O
sentimento de angústia
Ao
contrário do que é veiculado, o reinado do neoliberalismo não produz
diversidade, diferença ou multiplicidade. A sua criação é sempre morta, pois
sem a diferença não existe vida. O exército que carrega seu estandarte é a
propaganda, e sua mais prestigiada infantaria são as redes sociais. Por meio
delas tudo é homogeneizado, é vendida a ideia, e gostaria de reforçar a
importância do termo “vender”, de uma vida perfeita, que obviamente necessita
de muitos bens materiais para ser alcançada, uma lista sempre sem fim.
Inicialmente,
poderíamos argumentar que as redes sociais surgiram como um lugar feito para
compartilharmos experiências, criarmos memórias e trocarmos fotos de baixa
qualidade com amigos e família. Em certo sentido, era possível expressar
autenticidade, pois o que estava sendo compartilhado dizia respeito a nós
mesmos, uma pequena amostra de nossa subjetividade.
Entretanto,
rapidamente as redes sociais se transformaram no reino das aparências. O que
antes expressava a vida cotidiana e banal do indivíduo deu lugar a viagens
excêntricas para a Europa, jantares caros, carros de luxo, rotinas eficientes,
vidas perfeitas. A vida concreta e real de cada um de nós foi solapada pela
vida abstrata, imaginária e irreal do indivíduo idealizado pela sociedade
neoliberal como perfeito. As redes sociais se tornaram o veículo de propagação
da norma, daquilo que todos nós imaginamos que a sociedade neoliberal considera
uma vida boa e agradável, daquilo que todos nós deveríamos almejar e lutar para
conquistar.
O livro
A morte de Ivan Ilitch, mesmo tendo sido escrito no século XIX, apresenta um
retrato desse cenário. Às vésperas da morte, Ivan começa a refletir sobre sua
vida e percebe que nunca realmente viveu da maneira que gostaria. “De modo
geral, a vida de Ivan Ilitch continuava a caminhar como ele acreditava que
deveria caminhar: agradável e decente” (TOLSTÓI, 2023, p. 29). Gostaria de
chamar a atenção para os termos “agradável” e “decente”. Para Ivan, o primeiro
seria uma decorrência de seus bens materiais; o segundo, de seu status dentro
da sociedade.
Sem
perceber, essa se torna uma vida inautêntica. Ivan casa-se por acreditar que
isso era considerado correto pela sociedade; não existe amor ou a busca de um
indivíduo por encontrar seu lugar no mundo, apenas conformidade com o que é
esperado socialmente. Ele é um funcionário público e recebe um bom ordenado
para a realidade russa.
Mas
isso não é suficiente para satisfazer sua compulsão por uma vida agradável e
decente: decide ir para São Petersburgo em busca de um cargo melhor. Não se
trata de uma busca por realização pessoal: seu verdadeiro desejo é adequação
social, pois, com um cargo e salário melhores, ele terá mais meios de viver uma
vida considerada boa pela sociedade, uma vida de aparências pautada por
jantares extravagantes e bens materiais.
Talvez
uma das melhores representações disso seja sua nova casa em São Petersburgo.
Ivan procura a casa ideal, ideal para sua vida em família? Ideal em termos de
status. Torna-se obcecado com o assunto, envolve-se em cada detalhe: escolhe o
papel de parede, os móveis, acompanha minuciosamente a obra, pensa na casa o
tempo todo, sonha com os cômodos prontos e imagina cada objeto em seu lugar.
Nenhuma de suas decisões leva em conta sua vida em família ou até mesmo o
próprio conforto; ele busca que a casa pareça elegante e aristocrática.
E, mais
uma vez, estamos no reino das aparências, pois Ivan não pertence à classe
aristocrática e, sendo assim, apenas pode emular esse padrão de vida por meio
de sua falsa casa aristocrática. Sua casa, assim como todos os aspectos de sua
vida, não expressa quem ele é – expressa o que ele quer que os outros pensem
dele.
“‘Talvez
eu não tenha vivido como deveria?’, veio-lhe de repente à cabeça. ‘Mas como
estaria errado, se eu fazia tudo corretamente?’” (TOLSTÓI, 2023, p. 82). Nos
estágios finais de sua vida, Ivan se dá conta de que viveu uma vida
homogeneizada, pré-fabricada, aquilo que a sociedade considera correto: uma
vida inautêntica.
É por
meio de Martin Heidegger que podemos amarrar toda essa discussão e conceituar
tanto o sofrimento de Ivan Ilitch quanto o nosso próprio sofrimento diante da
tentação de comprar uma vida pré-fabricada, vendida pelo neoliberalismo através
das redes sociais.
O autor
é considerado um filósofo existencialista, o que, em termos gerais, significa
defender que não existe uma essência humana: ela é construída por nossas
próprias ações, ou seja, não existe algo que nos define a priori. O homem é
livre para se definir.
Martin
Heidegger diz que o ser humano está no mundo. Ao nascermos, somos lançados em
um mundo que já existe: países, línguas, leis e outras pessoas. Não temos
controle sobre essa situação; o mundo em que existimos interage conosco, e nós
com ele. Contudo, alerta o autor, isso não é desculpa para negarmos nossa
liberdade. Diante desse mundo, podemos agir, escolher, definir-nos, ser livres.
A vida
inautêntica ocorre justamente quando escolhemos ser engolidos pelo mundo,
quando abrimos mão do nosso poder de escolha para seguir e viver uma vida
ditada pelas massas, pelo senso comum. Fazer o que todo mundo faz, pensar o que
todo mundo pensa, gostar do que todo mundo gosta em suma, viver pela régua do
mundo em vez de pela nossa própria.
Em um
primeiro momento, seguir esse caminho parece adequado, pois, se todos estão
fazendo, isso parece confiável, bom e seguro. Decidir por conta própria e
assumir a responsabilidade de nossa própria liberdade é algo assustador:
implica aceitar as consequências de nossas escolhas, abraçar o desconhecido,
uma vez que o futuro é incerto e não sabemos se estamos tomando a melhor
decisão. Implica também conviver com a eterna sensação de “tomei a melhor
escolha?”, sem nunca receber essa resposta. Diante de todos esses desafios,
seguir o grupo parece o mais sensato a se fazer.
Porém,
ao fazermos isso, estamos destruindo nosso “eu-pessoal”, nossa identidade,
nossa subjetividade e tudo aquilo que torna um indivíduo único. Estamos vivendo
uma vida que não nos pertence, em outras palavras, uma vida inautêntica.
O
sentimento de angústia aparece precisamente como um sinal: é a forma pela qual
somos avisados de que estamos vivendo de maneira inautêntica. Essa sensação de
que algo está fora do lugar, de que as coisas não se encaixam e não conseguimos
apontar o motivo, significa, pelas lentes de Martin Heidegger, que nós é que
estamos fora do lugar. O mundo parece não fazer sentido porque estamos olhando
pela perspectiva de outra pessoa, por um olhar que não nos pertence.
Agora
conseguimos compreender o que Ivan Ilitch sentia nos momentos derradeiros de
sua vida: angústia, provocada por sua vida inautêntica. Tal situação é mais
atual do que nunca, pois, diante do neoliberalismo, por meio da propaganda e
especialmente das redes sociais, somos confrontados diariamente com diversas
vidas “perfeitas” ou, melhor dizendo, com a falsa imagem de uma vida perfeita.
Mesmo fazendo tudo aquilo que o neoliberalismo prega que um indivíduo deve
fazer para ter uma vida agradável e decente, não seremos felizes: estaremos
apenas repetindo os passos de Ivan Ilitch, vivendo uma vida que não nos
pertence, uma vida inautêntica.
Se, ao
olhar no espelho, enxergamos de volta o reflexo de Ivan Ilitch, o que devemos
fazer? Acredito que não existe uma única resposta certa, mas podemos considerar
a de Martin Heidegger.
Para
Martin Heidegger, a angústia abre uma oportunidade única: a possibilidade de
colocarmos em xeque nossa existência. Experienciar a angústia nos convida a
refletir sobre nossa própria vida, nossas ações e escolhas. Ela abre o caminho
para a transcendência.
Em
poucas palavras, podemos traduzir transcendência como a capacidade humana de
superação. Ela é a possibilidade de reinvenção, de superação de obstáculos, de
mudança de perspectiva e de reconstrução da própria vida. Imagine um infeliz
executivo do mercado financeiro que, após um longo período de angústia, decide
largar tudo para cuidar de elefantes no fim do mundo. Alguns diriam que ele
enlouqueceu; Martin Heidegger diria que ele transcendeu.
Ivan
não deu o passo rumo à transcendência, tanto por conta da doença quanto por
falta de coragem, mas nós ainda podemos dá-lo.
Fonte:
Por Gabriel Dos Santos, em A Terra é Redonda

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