Manguezais
avançam pelo litoral e revelam sinais de recuperação em meio à crise climática
Os
manguezais estão voltando a ocupar áreas costeiras em diferentes partes do
mundo depois de décadas de destruição. Dados reunidos a partir de quatro
décadas de monitoramento por satélite indicam que essas florestas avançaram
mais de 2 mil km² desde 2010, em um movimento que ocorre simultaneamente ao
agravamento das mudanças climáticas. O crescimento, porém, tem características
distintas em cada região e convive com a perda de qualidade de áreas já
ocupadas pelos manguezais.
A
expansão representa uma mudança importante na trajetória desses ecossistemas.
Entre as décadas de 1980 e 2010, o planeta perdeu mais de 12 mil km² de
manguezais, uma área comparável à extensão territorial da Jamaica. A conversão
dessas áreas para arrozais, plantações de palmeiras, fazendas de aquicultura e
até aterros sanitários alterou extensas faixas do litoral.
O novo
cenário observado pelos pesquisadores sugere que parte dessas florestas
apresenta capacidade significativa de regeneração. A recuperação, entretanto,
ocorre de maneiras diferentes e nem sempre representa uma melhora ambiental em
todos os casos.
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Uma floresta adaptada à água salgada
Com
raízes que podem ficar expostas acima do solo e estruturas especializadas para
captar oxigênio, os manguezais ocupam uma faixa peculiar entre a terra e o mar.
São capazes de crescer em ambientes quentes e sujeitos à variação diária das
marés, formando uma barreira natural entre os ecossistemas terrestres e
marinhos.
Essa
posição também explica parte de sua importância ecológica. Manguezais oferecem
abrigo e áreas de alimentação e reprodução para uma grande diversidade de
espécies, entre elas peixes, répteis, mamíferos e aves. Barramundis,
raias-gigantes, serpentes marinhas, macacos-narigudos e ratos-d’água estão
entre os animais associados a esses ambientes.
A
relevância dessas florestas se estende às comunidades humanas. Milhões de
pescadores dependem direta ou indiretamente dos manguezais, que também
sustentam atividades de pesca comercial. Em comunidades tradicionais, esses
ambientes possuem ainda significado cultural e religioso.
Outra
função ganhou destaque nas últimas décadas: o armazenamento de carbono. Os
manguezais podem concentrar aproximadamente quatro vezes mais carbono do que
outras florestas terrestres, tornando esses ecossistemas importantes para a
regulação climática.
As
raízes e a vegetação também reduzem a força das ondas, retêm sedimentos e
ajudam a conter erosão e inundações. Em regiões expostas a tempestades,
ciclones e tsunamis, essa proteção pode reduzir os impactos sobre comunidades
costeiras.
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A recuperação acontece de formas diferentes
O
levantamento de quatro décadas de dados globais encontrou três tendências
principais. A primeira é a expansão da área ocupada pelos manguezais desde
2010. A segunda envolve o avanço dessas florestas para novas áreas costeiras. A
terceira revela que expansão territorial e degradação podem ocorrer ao mesmo
tempo.
Myanmar
e Indonésia, por exemplo, estiveram entre os principais focos de perda de
manguezais antes de 2010. Posteriormente, a tendência se estabilizou em parte
como resultado do fortalecimento de medidas de proteção. O processo foi
influenciado pela experiência de grandes desastres, como o tsunami do Oceano
Índico de 2004 e o ciclone Nargis, que atingiu Mianmar em 2008.
Na
Austrália, o aumento da área de manguezais apresenta outra explicação. A
elevação do nível do mar permite que as marés avancem sobre áreas anteriormente
mais afastadas da influência da água salgada, criando condições favoráveis para
a ocupação das planícies de inundação.
Em
determinados locais, esse processo pode representar uma oportunidade de
regeneração, especialmente quando manguezais retornam a antigos tanques de
aquicultura abandonados. No norte da Austrália, porém, o avanço sobre áreas de
água doce gera preocupação por seu potencial de alterar ecossistemas e
territórios importantes para os povos tradicionais.
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O litoral está mudando
Outro
fenômeno identificado pelos pesquisadores é o crescimento de manguezais sobre
bancos de lama recém-formados.
A
dinâmica chama atenção porque a elevação do nível do mar tende, em princípio, a
dificultar a permanência dessas florestas quando a velocidade da subida da água
supera sua capacidade de acompanhar a mudança do terreno.
Uma das
hipóteses para explicar a expansão sobre novas áreas está relacionada ao
transporte de sedimentos pelos rios. A erosão provocada pelo desmatamento em
regiões continentais pode aumentar a quantidade de solo e areia carregada para
a costa. Esses sedimentos formam novas superfícies sobre as quais os manguezais
conseguem se estabelecer.
O
fenômeno evidencia a capacidade de adaptação desses ecossistemas, mas também
revela um problema ambiental. O aumento de área em novos terrenos costeiros não
significa necessariamente que manguezais degradados estejam se recuperando nos
locais onde historicamente existiam.
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Expansão pode coexistir com degradação
O
crescimento territorial dos manguezais oferece uma perspectiva positiva para a
conservação costeira, mas os números precisam ser interpretados com cautela.
Os
pesquisadores também analisaram a degradação das florestas, identificada pela
redução da densidade das copas. Esse processo pode indicar perda de saúde do
ecossistema e está associado a diferentes fatores, entre eles poluição,
exploração dos recursos naturais e eventos climáticos extremos.
As
causas variam conforme a região. Por isso, uma floresta que aumenta sua
extensão pode, simultaneamente, apresentar deterioração em áreas já
estabelecidas.
Essa
combinação impede que a expansão registrada por satélite seja interpretada
simplesmente como uma recuperação global dos manguezais. O tamanho da área
ocupada é um indicador importante, mas a qualidade ecológica dessas florestas
também precisa ser acompanhada.
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Clima pressiona ecossistemas costeiros
A
recuperação ocorre em um cenário de mudanças ambientais cada vez mais intensas.
O aquecimento global favorece períodos de seca mais severos e tempestades mais
frequentes ou intensas, capazes de danificar manguezais. A elevação do nível do
mar também altera a faixa costeira disponível para essas árvores.
A
capacidade de acompanhar essas transformações depende das condições locais, da
disponibilidade de sedimentos e do espaço existente para que os manguezais
avancem para o interior.
O
monitoramento de longo prazo, iniciado globalmente com imagens de satélite na
década de 1980, permite observar essas mudanças em uma escala que seria difícil
alcançar apenas com pesquisas de campo. A continuidade desse acompanhamento
pode ajudar a identificar regiões em recuperação, áreas em processo de
degradação e locais onde a elevação do nível do mar representa uma ameaça
maior.
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Proteção precisa acompanhar a regeneração
A
expansão observada desde 2010 oferece um sinal favorável para a conservação
costeira e para as estratégias de enfrentamento das mudanças climáticas. Ao
mesmo tempo, a degradação de florestas existentes mostra que a regeneração
natural e a proteção das áreas remanescentes precisam caminhar juntas.
Políticas
de conservação, restauração de áreas degradadas e redução das pressões humanas
sobre os manguezais podem ampliar a capacidade desses ecossistemas de armazenar
carbono, proteger o litoral e sustentar a biodiversidade.
Organizações
internacionais, como a Global Mangrove Alliance e a Mangrove Breakthrough, vêm
ampliando a atenção destinada a esses ambientes. O avanço das pesquisas também
será necessário para compreender como diferentes populações de manguezais
respondem ao aquecimento global, à elevação do nível do mar e às alterações no
transporte de sedimentos.
A
recuperação registrada em parte do planeta mostra que os manguezais possuem uma
capacidade expressiva de regeneração. Transformar esse potencial em conservação
duradoura, porém, depende de manter as florestas existentes saudáveis e criar
condições para que novas áreas possam ser ocupadas sem comprometer outros
ecossistemas costeiros.
Fonte:
eCycle

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