O
tariFlávio e a hora do Brasil
A
opinião do presidente Donald Trump não deve ter tido grande influência na
vitória dos candidatos de extrema-direita nas recentes eleições
presidenciais sul- americanas. Esta é uma ideia que pode afagar o ego
do presidente americano e assustar setores da esquerda mais ressabiada, mas, no
mundo real, Trump é hoje uma figura cada vez mais impopular no mundo
todo, e também na América do Sul. Não quer dizer que algumas grandes
big techs e grupos financeiros de extrema-direita não tenham
intervindo nessas eleições, mas isto não chega a ser uma grande novidade.
Durante a Guerra Fria, os EUA promoveram 72 intervenções diretas e mudanças de
regime em todo o mundo, e só na América Latina, participaram de 18 golpes
de Estado entre 1952 e 1973.
O que é
realmente novo é o governo americano apoiando abertamente candidatos de direita
ou extrema-direita, sem propor ou oferecer nenhum tipo de projeto, estratégia
ou utopia de desenvolvimento nacional no caso de vitória de seus candidatos. Ao
longo da Guerra Fria, os EUA encomendaram às FFAA sul-americanas o “combate aos
comunistas”, mas ao mesmo tempo propuseram aos governos locais, pelo menos até
a década de 70, um grande projeto ou “utopia desenvolvimentista”. E depois
dos anos 80 e 90, os EUA propuseram e defenderam a “utopia da globalização” e
das “reformas neoliberais” em troca do apoio à sua “guerra imperial contra o
terrorismo. Mas agora, nesta terceira década do século XXI, o único projeto
proposto pela Administração Trump aos seus seguidores é o da “caça aos
narcotraficantes” e aos “imigrantes ilegais” e, sempre que possível, seu
confinamento em campos de concentração, ao estilo do presidente Nayib Bukele,
de El Salvador.
Como consequência
quase direta dessa falta de projeto, logo depois da vitória, muitos desses
novos governos vêm enfrentando situações de ruptura e “convulsão social”, com
queda rapidíssima de popularidade, uma vez que só propõem repressão e desmontagem
de seus próprios Estados, sem contar com nenhum tipo de ajuda dos EUA que não
seja policial ou militar, com exceção da Argentina, que foi salva da falência
pela intervenção financeira direta dos EUA. Pelo contrário, quase todos esses
novos vassalos norte-americanos foram penalizados com a imposição das
tarifas de Donald Trump, que reduziram seu acesso aos mercados
norte-americanos. E mesmo no caso da catástrofe venezuelana recente, os EUA não
forneceram nenhuma ajuda excepcional, nem mesmo se dispuseram a suspender ou
aliviar suas sanções que paralisam a capacidade de ação do governo venezuelano.
Além disso, apesar de sua suposta unidade ideológica, esses novos governos de
direita e extrema-direita carecem de qualquer tipo de unidade ou
objetivo estratégico comum. E o mais provável, na próxima década, é que
sigam na condição de pequenos Estados com economias “primário-exportadoras”
isoladas e irrelevantes do ponto de vista geoeconômico — e mais ainda, do ponto
de vista das grandes questões da geopolítica mundial.
O
Brasil é uma grande exceção nesse quadro declinante do continente
sul-americano. É o quinto maior país do mundo, e sua economia inclui-se entre
as 10 maiores do sistema capitalista. No início do século, era um país
agrário, com um Estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e
militar muito inferior ao da Argentina. Hoje, na terceira década do século XXI,
o Brasil possui um produto que representa cerca de 50% do PIB total do
continente sul-americano, é o país mais industrializado da América do Sul, e o
principal player internacional do continente sul-americano. Além disso, é o
país do continente com maior potencial de crescimento, se tomarmos em conta seu
território, população, capacidade de produção agrícola e dotação
de recursos energéticos, de minerais estratégicos e de “terras raras” (com
a segunda maior reserva do mundo). Dispõe de uma matriz energética limpa e de
uma gigantesca reserva hídrica que o candidata a uma posição de destaque na
chamada “quarta revolução industrial”, comandada pelos avanços no campo da
robótica e da inteligência artificial.
No
campo das relações internacionais, o Brasil mudou de rumo várias vezes nas
últimas décadas. Mas com relação aos EUA, suas elites conservadoras e liberais,
civis e militares têm mantido um apoio majoritário à Doutrina Monroe,
desde os tempos de Joaquim Nabuco, um dos patriarcas de sua política externa.
Mais recentemente, entretanto, mesmo com algumas interrupções, o governo vem
construindo uma nova estratégia de inserção internacional do Brasil, lutando
por aumentar seus graus de autonomia em um mundo cada vez mais “multipolar”,
sem aceitar qualquer tipo de alinhamento automático com relação às Grandes
Potências que dominam o sistema internacional. Foi com esta perspectiva
que o Brasil se associou à China, Índia, Rússia e África do Sul, para constituir
o grupo do BRICS, o bloco internacional que mais cresceu nos últimos anos,
tornando-se hoje num dos maiores obstáculos ao mandonismo do governo de Donald
Trump.
Esta
estratégia atual do Estado brasileiro não se enquadra no “terceiro-mundismo” do
século XX, nem parece ser a de um candidato apenas à liderança da “periferia
mundial”, ou mesmo do chamado Sul Global. Suas posições e pronunciamentos têm
apontado na direção de um universalismo cosmopolita e igualitário, e de um
multilateralismo que respeita as diferenças civilizatórias e assimetrias de
poder no sistema interestatal. O Brasil tem se movido entre as nações do Norte
e do Sul, do Leste e do Oeste, sem fazer distinções ideológicas ou discriminar
países em função de seus regimes políticos, ou pertencimentos culturais e
religiosos. Além disso, o Brasil tem se oposto radicalmente a todas as
tentativas de bipolarização do sistema mundial, com base em qualquer tipo
de posicionamento ou estratégia das atuais Grandes Potências.
Em uma
perspectiva histórica e comparativa de mais longo prazo, pode-se antecipar que,
para seguir por esse caminho, o Brasil necessitará de enorme persistência e
continuidade, e de uma estreita coordenação entre suas políticas externa e de
defesa, e sua política econômica interna. Difícil também será o Brasil
descobrir um novo caminho de afirmação de sua liderança e poder internacional,
dentro e fora da América do Sul, que não utilize a mesma arrogância e
violência que europeus e norte-americanos empregaram para conquistar, submeter
e “civilizar” suas colônias e protetorados.
Por
tudo e com tudo, não há dúvida de que a grande batalha geopolítica
sul-americana será travada no Brasil neste segundo semestre de 2026. Nesse
embate, o Brasil precisa ter claro que é próprio dos impérios desrespeitar
sistematicamente as fronteiras dos Estados nacionais, e que países que têm
projetos autônomos lutam permanentemente por suas soberanias.
Soberania não
é algo estático nem definitivo, é uma condição que se conquista exercendo-a e
defendendo-a continuamente, sem jamais considerá-la assegurada, nem mesmo pelo
Direito Internacional ou pelas instituições multilaterais que vêm sendo sistematicamente
atacadas e desrespeitadas. O Brasil vem enfrentando uma disputa em defesa de
sua soberania, contra um poder assimétrico e imperial, e contra setores de sua
própria elite civil e militar, que é “binária” e subserviente por sua própria
natureza, incapaz de entender a complexidade do mundo contemporâneo.
Trata-se de uma conjuntura extremamente complexa e desafiadora, mas é também a
hora em que o Brasil poderá abandonar sua longa dependência externa, assumindo
seu próprio comando, dentro do sistema mundial e frente à história da
humanidade.
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Brasil vai à OMC contra tarifaço dos EUA para “marcar
posição” contra Trump
A
diplomacia do governo do presidente Lula (PT) avalia que um eventual recurso do
Brasil à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o novo pacote de tarifas
imposto pelos Estados Unidos terá um caráter essencialmente “simbólico” e
servirá para “marcar posição” diante de Washington.
A
análise interna de diplomatas brasileiros ocorre após o anúncio feito pelo
governo de Donald Trump, na última quinta-feira (23), sobre a aplicação de um
segundo conjunto de tarifas direcionado às exportações do Brasil. A primeira
medida do governo americano estabeleceu uma taxa de 25%, justificando que o
Brasil adotaria práticas econômicas desleais contra empresários dos EUA. Já o
novo tarifaço adicionou uma taxa de 12,5%, baseada na conclusão de autoridades
americanas de que dezenas de nações, incluindo o Brasil, supostamente falharam
ao proibir ou fiscalizar a importação de mercadorias produzidas em locais com
ocorrência de trabalho forçado.
Em
resposta imediata às taxas impostas pelos norte-americanos, o Palácio do
Planalto divulgou uma nota classificando a medida de Washington como de
“carácter completamente arbitrário e injustificado”. Diante do impasse, a
gestão do presidente Lula comunicou que daria início “imediatamente” aos
trâmites necessários para acionar os instrumentos previstos na Lei de
Reciprocidade, além de levar a disputa ao fórum multilateral da OMC.
Entretanto,
integrantes do corpo diplomático brasileiro destacam que o acionamento da OMC
funciona mais como um gesto político do que como uma ferramenta com efetividade
prática no contexto atual. “Mostra que é um recurso à mão. Simbólico, hoje em
dia. Para marcar posição”, resumiu um integrante do governo que acompanha de
perto as estratégias do país contra a medida tarifária norte-americana.
O
ceticismo da diplomacia em relação ao recurso reside na paralisia enfrentada
pelo próprio órgão internacional. Criada em 1995 com o objetivo de reduzir
barreiras comerciais e mediação de disputas globais em condições justas, a OMC
teve um papel decisivo na solução de grandes conflitos no passado. Em 2004, por
exemplo, o Brasil venceu uma disputa histórica contra os subsídios concedidos
pelos EUA a produtores de algodão norte-americanos, garantindo o direito de
impor retaliações comerciais da ordem de US$ 830 milhões contra Washington.
Contudo,
o cenário atual é significativamente diferente. Desde 2019, o Órgão de Apelação
— a instância máxima do mecanismo de solução de controvérsias da OMC — está
inteiramente paralisado. O travamento foi provocado pelo próprio Donald Trump
durante seu primeiro mandato na Casa Branca, ao bloquear sistematicamente a
nomeação de novos juízes para a corte. Sem essa estrutura funcionando, as
chances de o Brasil alcançar um entendimento ou uma solução prática sobre as
tarifas por meio da OMC são consideradas quase nulas.
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Entidades empresariais rejeitam retaliação e pedem negociação
Enquanto
o Planalto sinaliza o uso da Lei de Reciprocidade e o acionamento do organismo
internacional, representantes de entidades empresariais brasileiras
manifestaram oposição a qualquer tipo de retaliação contra os Estados Unidos. O
setor produtivo defende que o país insista na via das negociações diretas para
conter o risco de uma escalada de tensão com a administração de Donald Trump.
A
Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) divulgou
posicionamento em que expressa “preocupação” com o tarifaço, mas renova a
confiança na habilidade da diplomacia brasileira para formular saídas
negociadas. “A entidade ressalta que não apoia a adoção de medidas de
retaliação comercial nem a aplicação da Lei de Reciprocidade como resposta às
iniciativas adotadas pelos Estados Unidos”, afirmou a Abimaq no documento. A
associação completou ressaltando que “o momento exige a retomada do diálogo e o
fortalecimento dos canais diplomáticos e institucionais entre Brasil e Estados
Unidos, de modo a evitar a escalada de medida que possam agravar o ambiente”.
A
Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AmCham Brasil) manifestou avaliação
equivalente. A instituição destacou em comunicado que a decisão dos EUA
“agrava” as condições para que os produtos brasileiros acessem o mercado
norte-americano, mas frisou seu posicionamento contrário a medidas espelhadas.
“A AmCham Brasil reitera que medidas de reciprocidade não contribuem para
superar as divergências atuais e apresentam elevado risco de provocar uma
escalada política e comercial, agravando os impactos econômicos para empresas,
trabalhadores e consumidores brasileiros”, ponderou a entidade.
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Negociações do tarifaço devem permanecer em compasso de
espera até depois das eleições
O governo dos Estados
Unidos, na avaliação de interlocutores do Palácio do Planalto familiarizados
com as negociações que antecederam os mais recentes tarifaços, deve adotar uma
postura de espera em relação à retomada de negociações, até que as eleições brasileiras
de outubro definam o novo cenário político do país. Os negociadores americanos
devem aguardar o resultado das urnas para saber com quem, de fato, vão negociar
a partir de 2027.
No
Planalto, a avaliação é de que o Brasil não pretende mudar sua estratégia
diante dessa expectativa, e não fará movimentos adicionais para acelerar as
tratativas antes do pleito. Uma fonte palaciana foi categórica ao afirmar que o
governo brasileiro não vai enviar uma delegação para “mendigar” junto aos
Estados Unidos, lembrando que já foram realizadas cerca de 30 reuniões entre
representantes brasileiros e o Escritório do Representante de Comércio dos
Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) ao longo do processo que antecedeu o
mais recente tarifaço.
A
leitura é de que a pausa nas negociações com o USTR pode estar relacionada a um
cálculo político do lado norte-americano, que aguardaria o desfecho eleitoral
brasileiro antes de definir seus próximos movimentos, na expectativa de um
cenário com um interlocutor considerado mais “dócil” e alinhado aos seus
interesses no país.
Se a
expectativa do governo Trump é a de que surjam opções políticas mais dóceis às
demandas dos Estados Unidos após a eleição, a orientação no Palácio do Planalto
é clara: ‘que aguardem’.
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Apesar das tarifas de Trump, FMI reconhece que governo
Lula está fortalecendo a economia
Apesar
dos ataques do presidente dos EUA,
Donald Trump, contra o Brasil e da imposição de tarifas, o Fundo Monetário
Internacional (FMI) reconheceu o crescimento da economia brasileira durante o
governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
A
organização internacional que historicamente exigiu cortes nos direitos sociais
e nas economias da América Latina declarou na
quinta-feira (23/07) a resiliência da economia brasileira e projetou que o
Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 2,4% este ano.
“A
projeção é de que o crescimento aumente para 2,4% em 2026, impulsionado por uma
melhoria nos termos de troca associada a preços globais mais altos do petróleo
e apoio fiscal, antes de desacelerar em 2027 devido à continuidade das
condições monetárias restritivas destinadas a trazer a inflação de volta à
meta”, destacou a agência.
O FMI
destacou que a economia brasileira demonstrou
“notável resiliência diante de múltiplos choques”. Observou também que o
sistema bancário permanece sólido, com instituições bem capitalizadas, alta
liquidez e riscos sistêmicos sob controle.
A
entidade destacou a normalização da política monetária e fatores estruturais,
como a reforma do IVA aprovada em 2023 e o aumento da produção de
hidrocarbonetos.
A
agência prevê, no entanto, que a inflação aumentará temporariamente este ano
para 5,6% em termos homólogos até o final de 2026, em parte devido aos elevados
preços internacionais do petróleo.
Posteriormente,
a inflação deverá convergir gradualmente para a meta de três por cento até
meados de 2028. Nesse contexto, os cortes na taxa de juros têm sido compatíveis
com o regime de metas de inflação do Brasil.
Ao
comentar sobre as pressões inflacionárias decorrentes do aumento dos preços
globais da energia, o FMI, em sua intervenção, afirmou que o Banco Central
deveria manter “flexibilidade” em suas próximas decisões .
A
entidade considerou que o Brasil deveria aproveitar a receita extraordinária do
petróleo para reduzir de forma sustentável a dívida pública e gerar espaço para
investimentos prioritários.
Fonte: Por
José Luís Fiori, em Outras Palavras/Brasil 247/TeleSUR

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