de força, mas de esgotamento: o retrato típico de um Império em declínio.

A avaliação foi feita em entrevista concedida ao professor Glenn Diesen, na qual Jiang apresentou uma série de previsões para 2026 e descreveu o que chama de aceleração do fim do Império americano, impulsionada por contradições econômicas internas, coerção externa e perda de capital diplomático.

<><> Quem é Jiang Xueqin

Jiang Xueqin (nascido em 1974 ou 1976) é  um educador, pesquisador e teórico geopolítico sino-canadense radicado em Pequim, reconhecido por seu trabalho em reforma educacional e, mais recentemente, por análises preditivas globais. Na entrevista, ele afirma que sua lente principal não é ideológica, mas estratégica, baseada em teoria dos jogos.

Ele define o próprio método de forma direta: “Eu uso teoria dos jogos e basicamente vejo a geopolítica como um jogo jogado por diferentes atores tentando maximizar seus próprios interesses. Então, eu não olho muito para a ideologia. Eu basicamente foco no interesse próprio.”

<><> A previsão central: o Império entrou na fase do “micromilitarismo”

A principal previsão de Jiang não é um evento isolado, mas um processo: os Estados Unidos estariam acelerando o declínio ao transformar política externa em performance, substituindo cálculo por exibicionismo e gerando, em troca, resistência regional e desconfiança global.

Ele usa o caso venezuelano como símbolo desse padrão. Ao descrever o sequestro de Nicolás Maduro e sua exibição pública algemado, Jiang afirma que a operação pode parecer “vitoriosa” no curto prazo, mas é estrategicamente autodestrutiva, porque humilha povos inteiros, destrói qualquer base de negociação e unifica adversários.

Na formulação dele, a mudança é clara: “Assim, sacrificou a estratégia pela aparência. E isso é um sinal de um império em declínio, quando já não é mais capaz de uma grande estratégia, nem de prever o futuro.”

A consequência, diz, é que o Império passa a acumular inimigos e a empurrar até aliados para a desconfiança. Jiang sustenta que esse tipo de gesto não é apenas agressão externa: é um atestado de que o centro perdeu capacidade de coordenação racional e passou a operar por impulsos de curto prazo.

<><> O efeito bumerangue: “sementes de uma revolta mundial” contra Washington

Jiang insiste que o dano maior não está apenas no alvo imediato, mas na mensagem enviada ao planeta. Ao agir como “valentão”, os Estados Unidos ampliariam a percepção de que as regras foram abandonadas. E, quando as regras caem, a confiança cai junto.

Ele afirma que, historicamente, o poder norte-americano preferiu operações discretas, propaganda, infiltração e instrumentos financeiros — justamente para não ficar refém do uso permanente do Exército. Ao trocar isso por ações abertamente militares, Washington se prenderia a uma escalada contínua e mais cara.

O ponto decisivo da previsão aparece quando ele descreve o resultado político do espetáculo: “Você plantou as sementes do descontentamento global, de uma revolta mundial contra o poder americano. E basicamente acho que o império americano está acabado.”

A entrevista também sugere que, mesmo quando certas ações parecem “funcionar” por alguns anos, o saldo histórico tende a ser negativo: a coerção vira ressentimento, o ressentimento vira coalizão defensiva e a coalizão, cedo ou tarde, limita o poder do agressor.

<><> Crise de 2026: bolhas financeiras, oligopólio e risco de colapso social

Ao falar de 2026, Jiang liga o declínio externo a fragilidades internas dos Estados Unidos. Sua previsão é que o país entra num período em que a economia pode ser sacudida por bolhas e distorções estruturais, com capacidade de arrastar a sociedade para um cenário de ruptura.

Ele lista três focos principais.

O primeiro é a bolha associada à inteligência artificial, descrita como crescimento puxado por investimentos gigantescos em infraestrutura (centros de dados), com dúvidas sobre rentabilidade e efeitos sobre emprego. O segundo é o que chama de superfinanceirização, com mercados dominados por especulação e alavancagens extremas em commodities. O terceiro é a criptomoeda, vista por ele como circuito especulativo sem benefício social.

O diagnóstico mais duro vem quando ele descreve a perda de mecanismos de autocorreção: um pequeno grupo de atores controlaria o sistema, o Estado teria capacidade de “imprimir” liquidez e, na ausência de concorrente imediato para o dólar, a bolha poderia se estender — até o momento em que estourar.

E, se estourar, ele prevê impacto social devastador. Questionado diretamente sobre a consequência, responde: “Então, basicamente você está olhando para uma guerra civil, uma guerra civil na América.”

<><> O Império como “chefe da máfia” e a lógica do curto prazo

Outro eixo forte da entrevista é a caracterização de Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — como um líder que opera por lealdade, intimidação e ganhos pessoais, não por coerência estatal. Jiang sustenta que isso agrava a tendência imperial, porque substitui previsibilidade por arbitrariedade.

Ele resume essa leitura com uma frase deliberadamente provocativa: “Ele não é o presidente dos Estados Unidos, ele é o chefe da máfia.”

A partir daí, a previsão sobre o fim do Império ganha um componente de estilo de governo: ao tratar política internacional como reality show, Washington deixaria de construir confiança e passaria a exigir obediência, alternando ameaças e promessas, corroendo a credibilidade. Para Jiang, um Império sem credibilidade precisa de mais força para obter o mesmo resultado — e isso acelera o desgaste.

<><> O ponto de ruptura: quando a coerção substitui o Estado de direito

Jiang também sugere que a tentativa de “forçar” comportamentos econômicos em outros países — em vez de oferecer um sistema aberto e previsível — tende a produzir reação contrária. Se o recado é “as regras não valem mais”, os rivais buscam alternativas.

Ele resume a contradição de forma simples: não dá para construir confiança e, ao mesmo tempo, coagir permanentemente. E, quando a coerção vira regra, o sistema deixa de ser uma ordem e passa a ser uma cadeia de crises.

Nesse sentido, sua previsão sobre o fim do Império não é apenas moral ou retórica: é estrutural. Um centro que precisa violar rotineiramente as próprias regras para se manter dominante reduz a atratividade do sistema, empurra parceiros para estratégias de proteção e aumenta o custo de governar o mundo.

<><> O que fica das previsões

A entrevista de Jiang Xueqin a Glenn Diesen se organiza em torno de uma tese central: o Império americano está acabando porque perdeu a capacidade de governar por consentimento e previsibilidade, trocando isso por coerção e espetáculo.

A grande crise de 2026, em sua leitura, não seria um acidente isolado, mas a convergência de fatores: bolhas internas, concentração de poder econômico, instabilidade social e uma política externa que, ao tentar demonstrar força, multiplica frentes de atrito e empurra o mundo para uma reação sistêmica.

Em suma, Jiang prevê que o “micromilitarismo” pode render imagens e ganhos momentâneos, mas cobra um preço alto: desmoraliza a diplomacia, destrói confiança, incentiva coalizões defensivas e torna o declínio mais rápido — até que o Império, por excesso de coerção, se veja incapaz de sustentar a própria ordem que pretende comandar.

 

Fonte: Por Jeffrey D. Sachs e Sybil Fares, no Brasil 247

 

As muitas faces de Vinícius de Moraes

 A conversa estava boa, mas Sérgio Porto precisava ir. Despediu-se de Vinícius de Moraes, com quem tomava umas e outras no Bar Calypso, em Ipanema, pegou o carro e subiu a serra. Na extinta Confeitaria Copacabana, em Petrópolis, resolveu beber mais uma. Quando entrou no restaurante, avistou um sujeito que o saudava lá de dentro: "Foi nessa tarde que eu descobri que Vinícius era, pelo menos, dois. Se fosse um só, seria Vinício de Moral".

A pluralidade de Vinícius ("Reparem que seu nome já é no plural para enganar os trouxas", brinca Porto) foi confirmada por Eucanaã Ferraz, um dos maiores especialistas em sua obra, no ciclo de conferências "Escritores, Lado B", da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2023. Se Vinícius fosse um LP, comparou Ferraz, teria muitas faixas. No lado A, o poeta e o cancionista. No B, o cronista, o crítico de cinema, o dramaturgo e o diplomata.

"O principal ofício do Vinícius é a poesia. Mas, se tivesse que apresentá-lo às novas gerações, começaria pela música. A canção tem mais chance de seduzir o ouvinte do que a poesia de conquistar o leitor", afirma o curador da exposição Por Toda a Minha Vida, em cartaz no Museu de Arte do Rio (MAR) até o dia 3 de fevereiro, e um dos organizadores de Poesia Completa (Cia das Letras), ainda sem data de publicação, em parceria com Daniel Gil.

"Vinícius é, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto , um dos criadores da bossa nova . Isso não significava fazer uma música sofisticada, quase erudita. Era uma música jovem. Em tempos de tango, bolero e samba-canção, foi uma revolução que, não por acaso, arrebatou jovens como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil . Vinícius saiu do conforto da poesia e começou a fazer canção popular. Foi um gesto de muita coragem dele", afirma Ferraz.

Além de uma antologia, Vinícius de Moraes vai ganhar também uma biografia. O responsável pela proeza será o jornalista e escritor Marcelo Bortoloti, que começou a pesquisar a vida e a obra de seu biografado há uns três anos. Até o momento, já conseguiu reunir mais de 10 mil páginas de documentos, e percorrer lugares onde Vinícius viveu e trabalhou, tanto no Brasil quanto no exterior, como Nova York, Paris, Roma, Buenos Aires e Montevidéu.

"Não é preciso ir até Vinícius para conhecê-lo. Ele está entre nós. Está presente em nossa cultura, música e memória. Difuso, mas presente", garante Bortoloti, biógrafo de Belchior , Guignard e Di Cavalcanti. "Embora seja uma figura conhecida, Vinícius não tem sua história completamente contada. Sempre se fala dele de uma maneira parcial. O desafio é contar sua história, extensa e profunda, de maneira completa e não repetitiva", ambiciona.

<><> O poeta

Vinícius de Moraes estava prestes a publicar seu primeiro livro de poesia, O Caminho para a Distância (1933), quando decidiu reunir alguns de seus versos e mostrar para um colega da faculdade de direito, Américo Jacobina Lacombe. "Tente outra coisa", foi o conselho que ouviu. "Você é inteligente, mas não tem jeito algum para poeta." Felizmente, Vinícius não lhe deu ouvidos.

Um dos gigantes de sua geração, ao lado de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Mário de Andrade, Vinicius mereceu elogios de Carlos Drummond de Andrade. "Ele tem o fôlego dos românticos, a espiritualidade dos simbolistas, a perícia dos parnasianos e o cinismo dos modernos", declarou o mineiro. Em outras palavras, Vinícius de Moraes era múltiplo até na hora de escrever poesia.

Dos incontáveis versos que imortalizou, o mais famoso talvez seja o Soneto da Fidelidade (1939). Escrito em Portugal, é dedicado a Tati de Moraes, apelido de sua primeira mulher, Beatriz. Segundo José Castello, autor da biografia Vinícius de Moraes – O Poeta da Paixão (1994), "Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure" é "uma das mais belas definições do amor já produzidas pela língua portuguesa".

<><> O cancionista

Parceiros, Vinícius teve muitos: Ary Barroso, Adoniran Barbosa, Chico Buarque... Com Edu Lobo, chegou a ganhar o 1º Festival da Música Popular Brasileira (1965), da TV Excelsior: Arrastão, na voz de Elis Regina. Mas, de todos, seus favoritos eram Tom Jobim, Carlos Lyra e Baden Powell, a quem chamava de "o Pai, o Filho e o Espírito Santo". Quando começou a compor com Toquinho, em 1970, acrescentou: "É o Amém!".

Se o Soneto da Fidelidade é o poema mais famoso, Garota de Ipanema (1962) é a música mais cantada. Mas, ao contrário do que dizem, não foi composta em uma mesa de bar. "Era proibido tocar violão no Veloso", desmitifica Ruy Castro em uma crônica. A inspiração surgiu ali, sim, mas a música foi aprimorada ao piano no apartamento de Tom, em Ipanema, e a letra retocada por Vinícius, no de Lucinha Proença, sua quarta mulher, em Laranjeiras.

Outra letra que Vinícius demorou a escrever foi Chega de Saudade (1958). A música foi composta por Tom no sítio em Poço Fundo, no Rio. Ao ouvir a melodia, Vinícius comentou: "Tão brasileira quanto choro de Pixinguinha ou samba de Cartola". Terminada a letra, soltou um grito de alívio: "Nunca levei uma surra assim". Na mesma hora, mostrou para Lila, sua terceira mulher. "Rimar peixinhos com beijinhos? Que coisa mais boba!", desdenhou ela.

<><> O cronista

No Itamaraty, a mesa de Vinícius ficava ao lado da de Affonso Arinos. Um dia, o office-boy do jornal Última Hora entregou uma caixa abarrotada de cartas. "Vinícius, essas cartas são para você?", perguntou Arinos, curioso. "Não, Afonsinho, são para a Helenice", confessou Vinicius, encabulado. Helenice era o pseudônimo de uma misteriosa colunista do jornal carioca. A coluna Abra o Seu Coração durou de 12 de abril a 1º de novembro de 1953.

Vinícius não escreveu crônicas só para o jornal Última Hora, fundado por Samuel Wainer em 1951. Emprestou seu talento de cronista para outros veículos, como o jornal A Manhã, a revista Fatos & Fotos e o semanário O Pasquim. Muitas dessas crônicas foram publicadas em duas antologias do gênero: Para Viver Um Grande Amor (1962) e Para Uma Menina Com Uma Flor (1966).

Vinícius até tentou escrever um romance, mas não levou a experiência adiante. Batizado de Antônia, o calhamaço chegou a ter mais de 300 páginas. Quando o namoro com a personagem-título chegou ao fim, guardou o original por quase uma década. Nos anos 1940, reencontrou o esboço de livro no fundo de uma gaveta. Não gostou do que leu. Segundo Castello, Vinícius "vai ao banheiro, espalha as páginas pela pia e acende um fósforo".

<><> O crítico de cinema

"Durante um bom tempo, Vinícius quis ser cineasta." A afirmação é do crítico Carlos Augusto Calil, organizador de O Cinema de Meus Olhos (2015). Diz mais: "Sua grande frustração foi a de não ter dirigido Orfeu". Embora o filme de Marcel Camus, Orfeu Negro (1959), tenha conquistado a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de Melhor Filme Internacional, entre outros prêmios, Vinicius não gostou da adaptação. "Macumba para turista", criticou.

Em Los Angeles, onde serviu como diplomata, Vinicius reencontrou Orson Welles, que conheceu no Rio de Janeiro, em 1942. E pediu a ele que lhe indicasse um curso de cinema. Em vez disso, o diretor convidou Vinícius para acompanhar as filmagens de A Dama de Shanghai (1947), estrelado por sua mulher, a atriz Rita Hayworth. "Foi o melhor curso intensivo que Vinícius poderia ter feito", diverte-se o pesquisador Ricardo Cravo Albin.  

Cineasta frustrado, Vinícius deixou inúmeros roteiros prontos. Um deles é a cinebiografia do escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, escrito a pedido do cineasta Alberto Cavalcanti. "Não teve êxito", lamenta Calil. Em compensação, a música Garota de Ipanema foi adaptada para as telas por Leon Hirszman em 1967, e o musical Pobre Menina Rica, rebatizado de Para Viver Um Grande Amor, por Miguel Faria Jr. em 1984.

<><> O dramaturgo

Foi Lúcio Rangel quem apresentou Vinicius a Tom. O encontro se deu no Bar Villarino, no Centro do Rio. "Você aceitaria musicar uma peça minha?", pergunta o poeta. "Tem um dinheirinho nisso?", responde o compositor. Nisso, o jornalista teria dito: "Tom, é o Vinícius! Como você ousa falar em dinheirinho?". "É que eu preciso pagar o aluguel", explica Tom. E foi assim que começou a nascer, em maio de 1956, a peça Orfeu da Conceição.

Vinícius mostrou os originais para João Cabral de Melo Neto. No dia seguinte, o pernambucano deu o seu veredicto: "Os dois primeiros atos estão ótimos. O terceiro, péssimo!". Diante da perplexidade do colega, ordenou: "O que está esperando? Reescreva!". Uma curiosidade: foi João Cabral quem sugeriu a Vinicius que batizasse a adaptação do mito grego de Orfeu da Conceição. Até então, a peça não tinha título.

Como dramaturgo, Vinícius escreveu mais três peças: Procura-se Uma Rosa (1962), Chacina em Barros Filho (1964) e Cordélia e o Peregrino (1965). E deixou 12 inacabadas. Dessas, a mais curiosa é Ópera do Nordeste, uma versão musical de Dom Quixote, com letra de Vinicius e música de Baden. Em sua imaginação, João Gilberto interpretaria Dom Quixote e Grande Otelo, Sancho Pança. E o diretor seria Glauber Rocha. Nunca saiu do papel.

<><> O diplomata

A ideia de entrar no Itamaraty partiu do chanceler Oswaldo Aranha . Formado em Direito, Vinícius prestou o concurso, pela primeira vez, em 1942. Apesar de levar as apostilas para a praia e de estudar até tarde, não passou. No ano seguinte, tentou de novo. Chegou a ter aulas de português com o filólogo Antônio Houaiss. Foi aprovado. "Optou pela diplomacia menos por vocação, e mais para tentar organizar suas finanças", afirma José Castello.

Em 1946, Vinícius assumiu o posto de vice-cônsul em Los Angeles, onde permaneceu por cinco anos. Na capital do cinema, fez amizade com Walt Disney , assistiu ao show de Louis Armstrong e tornou-se vizinho de Carmen Miranda. Ele e a família passaram a frequentar a casa da "Pequena Notável" em Beverly Hills, na Califórnia. Suzana, sua primogênita de 6 anos, gostava de brincar em seu closet, e Pedro, de 4, aprendeu a nadar em sua piscina.

Sua carreira diplomática chegou ao fim em 29 de abril de 1969 quando foi aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional Nº 5 (AI-5) . "Fazia questão de esclarecer que tinha sido afastado por causa da alegação de que bebia muito", afirma o diplomata e escritor João Almino, autor do livro Diplomatas, Escritores, Imortais (2025). Em 16 de agosto de 2010, 30 anos depois de sua morte, Vinicius de Moraes foi promovido a embaixador.

 

Fonte: DW Brasil

 

4 detalhes assustadores de como eram feitas as cirurgias dois séculos atrás

Ir ao hospital no início do século 19 era quase uma sentença de morte.

Aqueles que tinham dinheiro eram tratados e operados em suas casas. Por isso, quem tinha a má sorte de acabar na sala de cirurgia de um hospital como o St. Thomas, um dos mais antigos de Londres, tinha uma alta probabilidade de morrer vítima de uma infecção.

Neste hospital fica a Old Operating Theatre ("antiga sala de operações", em inglês), a mais antiga conservada em toda a Europa, que acaba de ser reaberta para visitação após três meses de reformas.

Em 1822, o local era um centro cirúrgico para mulheres. Hoje, ela funciona como museu de uma época em que ainda não se usava anestesia nem antissépticos e quando se acreditava que era o "miasma" - odor fétido dos solos e águas impuras - que causava as doenças.

Semanalmente, um funcionário do museu ocupa a antiga sala e explica aos visitantes, em detalhes, como as cirurgias eram feitas há 200 anos.

<><> 1. Operações-relâmpago

Dois a cada três pacientes que passavam pela sala de cirurgia nos anos 1800 morriam, de acordo com Miles.

O mais comum era que morressem por causa de infecções contraídas no pós-operatório, mas, para minimizar as possibilidades de morte por hemorragia, os cirurgiões da época operavam o mais rápido que conseguiam.

Uma cirurgia, do princípio ao fim, durava cerca de 10 a 15 minutos. Serrar um osso durante uma amputação podia tomar dois ou três minutos do tempo dos médicos - que ficavam mais famosos de acordo com a rapidez de seus procedimentos.

Amputações de membros usando torniquete eram algumas das operações mais frequentes, mas também se faziam outros procedimentos, como a extração de pedras na bexiga.

<><> 2. Sem anestesia

Em 1822 os pacientes sentiam uma dor inimaginável durante as operações, que eram feitas em uma pequena maca de madeira.

Naquela época, os pacientes mais ricos, atendidos pelos médicos em suas casas, tomavam álcool para diminuir a dor nos procedimentos.

No entanto, as mulheres que passavam pela Old Operating Theatre só recebiam um bastão revestido de couro para morder durante a cirurgia. Em alguns casos, os pacientes tinham os olhos vendados, mas, de modo geral, assistiam a tudo.

O éter só começou a ser usado como anestésico nos hospitais do Reino Unido em 1846. No ano seguinte, o clorofórmio também passou a ser usado para deixar os pacientes inconscientes.

<><> 3. Público de 200 pessoas

Assim como outras salas de cirurgia e de dissecação anatômica que existiam na época na Europa, esta tinha uma espécie de arquibancada e grades semicirculares para facilitar a visibilidade do público, que era composto principalmente por estudantes de medicina, aprendizes e assistentes dos cirurgiões.

Cerca de 200 pessoas se amontoavam para presenciar cada operação.

De acordo com as descrições de procedimentos cirúrgicos da época, havia muito barulhos e empurrões nas arquibancadas. Do fundo era possível ouvir gritos de "cabeças, cabeças!" para que os mais próximos da mesa de operações abrissem espaço.

Fumaça de tabaco também era comum no ambiente, explica Gareth Miles.

A presença e o posicionamento dos membros do público eram regulamentados e era comum em todas as salas de operações da época - no centro, ficavam o cirurgião e seus ajudantes, que seguravam o paciente para que não se movesse durante a cirurgia.

Ao redor da maca também ficavam outros cirurgiões do hospital e seus aprendizes, assim como quaisquer visitantes que o cirurgião principal permitisse.

Durante o século 19, na Old Operating Theatre, as mulheres só podiam ocupar a maca cirúrgica como pacientes. Sua presença no público não era permitida, porque se considerava que elas não eram fortes o suficiente para suportar as cenas.

Nas arquibancadas ficavam sentados, além dos estudantes, os aprendizes de outros hospitais, que iam observar novas técnicas e procedimentos, ou apenas o trabalho dos cirurgiões mais famosos.

<><> 4. Os instrumentos e as mãos eram lavados após as operações

Na época, médicos e cientistas acreditavam que as doenças contagiosas eram causadas pelo miasma - mau cheiro das ruas e dos rios, que se dissipava pelo ar -, e não por micro-organismos. Por isso, não se usava nenhum método antisséptico na sala de cirurgia.

O sangue das operações era recolhido em uma caixa de madeira com serragem ou areia, e os cirurgiões e seus assistentes só lavavam as mãos depois das operações, e não antes.

Da mesma forma, segundo Gareth Miles, os instrumentos cirúrgicos não eram limpos ou esterilizados antes de um procedimento, como são hoje. E as vendas eram reutilizadas nos pacientes.

Os jalecos manchados de sangue eram considerados uma espécie de medalha de honra para os cirurgiões, que, além de tudo, chegavam à sala de cirurgia vestindo as roupas com as quais tinham vindo das ruas. As mesmas ruas por onde, teoricamente, se espalhava o miasma.

•        As práticas médicas do Egito Antigo que são usadas até hoje

A medicina no Egito Antigo estava inevitavelmente misturada com a magia. Na época, não havia uma linha clara que demarcasse os limites entre a ciência e a religião.

Com frequência, acreditava-se que as doenças haviam sido enviadas pelos deuses como uma espécie de castigo ou que eram espíritos maus que estavam no corpo da pessoa e tinham de ser expulsos por meio de rituais, feitiços e amuletos.

Mas tudo isso era conjugado com uma medicina bastante prática - e alguns dos métodos utilizados na época sobreviveram ao passar do tempo.

Ainda que suspeite-se que muito conhecimento tenha se perdido com infortúnios como o desaparecimento da Biblioteca Real de Alexandria, sabe-se que a rica cultura egípcia, que floresceu por mais de 3 mil anos antes de Cristo, era muito avançada.

Ainda assim, não deixa de ser surpreendente o que sabiam no campo da Medicina, como por exemplo:

<><> Cirurgia

Os egípcios antigos aprenderam muito sobre a anatomia humana graças à tradição de mumificação. Ao preparar os mortos para sua viagem rumo ao além, podiam analisar as partes do corpo e associá-las com as doenças que a pessoa havia contraído em vida.

Isso permitiu que entendessem o suficiente do assunto para fazer cirurgias, sinais das quais podem ser encontrados nas múmias, desde a perfuração de crânios até a remoção de tumores.

<><> Tratamentos dentários

Por mais que se esforçassem em limpar e moer bem os grãos para fazer farinha, restavam pequenos pedaços de pedras na comida, assim como um pouco de areia do deserto. Isso desgastava os dentes e podia levar ao surgimento de buracos e infecções.

No Papiro Ebers, um dos tratados médicos mais antigos conhecidos, há várias receitas de preenchimentos e bálsamos. Uma delas descreve como tratar um "dente que coça até a abertura da pele": uma parte de cominho, outra de resina de incenso e uma de fruta.

Algumas receitas incluíam mel, que é antiséptico. Em outros casos, simplesmente tapavam os buracos com linho.

<><> Próteses

Os egípcios antigos precisavam de próteses tanto para os vivos quanto para os mortos - e talvez fossem até mais importantes para os mortos. Acreditava-se que, para enviar o corpo para o além, este deveria estar inteiro, daí a importância da mumificação e de completar o que faltasse antes da viagem final.

Mas também serviam para as pessoas vivas. A prótese de dedo na foto acima foi usada por uma mulher e é a mais antiga conhecida.

<><> Circuncisão

A circuncisão é praticada ao longo da história por várias sociedades por razões médicas e/ou religiosas. No Egito Antigo, era bastante comum, tanto que o pênis não circuncisado era visto como algo curioso.

Há escritos descrevendo a fascinação dos soldados egípcios com os pênis dos povos líbios que haviam conquistado. Eles contam, com frequência, que essas pessoas eram levadas para casa pelos egípcios para que seus conhecidos pudessem ver suas partes íntimas.

<><> Sistema médico controlado pelo governo

O acesso ao cuidado médico era controlado de perto pelo governo no Egito Antigo. Havia institutos que treinavam os médicos, que eram educados segundo um currículo específico. Esses locais também recebiam pacientes e os tratavam.

Havia manuais médicos, como o já mencionado Papiro Ebers, no quais eram registrados doenças e tratamentos. Além disso, há descrições de acampamentos médicos instalados próximos de canteiros de obras para atender os operários que sofriam acidentes.

Ainda há indícios de que, se o acidente ocorria no trabalho e a pessoa não podia trabalhar por causa disso, o operário recebia um pagamento durante o período de enfermidade.

 

Fonte: BBC News Mundo