sexta-feira, 17 de julho de 2026

Fim do nacionalismo? Direitas latino-americanas doam bases militares, recursos naturais e segurança aos EUA

Depois dos resultados eleitorais no Peru, Colômbia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras e Bolívia, podemos afirmar que as burguesias nacionais são uma quimera. Se acrescentarmos Argentina, Paraguai, El Salvador e Panamá, o panorama é desolador. Os países citados têm em comum governos reacionários, fruto da união das direitas mundiais sob o guarda-chuva da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), onde destaca-se a Rede Atlas, think tank que unifica a produção ideológica em sua guerra cultural contra a democracia e as alternativas populares.

Entre elefantes, leões e tigres anda o jogo. Os burros parecem seguir a estrela. Os novos governos articulam os diferentes setores das classes dominantes com um só objetivo, recuperar o poder formal e tornarem-se neocolônias dos Estados Unidos. Seus triunfos não seriam possíveis sem seu intervencionismo explícito, além de contar com a administração Trump.

Lá pelos anos 60, as ciências sociais do continente costumavam diferenciar entre as plutocracias ligadas ao imperialismo e uma burguesia nacional partícipe do desenvolvimento interno, promotora da industrialização e, como se fosse pouco, com laivos anti-imperialistas. Economias de enclave ou com controle nacional da produção.

Assim classificaram Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, em Dependência e desenvolvimento na América Latina, a distância que separava as oligarquias das burguesias nacionalistas. Hoje, sem distinção, todos juntos, pedem a intervenção estrangeira para manter seus privilégios de classe.

Depois da Segunda Guerra Mundial, junto aos projetos modernizadores das burguesias urbanas latino-americanas, começou uma nova etapa de nacionalizações. Financiar a industrialização requeria recursos.

Juan Domingo Perón na Argentina, Víctor Paz Estenssoro na Bolívia, José María Velazco Ibarra no Equador, Carlos Ándres Pérez na Venezuela e Eduardo Frei no Chile, com sua “chilenização do cobre”, encontraram na renegociação da dependência os dólares para seus projetos. Seu ideário incluía uma proposta de integração regional. O Mercado Comum Centro-americano, assinado em 1960, foi uma primeira tentativa; seguiu-se em 1969, o Pacto Andino. Colômbia, Peru, Equador, Chile e Bolívia foram seus promotores.

O ideário das burguesias nacionalistas se resume a integração, democracia representativa e desenvolvimento. Para mostrar seu compromisso, ainda na oposição, em 1971, a direita chilena votou favoravelmente à proposta de nacionalização da grande mineração do cobre, defendida por Salvador Allende. Foi aprovada por unanimidade. Um caso extraordinário e uma arma de dois gumes.

As burguesias desenvolvimentistas, assim definidas, buscaram o apoio dos setores médios urbanos. Melhorar suas condições de vida e garantir o ascenso social pela via da educação e da meritocracia. Promover a moradia social, aumentar a cobertura de saúde e um aumento salarial para as classes trabalhadoras, figuravam entre suas ofertas eleitorais. Pensavam em um Estado interventor, keynesiano, que pactuasse uma aliança com as classes populares.

Em resumo, anticomunistas, mas modernizadores. Anti-imperialistas, mas aliados dos Estados Unidos. Democratas, mas nem tanto. Em alguns casos incorporaram uma tímida reforma agrária em seus discursos. Buscavam enfrentar a influência da revolução cubana e liderar o processo de mudança sociopolítica.

Os Estados Unidos não discutiram a veemência anti-imperialista de seus sócios. Estavam conscientes das reformas e apoiaram seus dirigentes, na maioria democrata-cristãos. A Aliança para o Progresso e uma “revolução em liberdade” marcaram a conjuntura. John Kennedy lançou uma frase que sintetizou o período: “Aqueles que tornam impossível a revolução pacífica, tornarão inevitável a revolução violenta”.

Hoje, nada sobreviveu. Os partidos da direita latino-americana, em suas versões extrema, neoconservadora, democrata-cristã, liberal, renunciaram a qualquer proposta nacional. Transformaram o território, sua população e suas riquezas em mercadorias baratas para as transnacionais.

Seus dirigentes abraçam o trumpismo. Saúdam a invasão da Venezuela, o sequestro de seu presidente e companheira, solicitam o intervencionismo no México e se congratulam pelo bloqueio a Cuba. Oferecem seu território para o estabelecimento de bases militares. Subordinam as políticas de luta contra os cartéis da droga à DEA.

Também facilitam a entrada dos serviços de espionagem, contrainteligência e informação dos Estados Unidos com o pretexto de apoiar a luta contra o tráfico ilegal de pessoas e a produção de fentanil. Vendem o país às transnacionais. Renunciam a cobrar impostos das grandes fortunas. Facilitam uma superexploração de suas classes populares promovendo a dispensa livre, e garantindo salários de miséria para tornar rentáveis as empresas que produzem sem pagar taxas ou as filiais de transnacionais estadunidenses.

Mostram-se condescendentes com o sionismo, permitindo que seus capitais se apoderem, como sucede na Argentina e no Chile, de vastos territórios na Patagônia. Agora podemos perguntar-nos: Onde estão as burguesias nacionalistas? Não procure, desapareceram há décadas, se é que alguma vez existiram.

¨      ‘Modelo Bukele’ deve ganhar espaço na América do Sul com avanço da extrema direita, dizem especialistas

A extrema direita avança sobre a América Latina com sete dos 20 países da região governados por membros desse espectro político. Essa vertente defende abertamente o discurso da “mano dura” (“mão pesada”) contra a criminalidade tem seu principal expoente o presidente de El Salvador, Nayib Bukele e sua política de segurança pública.

Sociólogos e cientistas políticos vislumbram a possibilidade desse flerte dar frutos e o pacote de medidas baseado na militarização, encarceramento em massa e redução de direitos civis virar artigo de exportação.

Professora do Insper e pesquisadora associada ao Núcleo de estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP), Mariana Chies Santos considera que um dos países que importou essa fórmula foi a Argentina, a partir do governo de Javier Milei, que lançou no país o chamado Plano Bandeira de enfrentamento à criminalidade, experimentado na cidade de Rosário, a cerca de 300 quilômetros de Buenos Aires.

Segundo Chies Santos, a Argentina “adotou o encarceramento em massa e reforçou o patrulhamento ostensivo, mas manteve garantias constitucionais”. O recrudescimento na segurança contou com uma aliança entre os entes federativos e autoridades municipais, que é problemático pelo fato de que muitas instituições que fazem parte desse sistema estão infiltradas pelo narcotráfico.

Segundo matéria do jornal Versión, entre os anos de 2023 e 2026, Rosário teve uma queda de 70% no total de homicídios, saindo de 150 para 70 mortes, respectivamente.

Na Colômbia, que passará a ser governada pelo extremista de direita Abelardo de la Espriella a partir de agosto, Chies Santos considera que “ainda não é possível avaliar porque as eleições acabaram de acontecer, mas se adotar a medida, será o maior país da região a adotar esse modelo”, observa.

Já no Brasil, a socióloga pontua que muitos dos presidenciáveis já declararam publicamente entusiasmo ao modelo de Bukele. Em entrevista à Folha de São Paulo, Romeu Zema (Novo) declarou que essa política é “plenamente viável” no Brasil.

No âmbito estadual, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), defendeu a “prisão perpétua” e propôs “olhar para o modelo Bukele”, conforme declaração publicada em matéria do Poder 360.

Contudo, “é o Equador o maior exemplo até o momento”, frisa a pesquisadora. Ela explica que o país governado por Daniel Noboa importou o pacote completo, “envolvendo as mega prisões, a militarização, a concessão de imunização a civis e agentes do Estado”.

Há dois anos, o Equador militarizou o país. Enquanto o governo de Daniel Noboa projeta uma imagem de controle e ordem no sistema prisional, a investigação “Encerrados para Morir” (“Presos para Morrer”) produzida pela Unidade de Investigação Tierra de Nadie (“Terra de Ninguém”), em aliança com a plataforma CONNECTAS, revela que a sua intervenção foi acompanhada por um aumento drástico de mortes por fome e doenças de presos sob a custódia estatal.

Sob o pretexto de combater um “conflito armado interno” declarado em janeiro de 2024, a militarização das prisões resultou em um recorde de letalidade: 1.220 mortes em 2025, uma média de uma vida perdida a cada sete horas. A apuração, liderada pela jornalista investigativa Karol Noroña, evidencia que “a violência direta das facções foi substituída por uma política deliberada de fome e negligência médica”.

<><> ‘Bota nos pulmões’

Diferente das grandes chacinas com armas de guerra de anos anteriores, a nova face da morte no sistema carcerário é biológica, infere o levantamento. Os casos de tuberculose quadruplicaram em apenas dois anos, e em unidades como a prisão de Machala, o risco de contrair a doença chegou a ser 370 vezes superior à média nacional, diz o estudo.

A médica Clara Freile analisou uma base de dados forense de 394 internos mortos na Penitenciária do Litoral para o estudo. A análise identificou que, embora apenas 21% tivessem diagnóstico confirmado de tuberculose, a vasta maioria dos outros 79% apresentava quadros de pneumonia, insuficiência respiratória e desnutrição aguda, sintomas idênticos aos da doença.

No entanto, essa propagação não é apenas fruto da precariedade, mas de uma gestão cruel da dor. Noroña relata audiências judiciais onde detentos denunciaram que soldados, além de bloquearem sistematicamente a entrada de medicamentos, utilizavam a debilidade física dos doentes como alvo. “Se você tem tuberculose e te torturam colocando uma bota nos seus pulmões, obviamente haverá efeitos”, afirma a jornalista.

A letalidade é tamanha que, de uma amostra de quinze presos acompanhados pela investigação, dois morreram de tuberculose antes mesmo da conclusão do relatório. Atualmente, a estimativa indica que três pessoas morrem diariamente no sistema prisional equatoriano, uma das taxas mais altas da região.

O grande argumento da política de Bukele, que inspirou o Equador e outros países, é a redução na taxa de homicídios e sua utilização na retórica de que o encarceramento em massa seria o responsável por essa mudança. Segundo Mariana Chies Santos, no entanto, essa política “não está seguindo os protocolos básicos assinados pelos países, como o Protocolo de Bogotá”.

O Protocolo de Bogotá tem como objetivo garantir a confiabilidade e transparência nos dados sobre homicídio em toda a América Latina e Caribe. “Há muitas mortes de supostos criminosos em ações policiais. É preciso pensar nessa redução de homicídios com base nestes outros dados”, complementa.

Chies Santos pondera que essas iniciativas simplistas e de resultado imediato “dão votos ao contrário de soluções de longo prazo, a exemplo da educação”.

<><> ‘Encontrei meu filho no necrotério’

Griselda (nome fictício) perdeu um filho de 36 anos, abatido pela tuberculose enquanto cumpria pena em um presídio na província de Guayas – um dos chamados, Centro Regional de Privação de Liberdade, ou CPL, segundo a sigla usada no país. Ela conta que ele foi condenado a dois anos de prisão, mas morreu após cumprir nove meses de pena.

Diferente do Brasil, que permite visitas aos domingos, no Equador Griselda era obrigada a pagar entre dez e quinze pesos por uma cabine telefônica para falar com o filho, ou contava com a ajuda de outros presos. A cada contato, ela viu a saúde do filho se deteriorar “por causa da comida”.

“Não há comida suficiente, eles dão apenas um pouco. Além disso, os maus-tratos que ele recebia da polícia, dos militares, dos guardas… não há tratamento bom lá”, comenta.

Segundo Griselda, no auge da angústia, ela mobilizou advogados públicos e conseguiu um habeas corpus que garantiu que o caso do filho fosse avaliado em uma audiência do Departamento de Saúde, vinculado ao Serviço Nacional de Atendimento Integral a Adultos Privados de Liberdade e Adolescentes Infratores (SNAI).

O filho não compareceu à audiência. “Eu procurei meu filho sozinha. O encontrei no necrotério. Meu filho estava lá, identificado como indigente. Quantos dias meu filho estava morto?”, questiona a mãe ainda em tom de desespero. Os demais prisioneiros que conheciam o filho de Griselda não sabiam onde encontrá-lo.

O luto da mãe se mistura à preocupação com outro filho de 39 anos, que também está encarcerado. “Ele está magro, também está desnutrido. Eu tenho que mandar remédios uma vez por mês, comida, tenho que mandar visitas, mas para que servem as visitas?”, questiona em tom de resignação.

Mãe de uma filha de 11 anos, Griselda conta que precisa se virar em muitas para dar conta da luta pela vida do filho. “Ele recebeu uma pena de 19 anos, mas estou trabalhando com o meu advogado em um recurso para reduzir a pena, porque meu filho é inocente”, assegura.

O Estado reconheceu a negligência cometida no caso do filho de Griselda. Ela conta que ganhou na Justiça uma indenização pela morte do filho. “Eu sei que esse dinheiro não vai trazer meu filho de volta, mas como o advogado me disse, é uma ajuda”, explica.

A investigação teve acesso a uma amostra de 400 fotografias que documentam o abandono estatal, retratando corpos em condições de extrema degradação física. Noroña detalha que as imagens são “basicamente de cadáveres de pessoas presas morrendo sob o sol, sobre papelões, e vídeos delas pedindo auxílio”. Os registros transformam as denúncias de negligência em provas gráficas do sistema defendido pelo governo como exemplar.

O Pavilhão 7 da Penitenciária do Litoral, rebatizado pelos detentos como “Camposanto”, ilustra bem essa degradação. Felipe, um ex-custodiado que atuava como “contador” da unidade, descreveu para o estudo um cenário onde a morte biológica se tornou parte da rotina: em apenas quinze dias, a população de sua ala caiu de 210 para 150 pessoas devido à letalidade das doenças.

Sem o recolhimento imediato dos corpos, os sobreviventes eram forçados a conviver e realizar suas refeições ao lado de cadáveres que permaneciam por horas nos corredores. “Tínhamos que tomar café, almoçar e jantar com os mortos”, consta no relato.

<><> O modelo Bukele e o Caso de La Bonita

O símbolo máximo dessa política é a Prisão El Encuentro, inaugurada em novembro de 2025 com assessoramento direto do governo de Nayib Bukele e arquitetura inspirada nas mega prisões salvadorenhas. Vendida como um padrão de “dignidade” e controle estatal, a unidade já registra pelo menos três mortes sob suspeita de ocultação, segundo a jornalista Karol Noroña.

Em meio a esse debate surgiu o Caso de “La Bonita”: uma mulher trans de 23 anos detida por tráfico de drogas, que ilustra a falência do modelo. Enviada para uma prisão de segurança máxima destinada a chefes perigosos, mesmo sendo detida por um delito menor, ela morreu sem assistência adequada ou protocolos de gênero. O Estado registrou a causa como “pancreatite” para, segundo a investigação, ocultar a presença de tuberculose na unidade modelo.

A socióloga Mariana Chies Santos chama atenção para uma contradição no Equador. Mesmo adotando o modelo Bukele, o Equador encerrou 2025 com 9.216 homicídios, um incremento de 30,5% se comparado a 2024, diz o Observatório Equatoriano do Crime Organizado.

A razão, observa a pesquisadora, é a diferença entre as dinâmicas dos crimes. “Ele [Bukele] diz estar enfrentando gangues de rua, só que o Equador precisa enfrentar a economia transnacional do crime”, explica. Segundo a acadêmica, para combater o crime transnacional não basta presídios, “é preciso parcerias institucionais com os demais países”.

 

Fonte: La Jornada/Opera Mundi

 

EUA poupam café, carne e petróleo do tarifaFlávio ao Brasil

Ao estabelecer uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros nesta quarta-feira (15/07), o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) listou cerca de 2 mil códigos tarifários que ficaram isentos da nova sanção.

A entidade definiu essa lista após ouvir cerca de 77 depoimentos e analisar centenas de contribuições em audiências públicas realizadas entre o começo de junho, quando propôs uma primeira relação de sanções, e esta quarta-feira, quando a Casa Branca implantou a medida.

Segundo o USTR, as isenções evitam riscos de desabastecimento da economia americana quando a matéria-prima é crítica e não há como suprir a demanda internamente; protegem cadeias produtivas consideradas estratégicas, quando uma tarifa pode afetar toda a cadeia produtiva; e consideram itens cuja sanção teria baixa efetividade para coibir as práticas brasileiras investigadas.

Por outro lado, o escritório comercial rejeitou pedidos de exclusão para alguns itens com base na conveniência econômica das empresas, como aumento de custos, perda de competitividade, dificuldade de substituir fornecedores brasileiros, inexistência de produção doméstica e, em alguns casos, ausência de relação entre o bem e a investigação.

<><> Etanol taxado, café isento

Entre os bens afetados estão etanol, máquinas agrícolas, roupas novas, equipamentos elétricos e ligados à mineração, açúcar orgânico, diversos manufaturados, máquinas e equipamentos de construção e peças automotivas fora das exceções já existentes.

A agência afirma que, nesses casos, não há risco de desabastecimento ou disrupção econômica relevante.

Já entre os isentos, o USTR manteve praticamente todos os produtos que já haviam sido propostos para exclusão em junho, abrangendo desde agropecuários e minerais até insumos industriais, farmacêuticos, aeronáuticos e tecnológicos que os Estados Unidos consideram estratégicos. (leia mais abaixo).

Após as audiências, foram incluídos neste pacote hidróxido dealumínio, mel orgânico, café instantâneo sem sabor, sucata de ferro e aço, couros, antiguidades, obras de arte, itens colecionáveis e roupas usadas.

Também ficam fora da nova tarifa os produtos já cobertos por exceções específicas, como materiais informacionais, doações humanitárias, bagagem acompanhada de viajantes e os bens incluídos na chamada Seção 232, que já taxa artigos de aço, alumínio e cobre, veículos e autopeças, caminhões e ônibus, produtos de madeira e semicondutores.

Nesses casos, o item permanece sujeito apenas às tarifas já aplicáveis sob outros programas, evitando a acumulação de sanções.

>>>>> Veja a lista de produtos isentos:

•        Carnes e produtos animais: carne bovina fresca, refrigerada e congelada; miúdos bovinos; carnes processadas; couros; mel orgânico; alguns pescados e frutos do mar, entre outros.

•        Frutas, vegetais e produtos agrícolas: tomates; mandioca; banana; coco; castanha de caju; frutas tropicais; entre outros.

•        Café, chá e especiarias: café verde; café torrado; café instantâneo sem sabor; chá verde; chá preto; erva-mate; pimenta; baunilha; canela; cravo; noz-moscada; entre outros.

•        Sucos, bebidas e preparados alimentícios: suco de laranja; suco de limão; suco de abacaxi; água de coco; produtos de açaí; polpas de frutas; conservas; tapioca; entre outros.

•        Mineração e metais: minério de ferro; pelotas de minério de ferro; bauxita; alumina; hidróxido de alumínio; grafita; fosfatos naturais; cobre; níquel; cobalto; manganês; estanho; zinco; nióbio e outros minerais, entre outros.

•        Energia e combustíveis: petróleo bruto; gás natural; GLP; carvão mineral; entre outros.

•        Produtos químicos: químicos básicos; petroquímicos; solventes; entre outros.

•        Farmacêuticos e saúde: medicamentos como antibióticos; ingredientes farmacêuticos ativos (APIs); vitaminas; hormônios; entre outros.

•        Fertilizantes: fertilizantes nitrogenados; fosfatados; potássicos; misturas NPK e outros nutrientes para uso agrícola.

•        Madeira, papel e celulose: toras; madeira serrada; compensados; pisos de madeira; produtos florestais; celulose; entre outros.

•        Metais e siderurgia: diversos materiais de ferro; cobre; alumínio; níquel; zinco; estanho e outros metais industriais.

•        Tecnologia e semicondutores: computadores; equipamentos de armazenamento de dados; componentes eletrônicos; semicondutores; chips e equipamentos relacionados à cadeia tecnológica.

•        Aeronáutica: aeronaves civis; motores aeronáuticos; peças e componentes aeronáuticos; subconjuntos e simuladores de voo, entre outros.

•        Arte e bens culturais: obras de arte; antiguidades; itens colecionáveis; objetos culturais e históricos, entre outros.

•        Vestuário usado: roupas usadas e artigos similares destinados à reutilização.

•        Exceções especiais: itens para uso religioso, como ramos religiosos e hóstias; materiais informacionais; doações humanitárias e outros bens contemplados por exceções específicas.

•        A justificativa dos EUA para impor novas tarifas ao Brasil

Dias após a visita do senador Flávio Bolsonaro ao presidente dos EUA, Donald Trump, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) divulgou recomendações para a Casa Branca taxar em até 25% uma longa lista de produtos brasileiros pelo que o órgão chama de práticas comerciais "irrazoáveis" do Brasil. Nesta quarta-feira (15/07), após ouvir 60 contribuições e 77 testemunhas em audiências públicas, Washington sancionou a proposta.

Os EUA citam "atos onerosos" brasileiros relacionados ao "comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas injustas e preferenciais; aplicação das leis anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal" como justificativas para enquadrar Brasília nas sanções da Lei de Comércio americana.

O órgão, porém, lista diversos produtos fora das sanções, como carne bovina, café, diversas frutas e verduras, além de minerais e metais como carvão, cobalto, níquel e alumínio.

A decisão foi tomada no contexto de uma decisão judicial que proibiu Trump de aplicar seu "tarifaço" de forma indiscriminada. Uma tarifa global de 10% é atualmente imposta contra o Brasil e diversos países.

<><> Investigação contra práticas "desleais"

A proposta parte de uma investigação aberta em 15 de julho do ano passado, quando a pressão de Trump contra produtos e autoridades brasileiras atingiu seu auge. Desde então, o mandatário americano arrefeceu a retórica e flexibilizou barreiras tarifárias. No último encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump disse ter tido uma "ótima" conversa sobre a questão comercial.

Para o representante de Comércio americano, Jamieson Greer, porém, o diálogo renovado não foi suficiente. "Ao longo do último ano, Trump e eu tivemos várias reuniões construtivas com Lula e seu gabinete, que se intensificaram nas últimas semanas. No entanto, continuamos a ter diferenças substanciais na resolução das questões identificadas nesta investigação", afirmou no começo de junho. Agora, ele argumenta que as negociações com o governo brasileiro não avançaram.

À época da abertura da investigação, membros do governo brasileiro associaram a iniciativa à pressão de Trump para coibir uma condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Por meio do vice-presidente Geraldo Alckmin, o Planalto enviou cartas à Casa Branca e impulsionou campanhas em defesa do Pix e da soberania nacional.

Ainda no ano passado, a investigação chegou a amenizar atritos entre Executivo e Legislativo em pautas econômicas e provocou os presidentes da Câmara e do Senado a lançar uma manifestação conjunta com o governo Lula.

Agora, o documento com mais de 100 páginas produzido pelo USTR sugere que há temas mal resolvidos na relação entre Washington e o Brasil, principalmente demandas de empresas americanas. O principal deles segue sendo o uso do Pix e as decisões políticas e judiciais que responsabilizam as redes sociais por conteúdos publicados nas plataformas.

<><> Redes sociais

"Tribunais brasileiros emitiram ordens secretas determinando que empresas de mídia social dos EUA removam determinados conteúdos políticos e suspendam perfis de residentes nos EUA, em alguns casos de forma global, além de proibir as plataformas de divulgar essas ordens aos proprietários dos perfis", escreve o órgão americano, que também reclama de multas impostas por não conformidade.

O USTR cita diretamente o bloqueio ao X imposto pelo ministro do STF Alexandre de Moraes em 2024 como motivo de preocupação. "Da mesma forma, os tribunais brasileiros proibiram o X de operar no Brasil entre agosto e outubro de 2024, depois que a empresa se recusou a retirar do ar o conteúdo criado por um jornalista brasileiro residente nos Estados Unidos e a nomear um representante local", afirma.

À época, Moraes aplicou diversas multas à rede social por não cumprimento de decisões judiciais anteriores que determinavam a remoção de conteúdos da plataforma, entre eles o do blogueiro Allan dos Santos. O órgão americano insiste no tema por entender que as ações afetam empresas americanas, como a plataforma de Elon Musk, ao restringir o uso e aplicar multas ao seu funcionamento.

Desde então, o ecossistema brasileiro de regulação das redes sociais ficou ainda mais rígido. Em maio deste ano, Lula publicou decreto com mudanças estabelecidas no Marco Civil da Internet, ampliando a responsabilidade de provedores de internet e plataformas digitais por conteúdos ilícitos publicados por seus usuários.

<><> Pix

No caso do Pix, o governo americano avalia que o Brasil prejudica empresas americanas que atuam em serviços de pagamento eletrônicos ao impulsionar seu próprio modelo de pagamento. "O papel duplo do Banco Central do Brasil como regulador e proprietário/operador do Pix cria um conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas", escreve.

"Por exemplo, o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e determina que o Pix seja exibido na tela principal dos aplicativos das instituições participantes com destaque não inferior a qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência", continua, antes de também criticar a gratuidade do Pix para pessoas físicas.

O Pix é o único serviço de pagamento eletrônico desenvolvido pelo governo brasileiro. O lançamento do sistema tirou força de modelos lançados por empresas americanas, como o Google Pay ou a ferramenta de pagamentos do WhatsApp, que foi descontinuada.

<><> Tarifas preferenciais

Nos encargos tarifários, os EUA acreditam que o Brasil favorece México e Índia em acordos comerciais preferenciais em diversos setores, como produtos agrícolas, veículos e autopeças, minerais, produtos químicos e máquinas.

A principal crítica é que os acordos ampliaram as trocas comerciais com esses países em fatias de mercado capturadas dos EUA. Washington diz que o Brasil importa sem encargos veículos e autopeças mexicanos, por exemplo, enquanto aplica a regra da tarifa de nação mais favorecida (MFN) para os produtos americanos.

"Esse tratamento preferencial cobre mais de 10 mil linhas tarifárias para o México e centenas de linhas tarifárias para a Índia, com alíquotas entre 10% e 100% inferiores à tarifa MFN do Brasil, que se aplica às exportações dos EUA nesses mesmos setores", argumenta o USTR.

Também o acesso ao mercado de etanol brasileiro é visto como prática desleal pelos americanos. "Em 2017, o Brasil interrompeu abruptamente o tratamento tarifário anteriormente equilibrado para o etanol e, desde então, não ofereceu tratamento tarifário recíproco para as exportações de etanol dos EUA", diz o órgão, sobre o fim de prática estabelecida em 2010.

Naquele ano, o governo brasileiro suspendeu tarifas de 20% na importação do produto, mas sete anos depois, o Planalto voltou a impor barreiras tarifárias sob a justificativa de valorizar a indústria nacional.

<><> Aplicação das leis anticorrupção, pirataria e desmatamento

O Brasil deixa de adotar medidas de fiscalização suficientes para combater o suborno e a corrupção, alega o USTR, citando relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de 2023 sobre a dificuldade de investigar e processar casos de suborno estrangeiro.

Os EUA também citam a anulação de condenações e provas do acordo com a Odebrecht na Operação Lava Jato como motivo de preocupação para a realização de negócios com o setor público brasileiro.

No âmbito da proteção da propriedade intelectual, o órgão americano diz que o país cria processos "irrazoáveis e onerosos" que restringem o comércio dos EUA.

"O Brasil não aplica de forma suficiente suas leis penais e regulamentos aduaneiros para enfrentar produtos falsificados; não resolve o tempo excessivamente longo que suas autoridades levam para examinar pedidos de patentes, especialmente patentes biofarmacêuticas; e não realiza medidas antipirataria consistentes e contínuas", pontua.

Também há críticas ao desmatamento ilegal e à dificuldade de verificar se madeira amazônica foi extraída legalmente. "Quando produtos agrícolas e de madeira produzidos em áreas desmatadas ilegalmente entram nos Estados Unidos e nos mercados globais, isso mina a competitividade dos produtos dos EUA, resultando em perda de receitas e vendas para produtores e exportadores americanos", diz.

O texto critica diretamente o desmatamento em áreas protegidas, que aumentou 79% durante o governo de Jair Bolsonaro, e práticas usadas pela agropecuária.

<><> Governo defende Pix e demais práticas comerciais

Em junho, Lula disse que Flávio Bolsonaro "traiu" o Brasil ao pedir "intervenção" em temas como o combate a organizações criminosas. Em nota publicada nesta quarta-feira, o Planalto repudiou as afirmações, disse que a balança comercial é favorável aos EUA e que não reconhece a legitimidade das investigações.

Em agosto do ano passado, o governo havia enviado diversas respostas às acusações americanas.

Na ocasião, sustentou que o Pix reforça a segurança do sistema financeiro sem discriminar empresas estrangeiras. Afirma ainda que a gestão pública garante neutralidade e que outros bancos centrais, como o Federal Reserve americano, também desenvolvem tecnologias semelhantes.

O país rejeita a ideia de que decisões judiciais tenham imposto medidas discriminatórias contra companhias americanas. Argumenta que a responsabilização de plataformas é aplicada a todas as empresas independentemente de origem.

Em relação à acusação de tolerância ao comércio de falsificados, o Itamaraty afirma que o Brasil mantém um regime de proteção à propriedade intelectual e atua para coibir práticas ilegais. Sobre o etanol, diz cumprir compromissos multilaterais, abaixo do teto de 35% da Organização Mundial do Comércio (OMC), enquanto os EUA impõem taxas mais altas ao produto brasileiro.

Quanto ao desmatamento, o governo afirma que suas políticas ambientais não configuram barreiras comerciais nem prejudicam a competitividade de empresas americanas.

 

Fonte: DW Brasil

 

Ex-líder do bolsonarismo acusa Flávio Bolsonaro de usar drogas e desafia: “faça um exame toxicológico”

Ex-deputado federal, que comandou a campanha de Jair Bolsonaro (PL) no Nordeste em 2018, Julian Lemos voltou a fazer supostas revelações sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após revelar em entrevista recente que o filho “01” do ex-presidente teria uma fortuna avaliada em R$ 600 milhões.

Nesta quinta-feira (16), após revelação de foto do senador ao lado de Luiz Phillipi de Moraes Mourão, o “Sicário”, homem apontado pela Polícia Federal (PF) como uma espécie de “matador” da milícia digital comandada por Daniel Vorcaro, Julian Lemos acusou Flávio Bolsonaro de ser usuário de drogas e lançou um desafio.

“Flavio, faça um exame toxicológico daqueles feitos com fio de cabelo só para a gente ver no que dá. Depois, publique o resultado no seu perfil. Duvido que você faça isso”, escreveu Lemos em publicação na rede X.

Em seguida, o ex-líder do bolsonarismo ironizou slogans do clã Bolsonaro, sugerindo que o senador seria usuário de cocaína. “Pátria, pó e libertinagem. Poder acima de tudo. Propina acima de todos”, emendou.

A acusação acontece em meio à tensão da pré-campanha diante de especulações sobre novas imagens, incluindo um suposto vídeo de Flávio Bolsonaro em uma das festas patrocinadas por Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do banco Master.

<><> Filhos milionários

Na entrevista em que revelou a suposta cifra milionária de Flávio, Julian Lemos também afirmou que o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) teria acumulado uma fortuna estimada em R$ 150 milhões. Segundo o ex-parlamentar, o crescimento patrimonial dos filhos do ex-presidente teria ocorrido ao longo do governo Jair Bolsonaro.

As declarações, no entanto, não foram acompanhadas de documentos ou outras provas que sustentem os valores mencionados. Até a publicação da reportagem original, Julian Lemos também não havia respondido aos pedidos de esclarecimento feitos pelo Metrópoles sobre a origem das informações.

Procurada pela reportagem, a equipe do senador Flávio Bolsonaro informou que ele não comentará as acusações. Não houve manifestação pública de Eduardo Bolsonaro sobre o assunto até o momento.

Julian Lemos foi um dos principais aliados de Jair Bolsonaro na campanha presidencial de 2018, mas rompeu politicamente com o ex-presidente nos anos seguintes e passou a fazer críticas públicas à família Bolsonaro.

•        Advogado e escritor carioca avisa sobre Flávio Bolsonaro: vêm “mais duas granadas”

A divulgação de uma fotografia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao lado de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário“, continua repercutindo nos bastidores da política. Em publicação nas redes sociais, o advogado e escritor Eduardo Goldemberg afirmou que o episódio seria apenas o início de uma nova crise e escreveu que há “pelo menos mais duas granadas com alto poder destrutivo a caminho”, em referência a possíveis novas revelações envolvendo o parlamentar.

A imagem, divulgada pela jornalista Juliana Dal Piva, do portal ICL Notícias, mostra Flávio Bolsonaro sem camisa ao lado de Mourão em um hotel no Rio de Janeiro. Luiz Phillipi Mourão foi apontado pela Polícia Federal como chefe de um grupo de intimidação supostamente ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. Preso durante a Operação Compliance Zero, Mourão teve morte cerebral confirmada após uma tentativa de suicídio enquanto estava sob custódia.

<><> Versões contraditórias

Após a divulgação da fotografia, Flávio Bolsonaro afirmou que, por ser uma figura pública, costuma tirar fotos com pessoas desconhecidas e disse que a imagem poderia ter sido produzida por inteligência artificial. Posteriormente, análises divulgadas por portais especializados em verificação de conteúdo indicaram baixa probabilidade de manipulação digital.

Na publicação, Goldemberg não detalha quais seriam as “duas granadas” mencionadas. A declaração, no entanto, ocorre em meio a outras frentes de desgaste envolvendo o entorno político do senador.

Uma delas diz respeito às investigações relacionadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O caso ganhou novos capítulos após a divulgação de informações e áudios sobre um aporte de R$ 61 milhões no filme Dark Horse, produção inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro e idealizada por aliados de Flávio, entre eles o deputado Mario Frias. O senador inicialmente negou a operação, mas posteriormente admitiu o recebimento dos recursos.

<><> Na festa de Vorcaro

Além disso, circulam nos bastidores de Brasília informações sobre a existência de vídeos gravados em eventos ligados ao empresário Vittorio Vorcaro. Paralelamente, operações recentes da Polícia Federal tiveram como alvo pessoas próximas ao senador no Rio de Janeiro, em investigações sobre supostos crimes financeiros, incluindo lavagem de dinheiro.

A publicação de Eduardo Goldemberg reforça a avaliação de setores da oposição de que a divulgação da fotografia com “Sicário” pode ser apenas o primeiro episódio de uma sequência de revelações capazes de ampliar o desgaste político de Flávio Bolsonaro. Até o momento, porém, o advogado não apresentou detalhes ou provas públicas sobre as novas informações às quais se referiu.

•        Valdemar diz que já conhecia foto de Flávio Bolsonaro com ‘Sicário’ de Vorcaro: “Vi há mais de um mês”

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que já tinha conhecimento, há mais de um mês, da fotografia em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece ao lado de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. A informação foi publicada pela colunista Bela Megale, do jornal O Globo, após a divulgação da imagem pelo portal ICL Notícias.

Segundo a reportagem, Valdemar relatou que chegou a conversar com Flávio Bolsonaro sobre a fotografia logo depois de vê-la. A imagem ganhou repercussão após investigações da Polícia Federal apontarem que Luiz Phillipi integrava o grupo conhecido como “A Turma”, descrito pelos investigadores como uma espécie de milícia particular do banqueiro Daniel Vorcaro.

Ao comentar o caso, o presidente do PL minimizou o fato de o senador aparecer na fotografia ao lado de Mourão e destacou a rotina de um agente político.

“Já tinha visto essa foto há mais de um mês. Flávio é político. Político tem foto com todo mundo”, afirmou Valdemar Costa Neto.

O dirigente partidário também revelou o teor da conversa que teve com o senador após tomar conhecimento da imagem.

“Eu contei para o Flávio. Ele me disse: ‘Valdemar, isso deve ser lá de trás. Eu nem lembro’”, relatou.

De acordo com a publicação, o site Metrópoles informou que aliados de Flávio Bolsonaro já tinham acesso à fotografia havia alguns meses. No entanto, a imagem só veio a público na quarta-feira (15), quando foi divulgada pelo portal ICL Notícias.

<><> Flávio questiona autenticidade da imagem

Em nota, Flávio Bolsonaro colocou em dúvida a autenticidade da fotografia e afirmou que não é possível identificar todas as pessoas que se aproximam dele durante compromissos públicos.

Segundo a reportagem, o senador declarou ser “impossível saber quem é cada uma das pessoas que dele se aproxima”.

<><> Investigação da Polícia Federal

A repercussão da fotografia ocorre no contexto das investigações da Polícia Federal sobre o grupo conhecido como “A Turma”. Conforme as apurações mencionadas na reportagem, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, morto em março deste ano, é apontado como um dos integrantes da organização, que, segundo os investigadores, atuava como uma espécie de milícia privada ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Até o momento, a manifestação pública de Valdemar Costa Neto limita-se a afirmar que já conhecia a existência da fotografia e que conversou com Flávio Bolsonaro sobre o assunto semanas antes de sua divulgação pública. Já o senador sustenta que não se recorda da pessoa retratada ao seu lado e questiona a autenticidade da imagem.

•        O patriotismo de fachada: Flávio Bolsonaro veste a bandeira para culpar Lula por tarifaço enquanto foge da PF

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) escancarou nesta quinta-feira (16) a principal contradição do bolsonarismo: a apropriação dos símbolos nacionais para defender interesses estrangeiros. Em vídeo publicado nas redes sociais, o senador tenta responsabilizar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pela tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. A bravata digital, contudo, ocorre no exato momento em que a defesa do parlamentar manobra no Supremo Tribunal Federal (STF) para adiar seu depoimento à Polícia Federal em inquérito por calúnia contra o próprio Lula.

A publicação expõe a encenação da subserviência. Enquadrado em primeiro plano, Flávio utiliza a bandeira do Brasil como cortina de fumaça visual para encobrir o fato de que atua, na prática, como porta-voz de uma sanção internacional contra o próprio país. “A culpa é sua, Lula”, sentencia o senador, esvaziando a responsabilidade soberana do governo de Donald Trump pela retaliação comercial.

<><> Ventríloquo de Washington e a omissão dos fatos

No roteiro do vídeo, o senador abandona a mediação política e reproduz, de forma literal e acrítica, a narrativa de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA e aliado de primeira hora do clã Bolsonaro. Ao citar Rubio como uma fonte “neutra” que atestaria a suposta falta de “boa-fé” do governo brasileiro, Flávio comete um duplo apagamento: esconde a aliança ideológica que sustenta o ataque e tenta apagar da memória pública a sua própria recente turnê de lobby em Washington.

Semanas antes do tarifaço, o parlamentar cruzou o hemisfério para participar de uma audiência no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). Lá, em vez de defender a balança comercial brasileira, atacou a política externa de Lula e as relações bilaterais do Brasil com a China. Entregar munição retórica a uma potência estrangeira para depois culpar o adversário doméstico pelas consequências é uma estratégia que cruza a linha da oposição e flerta com a sabotagem econômica.

<><> Transparência e dados: a narrativa de Flávio desmorona

A tese de que o governo federal “não negociou” é facilmente desmentida pelo cruzamento de dados públicos e documentos oficiais. Em nota técnica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Estado brasileiro documenta ao menos cinco reuniões de alto nível com o USTR desde maio. A sobretaxa norte-americana ignorou os fundamentos comerciais e baseou-se em retaliações a políticas internas soberanas do Brasil, como o Pix e regulações ambientais.

A tentativa de inverter a realidade, no entanto, já encontra barreira na percepção popular. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada na mesma quinta-feira, funciona como um termômetro do fracasso retórico da extrema direita: 51% dos eleitores consideram que Flávio apoiou o tarifaço deliberadamente para prejudicar a gestão petista. Para 63% dos brasileiros, a medida gringa ameaça diretamente o emprego e a renda de suas famílias. O levantamento escancara que o eleitor já codificou o alinhamento de Flávio aos EUA como um ataque direto à mesa do trabalhador brasileiro, gerando desgaste inclusive na base bolsonarista.

<><> Valente nas redes, fugitivo na Polícia Federal

Enquanto sustenta o tom bélico na internet acusando o chefe do Executivo de “corrupção” e “incompetência”, o senador adota a postura de evasão frente à Justiça brasileira. A recusa em escolher uma data para prestar esclarecimentos à Polícia Federal revela o modus operandi do bolsonarismo diante do escrutínio legal: o adiamento sistemático.

O inquérito, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, apura declarações onde Flávio associou falsamente Lula a descontos indevidos no INSS. O Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, já classificou o interrogatório como de “especial relevância”.

O contraste é incontornável e define o perfil do parlamentar. Sob as luzes anelares e o conforto de um estúdio, Flávio Bolsonaro empunha a bandeira nacional para justificar uma sanção estrangeira contra o Brasil. Diante da intimação da Polícia Federal para responder criminalmente por suas mentiras, prefere pedir mais prazo. O “avião sem piloto”, metáfora usada pelo senador para atacar o governo, parece descrever com mais precisão a atual estratégia de sua própria defesa.

 

Fonte: Fórum/Brasil 247

 

Glicose alta dificulta a cicatrização da pele? Dermatologista revela

A glicose alta dificulta a cicatrização da pele? Essa é um fato comum entre pessoas que convivem com diabetes, principalmente após um corte, uma cirurgia ou outro tipo de ferimento. Embora o diabetes esteja associado a alterações na cicatrização, o dermatologista e pesquisador Felipe Ribeiro explica que o problema não acontece da mesma forma em todos os pacientes. Segundo ele, o controle da glicemia faz diferença nesse processo.

<><> Como a pele cicatriza

A cicatrização começa logo após uma lesão. Para reconstruir a pele, o organismo multiplica as próprias células e forma um novo tecido.

Segundo Felipe Ribeiro, esse mecanismo depende do bom funcionamento dos vasos sanguíneos, responsáveis por levar oxigênio e nutrientes até a região machucada.

“O vaso sanguíneo funciona como um cano que leva água para um determinado local. Se esse cano não funciona corretamente, a pele também não recebe o que precisa para cicatrizar”, explica.

Por esse motivo, qualquer alteração que comprometa a circulação pode interferir na recuperação da pele.

<><> Glicemia alta pode atrasar a cicatrização

De acordo com o dermatologista, pessoas com diabetes que mantêm a glicemia elevada têm maior chance de apresentar uma cicatrização mais lenta.

Quando a glicose permanece alta por longos períodos, os vasos sanguíneos podem perder parte da capacidade de irrigar adequadamente os tecidos. Como consequência, a pele demora mais para se regenerar.

Segundo Felipe Ribeiro, pacientes com hemoglobina glicada elevada costumam apresentar esse processo de forma mais lenta.

“Quando a pele não recebe irrigação como deveria, ela demora mais para cicatrizar”, afirma.

<><> O diabetes sozinho não determina como a pele vai cicatrizar

Apesar dessa relação, o especialista destaca que o diagnóstico de diabetes, por si só, não significa que toda ferida demorará para fechar.

Segundo ele, pessoas que mantêm o controle da glicemia podem apresentar uma cicatrização semelhante à de quem não convive com a doença.

“Se há controle da glicemia, a pele cicatriza igual”, explica.

Essa informação ajuda a desfazer uma dúvida frequente entre pacientes que acreditam que qualquer diagnóstico de diabetes leva, obrigatoriamente, à cicatrização lenta.

<><> Quais problemas podem surgir quando a cicatrização demora

Uma ferida aberta permanece em contato com bactérias e outros microrganismos presentes no ambiente.

Por isso, quando a pele demora para fechar, aumenta o tempo de exposição e também o risco de complicações.

Segundo Felipe Ribeiro, a cicatrização lenta pode favorecer infecções e alterar a formação da cicatriz.

Em alguns casos, também pode ocorrer a formação de queloides, que são cicatrizes elevadas provocadas por uma resposta exagerada do organismo durante a reparação da pele.

Quanto maior o tempo necessário para fechar a lesão, maior tende a ser a necessidade de acompanhamento médico.

<><> O controle glicêmico faz parte do cuidado com a pele

Para o dermatologista, controlar a glicemia não ajuda apenas a reduzir complicações metabólicas. A medida também contribui para manter a saúde da pele.

Segundo ele, quando o organismo consegue irrigar corretamente os tecidos, a pele recebe melhores condições para reconstruir a área lesionada.

Esse cuidado passa pelo tratamento do diabetes indicado pela equipe de saúde e pelo acompanhamento regular da glicemia.

Além disso, pessoas com diabetes devem observar cortes, machucados e feridas que não apresentam melhora ao longo dos dias e procurar avaliação médica quando necessário.

<><> O que muda na rotina de quem convive com diabetes

Pequenos ferimentos fazem parte da rotina de qualquer pessoa. No entanto, quem convive com diabetes precisa acompanhar a evolução dessas lesões com mais atenção, principalmente quando a glicemia permanece elevada.

Segundo Felipe Ribeiro, o controle glicêmico reduz um dos fatores que podem atrasar a cicatrização.

Por isso, manter o tratamento, seguir as orientações da equipe de saúde e monitorar a glicose são medidas que também influenciam a recuperação da pele.

O dermatologista reforçou que o diabetes não determina sozinho como uma ferida irá evoluir. O estado da glicemia é um dos principais fatores que interferem nesse processo.

 

Fonte: Um Diabético

 

Ecofeminismo: corpo, religião e educação na cidade

Ivone Gebara debruça-se sobre sua grande trajetória acadêmica de ecofeminista, freira católica, teóloga e filósofa de formação e ação. Por mais de duas décadas,  Ivone foi professora do Instituto de Teologia do Recife (ITER), experiência que oportunizou sua inserção nas periferias urbanas da região metropolitana do Recife, em particular em Camaragibe, onde residiu, e a cidade se tornou matéria-prima de sua reflexão acadêmica. Nascida em São Paulo, em 1944, é doutora em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e doutora em Ciências Religiosas pela  Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica.

Sua obra articula feminismo, teologia da libertação, ecologia e crítica às estruturas patriarcais das religiões, propondo uma  espiritualidade enraizada na vida cotidiana das mulheres pobres e na experiência corporal e urbana do sagrado. Conceitos como interdependência entre os corpos humanos e os corpos da natureza, crítica ao dualismo hierárquico masculino nas representações do divino e a inseparabilidade entre lutas feministas  e  lutas ecológicas atravessam sua produção.

Provocada nesta entrevista sobre temas recentes no mundo intelectual e acadêmico e refletindo questões de circulação nos meios de comunicação, ela revisita seu acervo, do qual resulta uma reflexão que, no lugar de dar respostas diretas, elenca elementos-chave para a apreciação da questão e das possibilidades de resposta.

Como professora de filosofia e teologia, do alto de seus 81 anos de vida, intermedeia a pergunta e a resposta possível, sem abandonar o compromisso ético-político de indicar os elementos que podem favorecer a quebra do continuum da história (Benjamin, apud Löwy, 2005) e se compromete com a libertação na opção pelos pobres, esses derrotados e incansáveis revolucionários.

Para tanto, Gebara aponta um feminismo e um ecofeminismo  fundados em muitas tradições e, ao mesmo tempo, enraizados no solo em que vive e atua, sem idealizações e num abandono do  colonialismo, tendo em vista a diversidade e as diferenças culturais no Brasil.

Ao lado das mulheres, os homens são convidados a rever seu papel na sociedade. Para o  ecofeminismo  de  Gebara, o corpo é elemento da realidade vivida. Por isso, será necessário rever as noções de mulher e de homem para além da definição biológica pela genitalidade. Será preciso aprender das sexualidades dissidentes e escutar os corpos e as mentes transgêneros. A perspectiva religiosa de Ivone abarca uma compreensão de divindade que não é apenas pessoa nem apenas masculino, mas integra o humano à natureza, posto que o humano também é natureza, é terra.

Com isso, abandona-se o papel de mulher submissa e sempre disposta a servir, cuidadora, mas nota-se que as súplicas dos fiéis se dirigem a uma mulher, quando se refere a Maria, mãe de Jesus, no cristianismo, especialmente ao católico, apesar da complexidade que o tema mariológico requer. Por fim, temos uma autora que conquistou o direito de falar, mesmo quando tentaram lhe impor o silêncio.

A entrevista é de João Melo e Marco Aurélio Corrêa Martins, publicada por Revista Teias, volume 27, número 85, de abril/junho de 2026, sobre “História da educação, religião e cidades”.

>>>> Eis a entrevista.

•        O que é ecofeminismo e o que ele tem a ver com religião e educação? Como você se tornou ecofeminista? Quais foram as principais instituições, experiências e pessoas que influenciaram seu pensamento?

Ivone Gebara – A partir do final da década de 1980 e início de 1990, grupos de mulheres feministas da América Latina, em especial do Brasil, Chile, México, Argentina e Uruguai, abriram-se para a problemática da ecologia  ligada ao feminismo, visto que, depois do desastre de Chernobyl, a sobrecarga nos ombros das mulheres aumentou de maneira contundente.

Dados os problemas de irradiação, as mulheres da Ucrânia não sabiam mais como alimentar seus filhos e suas famílias, visto que a contaminação mortal era imensa. Essa problemática provocou-nos a perceber a relação estreita entre a dominação das mulheres e a dominação da natureza, que, inevitavelmente, incide na dominação e exploração maior da mão de obra feminina.

Fiz parte do grupo Con-spirando, sediado em Santiago do Chile. Tínhamos uma revista bimensal com o nome  Con-spirando Revista, de ecofeminista, na qual, quase que, unicamente, mulheres escreviam. Tínhamos a influência, especialmente, de teólogas norte-americanas e europeias, como Mary Daly, Rosemary Radford Ruether, Elisabeth Fiorenza, Delores Williams, Mary Hunt, Sallie McFague, assim como os livros de Thomas Berry e Brian Swimme e do velho Teilhard de Chardin.

•        Nas hostes africanas, há trabalhos e grupos que se denominam mulherisma, em contraposição ao feminismo ocidental e burguês. Com centralidade na família, e a partir de elementos endógenos ao continente africano, buscam recuperar a forma complementar existente entre homens e mulheres (Oliveira, 2018). Como o homem poderia ver, aprender e participar das lutas contra a dominação patriarcal (Gebara, 2017, p. 16-17), pelo fim do dualismo masculino/feminino, e também combater discursos que simplificam o pensamento feminista ou manipulam o corpo feminino para usos comerciais e político-eleitorais?

Ivone Gebara – Creio que, cada vez mais, o que chamamos de ecofeminismo deve assumir as cores dos lugares onde é vivido e produzido. Não devemos mais repetir os pensamentos do ocidente europeu que, por séculos, dominou as análises conjunturais dos países do Sul e determinou formas idealizadas de existir. Sem dúvida, esse processo não é simples. O respeito à natureza vivido pelas mulheres africanas temsua história própria e há que respeitar.

Aqui, no Brasil, estamos enfatizando o ecofeminismo a partir da diversidade de culturas, embora tenhamos consciência dos limites e das manipulações que ocorrem com frequência. Nessa linha, os homens também de  África e de outros lugares, assim como os dos povos indígenas, são convidados a rever a noção de poder e ter que caracterizaro mundo patriarcal e suas identidades desde mais de 7 mil anos. As hierarquias patriarcais tocaram todos os povos.

Sem dúvida, isso não é tarefa fácil, mas, dessa revisão, depende também a vida do planeta. Basta ver como o capitalismo, na sua forma atual, é bélico, destruidor da vida e, em especial, das crianças e das mulheres. Destruidor igualmente da vida no planeta. Não se trata apenas do mundo doméstico, mas das relações amplas econômicas, sociais e de organização do mundo, submissas a um modelo único de dominação de minorias.

•        Como o feminismo no Brasil responde à diversidade contida nos diferentes povos que constituíram aquilo que se convencionou chamar de povo brasileiro? A teologia feminista cristã e o ecofeminismo não são burgueses. Como eles se aproximam das questões próprias do Brasil, seja na Igreja, nas periferias e nas regiões brasileiras?

Ivone Gebara –  Os problemas maiores de sobrevivência não são da burguesia, embora a elaboração teórica seja burguesa, no sentido de ser uma tarefa de intelectuais. Isso vale igualmente para o feminismo e o ecofeminismo. O grande desafio que nos é colocado é simplificar a linguagem analítica a partir de um compromisso de proximidade com a vida dos mais pobres: observar a vida nua, informar-se de suas relações e das dores e das alegrias que produz.

E, a partir daí, compreender e explicar, através de uma observação atenta da vida e dos fenômenos da natureza, utilizando uma linguagem acessível, capaz de ser reconhecida por quem sofre as dores da exclusão e da fome.

Há uma alfabetização de informações analíticas que é negada ao povo, embora, com os atuais meios de comunicação, há algo que se poderia fazer na linha da educação efetiva para além das propagandas consumistas e das linguagens eruditas e científicas acessíveis a uma elite.

•        Você disse em uma entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU (Gebara, 2016a), criticando um documento da Igreja sobre a família, a Exortação Apostólica Amoris Laetitia, que o texto se dirigia a uma ordem hierárquica, masculina e solteira, e não às famílias católicas, à rua, aos pobres. Como a corporeidade feminina desafia a segregação e a lógica de “menoridade” imposta às mulheres na cidade, na família e nas instituições educacionais?

Ivone Gebara – A questão é que as teorias teológicas ainda vigentes são de um mundo impregnado pelo Império Romano e por sua continuidade até os dias de hoje. Elas mantêm uma visão dualista do mundo e uma noção da pessoalidade de Deus que favorece hierarquias e a dominação, sobretudo das mulheres. E isto porque Deus aparece com cara histórica masculina e outorga o poder de organizar a Igreja e o mundo aos homens.

Os homens são a primeira imagem de Deus, e as mulheres são a segunda, embora não se incluam na representatividade de Deus. Não se fala da natureza e dos animais como imagens de Deus, como se também a vida nas suas múltiplas manifestações tivesse que se submeter ao princípio criador masculino.

Há aqui uma clara exclusão das mulheres e uma acentuação apenas na sua capacidade reprodutiva e de cuidados, considerados coisas menores. É nessa linha que há que reformular essas representações do divino hierárquico masculino e nos inspirarmos, por exemplo, em Teilhard de Chardin, quando ele advoga o fato de sermos todas e todos, assim como tudo o que existe, provenientes de um “meio divino”. Isto significa que não temos, como seres humanos, a posse total nem o conhecimento integral desse Mistério Maior no qual estamos vivendo.

•        Sua obra tem influenciado profundamente uma geração de feministas. Mas, no passado, também recebeu críticas, como as de Marcella Althaus-Reid, que questionou os limites da Teologia da Libertação [1] em relação às sexualidades dissidentes. Como você avalia esse diálogo e essas tensões?

Ivone Gebara –  Avalio o trabalho de Marcella Althaus-Reid (2000) como extremamente positivo. Pena que a morte prematura a levou. Ela não só criticou as sexualidades apenas binárias como criticou a teologia e, em especial, a  mariologia católica. Ela fez até uma crítica, a meu ver, extremamente importante a um livro que escrevi com  Maria Clara Bingemer para a Coleção Teologia e Libertação sobre a figura de Maria. Eu concordei com ela e lhe agradeci.

A superação do binarismo teológico como vontade de Deus ainda está nos seus primeiros passos, porque ainda vivemos sob o domínio das leis pré-estabelecidas por homens que se julgam infalíveis quanto à determinação das leis sobre os corpos. Há uma metafísica estabelecida que não se sustenta mais.

•        Em março de 2026, a eleição da deputada Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher foi recebida com ataques que contestavam sua legitimidade, baseando-se no sexo biológico de seu nascimento. Estamos diante de um cenário em que o corpo trans é usado como “causa de escândalo” para fins político-eleitorais. É sobre o ódio? (Gebara, 2016b). Como podemos pensar a corporeidade feminina para além dos órgãos sexuais?

Ivone Gebara –  Os órgãos sexuais são de ordem biológica e são um critério “não escolhido” por cada pessoa para determinar seu sexo. A biologia não escolhe o sexo e tem alguns padrões mais ou menos estruturais. A ordem dos cromossomos é que determina a biologia. Entretanto, no que toca à sexualidade, para além da biologia, existem as emoções, os sentimentos, as tendências pessoais e suas escolhas, condicionamentos múltiplos que determinam a realidade dos corpos para além do biológico.

A questão é extremamente complexa e diversa. A biologia feminina também de um/uma trans ainda é determinada por sua biologia: menstruação, menopausa, esperma etc. Essas realidades fazem parte da condição biológica, que não pode ser simplesmente apagada. Não podemos pensar na negação dos órgãos sexuais, mas em uma psicologia emocional para além deles. Estamos ainda nessa complexa discussão.

Entretanto, acho que Erika Hilton, assim como outras pessoas trans, abrem-se para uma problemática mais ampla de direitos, uma problemática para além de sua condição biológica. E há que ouvir o que nos dizem, porque é muito importante.

•        Como a teologia feminista no Brasil, realizada por mulheres engajadas nas lutas sociais populares, relaciona-se com as bases fixadas do território habitado? Temas como o controle da sexualidade feminina, os direitos reprodutivos, a luta contra a violência e o feminicídio e o lugar das mulheres nas igrejas perpassam toda a sua obra. Como essas temáticas se relacionam com a perspectiva ecofeminista para pensar a cidade?

Ivone Gebara – A questão é que nossos corpos não vivem sem o ar, a água, as florestas, os legumes e as frutas que se plantam, a limpeza da cidade, os animais e os insetos. Tudo isso é também nosso corpo e a vida do nosso corpo. Com frequência, nos habituamos a nos pensar de forma separada e excludente. É como se fôssemos separados do conjunto dos elementos vivos da natureza que mantêm nossos corpos vivos.

Trata-se de uma nova percepção da mistura da vida. Precisamos, por isso, de um trabalho educativo enorme para fazer face a esse novo momento perceptivo que nos leva a nos descobrirmos nessa complexa rede de interdependências.

•        Os territórios nos quais atuam as teólogas femininas fazem mediação do pensamento e da ação. Como se dá essa mediação interpretativa quando se toca o solo, o chão, talvez possamos chamar de “práxis”. Isso é uma pedagogia ou isso vem de uma pedagogia? Haveria uma pedagogia ecofeminista? Como aprende e como ensina uma intelectual ecofeminista?

Ivone Gebara – Creio que a lei básica é a interdependência de tudo com tudo. O ecofeminismo se baseia nessa percepção do mundo. As lutas feministas existem porque existe a violência contra as mulheres; uma violência não apenas física, mas emocional, política, religiosa, corroborada por leis etc.

As lutas ecológicas existem porque háuma agressão sistemática, uma destruição de florestas, mares e rios que se tornaram depósitos do “progresso” humano capitalista. Isso não significa que essa metodologia seja facilmente aceita e integrada em nossas relações cotidianas. Ela ainda está em estado de aprendizagem, de convite a observar o mundo e a perceber nossa semelhança e diferença com toda a diversidade da vida.

•        Hoje, as igrejas neopentecostais redefinem a paisagem urbana com seus templos instalados em antigos cinemas e galpões, enquanto bancadas religiosas ocupam o centro do debate político. Como você avalia esse retorno intenso do religioso ao espaço público das cidades? E o que ele revela sobre os projetos de educação e de sujeito que essas presenças constroem?

Ivone Gebara – Nestes tempos, talvez diferentemente do que no passado, as igrejas, especialmente as  neopentecostais, são cada vez mais plurais e penetram na cidade, nos bairros populares e nas políticas de Estado com imensa facilidade. Infelizmente, estamos usando a religião, aliás, quase sempre se fez isso, para fortalecer projetos políticos e econômicos das mais diferentes tendências.

Repetimos, de diferentes formas, o passado colonialista que nos caracterizou. É preciso também deixar claro que as igrejas tradicionais também se expressam, salvo raras exceções, a partir de teologias hierárquicas e dualistas que levam a uma moralidade limitada pelos mesmos preceitos dualistas.

•        Nós, que trabalhamos com história da educação, olhamos para a escola católica e sua presença em pontos distintos e estratégicos da cidade, com vistas a uma ocupação que passa, sobretudo, por prédios históricos, muitas vezes suntuosos. Quase todos marcam os santos e, especialmente, a imagem de Nossa Senhora. Pensando nessa ocupação simbólica, mas também na presença territorial e temporal, como você avalia essa marcação do feminino a partir da imagem da mãe de Jesus?

Ivone Gebara –  A questão da imagem de Nossa Senhora é bastante complexa. Predomina ainda a ideia da Virgem submissa, sempre disposta a ajudar. Uma versão diferente, que acentua a força ética de Maria e a força ética do Movimento de Jesus, ainda não está suficientemente desenvolvida. Trabalha-se no regime dos exemplos e dos pedidos de ajuda à Virgem.

É interessante notar que a maioria dos pedidos de ajuda no universo católico se fazem a uma figura feminina. Tudo indica que o feminino é mais sensível às dores dos humanos, mais acolhedor das súplicas, mais terno e colaborativo.

•        Em 1994, você foi silenciada pelo Vaticano. O que esse episódio revelou sobre os limites do que as instituições religiosas permitem que se aprenda e se ensine nas cidades? E, olhando para trás, o que esse silenciamento ensinou à própria Ivone Gebara?

Ivone Gebara – Me ensinou que “apesar de você, amanhã há de ser um novo dia”. O silenciamento foi um alerta da dominação do mundo patriarcal, uma preparação de algo parecido com a experiência da liberdade buscada pelas mulheres e por tantos oprimidos da Terra.

 

Fonte: Entrevista com Ivone Gebara, para IHU