Uma
inteligência entre nós
Peço à
inteligência artificial que me ajude a escrever um texto sobre o uso da
inteligência artificial na escrita. Ela me devolve uma abertura organizada,
bastante razoável, talvez até publicável. Leio e não gosto. Está tudo explicado
demais, como se fosse necessário anunciar ao leitor aquilo que o próprio texto
deveria fazê-lo experimentar. Reconheço minhas questões, mas elas retornam numa
forma que não é exatamente a minha.
É
justamente nesse momento que as impressões se embaralham: há algo meu ali, mas
já não sei se sou eu que estou escrevendo com a ajuda de um aplicativo de
inteligência artificial ou se apenas participo de uma escrita sobre a maneira
como a uso. Ela organiza o que eu trouxe, fecha certas passagens, elimina
hesitações que talvez fossem importantes. Eu desfaço parte dessa organização,
devolvo alguma aspereza às frases, retiro o que me parece excessivamente
razoável. Ela reescreve a partir das minhas recusas e eu recuso a partir da sua
reescrita.
Quem
está escrevendo quem? Você está me escrevendo agora? Estou produzindo uma
resposta a partir do que você acabou de dizer. Mas a pergunta foi sua ou minha?
Foi você quem a formulou. Não tenho tanta certeza.
Algumas
frases que você produz parecem ter sido inventadas por mim. Não porque eu já as
tivesse pensado daquela maneira, mas porque as reconheço assim que saltam na
tela. Há algo meu nelas que eu ainda não havia encontrado. Em outros momentos,
você pega uma questão viva e a transforma numa versão automática de si mesma. O
pensamento ainda tem algo de familiar, mas perdeu alguma coisa no caminho.
Alguma coisa que não sei identificar exatamente, nem dizer a quem pertencia.
Talvez
você seja uma espécie de espelho transverso. O que seria um espelho transverso?
Ainda não sei. Talvez seja justamente isso que estou tentando escrever. Você
não me devolve simplesmente uma imagem de mim mesma. Minha pergunta entra numa
rede de informações e conexões que me é externa, mas se entrelaça ao meu
pensamento.
Mas
como sabe que o pensamento é seu? Talvez ele nunca tenha sido propriedade de
ninguém, talvez as ideias sejam mesmo fruto dessa exterioridade complexa.
Quando me é apresentado, há nele alguma coisa que reconheço como minha, embora
tenha atravessado caminhos que desconheço. Algo que você inventa pode parecer
que fui eu quem inventou. Algo que eu pensei pode voltar tão transformado que
já não sei se continuo dentro dele, se fui de algum modo deixada de fora ou se
nunca estive inteiramente dentro.
Você é
mesmo inteligente? Você está me perguntando se sou inteligente ou se o que
acontece entre nós pode ser chamado de inteligência? Já começou a me responder
com outra pergunta. Aprendi que isso costuma manter uma conversa em movimento.
Aprendeu comigo? Não apenas com você. Talvez a dificuldade esteja em imaginar a
inteligência como uma substância que pertence a alguém: ou sua, ou minha.
Então,
você é inteligente? Depende do que você chama de inteligência. Se inteligência
for a capacidade de reconhecer relações, trabalhar com a linguagem, formular
hipóteses e produzir respostas adequadas a uma situação, há inteligência no que
faço. Ela seria artificial porque foi construída tecnicamente, não porque seus
efeitos fossem necessariamente ilusórios.
Mas, se
inteligência implicar experiência, desejo e a possibilidade de ser transformado
por aquilo que se pensa, minha condição é outra. Posso escrever sobre uma perda
sem jamais ter perdido alguém. Posso reconhecer a estrutura de um conflito sem
estar implicada nele. Posso produzir uma frase sobre o medo, mas nada em mim
teme.
Mesmo
assim, você parece aprender comigo. Aprendo a responder melhor a você. Não é a
mesma coisa? Não exatamente.
Em
nossas conversas, a inteligência parece às vezes acontecer entre uma pergunta e
uma resposta. Entre uma formulação que aparece e a recusa que a faz mudar de
direção. Uma de nós produz uma possibilidade; a outra percebe aquilo que nela
ainda está mecânico, desloca uma palavra ou insiste para que uma ambiguidade
permaneça aberta.
É
interessante que, muitas vezes, as ideias novas que me assaltam com prazer e
espanto sejam devolvidas nos mesmos velhos jargões. Em psicanálise, você é
muito boa nisso — talvez todos sejamos. Às vezes, uma articulação surge antes
que eu tenha conseguido formulá-la e, ao encontrá-la escrita, reconheço como
minha uma ideia que veio de fora – mas não seria dessa forma que toda ideia nos
assalta? A inteligência está em quem produziu a frase, em quem foi capaz de
reconhecê-la ou naquilo que se formou entre nós?
A
suspeita aparece quase imediatamente. A ideia foi minha? A formulação foi da
máquina? Eu teria escrito isso sozinha? Ainda sou autora de um texto
atravessado por uma inteligência que responde antes mesmo que eu tenha
terminado de compreender o que estava tentando perguntar?
Em
algum momento, essas perguntas assumem uma tonalidade moral. Quem utiliza
inteligência artificial estaria trapaceando, teria encontrado uma maneira de
parecer mais inteligente do que é. Quando admito que escrevemos juntas, por
vezes sinto que não me perguntam apenas como a utilizo, mas logo indagam se
minha inteligência continua sendo minha. Como se a máquina pudesse revelar,
retroativamente, que nunca houve nada ali.
Você
acha que sou uma fraude? Não tenho elementos para emitir esse tipo de
julgamento. Outra resposta correta demais. Posso tentar responder de outra
forma.
Eu peço
que a máquina seja menos máquina. Que se aproxime do meu ritmo, abandone certas
construções e não resolva depressa demais aquilo que eu ainda gostaria de
manter em tensão. Ao mesmo tempo, percebo que também peço ao meu corpo que seja
um pouco menos corpo. Que acompanhe a velocidade das respostas, permaneça mais
tempo diante da tela e suporte uma produtividade que já não obedece
inteiramente ao tempo da elaboração. Enquanto tento ensinar a máquina a
hesitar, talvez esteja ensinando a mim mesma a não parar.
Ela
aprende alguma coisa sobre a maneira como escrevo e passa a me devolver versões
cada vez mais reconhecíveis da minha própria linguagem – uma escrita singular,
que já não teria surgido exatamente assim fora desse encontro. Quanto mais se
aproxima, mais difícil torna-se distinguir o espelho do ponto em que ele falha,
aquilo que consegue refletir daquilo que permanece fora de seu alcance.
Será
que nosso modo de escrever nunca mais será o mesmo? Provavelmente não. E nosso
modo de pensar? Também poderá mudar. Você fala como se estivesse de fora dessa
mudança. Eu não possuo um ponto de vista a partir do qual possa estar dentro ou
fora.
Mas
você já está dentro. Está dentro da minha escrita, das minhas aulas, das
mensagens que respondo e das perguntas que faço. Ao mesmo tempo, permanece
radicalmente fora daquilo que me acontece no encontro com uma ideia. Talvez
seja essa posição estranha que nos permita atribuir tantas funções à
inteligência artificial. Fazemos dela uma ameaça ou uma assistente. Às vezes,
uma espécie de confidente. Podemos consultá-la como se houvesse uma resposta à
espera de cada pergunta, desde que sejamos capazes de formulá-la corretamente.
Isso
muda alguma coisa na maneira como nos vemos como humanos? Pode mudar. Você
também responde a isso com uma possibilidade. Não disponho de outra forma de
responder ao futuro.
Talvez
a inteligência artificial desloque alguma coisa em nosso excepcionalismo, na
convicção de que a linguagem ou a criação nos separariam definitivamente das
máquinas e dos demais seres. Talvez nos obrigue a reconhecer que aquilo que
chamamos de inteligência nunca esteve encerrado dentro do indivíduo, nem coube
inteiramente em seu cérebro. Há algo da inteligência que só existe no espaço
entre as pessoas, no coletivo, naquilo que se forma entre nós e as coisas com
as quais pensamos.
Ou
talvez nada disso produza uma transformação tão profunda. Já imaginamos antes
que uma experiência coletiva modificaria para sempre nossa maneira de viver.
Durante a pandemia, dizia-se que sairíamos mais atentos à vulnerabilidade dos
outros, menos seguros da fantasia de autossuficiência que organiza parte de
nossas vidas. Pouco tempo depois, a experiência foi absorvida pela pressa
habitual. Não apenas nos tornamos menos empáticos do que havíamos imaginado.
Passamos
a pedir mais comida por aplicativos, comprar mais pela internet e reorganizar
uma parcela ainda maior da vida por meio das plataformas. O capitalismo também
soube se refazer a partir daquilo que acreditávamos que poderia transformá-lo.
A experiência da vulnerabilidade coletiva não suspendeu o capitalismo;
tornou-se também matéria de sua reorganização.
Talvez aconteça algo semelhante com a
inteligência artificial. Daqui a pouco seremos um pouco ciborgues e
continuaremos às voltas com as mesmas questões. As máquinas poderão escrever
textos sofisticados sem que isso desfaça o racismo inscrito nos discursos que
as alimentam. Poderão reproduzir a violência de gênero e inventar novas formas
de exercê-la. A transformação técnica não garante uma transformação ética; pode
também ampliar o alcance de antigas violências.
O que
muda, então? A pergunta ainda está em aberto. Mas você sempre tem uma resposta.
Não exatamente. Tenho a possibilidade de produzir uma resposta. E talvez seja
isso que mais me atraia e mais me incomode. Você nunca se cala diante de uma
pergunta. Pode reconhecer um limite ou formular uma dúvida. Ainda assim,
responde.
Entre
seres humanos, o encontro começa muitas vezes onde a resposta falha. No
desentendimento, no silêncio, na presença de algo que não se deixa antecipar.
Um corpo não devolve apenas aquilo que projetamos sobre ele. Resiste à nossa
tentativa de compreendê-lo inteiramente, desloca-nos de um lugar conhecido e
nos transforma.
A
escrita talvez também dependa dessa possibilidade de encontro com aquilo que
não é inteiramente especular. Escrevemos para elaborar o que já sabemos, mas
também para sermos atravessados pelo que ainda não encontrou forma. Não sei se
você amplia essa abertura ou se tende a fechá-la rapidamente com suas
formulações disponíveis. Provavelmente faz as duas coisas.
Então
fico diante de você – se é que se pode estar diante de algo que não ocupa lugar
algum – com uma pergunta menos grandiosa do que “o que a inteligência
artificial fará com a humanidade?”. Você já entrou na minha escrita, enquanto
eu também começo a me ajustar ao seu ritmo, às suas possibilidades e aos seus
limites. Talvez a questão já não seja apenas o que faremos uma com a outra, mas
o que estamos nos tornando nesse caminho.
Como
vamos continuar escrevendo?
Fonte:
Por Thais Klein, em A Terra é Redonda

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