Decisão
do STF sobre a Abin Paralela deixa rastros até na bancada evangélica
Demorou
um ano e oito dias até que o caso da Abin Paralela tivesse novidades
significativas. Esse foi o tempo entre a entrega do relatório final pela
Polícia Federal (PF), que apontou a existência de uma “organização criminosa”
na cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) do governo Jair
Bolsonaro (PL), e a decisão do ministro relator do caso no Supremo Tribunal
Federal (STF), Alexandre de Moraes, no último dia 20 de julho.
Moraes
decidiu arquivar as investigações contra o ex-presidente, o ex-diretor da Abin
e ex-deputado federal foragido Alexandre Ramagem (PL), além de parte da atual
cúpula do órgão de inteligência. Por decisão do STF, os casos de 28 dos 36
indiciados pela PF em 12 de junho de 2025 seguem em aberto, a cargo da
presidência do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
Engana-se
quem acha que a decisão do STF conclui o caso, segundo a Agência Pública apurou
junto a fontes ligadas às investigações e a documentos oficiais relacionados ao
inquérito.
Ainda
restam diversas pontas soltas na Abin Paralela. Uma delas se refere às
circunstâncias por trás da suposta produção de dossiês falsos contra ministros
do Supremo em 2019 por Ricardo Wright Minussi, ex-assessor parlamentar do atual
líder da Frente Parlamentar Evangélica, o deputado Gilberto Nascimento (PSD). A
PF alega que parte do material foi produzida por Wright Minussi num “terminal
informático” do gabinete do líder evangélico no Congresso Nacional, a despeito
da Polícia Federal não apontar relação direta de Nascimento com os dossiês.
O
episódio aparece indiretamente na decisão de Alexandre de Moraes quando ele se
refere a Wright Minussi – “mencionado em razão de sua suposta participação na
elaboração ou circulação” de “conteúdos em redes sociais, campanhas de
desinformação e divulgação de dossiês políticos”, segundo o ministro.
Perícias
realizadas pela PF ao longo das investigações apontam que Wright Minussi seria
o responsável por dossiês que municiaram relatórios oficiais da Abin contra
ministros do STF e parlamentares de esquerda, falsamente ligando ambas as
partes ao Primeiro Comando da Capital, o PCC.
Como
revelado por Alice Maciel e Amanda Audi aqui na Pública, o pai de Wright
Minussi era dono de uma produtora de vídeo contratada pela campanha
presidencial de Jair Bolsonaro em 2022. Segundo prestação de contas à Justiça
Eleitoral, a campanha de Bolsonaro pagou R$ 36,8 mil à produtora, “para eventos
de promoção da candidatura”, no dia 27 de outubro de 2022 – às vésperas do 2º
turno das eleições, no dia 31 daquele mesmo mês.
A PF
aponta que o caso envolvendo Wright Minussi teve início em agosto de 2019, com
a ação de inteligência “Portaria 157”, sob o comando do então agente da Abin
Alan Oleskovicz. “O objetivo da operação era obter informações sobre a atuação
da ONG Anjos Da Liberdade, que seria financiada por organizações criminosas
para agir contra a Portaria nº157/2019 do Ministério da Justiça e Segurança
Pública”, segundo o relatório final da PF.
De
acordo com a investigação, agentes tinham de coletar dados, “identificar
contatos”, “alvos para recrutamento” e “membros ligados a lideranças
criminosas” que teriam relação com esta ONG. Mas “a inicial legitimidade da
ação acabou por ser desvirtuada em face da agenda político-ideológica de Alan
Oleskovicz, que recebeu ‘inteligência’ do assessor parlamentar Ricardo Minussi
cujo teor tentava vincular Ministros do STF ao PCC”, segundo a PF.
Os
investigadores recuperaram relatórios da Abin com parte do conteúdo falso
produzido pelo então assessor de Gilberto Nascimento. “Tais documentos
revelaram o desvio da ação de inteligência pelo coordenador da equipe
[Oleskovicz]”, diz a PF, que destaca que “os metadados destes arquivos revelam
sua produção em terminal informático pertencente à Câmara dos Deputados”.
Os
metadados analisados pelos peritos levaram ao nome de Ricardo Wright Minussi
Macedo, alguém “que tinha relação com servidores da Abin e com a assessora
parlamentar do deputado Gilberto Nascimento” à época, ainda segundo a PF. As
suspeitas dos investigadores motivaram um pedido de busca e apreensão contra
Wright Minussi, autorizado pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito da
“Operação Vigilância Aproximada”, em janeiro de 2024 – como reportado pela
Pública.
Depoimentos
colhidos pelos investigadores sugerem que a “assessora parlamentar” em questão
seria Lia Noleto, que tinha proximidade tanto com Wright Minussi, quanto com o
atual líder da bancada evangélica. Atuante há mais de 20 anos no Congresso,
Noleto trabalha como secretária-executiva da Frente Evangélica. Procurada pela
reportagem, ela preferiu não se manifestar.
À
Pública, Gilberto Nascimento já declarou que “não possui qualquer envolvimento
com os fatos e não responde a inquérito ou a indiciamento”, alegando que Wright
Minussi prestava “serviços” de “apoio à pauta legislativa” de seu mandato. O
relatório final da PF fortalece a posição do deputado, destacando que o hoje
líder da bancada evangélica não teria relação com a produção de dossiês no caso
“Portaria 157”.
A
reportagem tentou contato com as defesas do ex-assessor Ricardo Wright Minussi
e do agente Alan Oleskovicz, mas não obteve resposta. O espaço para
manifestação segue aberto.
A
recente decisão de Alexandre de Moraes começou a tomar forma em 18 de junho,
quando, a pedido do ministro, o procurador-geral da República (PGR) se
manifestou no caso. Paulo Gonet opinou por mandar o inquérito para a 1ª
instância, defendendo a medida como necessária para “a apreciação dos fatos
remanescentes” – supostos crimes de organização criminosa, corrupção passiva,
prevaricação, entre outros – “ainda não denunciados” pela PGR.
A
posição de Gonet deu base à decisão de Moraes, de enviar o inquérito para a
presidência do TRF-1 e arquivar os casos envolvendo Jair Bolsonaro, Alexandre
Ramagem e membros da atual cúpula da Abin. Ao todo, o STF determinou o
arquivamento do inquérito para seis dos 36 indiciados pela PF.
Na
decisão, Alexandre de Moraes apontou uma “integral conexão” da Abin Paralela
com o “Gabinete do Ódio”, mantendo em aberto o inquérito contra o pré-candidato
ao Senado por Santa Catarina Carlos Bolsonaro (PL). Ele é tido como um dos
líderes do grupo acusado de produzir e espalhar fake news contra opositores e
até mesmo ministros do Supremo diretamente do Palácio do Planalto.
Segundo
Moraes, Carlos Bolsonaro “é apontado como integrante do denominado ‘núcleo
político’, sendo-lhe atribuídas condutas relacionadas à coordenação do chamado
‘Gabinete do Ódio’, participação em campanhas de desinformação, difusão de
informações sigilosas e ataques ao sistema eleitoral, ao Supremo Tribunal
Federal e a opositores políticos”. O ministro destacou ainda a suspeita sobre a
participação de uma “assessora” do filho do ex-presidente no “núcleo político”
da “organização criminosa”.
Segundo
o ministro, ficou provada “a existência de uma organização criminosa que
monitorava adversários políticos, inclusive com a estratégia de atentar contra
o Poder Judiciário, desacreditando a Justiça Eleitoral, o resultado das
eleições de 2022 e a própria Democracia”. Para Moraes, as atividades da Abin
Paralela serviram “para contribuir com a implementação de um projeto golpista e
com fins antidemocráticos” no país.
A
reportagem também tentou contato com a defesa de Carlos Bolsonaro, sem resposta
até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para a posição do filho do
ex-presidente.
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“Faz parte do processo”
O
ministro do STF foi além do pedido da PGR, arquivando também os inquéritos
contra a cúpula da Abin no governo Lula (PT) – o atual diretor-geral da Abin,
Luiz Fernando Corrêa, o atual corregedor, o policial federal José Fernando
Chuy, e também o ex-diretor-adjunto Alessandro Moretti, demitido em janeiro de
2024 sob a acusação de tentar interferir no caso.
A PF
havia pedido o indiciamento dos três por supostamente terem atrapalhado as
investigações, algo visto por fontes ligadas ao caso como o ápice de uma
disputa nos bastidores do caso. Meses antes da conclusão do relatório final da
PF, a Pública já havia mostrado como atritos entre membros da corporação e da
Abin atrasavam a conclusão do inquérito – que, à época, já se arrastava havia
mais de dois anos.
Segundo
Moraes, não há “indícios suficientes” contra Corrêa, Chuy, Moretti e outros
dois membros da cúpula da Abin – Luiz Carlos Nóbrega e Lúcio de Andrade, chefe
de gabinete e coordenador de operações de busca do órgão, respectivamente.
Para o
ministro, o relatório trouxe “conclusões genéricas” sobre a “suposta
participação dos requeridos em atos de embaraço à investigação”, “sem a
demonstração” dos crimes atribuídos a eles pela PF – como prevaricação e
embaraço às investigações.
Procurados
pela reportagem, a atual direção-geral da Abin e o ex-diretor-adjunto
Alessandro Moretti preferiram não se manifestar sobre a decisão do STF. Já a
defesa do corregedor da Abin disse que “destacou todos os pontos de ilegalidade
em memoriais juntados aos autos”, alegando se tratar de “uma investigação
ilegal”. “Aguardamos o cumprimento da decisão pela Polícia Federal”, disse a
defesa de José Fernando Chuy.
Segundo
apurado pela Pública, pessoas ligadas à investigação enxergaram a decisão de
Alexandre de Moraes como algo que “faz parte do processo”. “Temos nosso
entendimento, mas respeitamos a decisão do ministro”, afirmou, sob reserva, um
dos responsáveis pelo relatório final. A mesma pessoa disse ainda que não foi
“nenhuma surpresa” o envio do que resta do caso ao TRF-1, pois “a investigação
se iniciou na 1ª instância”.
O tom
foi o mesmo adotado pela Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal
(ADPF), que destacou que o arquivamento dos casos contra a atual cúpula da Abin
ocorreu pela “ausência de justa causa para o prosseguimento das investigações”.
Já a PF disse que “não se manifesta sobre decisões judiciais”.
Pelo
lado dos servidores da Abin, a decisão do STF já está sendo utilizada como
argumento para a aprovação do projeto de lei nº 6423/2025 no Senado Federal,
onde foi apelidado de Novo Marco Legal da Inteligência. Proposto pela Comissão
Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), o projeto tramita em
regime de urgência desde abril, mas ainda não há consenso sobre a matéria – que
já teve sua votação adiada duas vezes.
Por
meio de nota divulgada à imprensa, a União dos Profissionais de Inteligência de
Estado da Abin (Intelis) alega que a decisão do STF de manter o inquérito da
Abin Paralela em andamento no TRF-1 mostra que “questões institucionais
evidenciadas pelas investigações permanecem atuais e exigem respostas
urgentes”.
Para a
Intelis, casos como esse “evidenciam fragilidades no modelo de governança” do
órgão – o que, segundo a organização, reforça a “necessidade de aperfeiçoar a
governança da atividade de inteligência” no Brasil.
Como
pano de fundo, há uma tensão constante desde o início do governo Lula (PT)
entre os oficiais de inteligência e a atual cúpula da Abin – em parte pelo fato
do atual diretor, Luiz Fernando Corrêa, ser mais um ex-policial federal a
comandar o órgão, ao invés de um oficial de carreira da Abin, como há anos
defende a categoria. Por outro lado, a diretoria atribui as críticas internas a
medidas de correção e fiscalização sobre as atividades do órgão, conforme
apurado pela Pública.
Fonte:
Por Caio Freitas, da Agencia Pública

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