Bancada
do Saque: a nova aliança contra o Brasil
Durante
décadas, aprendemos a enxergar o Congresso pelas suas bancadas. Esse mapa
envelheceu. Por trás das antigas fronteiras, interesses antes tratados como
separados passaram a se encontrar nas mesmas cadeias de poder, da terra ao
minério, da energia aos dados, do crédito aos algoritmos. A Bancada do Saque
não é uma bancada convencional. É a expressão política de uma nova arquitetura
de dependências que atravessa setores, conecta capitais e disputa os recursos
estratégicos capazes de definir o lugar do Brasil no século XXI. Para
compreender quem realmente exerce poder hoje, já não basta perguntar a que
bancada pertence um parlamentar. É preciso descobrir em que cadeia de poder ele
opera e a quem ela serve.
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O velho mapa já não explica o território
Boi,
bala e Bíblia ajudaram durante anos a decifrar o Congresso brasileiro. A
fórmula condensava três forças reconhecíveis: agronegócio e propriedade da
terra; segurança e armamentismo; representação religiosa conservadora. Todas
continuam poderosas. O problema não está no que esse mapa mostra, mas no que
ele já não consegue mostrar.
O
capitalismo que sustenta essas bancadas mudou. O agro passou a depender de
crédito, energia, fertilizantes, logística, satélites e dados. A mineração
tornou-se parte da disputa por tecnologia, defesa e transição energética.
Bancos migraram para nuvem, IA e cibersegurança. Plataformas passaram a ocupar
posição central na circulação de informação, influência e mobilização política.
A antiga separação entre setores começou a ser atravessada pelas mesmas
cadeias.
Por
isso, enxergar apenas quem é do boi, da bala, da Bíblia, dos bancos, da
mineração ou das Big Techs já não basta. O poder contemporâneo aparece também
nas conexões entre esses interesses, nas infraestruturas das quais dependem e
nas decisões do Estado que organizam essas dependências.
O velho
mapa não ficou falso. Ficou pequeno. O erro não foi enxergar o boi, a bala e a
Bíblia. O erro, agora, é parar de enxergar depois deles.
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Quando a bancada virou cadeia
O sinal
mais importante dessa mudança aparece quando interesses antes tratados
separadamente começam a se organizar como partes de uma mesma cadeia. Em
fevereiro de 2026, quatro frentes parlamentares ligadas à agropecuária, ao
etanol, ao biodiesel e à economia verde criaram a Coalizão dos Biocombustíveis.
Não foi apenas uma soma de bancadas. Foi a expressão política de uma
transformação econômica: o agro já não termina na fazenda. Encontra energia,
indústria, financiamento, tecnologia e infraestrutura.
Esse
movimento altera a própria lógica da representação. Uma bancada organiza
politicamente interesses que encontram algum terreno comum. Uma cadeia conecta
atores diferentes porque cada elo depende, em alguma medida, de decisões
tomadas nos demais. Eles não precisam concordar sobre tudo. Podem disputar
preços, impostos, recursos e mercados. Mas passam a convergir quando uma
decisão sobre crédito, energia, logística, tecnologia ou regulação afeta vários
deles ao mesmo tempo. A dependência produz a necessidade de articulação.
É nesse
terreno que surgem coalizões empresariais, frentes parlamentares e operadores
capazes de circular entre agendas antes vistas como distintas. O poder de um
parlamentar, portanto, já não pode ser medido apenas pela bancada à qual
pertence, mas também pelas cadeias que ajuda a articular e pelas decisões que
consegue transformar em política de Estado.
A
mudança de perspectiva é pequena apenas na aparência. Em vez de perguntar
somente quem ele representa, é preciso perguntar o que ele conecta. Quando
seguimos essas conexões, descobrimos que a mina pode terminar no chip, a
energia no algoritmo e uma decisão tomada em Brasília no centro de uma disputa
global por poder.
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O algoritmo tem subsolo
A
inteligência artificial costuma ser apresentada como se tivesse se libertado da
matéria. Nuvem, algoritmos e modelos sugerem uma economia suspensa no ar. O
movimento real é o contrário. Antes de chegar à tela, a IA precisa existir como
minério, metal, chip, cabo, data center e eletricidade. O algoritmo tem
subsolo.
É por
isso que minerais críticos entraram no centro da disputa geopolítica. Lítio,
níquel, cobre, grafite e terras raras alimentam cadeias de baterias, redes
elétricas, eletrônica avançada, sistemas militares e tecnologias digitais. Em
maio de 2026, a Câmara aprovou o projeto que institui a Política Nacional de
Minerais Críticos e Estratégicos, com incentivos ao processamento e à
transformação desses recursos no país. A disputa já não é apenas por quem
possui a jazida, mas por quem controla o caminho entre a matéria-prima e a
tecnologia.
O data
center revela a outra ponta dessa cadeia. A chamada nuvem exige servidores,
chips, cabos, sistemas de refrigeração e fornecimento contínuo de energia. Em
junho, uma comissão da Câmara aprovou o projeto da Política Nacional de Data
Center, que prevê prioridade de acesso às redes de transmissão em áreas com
excedente de geração de energia. A política digital encontra a política
energética. O algoritmo precisa de subestação.
Mineração,
energia e Big Tech deixam então de ser agendas isoladas. IA exige computação;
computação exige chips; chips dependem de cadeias minerais e industriais; data
centers exigem energia e infraestrutura. É nessa interdependência que
matéria-prima se converte em poder tecnológico e a economia digital se torna
geopolítica.
Para o
Brasil, há uma advertência elementar: possuir aquilo de que a cadeia necessita
não significa controlá-la. Entre a jazida e o algoritmo existem etapas capazes
de concentrar muito mais tecnologia, valor e poder do que a simples extração. A
revolução digital não aboliu a velha disputa pelo controle da matéria. Apenas
elevou seu preço estratégico.
A nuvem
não paira sobre o mundo. Ela está fincada nele.
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Do púlpito ao dado
A
transformação também alcançou duas forças clássicas do Congresso. A bancada da
Bíblia construiu poder por meio de igrejas, comunidades, rádio e televisão.
Essa estrutura não desapareceu, mas ganhou outra camada. WhatsApp, YouTube,
Instagram, Facebook e TikTok ampliaram a velocidade e a escala da mobilização,
colocando parte crescente da circulação política e religiosa sobre
infraestruturas controladas por empresas privadas. A Bíblia encontrou o
algoritmo.
Isso
não transforma igrejas em braços das Big Techs, nem um universo religioso
heterogêneo em bloco único. A relação é material: uma estrutura histórica de
produção de sentido passou a depender parcialmente de outra, tecnológica, para
distribuir sua mensagem. Quem produz a palavra não controla necessariamente os
caminhos por onde ela circula.
Com a
bancada da bala ocorreu outra mutação. Segurança continua significando polícia,
armas e política penal, mas passou a incorporar câmeras, drones, biometria,
bases de dados e inteligência artificial. A capacidade coercitiva encontra uma
capacidade crescente de observar, identificar, cruzar informações e antecipar
comportamentos. A bala encontrou o dado.
É aqui
que a ideia de simplesmente acrescentar uma “bancada do like” ao velho boi,
bala e Bíblia perde força. O digital não chegou como mais um setor sentado ao
lado dos anteriores. Ele atravessou os setores que já estavam lá. O pastor
disputa alcance no algoritmo; a polícia incorpora IA; o banco depende da nuvem;
o agro opera com dados e satélites. O que mudou não foi apenas a lista dos
poderosos, mas as infraestruturas das quais o próprio poder passou a depender.
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O Brasil entre a mina e o chip
O
Brasil entra nessa disputa com uma combinação rara de território, água,
alimentos, energia, biodiversidade e minerais estratégicos. Mas abundância não
é poder. Entre possuir aquilo de que o mundo precisa e controlar aquilo que o
mundo faz com essa riqueza existe uma cadeia de processamento, indústria,
tecnologia, financiamento e conhecimento. Não existe soberania mineral quando a
inteligência da cadeia está em outro lugar.
É nessa
distância entre recurso e comando que se instala a dependência. Quem controla
um ponto indispensável da cadeia não precisa controlar todos os demais para
exercer poder sobre eles. Energia, crédito, processamento mineral e
infraestrutura digital tornam-se gargalos quando não há alternativa fácil: quem
controla a passagem ganha poder sobre quem precisa atravessá-la. As grandes
potências entenderam isso. Estados Unidos e China tratam cadeias críticas como
questões de segurança nacional. Seria irracional o Brasil tratá-las apenas como
oportunidades comerciais.
A
escolha brasileira pode ser resumida em dois projetos. O Brasil-recurso oferece
minério, energia, terra, mercado e infraestrutura a cadeias sem conquistar, na
mesma proporção, seus centros de tecnologia e decisão. O Brasil-cadeia utiliza
essas vantagens para internalizar processamento, indústria, ciência, engenharia
e capacidade tecnológica, ampliando a parcela do valor e do poder que permanece
aqui. A diferença não está entre abrir ou fechar a economia. Está entre
participar de uma cadeia e conquistar posições de comando dentro dela.
É nesse
ponto que o saque ganha significado político. O problema não é exportar
minério, receber capital estrangeiro ou hospedar data centers. O problema surge
quando o país assume custos, oferece incentivos e entrega recursos estratégicos
sem converter essa participação em capacidade nacional equivalente. Um país
pode exportar cada vez mais riqueza e, ao mesmo tempo, aprofundar sua
dependência.
A
soberania do século XXI, portanto, não será medida apenas pelo que existe
debaixo do nosso solo, mas pelo que somos capazes de fazer com aquilo que
retiramos dele. O Brasil não será poderoso porque o mundo precisa de suas
riquezas. Será poderoso quando essas riquezas também produzirem tecnologia,
trabalho qualificado e poder de decisão para o próprio Brasil.
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A Bancada do Saque
É nesse
cruzamento de interesses que emerge aquilo que podemos chamar de Bancada do
Saque. Não é uma bancada formal, não possui comando único nem reúne atores que
pensam ou votam sempre da mesma maneira. É uma categoria política para
identificar convergências que, apesar de reunirem forças distintas, podem
produzir o mesmo resultado: riqueza brasileira convertida em acumulação privada
sem produzir, na mesma medida, soberania, domínio tecnológico e distribuição
social.
O saque
contemporâneo não precisa reproduzir a imagem colonial de navios deixando o
porto carregados de ouro. Pode ocorrer quando o país fornece minério, energia,
território, dados, infraestrutura e trabalho enquanto as posições que
concentram tecnologia, comando e parcelas superiores do valor permanecem sob
controle alheio. O problema não é a circulação internacional da riqueza, mas
uma divisão do poder que reserva ao Brasil a produção e transfere para outros a
capacidade de decidir.
Há uma
assimetria de classe dentro dessa arquitetura. Empresas, fundos e associações
conseguem coordenar interesses ao longo de cadeias inteiras, enquanto
trabalhadores continuam frequentemente divididos por empresas, categorias e
etapas produtivas. Isso importa porque uma cadeia não distribui automaticamente
a riqueza que produz. O capital aprendeu a olhar a cadeia inteira. O trabalho
ainda é frequentemente obrigado a enfrentá-la por pedaços.
É por
isso que boi, bala e Bíblia continuam existindo, mas já não bastam para
explicar o território político. A Bancada do Saque não está simplesmente ao
lado delas. Ela aparece nas conexões entre velhos e novos poderes quando a
riqueza brasileira se transforma em dependência em vez de soberania.
A
pergunta capaz de revelar esse poder também precisa mudar. Já não basta saber
de que bancada um parlamentar faz parte. É preciso perguntar:
Em que
cadeia de poder ele opera, quem fica com a riqueza e quem fica com a conta?
Quando
essa pergunta entrar no centro da política brasileira, o velho mapa das
bancadas já não será suficiente para esconder quem transforma a riqueza do país
em poder e quem fica com a conta.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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