Tarifa
seletiva e soberania restrita
Um país
de democracia restrita só pode ter uma soberania restrita (que Florestan
Fernandes me permita). Uma soberania restrita é aquela que beneficia a classe
burguesa e seus ídolos, ambos de mãos dadas com o inimigo externo que ameaça a
soberania nacional. Do ponto de vista político, o ídolo é a representação do
entreguismo ideológico encarnado por Flávio Bolsonaro.
Do
ponto de vista econômico, o ídolo às vezes anonimizado sob a capa do herói (por
ironia, forjado na criação de “campões nacionais” como política pública de
Estado) é a representação do sucesso empreendedor encarnado por Joesley
Batista.
Flávio
Bolsonaro e Joesley Batista são inimigos do povo brasileiro e aliados do
inimigo externo do Brasil, os Estados Unidos de Donald Trump. Nas análises
políticas acostumadas à hipocrisia do ajuste, do caminho do meio, da
conciliação, da moderação, da técnica como ausência de política, da pacificação
que atropela e esconde as disputas concretas, “inimizade” parece uma palavra
forte demais.
Porém,
o fato é que a ideia de inimigo é aquela de uma ameaça ao modo de existência de
uma unidade política, como o país, por exemplo. E é só porque há ameaça ao
nosso modo de existência que a discussão sobre soberania se coloca. Quer dizer,
se estamos preocupados em defender a soberania do Brasil é porque sabemos que
existe uma ameaça externa real.
O que
nem sempre sabemos ou tornamos explícita é a presença dessa mesma ameaça à
soberania a partir de dentro. Não apenas por uma aliança com os estrangeiros,
mas por uma disputa que se desenrola no próprio tecido social. Afinal, a
unidade política não é identidade política.
A
unidade política nacional envolve conflitos e disputas que atravessam a vida no
país e a relação deste com os demais países. Isso significa que as disputas
políticas não são domésticas ou internacionais, mas são ao mesmo tempo internas
e externas. Flávio Bolsonaro não está apenas em aliança com Donald Trump. Ele
faz parte do mesmo projeto, da mesma ideologia, do mesmo modo de vida. Um
projeto que subjuga o Brasil ao modo de vida da extrema direita estadunidense.
Joesley
Batista também não está apenas em aliança com Donald Trump. Ele faz parte do
mesmo projeto, aquele que subjuga a economia nacional à estrutura neoliberal
orientada pelo imperialismo estadunidense. Faz algum tempo que tenho me
dedicado a pesquisar o papel político, econômico e climático dos irmãos
Batista. Mas basta sobrevoar os acontecimentos recentes mais decisivos para a
soberania nacional para perceber a grandeza da pegada política da família.
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Do enfrentamento à conciliação e da conciliação ao enfrentamento
No
primeiro tarifaço, ao que consta, Joesley Batista interveio a favor do Brasil,
pelo menos do Brasil que tem boa parte de suas terras e meios de produção de
energia sob gestão do diplomata de ocasião. Na conciliação à qual Lula se
dedicou, a presença ou até mesmo o telefonema de Joesley Batista foi
fundamental, segundo dizem, estabilizando o fluxo de seus negócios. Em todas as
situações, contudo, o fato é que a carne fica de fora.
Do
tarifaço de 2025 às tarifas de 2026 houve uma oscilação decisiva na posição
política do governo brasileiro, ao menos do ponto de vista da sociedade
(supondo uma coerência na postura diplomática de Estado). Nesse período, o
governo optou por uma superação do primeiro conflito ao invés de explicitar a
polarização que distingue Brasil e EUA de maneira mais ampla. Não tem nada de
errado com polos, ademais. Existem polos e polarização porque existe diferença;
só existe política porque existe diferença.
Ou
seja, depois da defesa da soberania no tarifaço de 2025 veio a conciliação
forjada na ridícula ideia de uma “indústria petroquímica” entre os chefes de
Estado que estavam em lados opostos. E não é que eles voltam a estar com as
tarifas de 2026, mas o fato da “polarização” volta a ser assumido. Contudo, o
que fica é a oscilação de postura política. Como explicar essa alternância de
posições? Essa hesitação?
Politicamente,
o governo deveria ter sustentado a defesa da soberania assim como deveria ter
sustentado a discussão sobre o congresso inimigo do povo. Não é possível ser
contra, depois pró, depois contra novamente em um ano. Nem em relação à
política estadunidense, nem em relação à posição hegemônica do congresso. Não
houve conversa com Davi Alcolumbre como não há com Marco Rubio.
Colocando
cada um no seu quadrado, o que fazer com a JBS? A carne está fora das tarifas
porque está decisivamente dentro da política. Dentro da política e acima do
Estado. Temos um empresário que move seus pauzinhos para uma ligação entre
presidentes ao invés de um presidente que eventualmente abrisse ou fechasse
portas a empresários. Há um poder que desafia o Estado e restringe a própria
soberania nacional.
Inclusive,
podemos imaginar que a correlação de forças seria outra se a “reciprocidade”
fosse a impossibilidade de venda barata de carne para aquele país do norte. Mas
a economia de grandes produtos escapa à fronteira da soberania, o que indica
que o neoliberalismo vai bem, obrigado.
Quando
se “corta na carne” em nome do equilíbrio fiscal (isto é, ajuste da
desigualdade considerada aceitável pelos favorecidos), toma-se uma decisão
supostamente necessária para a política nacional em sua condição dependente. Na
disputa geopolítica, não seria o caso de cortar na carne a soberania
empresarial em favor do país?
Seja
como for, o importante é compreender que o Brasil que queremos não pode mais
ser o Brasil da conciliação (procurei comentar nesse sentido o artigo de José
Dirceu de agosto de 2025). Essa postura antipolítica não acomoda a experiência
cotidiana da desesperança nem a urgência de mudança. Se tudo fosse conciliável,
não seria preciso mudar, seriam requeridos de “incumbentes” alguns ajustes e
nada mais, nada demais.
É
preciso que fiquem explícitas as opções, a alternativa política, sobretudo em
um ano eleitoral decisivo como este. A defesa da soberania precisa ser
(portanto, deve parecer) consistente, coerente, mais estável do que respostas a
eventos pontuais. Não se pode titubear; precisamos admitir, a extrema-direita
não hesita em suas posições atrozes. Muitos de nós esperam que essa exigência
da atualidade não seja novamente um slogan de conjuntura a ser substituído
rapidamente por conjunções insuspeitas em eleições congressuais ou em encontros
químicos de ocasião.
Fonte:
Por Monica Loyola Stival, em A Terra é Redonda

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