sábado, 8 de agosto de 2026

O sentimento de angústia

Ao contrário do que é veiculado, o reinado do neoliberalismo não produz diversidade, diferença ou multiplicidade. A sua criação é sempre morta, pois sem a diferença não existe vida. O exército que carrega seu estandarte é a propaganda, e sua mais prestigiada infantaria são as redes sociais. Por meio delas tudo é homogeneizado, é vendida a ideia, e gostaria de reforçar a importância do termo “vender”, de uma vida perfeita, que obviamente necessita de muitos bens materiais para ser alcançada, uma lista sempre sem fim.

Inicialmente, poderíamos argumentar que as redes sociais surgiram como um lugar feito para compartilharmos experiências, criarmos memórias e trocarmos fotos de baixa qualidade com amigos e família. Em certo sentido, era possível expressar autenticidade, pois o que estava sendo compartilhado dizia respeito a nós mesmos, uma pequena amostra de nossa subjetividade.

Entretanto, rapidamente as redes sociais se transformaram no reino das aparências. O que antes expressava a vida cotidiana e banal do indivíduo deu lugar a viagens excêntricas para a Europa, jantares caros, carros de luxo, rotinas eficientes, vidas perfeitas. A vida concreta e real de cada um de nós foi solapada pela vida abstrata, imaginária e irreal do indivíduo idealizado pela sociedade neoliberal como perfeito. As redes sociais se tornaram o veículo de propagação da norma, daquilo que todos nós imaginamos que a sociedade neoliberal considera uma vida boa e agradável, daquilo que todos nós deveríamos almejar e lutar para conquistar.

O livro A morte de Ivan Ilitch, mesmo tendo sido escrito no século XIX, apresenta um retrato desse cenário. Às vésperas da morte, Ivan começa a refletir sobre sua vida e percebe que nunca realmente viveu da maneira que gostaria. “De modo geral, a vida de Ivan Ilitch continuava a caminhar como ele acreditava que deveria caminhar: agradável e decente” (TOLSTÓI, 2023, p. 29). Gostaria de chamar a atenção para os termos “agradável” e “decente”. Para Ivan, o primeiro seria uma decorrência de seus bens materiais; o segundo, de seu status dentro da sociedade.

Sem perceber, essa se torna uma vida inautêntica. Ivan casa-se por acreditar que isso era considerado correto pela sociedade; não existe amor ou a busca de um indivíduo por encontrar seu lugar no mundo, apenas conformidade com o que é esperado socialmente. Ele é um funcionário público e recebe um bom ordenado para a realidade russa.

Mas isso não é suficiente para satisfazer sua compulsão por uma vida agradável e decente: decide ir para São Petersburgo em busca de um cargo melhor. Não se trata de uma busca por realização pessoal: seu verdadeiro desejo é adequação social, pois, com um cargo e salário melhores, ele terá mais meios de viver uma vida considerada boa pela sociedade, uma vida de aparências pautada por jantares extravagantes e bens materiais.

Talvez uma das melhores representações disso seja sua nova casa em São Petersburgo. Ivan procura a casa ideal, ideal para sua vida em família? Ideal em termos de status. Torna-se obcecado com o assunto, envolve-se em cada detalhe: escolhe o papel de parede, os móveis, acompanha minuciosamente a obra, pensa na casa o tempo todo, sonha com os cômodos prontos e imagina cada objeto em seu lugar. Nenhuma de suas decisões leva em conta sua vida em família ou até mesmo o próprio conforto; ele busca que a casa pareça elegante e aristocrática.

E, mais uma vez, estamos no reino das aparências, pois Ivan não pertence à classe aristocrática e, sendo assim, apenas pode emular esse padrão de vida por meio de sua falsa casa aristocrática. Sua casa, assim como todos os aspectos de sua vida, não expressa quem ele é – expressa o que ele quer que os outros pensem dele.

“‘Talvez eu não tenha vivido como deveria?’, veio-lhe de repente à cabeça. ‘Mas como estaria errado, se eu fazia tudo corretamente?’” (TOLSTÓI, 2023, p. 82). Nos estágios finais de sua vida, Ivan se dá conta de que viveu uma vida homogeneizada, pré-fabricada, aquilo que a sociedade considera correto: uma vida inautêntica.

É por meio de Martin Heidegger que podemos amarrar toda essa discussão e conceituar tanto o sofrimento de Ivan Ilitch quanto o nosso próprio sofrimento diante da tentação de comprar uma vida pré-fabricada, vendida pelo neoliberalismo através das redes sociais.

O autor é considerado um filósofo existencialista, o que, em termos gerais, significa defender que não existe uma essência humana: ela é construída por nossas próprias ações, ou seja, não existe algo que nos define a priori. O homem é livre para se definir.

Martin Heidegger diz que o ser humano está no mundo. Ao nascermos, somos lançados em um mundo que já existe: países, línguas, leis e outras pessoas. Não temos controle sobre essa situação; o mundo em que existimos interage conosco, e nós com ele. Contudo, alerta o autor, isso não é desculpa para negarmos nossa liberdade. Diante desse mundo, podemos agir, escolher, definir-nos, ser livres.

A vida inautêntica ocorre justamente quando escolhemos ser engolidos pelo mundo, quando abrimos mão do nosso poder de escolha para seguir e viver uma vida ditada pelas massas, pelo senso comum. Fazer o que todo mundo faz, pensar o que todo mundo pensa, gostar do que todo mundo gosta em suma, viver pela régua do mundo em vez de pela nossa própria.

Em um primeiro momento, seguir esse caminho parece adequado, pois, se todos estão fazendo, isso parece confiável, bom e seguro. Decidir por conta própria e assumir a responsabilidade de nossa própria liberdade é algo assustador: implica aceitar as consequências de nossas escolhas, abraçar o desconhecido, uma vez que o futuro é incerto e não sabemos se estamos tomando a melhor decisão. Implica também conviver com a eterna sensação de “tomei a melhor escolha?”, sem nunca receber essa resposta. Diante de todos esses desafios, seguir o grupo parece o mais sensato a se fazer.

Porém, ao fazermos isso, estamos destruindo nosso “eu-pessoal”, nossa identidade, nossa subjetividade e tudo aquilo que torna um indivíduo único. Estamos vivendo uma vida que não nos pertence, em outras palavras, uma vida inautêntica.

O sentimento de angústia aparece precisamente como um sinal: é a forma pela qual somos avisados de que estamos vivendo de maneira inautêntica. Essa sensação de que algo está fora do lugar, de que as coisas não se encaixam e não conseguimos apontar o motivo, significa, pelas lentes de Martin Heidegger, que nós é que estamos fora do lugar. O mundo parece não fazer sentido porque estamos olhando pela perspectiva de outra pessoa, por um olhar que não nos pertence.

Agora conseguimos compreender o que Ivan Ilitch sentia nos momentos derradeiros de sua vida: angústia, provocada por sua vida inautêntica. Tal situação é mais atual do que nunca, pois, diante do neoliberalismo, por meio da propaganda e especialmente das redes sociais, somos confrontados diariamente com diversas vidas “perfeitas” ou, melhor dizendo, com a falsa imagem de uma vida perfeita. Mesmo fazendo tudo aquilo que o neoliberalismo prega que um indivíduo deve fazer para ter uma vida agradável e decente, não seremos felizes: estaremos apenas repetindo os passos de Ivan Ilitch, vivendo uma vida que não nos pertence, uma vida inautêntica.

Se, ao olhar no espelho, enxergamos de volta o reflexo de Ivan Ilitch, o que devemos fazer? Acredito que não existe uma única resposta certa, mas podemos considerar a de Martin Heidegger.

Para Martin Heidegger, a angústia abre uma oportunidade única: a possibilidade de colocarmos em xeque nossa existência. Experienciar a angústia nos convida a refletir sobre nossa própria vida, nossas ações e escolhas. Ela abre o caminho para a transcendência.

Em poucas palavras, podemos traduzir transcendência como a capacidade humana de superação. Ela é a possibilidade de reinvenção, de superação de obstáculos, de mudança de perspectiva e de reconstrução da própria vida. Imagine um infeliz executivo do mercado financeiro que, após um longo período de angústia, decide largar tudo para cuidar de elefantes no fim do mundo. Alguns diriam que ele enlouqueceu; Martin Heidegger diria que ele transcendeu.

Ivan não deu o passo rumo à transcendência, tanto por conta da doença quanto por falta de coragem, mas nós ainda podemos dá-lo.

 

Fonte: Por Gabriel Dos Santos, em A Terra é Redonda

 

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