quarta-feira, 1 de julho de 2026

O curioso socialdesenvolvimentismo do PT

Não é possível criticar a “conciliação” como método dos governos liderados pelo PT sem reconhecer que a conciliação não envolve apenas cooptar políticos clientelistas para que apoiem a agenda ideológica imaculada do governo – presumidamente, algum tipo de desenvolvimentismo. A conciliação sempre envolveu concessão ao neoliberalismo e aos interesses por ele legitimados, contendo e “contaminando” desde dentro a agenda ideológica do PT – o socialdesenvolvimentismo – quanto se converte concretamente em políticas dos governos liderados pelo PT. O principal árbitro dessa contenção neoliberal do socialdesenvolvimentismo, e da síntese complexa e cambiante resultante, foi o próprio presidente Lula, como veremos.

Essa operação arbitral sempre envolveu autonomia relativa do Estado – que é um composição complexa de aparelhos contraditórios que não é dirigida harmonicamente, nos mínimos detalhes, desde a cúpula do Executivo – para organizar interesses societais através de políticas públicas. Tal organização não se limita a reagir pontualmente a demandas particularistas (frequentemente contraditórias) dos interesses coletivos e individuais que recebe: a política econômica e social do Estado, em cada governo, também executa decisões que não atendem a demandas específicas vindas de fora, pois tem autonomia relativa para impor, induzir e vetar comportamentos privados, muitas vezes os liderando e coordenando para ações coletivas que vão além dos que os atores privados estavam dispostos a fazer sem a ação estatal.

Dada a importância da autonomia relativa do Estado, não devemos analisar a reprodução de um modelo capitalista, muito menos um modelo neoliberal dependente, sem abordar o estatuto das ideologias que orientam os condutores das políticas de Estado nem as expressões concretas dessas ideologias. Em particular, tampouco devemos falar de neoliberalismos e desenvolvimentismos sem definir minimamente seu significado. Curiosamente, os governos liderados pelo PT são caracterizados por muitos interpretes com diversas matizes de liberalismo e desenvolvimentismo sem que deem a devida atenção à ideologia e à complexidade de suas expressões práticas concretas, como se as decisões dos governos se limitassem a atender demandas economicistas externas.

Sejamos breves: os liberalismos econômicos afirmam o primado do indivíduo na alocação “livre” do trabalho e da riqueza social através de relações de mercado que devem ser minimamente distorcidas pelo Estado que deve protegê-las (Bastos & Belluzzo, 2020). No capitalismo legitimado pelo liberalismo, contudo, os indivíduos só chegam a ser iguais perante a lei. Como o conjunto de cidadãos é dividido em classes sociais, a liberdade do proprietário do capital é mais substantiva e menos formal do que a do trabalhador despossuído, tanto na esfera privada quanto na esfera pública: “na esfera privada, o proletário não tem opção real ao aluguel de sua força de trabalho em troca de um salário, submetendo-se à vontade do contratante abastado. Na esfera pública, dinheiro compra influência política e, no passado, até o direito ao voto” (idem, p. 20).

No século XIX, o liberalismo econômico inspirou e legitimou o capitalismo de “livre” mercado e, no século XX, a sua radicalização neoliberal, que universaliza a concorrência como princípio de organização social. Contra o liberalismo, porém, duas grandes tradições legitimaram práticas de resistência e de transformação do capitalismo por meio do próprio Estado capitalista — e é delas que o socialdesenvolvimentismo herda parte de seu repertório. A primeira é o nacionalismo econômico, e a segunda é o reformismo social-democrata (Bastos & Belluzzo, 2020). O nacionalismo representa uma evolução do mercantilismo do Antigo Regime e foi teorizado por Alexander Hamilton e Friedrich List. A rigor, ele já embutia uma ideia vulgar de subdesenvolvimento: na descrição dos estágios pelos quais passariam os países, List sustentava que cada estágio requeria uma política distinta — proteção ou liberalização do mercado nacional —, pois o país não houvesse alcançado o estágio já atingido pela Inglaterra não poderia competiria em pé de igualdade (em situação de livre comércio) sem interromper o próprio desenvolvimento.

O desenvolvimentismo do século XX, contudo, vai além do nacionalismo protecionista do século XIX. Emerge depois do capitalismo monopolista, quando a escala das empresas dos ramos líderes nos países desenvolvidos aumentava drasticamente ao mesmo tempo em que o número de empresas concorrentes diminuía – produzindo uma situação de concorrência oligopolística mais do que propriamente monopólios. O montante mínimo de capital investido para entrada no ramo oligopólico também se elevou significativamente, exigindo novas formas de centralização financeira em articulação das empresas com bancos e o mercado de capitais. As tecnologias, por sua vez, tornaram-se muito mais complexas e menos acessíveis à medida que os departamentos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) das empresas se articulavam a sistemas nacionais de ciência e tecnologia, sistemas educacionais para formar trabalhadores mais qualificados e escritórios de oferta de patentes monopólicas para as empresas inovadoras nas novas tecnologias da Segunda Revolução Industrial (química, petróleo, combustão interna, eletricidade, siderurgia avançada, automobilística, máquinas elétricas etc). O ramo de bens de produção, em particular, se diferenciava horizontalmente do ramo de bens de consumo, que por sua vez se dividia em sub-ramos de bens de consumo duráveis e não-duráveis. No ramo de bens de produção, o sub-ramo de bens de capital se diferenciava do sub-ramo de insumos intermediários. Essas transformações estruturais do capitalismo aumentaram tanto a intensidade de capital, escala e complexidade dos empreendimentos individuais quanto a interdependência entre os mercados. Assim, a industrialização não pode ser liderada mais pela indústria leve de bens de consumo, mas passa a significar internalizar um parque industrial da indústria pesada e avançar em direção ao ramo de bens de produção e, em particular, bens de capital muito mais do que aos ramos de bens de consumo. Na posse de capacitações financeiras e tecnológicas monopolizadas, as empresas oligopolistas passam a exportar capitais e dividir o mercado mundial com o apoio de seus Estados nacionais na primeira época da concorrência imperialista moderna, concluída com o desastre de duas Guerras Mundiais e a emergência da superpotência dos EUA no chamado bloco Ocidental na Guerra Fria.

Nesse mundo novo, a superação do subdesenvolvimento passa a exigir uma coordenação estatal que não se resume a alterar preços relativos pela proteção comercial, para que os sinais de mercado orientem as decisões empresariais protegidas de importações concorrentes como queria o velho nacionalismo econômico. O Estado precisa fornecer um novo mecanismo de coordenação, que substitui — e não apenas inflete — o preço de mercado: a coordenação direta de decisões de investimento (estatais, nacionais e estrangeiras) cuja interdependência, escalas, requisitos tecnológicos e montante de capital inicial, próprios da concorrência oligopolista posterior à conclusão da Segunda Revolução Industrial, tornam indispensável o plano nacional de desenvolvimento. Enquanto o nacionalismo gravitava em torno da proteção comercial, o desenvolvimentismo implica uma ação estatal muito mais invasiva sobre o investimento, generalizada a partir do exemplo da experiência soviética e das economias de guerra das duas guerras mundiais. No caso brasileiro, Fonseca (2004) mostra como o embrião do desenvolvimentismo nasce quando o velho nacionalismo se associa ao positivismo e ao papelismo em uma nova forma de intervenção estatal direta que visa transformar a estrutura produtiva do Rio Grande do Sul rumo à indústria e à diversificação agropecuária. No Brasil, o desenvolvimentismo precisa dar um salto de estrutura produtiva e autonomia nacional a um patamar superior ao do nacionalismo do século XIX, requerendo não qualquer expansão industrial integrada aos complexos primário-exportadores regionais e sim a industrialização pesada que transforma a estrutura produtiva arcaica — fonte de vulnerabilidade externa e de estrangulamento de balanço de pagamentos sobre o crescimento (Bastos, 2008).

Convém precisar a tríade conceitual que sustenta meu argumento. Crescimento é o mero aumento do produto real, qualquer que seja a causa; desenvolvimento econômico, em abstrato, é o crescimento causado pela ampliação das capacitações tecnológicas e organizacionais que elevam a produtividade a partir de uma ação coletiva liderada pelo Estado para orientar a acumulação de capital e redistribuir parte do excedente que ela gera. Mais decisivo, porém, é que o desenvolvimento é, concretamente, relativo ao sistema internacional: no século XX, torna-se aspiração política de certas economias “atrasadas” num sistema mundial hierarquizado em centros e periferias, no qual o subdesenvolvimento não é etapa prévia, mas estrutura persistente produzida pelo próprio desenvolvimento dos centros (Prebisch, 1949; Furtado, 1961). É nesse ponto que a definição puramente produtiva e economicista de desenvolvimento precisa ser completada pela questão nacional: para uma economia “atrasada”, desenvolver-se não é apenas elevar a produtividade, mas conquistar graus de autonomia nacional pela transformação industrializante da estrutura produtiva — superar a condição primário-exportadora, a dependência de tecnologias militares modernas, a vulnerabilidade do balanço de pagamentos, e o estrangulamento externo que subordinam as decisões soberanas. Esse ganho de autonomia pretendido ocorre mesmo quando a autonomia é estruturalmente limitada pela “nova dependência”, como veremos.

Além de vincular-se à questão nacional, a ideologia desenvolvimentista concretamente não existe no singular, mas sempre no plural de desenvolvimentismos que disputam a forma de orientação da acumulação de capital para diferentes finalidades propiciadas pelo aprofundamento industrial. Cada desenvolvimentismo é uma ideologia que defende uma certa política econômica capaz de incitar um certo tipo desenvolvimento e orientá-lo, ao menos em parte, segundo objetivos normativos, e de redistribuir parte do excedente gerado. No Brasil, seu núcleo comum reuniu nacionalismo, intervencionismo e defesa da industrialização (Fonseca, 2015), mas a disputa pela direção do desenvolvimento foi ininterrupta (Bielschowsky, 1985; Saes, 2025). De fato, o termo é plural — desenvolvimentismos —, porque a orientação do desenvolvimento e do excedente é sempre disputada: cada projeto desenvolvimentista mobiliza intelectuais orgânicos, no sentido gramsciano, que lutam para tornar exclusiva a sua definição de desenvolvimento, adjetivando as rivais (os “falsos” desenvolvimentos) e legitimando sua interpelação dos interesses privados que organiza em ação coletiva e coordenada. Por isso, o desenvolvimentismo não é técnica neutra, e sim expressão ideológica de interesses de classes e frações de classe — a mesma abertura normativa que, no Brasil, permite caracterizar os governos do PT com matizes diversas de desenvolvimentismo.

Ao sair do plano do debate de ideias para a implementação como política de Estado, nenhum desenvolvimentismo permanece “puro”. Mesmo o nacional-desenvolvimentismo varguista não nasceu “pronto” no Rio Grande do Sul como sugere Fonseca (2004), mas foi uma construção sujeita a idas e voltas, contradições e mutações depois que Vargas confrontou os desafios da industrialização pesada no Estado nacional (Bastos, 2005; 2008). Armando Boito (2026) pretende limitar arbitrariamente o desenvolvimento à América Latina. No século XX, porém, o que condiciona a emergência dos desenvolvimentismo não é a região geográfica e sim o contexto histórico: o que ele tem de mais geral é a resposta característica dos capitalismos tardios — os que enfrentam o desafio da industrialização pesada já sob o capitalismo monopolista e o imperialismo, como na lição de João Manuel Cardoso de Mello (1982). A problemática desenvolvimentista, porém — industrialização pesada coordenada pelo Estado em nome da autonomia nacional —, atravessa também a Índia, Taiwan e Coreia do Sul (Moreira & Bastos 2024a,b), com graus distintos de dependência. Restringi-la a uma única região é perder a sua determinação histórico-estrutural: é a época monopolista e imperialista do capitalismo mundial que torna a industrialização tardia um problema comum a todos os que a enfrentam fora do pequeno núcleo originário.

Ademais, com ou sem revolução perante o capitalismo monopolista e o imperialismo, um capitalismo tardio nacional simplesmente não consegue assegurar a industrialização sem dependência, ainda que seus governos possam tentar maximizar ganhos nacionalistas na negociação das formas de dependência (Bastos, 2008, Moreira & Bastos 2024a,b). Daí um ponto que Boito desconsidera ao enfatizar o anti-imperialismo do desenvolvimentismo latino-americano clássico: o desenvolvimentismo na região resistiu ao velho imperialismo, mas se articulou à nova dependência. No Brasil, o desenvolvimentismo nunca foi avesso ao capital estrangeiro per se (e sim de formas específicas dele), ainda que buscasse regulá-lo de diferentes maneiras — foi, desde Vargas e JK, um desenvolvimentismo associado e dependente.

A raiz disso não é arbitrária, e sim histórico-estrutural. Depois da Segunda Revolução Industrial na virada do século XIX para o XX, nenhuma indústria pesada tardia surge espontaneamente da expansão do consumo: internalizar o departamento de bens de produção exige escalas, tecnologias e massas de capital que a burguesia nacional, isolada, não reúne, e impõe uma coordenação estatal que precede e organiza a associação com o capital estrangeiro detentor das tecnologias (Mello, 1982; Tavares, 1975). O conceito de capitalismo tardio especifica alguma variante de desenvolvimento na qual a dependência não é superada, mas internalizada.

Historicamente, a segunda tradição que resistiu ao liberalismo (econômico e político) foi o socialismo. Convertido, por uma ala da social-democracia e de partidos socialistas, de ideologia de revolução em ideologia de reforma do capitalismo, resultou nos welfare states e na administração da demanda agregada no pós-guerra. O neoliberalismo, ao radicalizar o liberalismo, atacaria as duas heranças: o desenvolvimentismo nacionalista nas periferias e a social-democracia nos centros (Bastos & Belluzzo, 2020).

É no contexto pós-neoliberal e, portanto, pós-desenvolvimentista e pós-social-democrata, que se situa o socialdesenvolvimentismo (Bastos, 2012). Ele não é mera adaptação do desenvolvimentismo ao neoliberalismo, mas uma crítica ao neoliberalismo: articula desenvolvimento econômico e autonomia nacional à reindustrialização de uma economia que sofreu regressão estrutural provocada pelas reformas neoliberais, associando-a tanto à demanda gerada pela incorporação de contingentes antes excluídos do consumo moderno quanto a um padrão de emprego e renda capaz de formalizar trabalhadores precarizados e informais (Bastos, 2012; Moreira & Bastos, 2023). Por isso não reitera o desenvolvimentismo excludente brasileiro para o tempo pós-neoliberal: é crítica simultânea do desenvolvimentismo excludente e do neoliberalismo.

Daí ser equivocado reduzir o programa socialdesenvolvimentista a uma máscara que apenas legitima demandas particularistas da burguesia industrial, de serviços ou da construção, como fazem alguns intérpretes da esquerda antipetista. Ele não se esgota na proteção corporativa que esses setores pedem ao Estado: busca organizá-los desde cima, levando-os a empreender inclusive o que não têm ambição nem interesse de realizar. É esse o sentido da autonomia relativa dos gestores de Estado, que não são meros porta-vozes de interesses empresariais, mas se pretendem portadores de um projeto que dirige os próprios empresários em direções que não tomariam por conta própria. Tal autonomia orienta iniciativas econômicas e sociais em função de uma ideologia geral, traduzida em programas particulares dotados de alguma coerência, mas frequentemente sujeitos a contradições insolúveis. Eis por que a ideologia não pode ser tratada apenas como legitimação a posteriori de práticas já dadas: ela seleciona, organiza e transforma as próprias práticas — e é essa eficácia prática que escapa às leituras que enxergam nas ideologias um mero verniz justificador. As ideologias não servem apenas para reproduzir o capitalismo; também moldam e legitimam práticas de resistência e de transformação (reformista ou revolucionária).

Desde a década de 1990, o nome do reformismo no Brasil é socialdesenvolvimentismo: a ideologia que busca integrar a política distributiva como condição e, ao mesmo tempo, efeito de uma política de transformação produtiva. Nessa ideologia, a inclusão de grupos excluídos na demanda efetiva estimularia os investimentos; os investimentos levariam ao crescimento e a empregos de maior produtividade, que sustentariam, no tempo, a política distributiva. Os governos do PT não foram desenvolvimentistas apenas por atenderem demandas de empresários afetados pela concorrência internacional, mas por organizá-los — com fundos de pensão, bancos públicos e, eventualmente, financiamento externo — para empreendimentos coletivos que, sozinhos e dado seu conservadorismo, não realizariam.

Acontece que, desde o início, o projeto socialdesenvolvimentista conviveu na prática com uma conciliação com o neoliberalismo que privilegiava estruturalmente o capital bancário e o capital estrangeiro, materializada na Carta ao Povo Brasileiro de 2002 cujo árbitro era nada menos do que o próprio presidente Lula. A própria gênese dessa síntese mostra que o socialdesenvolvimentismo se exerceu, desde a origem, em subordinação ao neoliberalismo, embora a subordinação fosse ressentida e às vezes rebelde. Na campanha de 2002, Fernando Henrique Cardoso desafiou Lula a enfrentar a crise de hegemonia do neoliberalismo executando o programa que parte importante do PT apoiara em plebiscito nacional que, em 2000, indagava aos cidadãos se a dívida interna e a dívida externa deveriam ser pagas, enquanto o mercado financeiro promovia um ataque especulativo contra posições em real à medida que Lula avançava nas pesquisas eleitorais. O PT sempre foi crítico do controle disciplinar do FMI sobre a política econômica dos países periféricos, mas Lula respondeu ao desafio de FHC recusando repudiar a dívida pública e aceitando assinar o acordo de refinanciamento da dívida com o FMI, publicando a Carta ao Povo Brasileiro. Tal Carta acoplava a promessa de uma política social includente ao programa neoliberal de gestão macroeconômica e abertura financeira e comercial, ou seja, subordinava o socialdesenvolvimentismo ao neoliberalismo. Do projeto socialdesenvolvimentista sobrou, de início, o gasto social; a reorientação mais ambiciosa da economia foi contida — um cavalo de pau nas posições do PT para evitar um cavalo de pau na execução das políticas neoliberais. Desde 2002-2003, portanto, as promessas socialdesenvolvimentistas nasceram subordinadas ao neoliberalismo, e a queda de Palocci, em 2005, não desfez a amarra, porque o Banco Central seguiu sob gestão neoliberal e as metas fiscais continuaram estreitas, embora muito menos do que sob o novo arcabouço fiscal.

Em suma, dada a escolha de não romper com o modelo neoliberal e suas políticas macroeconômico, o governo Lula ficou preso, de início, às políticas necessárias à reprodução do modelo; só a melhora das condições internacionais a partir de meados da década abriu espaço para as políticas que atendiam à sua base social, e que sempre fizeram parte do programa socialdesenvolvimentista: elevação do salário mínimo, elevação das transferências de renda para eliminar a pobreza extrema, expansão do acesso à educação pública e, em ritmo mais lento, à saúde pública, formalização de contratos de trabalho, recuperação do investimento público, subsídios crescente à competitividade dos empresários locais etc.

Contudo, os congêneres de Pallocci reapareceram a cada inflexão: a reabilitação do próprio Palocci na Casa Civil de Dilma Rousseff, a indicação de Joaquim Levy em 2015, o arcabouço fiscal de 2023, a incorporação de Simone Tebet e Geraldo Alckmin à frente antifascista de 2022. A grande frente ampla constituída para vencer o neofascismo em 2022 induziu um reforço do neoliberalismo dentro do governo que, por sua vez, dificulta a tarefa de continuar vencendo o neofascismo em 2026. É essa unidade contraditória — um neoliberalismo restrito pela base social do governo, que bloqueia os ataques mais ostensivos a direitos; um social-desenvolvimentismo contido pela disciplina fiscal-monetária herdada e preservada — que as leituras dualistas não conseguem apreender. Cada face limita o alcance da outra, e o balanço entre elas muda com a correlação de forças: foi a face social-desenvolvimentista que cresceu depois de 2006, com o crescimento acelerado e o enfraquecimento do polo neoliberal na Fazenda, a ponto de levar uma intelectual social-desenvolvimentista, Dilma Rousseff, à presidência — e de provocar a reação que conhecemos. Como entender Dilma Rousseff? É o problema que o terceiro artigo da série pretenderá responder.

 

Fonte: Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em Outras Palavras

 

A indústria global de falsos médicos feitos por IA que usa o medo para viralizar entre idosos no Brasil

Celi Ferreira, de 82 anos, decidiu não fazer a cirurgia de catarata recomendada por seu oftalmologista. Avaliou que ainda enxerga bem e que o procedimento não seria necessário.

Enquanto assistia a vídeos no YouTube, recebeu uma recomendação sobre o tema, narrada por um suposto médico que prometia proteger a visão por meio do consumo de frutas.

"Não me animei [com a orientação do oftalmologista], pois ainda vejo bem. Agora vou seguir sua orientação", escreveu ela nos comentários do vídeo.

O médico do YouTube não existe. É um avatar criado por inteligência artificial.

Embora o YouTube sinalize que o conteúdo foi gerado por IA, o vídeo alcançou quase 300 mil visualizações e cerca de 300 comentários, muitos de pessoas como Celi, que buscam informações sobre saúde na terceira idade e acreditam estar recebendo orientação de um profissional de saúde real.

A publicação faz parte de uma estratégia adotada há pelo menos um ano por criadores de conteúdo em diversos países, que enxergam no público idoso um nicho lucrativo.

O modelo também se espalhou pelo Brasil, muitas vezes copiado e adaptado de canais estrangeiros e impulsionado por criadores brasileiros, que produzem e ensinam a produzir esse tipo de conteúdo.

O lucro pode vir tanto das visualizações no próprio YouTube quanto da venda de e-books e produtos anunciados nos canais.

Para aumentar a audiência, tutores ensinam a criar títulos e roteiros que despertem medo e sensação de urgência, levando o espectador a acreditar que corre um risco imediato à saúde e incentivando-o a assistir ao vídeo até o fim.

Segundo esses criadores, os idosos são um público ideal porque passam horas assistindo a vídeos longos, podem ter renda disponível para gastar e tendem a confiar em quem promete ajudá-los.

A produção desse tipo de material pode ainda configurar crimes, segundo professores de direito ouvidos pela reportagem, como falsa identidade e exercício ilegal da medicina.

<><> 'Achei que fosse um médico real'

Celi disse à BBC News Brasil que a decisão de não fazer a cirurgia nos olhos não foi motivada pelo vídeo e que costuma seguir apenas dicas de alimentação encontradas no YouTube.

Ela se surpreendeu, porém, ao descobrir pela reportagem que o médico do vídeo não existia.

"Esse vídeo apareceu para mim. Uso muito o YouTube. Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível. Não eram coisas absurdas. Pela minha idade, até me considero esperta com computador, mas ainda não sei distinguir o que é IA e o que é real", afirmou.

Ela contou à reportagem que esse tipo de conteúdo aparece com frequência em seu feed porque saúde é um dos assuntos que mais pesquisa na internet. Seus comentários estão espalhados por vários canais de IA do tipo.

"Quando entro, aparecem vários vídeos. Aí acabo clicando para assistir."

Celi disse que nunca seguiria recomendações de um vídeo para tomar ou interromper medicamentos e que é acompanhada pelo mesmo médico há mais de 20 anos.

"Jamais seguiria um estranho. Eu sigo o meu médico."

Ela afirma, porém, que coloca em prática orientações sobre alimentação.

"Há canais que falam sobre prevenção de quedas, sarcopenia, quais frutas e vegetais fazem bem... Essas dicas eu sigo porque parecem ser verdade."

A BBC News Brasil chegou até Celi depois de coletar cerca de 27 mil comentários publicados nos vídeos desses canais no YouTube e utilizar uma triagem para identificar relatos de mudanças de comportamento relatados por usuários.

Dezenas de comentários atribuídos a pessoas que dizem ser idosas relatam ter seguido orientações dos "médicos" gerados por IA, seja iniciando tratamentos caseiros, seja interrompendo medicamentos já prescritos.

Em um deles, um usuário que afirma ter 85 anos diz ter trocado o omeprazol por batata-doce. Em outro, uma mulher de 77 anos afirma que não vai ao médico há três anos e agradece ao "médico" de IA pelos conselhos sobre Alzheimer.

Há também o relato de uma mulher de 80 anos que diz acordar cinco vezes por noite para urinar.

Ela conta que interrompeu o medicamento prescrito por sua ginecologista e passou a tomar, por conta própria, 20 gramas de óleo de abóbora por dia.

<><> 70 milhões de visualizações

Esta reportagem partiu de uma pesquisa da organização sem fins lucrativos CTRL+Z, que mapeou 29 canais em português dedicados a esse tipo de conteúdo, a maioria deles criada no último ano.

Juntos, esses canais já somam ao menos 70 milhões de visualizações, de acordo com a CTRL+Z. A produção dos vídeos ocorre em "escala industrial", segundo a organização: são cerca de 10 vídeos por dia e aproximadamente 267 mil visualizações diárias.

O levantamento aponta ainda indícios de uma operação em rede — a reportagem encontrou vídeos com conteúdo idêntico publicados em diferentes canais do mapeamento.

A partir desses dados, a BBC localizou vídeos com títulos praticamente iguais em inglês e espanhol, além de tutoriais que ensinam a produzir material para esse nicho, conhecido como "saúde sênior".

Ele é apresentado como uma forma de faturar milhares de reais por mês trabalhando sozinho, apenas com um computador e ferramentas gratuitas de IA.

Tatiana Dias, jornalista e diretora de programas da CTRL+Z, diz que viu um dos vídeos por acaso, e que os seguintes vieram por recomendação do próprio YouTube.

"Deixou claro que se tratava de uma rede organizada, com conteúdos que se retroalimentavam impulsionados pelos algoritmos de recomendação", disse.

Ela avalia que um dos principais achados da pesquisa foi o tamanho da rede.

"Isso mostra um problema massivo e premiado pelo YouTube com alcance e monetização. Porque não haveria esse tipo de conteúdo se não houvesse incentivo financeiro do YouTube para isso."

Para a organização, a remoção dos vídeos não resolve o problema. "Nossa ideia não é fazer (de graça) o trabalho que o Google/YouTube deveria estar fazendo, mas sim que essas plataformas sejam responsabilizadas legalmente por incentivarem e lucrarem com conteúdos nocivos para a saúde pública", diz Luã Cruz, diretor de litigância da CTRL+Z.

Em nota, o Google afirmou que todo o conteúdo do YouTube, inclusive gerado por IA, deve seguir as diretrizes da comunidade.

"Isso abrange nossas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar, comprovadamente, danos graves no mundo real."

A empresa diz que adicionou rótulos a conteúdos gerados por IA "para garantir que os espectadores estejam informados sobre o que estão assistindo."

Após o contato da BBC News Brasil, o Google excluiu alguns dos maiores canais que aparecem no levantamento, que somavam cerca de 41 milhões de visualizações.

<><> Chá para gastrite?

Os canais seguem uma fórmula.

"Doutores" de aparência confiável, que podem ser homens ou mulheres, de jaleco branco e voz calma, falam diretamente para a câmera. Revelam um "segredo que não querem que você saiba", apresentam alimentos milagrosos e terminam pedindo curtidas, inscrições e, algumas vezes, a compra de um e-book.

O rosto e a voz são gerados por inteligência artificial. Os roteiros podem ser escritos por plataformas como o ChatGPT, a narração é produzida por ferramentas de voz sintética e as imagens também são criadas por IA.

A prática é uma versão dos chamados canais dark ou faceless (sem rosto), em que o criador não aparece nem utiliza a própria voz, prática que se popularizou em canais em inglês e foi impulsionada com a chegada da inteligência artificial, que reduziu custos de produção.

Os conteúdos dos canais de bem-estar para idosos misturam informações reais, exageros e pseudociência.

Um dos vídeos, por exemplo, fala sobre "o chá que pode curar a gastrite em 15 dias".

Para ser convincente, o falso médico de IA cita o caso de um paciente idoso que chegou ao seu consultório com gastrite severa e diagnóstico de H. pylori (bactéria que causa infecção no estômago ou duodeno) e que se recusava a tomar antibióticos. E que o convenceu a fazer um tratamento com plantas medicinais que funcionou.

Essa estratégia de citar pacientes com nomes se repete em diversos vídeos.

Jaime Zaladek Gil, médico gastroenterologista do Einstein Hospital Israelita, diz que o uso de chás pode até aliviar os sintomas, mas que a presença da bactéria exige o tratamento com antibióticos.

“O risco maior é a pessoa tomar substâncias que não são eficazes, que podem piorar o quadro ou até mesmo atrasar o diagnóstico. Ainda mais em pacientes idosos, que têm maior risco de lesões nessa área, mais graves. É necessária uma investigação, uma rede de diagnóstico melhor, não só um vídeo que fala que algo vai resolver todos os seus problemas", diz.

<><> Criadores podem responder por crimes de falsa identidade e exercício ilegal da medicina

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que esse tipo de material pode levar a situações perigosas, ao desestimular tratamentos legítimos ou incentivar práticas sem respaldo científico.

"A saúde das pessoas é algo individualizado. Uma medicação ou orientação pode ser benéfica a uma pessoa e maléfica a outra, a depender das comorbidades, da interação com outros medicamentos. Vemos isso como um grande risco", diz o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo Cavalcante.

O risco, segundo ele, é maior entre idosos, que podem deixar de buscar atendimento adequado — como visto pela reportagem nos relatos de idosos em diversos comentários dos vídeos.

Ele afirma que o Conselho pode denunciar esses conteúdos ao Ministério Público e à polícia.

Para Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio, o conteúdo em si não é crime — mas passa a ser quando o falso médico age como profissional.

"O problema é quando alguém que não é médico, seja pessoa real ou inteligência artificial, atua como médico, prescrevendo medicação, dizendo qual seria o tratamento adequado. É um caso de exercício irregular da medicina, que é crime previsto no Código Penal."

Ele acrescenta que os criadores também podem responder por falsa identidade ao se passarem por médicos sem avisar que são personagens de IA — algo comum nos vídeos analisados pela reportagem, em que os apresentadores alegam anos de experiência e relatam supostos casos de pacientes.

<><> Personagens de IA se apresentam como médicos de verdade

Uma análise da BBC News Brasil da descrição dos vídeos e das legendas mostra que praticamente todos os perfis tentam se passar por médicos de verdade, com afirmações de que possuem "anos de experiência" ou menções a títulos acadêmicos e especializações.

Filipe Medon, professor da FGV Direito Rio e coordenador adjunto do AI Hub, resume onde está o problema: "Você pode criar um canal que fale sobre conteúdos de medicina, pegue artigos científicos e fale sobre eles. O que você não pode, e aí que mora o dano, é criar uma persona que simula uma pessoa real e, a partir dessa simulação, enganar pessoas que, por conta desse engano, podem adotar condutas que causem danos à sua saúde."

Para ele, um aviso claro de que se trata de um personagem de IA mudaria a natureza do conteúdo.

Medon afirma ainda que o crime pode respingar nas próprias plataformas.

Com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet, avalia ele, um avatar que finge ser médico pode configurar falsa identidade — o que torna o YouTube corresponsável caso não retire o conteúdo após ser avisado.

"A plataforma passa a ser responsabilizada civilmente se, após uma notificação extrajudicial, ela não retirar esse conteúdo."

A responsabilidade é ainda maior, segundo ele, quando há impulsionamento pago: nesse caso, a plataforma teria de remover os vídeos mesmo sem qualquer notificação, por se tratarem de contas inautênticas.

<><> Conteúdo é copiado e reproduzido em massa com apoio de IA

O conteúdo dos vídeos é, em boa parte, produzido em escala, sem qualquer revisão, em um esquema deliberado de copiar e adaptar roteiros com apoio de IA.

A BBC News Brasil identificou ao menos 50 vídeos em português com avatares de médicos que tinham títulos semelhantes aos de outros publicados em canais em outros idiomas dias ou até meses antes.

Algumas adaptações nem sequer trazem exemplos do Brasil. Citam supostos pacientes americanos, futebol americano e estatísticas de saúde dos Estados Unidos.

Identificamos que um mesmo roteiro foi reaproveitado entre canais sem sequer alterar a identidade apresentada pelo narrador.

Em um dos vídeos analisados, por exemplo, a voz se apresenta como uma médica cardiologista com mais de 15 anos de experiência, apesar do vídeo ter sido publicado em um canal que utiliza a identidade de um falso médico homem.

Essas situações não são por acaso.

Instrutores de criação de conteúdo com dezenas de milhares de seguidores ensinam como produzir canais com base na cópia e na produção em massa, para aumentar o número de visualizações.

Um dos tutoriais, por exemplo, ensina a capturar a tela de um canal em inglês, enviar a imagem ao ChatGPT e solicitar a criação de títulos e roteiros equivalentes em português. Há também o caminho inverso, de fazer em português e depois traduzir para outros idiomas.

"Vou mostrar a vocês um dos nichos mais lucrativos do YouTube, sem apresentadores, que está bombando no momento: o nicho de saúde e nutrição para idosos. Estes canais estão crescendo a uma velocidade insana, usando vídeos 100% criados por IA, avatares simples e edição básica. Mesmo assim, alcançam dezenas de milhares de inscritos em apenas alguns meses."

A descrição acima é de um vídeo publicado em novembro do ano passado pelo canal AI Maskman no YouTube. Tem 18 mil visualizações. A identidade de quem o produz não é divulgada.

"O público da terceira idade é enorme, pouco atendido e altamente receptivo. Essas pessoas assistem por mais tempo, compram mais produtos e confiam nos criadores de conteúdo que as ajudam com problemas reais, como pernas fracas, dores nas articulações, dificuldades para dormir, perda muscular e nutrição", explica o canal AI Maskman.

O mesmo canal ensina a fazer vídeos virais com personagens fictícios e até de acidentes de carro para viralizar, tudo feito com IA.

A página divulga em sua descrição um clube de criadores de conteúdo de IA com cerca de 6 mil membros. Há ainda um grupo no WhatsApp com dicas de como criar os vídeos que já tem quase 10 mil números cadastrados.

A BBC News Brasil tentou entrar em contato com o canal, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.

<><> 'Não, não dá problema': brasileiros estimulam criação de vídeos e prometem ganhos elevados

A prática de ensinar outros criadores a fazer vídeos de IA para idosos também chegou ao Brasil.

Um desses instrutores é Jhef Coimbra, que tem 10,7 mil inscritos em seu canal. Ele cita ganhos de R$ 30 mil por mês e afirma que o uso de avatares de médicos gerados por IA não é um problema.

Ao mostrar um canal do tipo com uma médica falsa, ele diz:

"Antes que você pergunte: não, não dá problema. O YouTube, o que ele vai pegar mais é a questão da sua cópia, a questão de que você fala dentro do vídeo e o que você coloca dentro do link de afiliado."

O exemplo que ele cita leva para uma página que vende um "guia médico para proteger a próstata depois dos 60", com um avatar de médico gerado por IA.

A BBC procurou Coimbra por um número de WhatsApp que ele divulga em seu canal, mas não obteve resposta. Após o contato, o acesso ao vídeo foi bloqueado.

Outro canal no YouTube, Lucrando com IA, ensina como criar páginas que usam médicos gerados por IA e até a copiar outros perfis semelhantes com o ChatGPT.

"Muita gente não gosta desse nicho porque é um doutor e tudo mais. Mas pra quem não tem frescura e já quer entrar no nicho que monetiza fácil, você passando informações verdadeiras, ou seja, ajudando as pessoas, então você consegue monetizar."

A reportagem tentou entrar em contato com o canal por meio de um número de WhatsApp deixado pelo criador da página nos comentários, mas não obteve resposta.

<><> Objetivo é fazer espectador 'sentir algo forte' e 'realizar uma ação final'

Alguns dos tutores divulgam guias em texto com orientações sobre como falar com os chatbots para produzir o roteiro dos vídeos.

Um deles, compartilhado pelo canal Marcos de Castro, que tem 56 mil inscritos, sugere que o objetivo é "fazer o espectador sentir algo forte (medo, esperança, admiração, choque, inspiração, desconforto ou empatia), assistir até o fim e realizar uma ação final (comentar, compartilhar ou comprar)."

O canal Jhef Coimbra também cita em um dos seus vídeos modelos e estratégias de como pegar o espectador pelo medo. "Antes de se deitar, tome cuidado com isso. Cuidado para não morrer dormindo. Pegando realmente pesado."

Castro descreve o nicho em seus vídeos como uma "mina de ouro" que "monetiza rápido". Em uma das publicações, ele resume por que recomenda o público idoso:

"Esse é o melhor público que existe para você conseguir escalar os ganhos do seu canal."

O argumento, explica, é que "essas pessoas mais idosas assistem a vídeos longos, passam horas no YouTube, compram por confiança, e não só porque a pessoa aparece, têm tempo para consumir um produto atrás do outro e têm renda para gastar".

Diferentemente de outros canais analisados pela reportagem, seu tutorial não usa rostos de falsos médicos gerados por IA, e sim imagens genéricas que ilustram o tema.

Ele também orienta que criadores coloquem um aviso na descrição do vídeo de que as informações "não têm o intuito de substituir a consulta médica".

Procurado pela BBC News Brasil, Castro afirmou que ensina seus alunos, que diz já serem 8 mil, a produzir conteúdo informativo e educativo, sempre com um aviso de que os vídeos não foram feitos por um médico.

"O profissional que ensina a fazer conteúdo para vender encapsulado, remédio, algo que pode afetar a saúde do idoso, o próprio YouTube se encarrega de punir esses canais. Sou completamente contra. Mas conteúdo informativo e educativo, no sentido de saúde física, emocional e principalmente mental, você pode criar tranquilamente, com disclaimer."

Castro afirma ser contrário a qualquer conteúdo ilegal, enganoso ou que coloque pessoas em risco, seja produzido por IA ou por um ser humano.

"A tecnologia é uma ferramenta. O problema não está na ferramenta, mas na forma como ela é utilizada", disse. "Não responsabilizamos uma câmera por uma notícia falsa nem um editor de vídeo por um conteúdo enganoso. A responsabilidade é de quem cria e publica a informação."

Para ele, o debate relevante "não é se existe IA envolvida, mas se o conteúdo é verdadeiro, transparente e está dentro das regras".

<><> Guias em português são vendidos até de fora do Brasil

A reportagem identificou ao menos quatro guias de saúde em português sendo vendidos nos canais de YouTube brasileiros com apresentadores de IA. São receitas para diabéticos, dicas de saúde para quem tem mais de 60 anos, um guia de saúde masculina e outro sobre glicose.

A partir dos metadados das páginas desses e-books, chegamos aos e-mails de alguns dos produtores que colocaram esse material no ar.

Os endereços estavam vinculados a uma advogada no Rio de Janeiro, a uma empresa de games, a uma loja de eletrônicos em São Paulo e a um homem que diz em suas redes sociais que é de Maputo (Moçambique).

Apesar de terem seus e-mails vinculados como vendedores desses guias, a reportagem não conseguiu confirmar se de fato essas pessoas produziram os livros ou se são responsáveis pelos canais que os divulgam. Como também não foi possível contatá-los, eles não serão identificados.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Os quatro pilares da felicidade: o que a filosofia hindu ensina sobre riqueza, prazer, ética e liberdade

Em um mundo cada vez mais marcado pela ansiedade, pela hipercompetição e pela busca incessante por resultados, uma antiga tradição filosófica da Índia oferece uma resposta surpreendentemente atual para uma das maiores perguntas da humanidade: afinal, o que significa viver bem?

Muito antes de surgirem as modernas teorias sobre felicidade, qualidade de vida ou desenvolvimento humano, os sábios da tradição hindu formularam um modelo conhecido como Puruārthas, expressão sânscrita que significa "os objetivos da existência humana". Em vez de propor a renúncia ao mundo ou a busca exclusiva pelo prazer material, essa filosofia sustenta que uma vida plena depende da harmonização de quatro dimensões fundamentais: dharma (ética), artha (prosperidade), kāma (prazer) e moka (libertação espiritual).

A força dessa visão está justamente em sua capacidade de integrar aspectos frequentemente vistos como opostos no pensamento ocidental. Nessa tradição, não existe contradição entre enriquecer e cultivar valores éticos, entre desfrutar dos prazeres da vida e buscar crescimento espiritual. O verdadeiro desafio consiste em encontrar equilíbrio.

<><> Dharma: a ética como fundamento da existência

O primeiro dos quatro pilares é o dharma, conceito considerado por muitos estudiosos o mais importante de toda a filosofia indiana.

Traduzido frequentemente como dever, justiça, retidão ou ordem moral, o dharma vai muito além dessas definições. Ele representa a própria ordem que sustenta o universo e, ao mesmo tempo, a responsabilidade de cada ser humano de viver em conformidade com essa ordem.

Cumprir o dharma significa agir de forma ética, respeitar a verdade, cultivar a compaixão, honrar compromissos familiares, profissionais e sociais e desenvolver uma existência coerente com os próprios princípios.

Não se trata de obedecer cegamente a normas religiosas, mas de descobrir qual é o modo mais justo e equilibrado de agir diante das circunstâncias da vida.

Em uma sociedade marcada por crises políticas, econômicas e ambientais, a ideia de que nenhuma realização pode ser construída sem responsabilidade ética mantém enorme atualidade.

<><> Artha: a riqueza não é um pecado

O segundo objetivo da vida é artha, palavra que pode ser traduzida como prosperidade, segurança material, riqueza e realização profissional.

Ao contrário do que ocorre em algumas tradições religiosas, o pensamento hindu clássico jamais condenou a busca pelo sucesso econômico. Trabalhar, construir patrimônio, desenvolver conhecimento, exercer liderança e conquistar estabilidade financeira são considerados objetivos legítimos da existência.

Mas existe uma condição essencial.

Toda prosperidade deve estar subordinada ao dharma.

A riqueza obtida por meio da fraude, da violência, da exploração ou da injustiça deixa de cumprir sua função. O ideal não é acumular bens a qualquer preço, mas construir uma prosperidade capaz de gerar bem-estar coletivo.

Essa compreensão revela uma visão profundamente pragmática da vida. A pobreza não é romantizada. Pelo contrário: considera-se que uma sociedade justa deve criar condições para que seus membros possam desenvolver plenamente suas capacidades materiais e intelectuais.

<><> Kāma: o prazer também faz parte da sabedoria

Talvez nenhum conceito da filosofia hindu tenha sido tão mal interpretado no Ocidente quanto o kāma.

Popularmente associado apenas ao sexo por causa do célebre Kama Sutra, o termo possui um significado muito mais amplo.

Kāma representa todas as formas legítimas de prazer que enriquecem a experiência humana.

Inclui o amor, a amizade, a contemplação da beleza, a música, a dança, a literatura, a gastronomia, a poesia, os perfumes, a arte e também a sexualidade.

Para os antigos pensadores indianos, negar completamente o prazer seria tão prejudicial quanto tornar-se escravo dele.

O próprio Kama Sutra, escrito entre os séculos III e IV, está longe de ser apenas um catálogo de posições sexuais. Trata-se de um sofisticado tratado sobre relacionamentos, comportamento social, refinamento cultural, estética, sedução e convivência humana.

Nessa tradição, o erotismo jamais foi tratado exclusivamente como impulso biológico.

O desejo é entendido como uma energia criadora da vida, que precisa ser integrada à ética e ao autoconhecimento.

<><> O Tantra e a união dos opostos

É justamente nesse contexto que surge uma das interpretações mais profundas da sexualidade desenvolvidas pela civilização indiana.

Em determinadas correntes do hinduísmo tântrico, a união amorosa simboliza a integração entre dois princípios fundamentais do universo.

Shiva representa a consciência pura, imóvel e silenciosa.

Shakti simboliza a energia criadora, dinâmica e transformadora.

A união entre ambos não descreve apenas uma relação entre homem e mulher, mas a integração de forças complementares presentes em toda a realidade.

No Ocidente, o Tantra tornou-se frequentemente sinônimo de técnicas sexuais. Entretanto, essa é uma redução extrema de uma tradição muito mais vasta.

A maior parte das escolas tântricas dedica-se principalmente à meditação, à respiração consciente, aos mantras, às visualizações e ao desenvolvimento espiritual. Os rituais que envolvem sexualidade existem em algumas linhagens específicas e possuem forte caráter simbólico e iniciático.

Para o Tantra, a experiência amorosa pode tornar-se uma forma de expansão da consciência quando vivida com presença, respeito e integração interior.

<><> Moka: a liberdade como destino último

O quarto e mais elevado objetivo da vida é o moka, a libertação espiritual.

Enquanto os três primeiros pilares dizem respeito à vida no mundo, moka aponta para uma dimensão mais profunda da existência.

Trata-se da superação da ignorância, do ego e do apego que, segundo a filosofia hindu, mantêm o ser humano preso ao ciclo de sofrimento e renascimentos conhecido como sasāra.

Alcançar moka significa descobrir que a verdadeira identidade não se limita ao corpo, à profissão, ao patrimônio ou à personalidade.

Diversas escolas filosóficas descrevem essa experiência de maneiras distintas, mas todas concordam que ela representa um estado de paz interior, liberdade e unidade com a realidade última.

Não significa abandonar o mundo, mas deixar de ser dominado por ele.

<><> Uma filosofia do equilíbrio

O aspecto mais notável dos Puruārthas talvez seja justamente sua recusa aos extremos.

A tradição hindu não propõe uma vida dedicada exclusivamente ao trabalho, nem ao prazer, nem ao ascetismo.

Também não considera que riqueza e espiritualidade sejam incompatíveis.

Pelo contrário.

Uma existência verdadeiramente humana exige responsabilidade ética, prosperidade material, alegria de viver e crescimento interior.

Esses quatro objetivos não competem entre si; completam-se.

Quando um deles se torna absoluto, instala-se o desequilíbrio.

•        Sem dharma, a riqueza transforma-se em exploração.

•        Sem artha, a ética pode tornar-se impotente diante das necessidades da vida.

•        Sem kāma, a existência perde beleza, afeto e sensibilidade.

Sem moka, o indivíduo permanece prisioneiro do medo, da ansiedade e da busca incessante por reconhecimento.

<><> Um ensinamento para o século XXI

Num momento histórico em que milhões de pessoas enfrentam jornadas de trabalho exaustivas, isolamento social, crises de saúde mental e uma permanente sensação de insuficiência, a antiga filosofia indiana oferece uma perspectiva singular.

Ela lembra que o sucesso não pode ser medido apenas pelo patrimônio acumulado, assim como a espiritualidade não exige renunciar à beleza do mundo.

A felicidade nasce do equilíbrio entre responsabilidade, prosperidade, prazer e liberdade interior.

Mais de dois mil anos depois de sua formulação, os quatro pilares da tradição hindu continuam dialogando com questões centrais da vida contemporânea. Talvez porque expressem uma intuição universal: a de que o ser humano realiza plenamente sua existência não quando escolhe entre corpo e espírito, entre riqueza e ética ou entre prazer e transcendência, mas quando aprende a harmonizar todas essas dimensões em uma única trajetória de vida.

•        Entenda por que o mantra Hare Krishna é tão poderoso — mesmo para quem não compreende seu significado e só o escuta

Em templos, ruas, festivais, vídeos na internet ou até mesmo em trilhas sonoras de filmes e documentários, milhões de pessoas ao redor do mundo já ouviram pelo menos uma vez a sequência de palavras que compõe o famoso mantra Hare Krishna. Para muitos, trata-se apenas de uma melodia repetitiva e agradável. Para outros, especialmente os praticantes da tradição bhakti do hinduísmo, trata-se de uma das mais poderosas ferramentas de transformação espiritual já transmitidas pela humanidade.

O mantra, conhecido como maha-mantra — ou "grande mantra" — é composto por apenas dezesseis palavras:

Hare Krishna Hare Krishna

Krishna Krishna Hare Hare

Hare Rama Hare Rama

Rama Rama Hare Hare

Embora sua estrutura seja simples, sua influência atravessou séculos, continentes e culturas. A tradição vaishnava ensina que seus efeitos não dependem da compreensão intelectual de quem o escuta. Segundo essa visão espiritual, o som sagrado possui uma potência própria, capaz de atuar diretamente na consciência humana.

<><>O poder do som na tradição védica

A civilização védica, uma das mais antigas do mundo, atribui enorme importância ao som. Diferentemente da visão moderna, que costuma enxergar a linguagem apenas como um instrumento de comunicação, os textos védicos afirmam que o som possui natureza criadora e transformadora.

Segundo essa tradição, o universo manifesta-se inicialmente por vibração sonora. Dessa forma, determinadas combinações de sons, conhecidas como mantras, carregam energias específicas capazes de influenciar a mente, as emoções e a consciência.

O mantra Hare Krishna ocupa posição especial dentro desse conjunto de ensinamentos. Os mestres da linhagem Gaudiya Vaishnava, difundida mundialmente por A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, ensinam que o nome de Deus não é diferente do próprio Deus.

Assim, ao pronunciar ou ouvir "Krishna", a pessoa estaria entrando em contato direto com a dimensão divina.

<><. Não é necessário entender para sentir os efeitos

Um dos aspectos mais intrigantes do maha-mantra é a afirmação de que seus benefícios não dependem da compreensão de seu significado.

A explicação tradicional utiliza uma analogia simples: o fogo aquece qualquer pessoa que dele se aproxime, independentemente de seu conhecimento sobre química ou física. Da mesma forma, o mantra produziria efeitos espirituais mesmo quando ouvido casualmente.

Por essa razão, os praticantes consideram que alguém pode ser beneficiado ao ouvir o mantra em uma praça, durante uma caminhada, em uma gravação musical ou mesmo sem prestar total atenção às palavras.

Segundo a tradição, o som sagrado atua em níveis mais profundos da consciência, além da mente racional.

A<><>  limpeza do "espelho do coração"

O século XVI marcou o surgimento de uma das figuras mais influentes da espiritualidade indiana: Chaitanya Mahaprabhu, considerado pelos devotos uma manifestação divina que popularizou o canto dos santos nomes.

Ele descreveu o principal efeito do mantra por meio da expressão sânscrita ceto-darpaa-mārjanam, frequentemente traduzida como "a limpeza do espelho do coração".

A metáfora sugere que a consciência humana encontra-se coberta por camadas de condicionamentos, medos, desejos, traumas e ilusões acumuladas ao longo da vida. O canto constante do maha-mantra funcionaria como um processo gradual de purificação, permitindo que a pessoa enxergue com maior clareza sua verdadeira natureza.

Para os seguidores dessa tradição, a felicidade duradoura não pode ser encontrada exclusivamente em conquistas materiais, mas surge quando a consciência recupera sua conexão com sua origem espiritual.

<><> O significado oculto das palavras

Embora seus efeitos não dependam da compreensão intelectual, o significado das palavras do mantra ajuda a entender sua profundidade filosófica.

"Hare" é uma invocação da energia divina, frequentemente associada a Radha, considerada a expressão máxima do amor por Krishna.

"Krishna" significa "o Todo-Atraente", aquele que atrai todos os seres por Sua beleza, sabedoria, compaixão e amor infinitos.

"Rama" pode ser entendido como "a fonte da alegria espiritual" ou "aquele que proporciona felicidade transcendental".

Dessa forma, o mantra é frequentemente interpretado como uma oração simples e direta: "Ó energia divina do Senhor, ó Krishna, ó Rama, por favor, permita que eu me reconecte ao amor espiritual e à minha verdadeira natureza."

<>< O que diz a ciência sobre os mantras?

Embora a ciência moderna não trabalhe com conceitos como alma ou consciência transcendental nos termos da tradição védica, diversos estudos sobre meditação e repetição de mantras apontam benefícios relevantes.

Pesquisas em neurociência têm associado a prática repetitiva de sons sagrados à redução da atividade mental dispersa, à diminuição dos níveis de ansiedade e estresse, ao aumento da concentração e à melhora da sensação subjetiva de bem-estar.

Estudos também sugerem que a repetição rítmica de palavras ou sons pode induzir estados meditativos profundos, diminuindo a atividade de regiões cerebrais ligadas à preocupação excessiva e ao fluxo incessante de pensamentos.

Para os praticantes Hare Krishna, entretanto, esses efeitos psicológicos representam apenas uma parte dos resultados. A tradição sustenta que o propósito mais elevado do mantra é despertar o amor divino, conhecido em sânscrito como bhakti.

<><> Uma prática acessível a todos

Outra característica que explica a popularidade do maha-mantra é sua acessibilidade. Não há exigência de nacionalidade, condição social, idade, escolaridade ou filiação religiosa para sua prática.

O mantra pode ser cantado individualmente, em grupo, em voz alta ou mentalmente. Pode ser repetido durante caminhadas, momentos de meditação ou simplesmente ouvido como música devocional.

Essa simplicidade ajudou a transformar o movimento Hare Krishna em um fenômeno global. Desde a década de 1960, quando Prabhupada levou a tradição para os Estados Unidos, milhões de pessoas passaram a ter contato com o mantra em dezenas de idiomas e culturas diferentes.

<><> Mais do que palavras

Para a filosofia bhakti, o verdadeiro poder do mantra Hare Krishna não está apenas em promover relaxamento ou equilíbrio emocional. Sua finalidade é mais profunda: despertar uma transformação interior capaz de conduzir o ser humano da ilusão para a verdade, da ansiedade para a paz e da identificação limitada com o mundo material para uma experiência espiritual mais ampla.

É por isso que os devotos afirmam que o maha-mantra continua atuando mesmo quando alguém não entende seu significado ou apenas o escuta de passagem. Na visão dessa tradição milenar, o som sagrado possui uma força própria, capaz de tocar dimensões da consciência que vão além da linguagem e do intelecto.

Para milhões de praticantes ao redor do mundo, é justamente essa característica que faz do Hare Krishna um dos mantras mais poderosos e influentes da história da espiritualidade humana.

 

Fonte: Brasil 247