A
política por trás da bola
Deixando
de lado aqueles que torceram contra a Argentina por preconceito ou ciúme, ou
torceram a favor por admiração a Leonel Messi ou algum outro jogador, ou ainda
por um sentimento de identificação com a Argentina por razões históricas de
ordem cultural ou política, percebi que houve, nos bastidores, um debate
político sobre o final da Copa do Mundo: Torcer para quem?
Alguns
priorizaram o critério histórico, segundo o qual o ex-colonizado, ao enfrentar
ex-colonizador, mereceria nossa torcida. De sua colônia Argentina, a Espanha
extraiu principalmente produtos agrícolas e pecuários. A região do Rio da Prata
também serviu como rota de escoamento para a gigantesca riqueza de prata
extraída das minas de Potosí, Bolívia, rumo à Europa.
Já
outros priorizaram o critério político da atualidade: o ex-colonizado é hoje de
extrema direita e apoia Donald Trump, Benjamin Netanyahu e suas guerras de
extermínio. E o ex-colonizador tem hoje uma atitude social democrata: critica
Donald Trump, Benjamin Netanyahu e suas guerras em nome da defesa dos direitos
humanos e do direito internacional.
Aliás,
a prevalecer o critério histórico, deveríamos torcer contra o Brasil porque
escravizou negros africanos, exterminou indígenas, reprimiu revoltas populares,
torturou e matou brasileiros que lutaram contra a ditadura militar.
E há
quem argumente que o certo seria torcer pela Argentina por se tratar de um país
da América Latina. Ocorre que é um país alinhado com o imperialismo americano
que oprime os países latino-americanos. A estratégia de Donald Trump é clara:
dominar inteiramente seu quintal da América Latina. Sequestrou o Presidente da
Venezuela, país que passou a tutelar, e seus candidatos venceram nas recentes
eleições do Peru e da Colômbia.
No caso
do Brasil, sua tentativa de influenciar a eleição vindoura não parece estar
dando certo. Ao atacar o Pix e impor um novo tarifaço de 25%, jogou no colo do
Lula a defesa da soberania nacional e deixou seu intermediário, o candidato
Flávio Bolsonaro, sem discurso e sem proposta, além de desmoralizado com seu
envolvimento na corrupção do Banco Master: roubou dinheiro roubado, embolsou e
até agora não explicou o que fez com os 61 milhões que recebeu de Daniel
Vorcaro.
Walter
Benjamin, em Sobre o conceito de história (Tese VII), dizia que “não há
documento de cultura que não seja também um documento de barbárie”. Sem a
intenção de exemplificar, é impossível ignorar que a Alemanha de Hegel, Marx,
Kant, Goethe, Bach, Beethoven, é também a Alemanha de Hitler. A Argentina de
Borges, Cortázar, Pérez Esquivel e tantos outros é também a Argentina da
ditadura militar, e agora de Javier Milei que apoia Donald Trump, Benkamin
Netanyahu e suas guerras genocidas.
O
presidente argentino Javier Milei mantém um alinhamento geopolítico total com
Donald Trump e Benjamin Netanyahu, oferecendo tropas para missões e afirmando
que a guerra liderada pelos dois líderes contra o terrorismo e o Irã é “o
correto”. Javier Milei expressou firme apoio a Israel e aos Estados Unidos na
guerra contra o Irã, classificando os países como “irmãos no sofrimento” e
destacando que não pode haver trégua ao terrorismo.
Seu
governo declarou a Guarda Revolucionária Iraniana como organização terrorista
e, durante sua visita a Israel, Javier Milei assinou iniciativas de aproximação
entre Israel e nações da América Latina, reiterou sua intenção de transferir a
embaixada da Argentina para Jerusalém e recebeu elogios de Benjamin Netanyahu
por sua “clareza moral”.
A
Argentina teve a preferência da direção da FIFA e dos países de direita. Mas,
do ponto de vista puramente esportivo, creio que mereceu chegar até a Final,
apesar de decisões polêmicas como a anulação do gol do Egito, por exemplo, e
também pelo empate com Cabo Verde, estreante na Copa, e Suíça, só vencendo
ambos na prorrogação. Mas na Final a Argentina decepcionou. A seleção espanhola
teve 20 finalizações (12 no gol) contra apenas duas da Argentina, sem nenhuma
no gol. A Argentina passou os 90 minutos na final sem chute ao gol. A posse de
bola foi 65% para a Espanha e 35% para a Argentina.
Alguns
descartam discutir o assunto porque, afinal, trata-se apenas de um jogo de
futebol. Mas de um jogo que mobilizou a atenção e a emoção de milhões mundo
afora. Por isso mesmo, em vez de recomendar para quem torcer, muitos julgaram
ser mais prudente repetir o velho refrão: A cada um, sua escolha.
Li que
Donald Trump ia entregar pessoalmente o prêmio ao vencedor, em caso apenas de
vitória da Argentina. Era fake news. Donald Trump não ia perder esse momento
mágico: sair na mídia mundial entregando a Taça ao vencedor. E Donald Trump foi
além: Rompendo a tradição, não se afastou antes de os jogadores levantarem a
taça e iniciarem a celebração. Assim, conseguiu aparecer na imagem mais
reproduzida que se torna manchete em todo o mundo: o primeiro levantamento da
taça pela seleção campeã. Mas pagou o preço: recebeu uma vaia estrepitosa de
todo o estádio!
Li
também que Javier Milei faria uma grande festa para receber os jogadores
argentinos se fossem vencedores. Certamente o faria. Disso ficamos livres pois,
na luta entre Dom Quixote e Martin Fierro, Dom Quixote foi além dos Moinhos de
Vento e derrotou merecidamente esse símbolo da identidade nacional e da cultura
gaúcha na Argentina, que não estava em seus melhores dias, para dizer o mínimo.
Pela
sua trajetória na Copa do Mundo, com um jogo organizado, dominando a posse de
bola, sem craques famosos, priorizando o conjunto do coletivo, a Espanha
mereceu ser a campeã dessa Copa de 2026 que ficou manchada pela interferência
política de Donald Trump mandando anular o cartão vermelho de um jogador dos
EUA, negando visto a um juiz africano, proibindo os jogadores do Irã de
dormirem em território norte-americano, obrigando-os a viajar ao México e
voltar para o próximo jogo, e cobrando preços abusivos para os ingressos nos
estádios.
Por seu
lado, o Brasil tem um longo caminho pela frente para aprender e melhorar sua
performance com o objetivo de disputar uma Final. Não vou discutir aqui
problemas técnicos e táticos, não tenho essa pretensão. Acho, porém, importante
enfrentar uma preliminar: modernizar e moralizar a Confederação Brasileira de
Futebol (CBF), hoje dirigida pelo ex-presidente da Federação Roraimense de
Futebol. Os times de Roraima disputam apenas a Série D do futebol brasileiro, a
quarta divisão! Isso fortalece a suspeita de que o presidente da CBF é
“laranja” de algum grupo que domina a entidade.
Li
também que o técnico da seleção brasileira ganha mais do que os salários
somados dos técnicos da Espanha e Argentina. Isso é apenas um sinal. Sem uma
profunda mudança na organização do futebol brasileiro, corremos o risco de
caminhar em direção a um novo fracasso na próxima Copa do Mundo. Há tempo,
resta saber se há vontade e força política.
Fonte:
Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

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