quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Trump e Rubio fingem diplomacia para ameaçar a soberania do Brasil

O Brasil já está sendo invadido.

Peço perdão à leitora e ao leitor por abrir este texto de maneira tão direta e sob o risco de parecer sensacionalista. Mas não encontro outra forma de tratar um assunto tão urgente.

Primeiro, porque preciso disputar um bem cada vez mais escasso: a atenção. Segundo, porque palavras importam, sobretudo num tempo em que a própria ideia de verdade – ela também uma palavra – foi meticulosamente esvaziada de sentido.

E esse esvaziamento faz parte da invasão. 

Uma invasão cujo braço mais visível e intimidador é a ameaça, cada vez menos velada, do governo dos Estados Unidos contra a já combalida democracia brasileira.]

Uma ofensiva hoje encampada pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, o latino recalcado, Marco Rubio. Uma ameaça que, ao contrário do que o noticiário diário parece insinuar, não tem nada de inédita.

Ela acompanha a própria história republicana do Brasil e, alinhada com os vendilhões da caserna, foi responsável por um dos capítulos mais nefastos da nossa história recente: a ditadura militar. 

Não por acaso, a última vez que Washington se sentiu à vontade para ameaçar o Brasil de forma tão aberta, o presidente da República era João Goulart e o ano era, justamente, 1964.

Palavras importam.

<><> Não se trata de diplomacia

É fundamental compreender essas atitudes pelo que elas são: ameaças. Não meros “entreveros diplomáticos e comerciais”, simples quebras de protocolo ou apenas mais um capítulo da disputa política internacional. 

São ameaças reais ao Brasil.

E é preciso enxergá-las como tal porque vivemos num mundo em que o inimaginável se tornou corriqueiro. Um mundo em que normas, tratados e convenções internacionais deixaram de representar garantias absolutas. Se é que um dia já foram garantia de algo.

Um mundo em que, por exemplo, os Estados Unidos sequestraram o presidente da Venezuela e absolutamente nada aconteceu.

E que se entenda a palavra “ameaça” no tempo presente. Não estamos falando de simples avisos ou de uma pressão diplomática destinada a arrancar concessões do governo brasileiro numa imaginária mesa de negociação. Estamos falando de uma sucessão de golpes calculados para, pouco a pouco, corroer a soberania nacional.

Das declarações mentirosas de Marco Rubio às tarifas impostas ao Brasil; do decreto que classifica certas facções criminosas como organizações terroristas à revogação do visto da embaixadora brasileira. Trata-se de uma escalada de agressões cujo objetivo não é apenas enfraquecer o governo brasileiro e influenciar o resultado das eleições de outubro. O que, por si só, já ultrapassaria todas as margens do absurdo. O objetivo é maior: é reduzir o Brasil à condição de satélite dos Estados Unidos.

<><> Instrumentalização de Milei

Foi exatamente essa lógica que se impôs à Venezuela, onde, na prática, o secretário de Estado norte-americano passou a exercer uma influência sobre a política do país que supera até a das próprias autoridades locais, como a presidenta Delcy Rodríguez. 

As agressões contra o Brasil não apenas vêm se intensificando, como passaram a ser terceirizadas. Já não basta a pressão direta de Washington. Nas últimas semanas, governantes sul-americanos alinhados com Trump (e Rubio) se rebaixaram ao papel de contínuos dos interesses norte-americanos.

Ou alguém realmente acredita que seja mera coincidência que Javier Milei, presidente da Argentina, e Santiago Peña, presidente do Paraguai, terem decidido, justamente agora e em sintonia, fabricar “crises” diplomáticas com o Brasil? 

O teatrinho encenado pelos estafetas da Casa Branca deixa evidente que a estratégia norte-americana vai além da pressão direta sobre o Brasil. O objetivo é cercá-lo politicamente, isolando-o no cenário sul-americano enquanto transforma os países vizinhos em clientes cada vez mais dependentes. 

Uma estratégia que certamente não se encerrará com uma eventual reeleição de Lula e nem, tampouco, com a improvável eleição de Flávio Bolsonaro. Pois o objetivo dessa estratégia é mais profundo do que uma mera dominação política, ela almeja uma única coisa: a completa submissão da população brasileira. Minando qualquer capacidade de resistência aos interesses dos EUA. 

Uma invasão completa. Não do território, mas das consciências.

Parece exagero?

<><> Guerra pelo imaginário brasileiro

Pois saiba que, pelo menos desde a década de 1950, o Brasil é um dos principais laboratórios de uma sofisticada estratégia de influência cultural, informacional e psicológica conduzida pela Casa Branca.

Tratava-se de um projeto ambicioso. Seu objetivo era moldar, ao longo das décadas, a própria maneira como os brasileiros interpretam a realidade, fazendo com que os interesses dos Estados Unidos parecessem naturais, desejáveis e até mesmo sagrados, enquanto toda alternativa a eles fosse percebida como suspeita, indesejável ou pecaminosa. 

A guerra pelo imaginário dos brasileiros tem história.

E antes que me acusem de propagar teorias de conspiração, gostaria de lembrar que estamos falando de uma política de Estado dos Estados Unidos fartamente registrada em arquivos oficiais, memorandos diplomáticos, relatórios e documentos posteriormente desclassificados.

Uma política que, em 1953, ganhou um departamento próprio: a famigerada United States Information Agency, a USIA. Uma agência criada exclusivamente para disputar a chamada “batalha das ideias” e que só seria formalmente extinta em 1999.

O que, evidentemente, não significa que os Estados Unidos tenham abandonado essa batalha. Apenas trocaram de armas. Se antes contavam com uma agência estatal dedicada à disputa das consciências, hoje dispõem de um ecossistema de redes sociais controlado por aliados bilionários (e um trilionário) capaz de amplificar narrativas, moldar o debate público e favorecer interesses alinhados a Washington em escala global. 

Não por acaso, essas plataformas desempenharam um papel decisivo na ascensão de verdadeiros contínuos da Casa Branca.

Foi assim na Argentina, com Javier Milei. Foi assim no Paraguai, com Santiago Peña. E querem que seja assim no Brasil, com Flávio Bolsonaro. Como já foi, anos atrás, com seu pai.

Percebam, leitoras e leitores, como a invasão já está em curso. Percebam como a própria opinião pública brasileira, o nosso imaginário, vem sendo, pouco a pouco, moldada para aceitar como natural, até mesmo desejável uma agenda de desmonte da soberania econômica e política do país. Que a população é estimulada a votar e apoiar políticos comprometidos com essas agendas, como a família Bolsonaro e Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição pelo governo de São Paulo pelo partido Republicanos. 

É exatamente o que aconteceu na Argentina. É o que acontece no Paraguai. Não por coincidência, dois países transformados pelas redes sociais em verdadeiros paraísos capitalistas.

E apenas ali.

Percebam, leitoras e leitores, a importância de resgatarmos o sentido de certas palavras. De voltarmos a chamar ameaça de ameaça. Invasão de invasão. E, sobretudo, de recuperar a própria ideia de verdade. Porque um povo incapaz de nomear a realidade é também um povo incapaz de resistir a ela.

¨      China pede para intervir a favor do Brasil contra tarifaço dos EUA. Por Victor Farinelli

Através de um requerimento formal apresentado à Organização Mundial do Comércio (OMC), o governo da China solicitou ser parte da consulta que o Brasil faz à entidade sobre as tarifas de 37,5% aplicadas pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros.

No documento com o qual oficializou o pedido, Pequim argumenta que a medidas tomada por Washington “afeta todas as exportações da China para os Estados Unidos, ressalvadas as isenções especificadas”.

O país asiático ainda destaca que o tarifaço ao Brasil atinge “em particular, as condições de concorrência dos produtos originários da China vendidos no mercado dos Estados Unidos, em decorrência das tarifas adicionais impostas”.

O requerimento chinês se insere em uma ação na OMC iniciada pelo Brasil no dia 27 de julho, iniciativa pela qual o país pede que a entidade avalie a justificativa do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, por sigla em inglês) para a imposição das tarifas.

Entre junho e julho deste ano, o presidente norte-americano Donald Trump impôs duas sanções aos produtos brasileiros, uma de 25% e outra de 12,5%, que somadas resultam em um tarifaço de 37,5% a mais de 800 produtos fabricados no país sul-americano.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva alega que são falsas as premissas “práticas comerciais desleais” apresentadas pelo organismo norte-americano para sustentar a medida contra mais de 800 produtos do Brasil.

As autoridades da OMC não confirmaram se aceitarão o pedido feito pela administração chinesa, liderada pelo presidente Xi Jinping. Tampouco há uma definição sobre as datas nas quais devem acontecer as primeiras reuniões relativas ao processo.

Dias atrás, o governo norte-americano afirmou que está disposto em participar das consultas solicitadas pelo Brasil à entidade internacional.

•        Trump e Milei, governantes suicidas. Por Emir Sader

Há governos de vários tipos: de esquerda, de direita, talvez até de centro. Mas há atualmente dois governos no mundo, estreitamente associados entre si, que podem ser caracterizados como governos suicidas.

São os governos dos Estados Unidos e da Argentina. Ambos são ortodoxamente neoliberais, antes de tudo, apesar do fracasso desse modelo de governo mundo afora, inclusive em toda a América. Não há um governante que possa exibir resultados positivos decorrentes da aplicação do neoliberalismo.

Esses dois governantes se caracterizam, além disso, por atitudes exóticas, afirmações falsas e mandatos fracassados. Ambos estão com índices de apoio na casa dos 30% e níveis de rejeição próximos dos 70%. A situação chegou a tal ponto que os prognósticos das pesquisas indicam prováveis derrotas dos dois nas próximas eleições.

Trump deve perder a maioria no Congresso nas próximas eleições, passando a ser, na segunda metade do mandato, o que se costuma chamar de “pato manco”. Pela primeira vez no atual mandato de Trump, a maioria dos norte-americanos aponta confiar mais nos democratas para dirigir a economia do país, com a perspectiva de um provável retorno desse partido ao governo.

Da mesma forma, Milei tem diante de si o favoritismo de um candidato peronista, Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires, que as pesquisas apontam como provável vencedor nas eleições de novembro do próximo ano.

Assim, o cenário que os dois governantes deixarão será devastador para seus países e negativo para as perspectivas futuras da direita nessas duas nações.

É nesse sentido que falo em governantes suicidas: pelo cenário que deixarão em seus países quando terminarem seus mandatos. Serão marcos na história política das duas nações, com uma virada da extrema direita em direção a governos democráticos.

No caso dos Estados Unidos, o governo de Donald Trump acentua o processo de declínio e decadência da hegemonia norte-americana no mundo, característica deste século, depois de o século XX ter sido um século norte-americano.

No caso da Argentina, o fracasso do governo de Javier Milei deve representar o retorno do peronismo ao poder, depois do sucesso dos governos kirchneristas na década passada.

Essas viradas, caso se confirmem, fortalecerão a posição do Brasil e do México no continente, que passarão a contar com governos vizinhos aliados, em vez dos atuais governos hostis.

O cenário político do continente também sofrerá modificações favoráveis às forças progressistas e contrárias às forças de extrema direita atualmente presentes na região.

 

Fonte: Por Orlando Calheiros, em The Intercept/Opera Mundi/Brasil 247

 

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