sexta-feira, 7 de agosto de 2026

“Há uma tendência global à dissolução da democracia”, alerta cardeal peruano

Castilho celebrou na catedral de Lima, na ultima terça-feira, 28 de julho, uma missa pelos 205 anos da independência do Peru, pronunciando uma homilia de forte conteúdo político. Embora sem citar nomes explicitamente, seu discurso deixou transparecer críticas severas tanto à agressiva política externa de Donald Trump quanto à guinada autoritária observada em diversos países da América Latina.

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No Peru as eleições presidenciais foram recentemente vencidas por Keiko Fujimori, candidata da direita populista e autoritária, filha do ex-presidente e ditador Alberto Fujimori. Ao assumir o cargo, ela acusou seus antecessores de lhe terem entregue o Estado “em condições catastróficas”.

Diante de uma plateia lotada de fieis católicos, Castillo ironizou a fala da nova presidente, dizendo: “Hoje, como foi corretamente dito nos últimos dias, nos encontramos numa situação catastrófica; não tanto pelos indicadores econômicos, mas porque a dignidade humana está gravemente ameaçada”. Segundo o arcebispo, trata-se de “uma tragédia humana e social”, na qual diversos grupos de interesse procuram colocar a ambição pelo enriquecimento ilícito e pelo poder absoluto acima de tudo, a ponto de as ditaduras já estarem instaladas ou se difundirem de maneira insidiosa.

Castillo prosseguiu afirmando: “Essas trevas catastróficas foram geradas de diversas maneiras: desde os alicerces da sociedade até as mais altas esferas do poder, infiltrando-se nas instituições e até mesmo na Igreja”.

Segundo ele, essas forças também atuam a partir dos chamados países “desenvolvidos”, que, por meio de um sistema de controle total baseado na tecnologia, estariam devastando populações em várias partes do mundo. E, referindo-se à atual política belicista de Donald Trump e outros líderes autocratas, afirmou: “Existe uma tendência global à dissolução da democracia e ao favorecimento da ditadura pairando sobre o mundo, e a ‘varinha mágica’ para desencadeá-la continua sendo a absurda promoção das guerras”. Por trás desses conflitos, afirmou o cardeal, escondem-se o abandono, a marginalização e a condenação da maioria da população mundial à miséria, à fome e à pobreza, considerada por alguns como uma população “excedente”.

Além disso, o primaz do Peru denunciou o desaparecimento e a morte de amplos segmentos populacionais, a invasão e a divisão de territórios e a consequente destruição de soberanias conquistadas “com o martírio de nossos povos. Indivíduos e grupos arrogantes, detentores de imensas riquezas e poder, procuram repartir o mundo como se fosse um espólio, redesenhando o mapa do planeta”.

Ao concluir sua homilia, o cardeal dirigiu-se aos fiéis: “Irmãos e irmãs, neste momento sombrio e extremo para o mundo, para a nossa América e para o povo peruano, abandonemos a mesquinhez de pensar apenas em nosso desenvolvimento individual ou no desenvolvimento do grupo ao qual pertencemos, para buscar o bem comum de todos”.

Cardeal Castillo não está sozinho em suas posições. Elas refletem certamente as do próprio Papa Leão 14. De fato, há pesquisadores, organizações internacionais e analistas políticos que identificam uma tendência global de erosão democrática nas últimas duas décadas. Diversos indicadores apontam para um enfraquecimento de instituições democráticas em diferentes regiões do mundo.

Entre os principais sinais estão:

Crescimento do autoritarismo eletivo, quando líderes chegam ao poder por meio de eleições, mas, uma vez no governo, enfraquecem gradualmente o Judiciário, a imprensa, os órgãos de controle e a oposição.

Declínio das liberdades civis, incluindo restrições à liberdade de imprensa, de manifestação e de associação.

Polarização extrema, que dificulta o funcionamento do sistema democrático ao transformar adversários em inimigos.

Desinformação em escala industrial, potencializada pelas redes sociais e, mais recentemente, pela inteligência artificial.

Concentração de poder em Executivos nacionais, muitas vezes justificada por crises sanitárias, guerras, imigração ou terrorismo.

Desconfiança crescente nas instituições, nos partidos políticos e nos parlamentos.

Diversos estudos vêm documentando esse fenômeno. O Projeto Variedades da Democracia (Varieties of Democracy, iniciativa ambiciosa do Kellog Institute for International Studies –  https://kellogg.nd.edu › varieties-democracy-project – que reúne várias das melhores universidades do mundo) afirma que, em todoo planeta, atravessamos uma “terceira onda de autocratização”. O índice Freedom in the World, elaborado pela organização Freedom House, registra há vários anos um declínio acentuado da liberdade política em escala global. Já o Economist Intelligence Unit mostra uma redução do número de democracias consideradas plenas.

Por que isso está acontecendo? Não existe uma única causa. Entre os fatores mais citados pelos cientistas políticos estão: o aumento das desigualdades econômicas; a crise de representatividade dos partidos tradicionais; a revolução digital e o poder das plataformas; o crescimento do nacionalismo e do populismo; a percepção, em geral equivocada, de que regimes autoritários conseguem decidir com maior rapidez; guerras e tensões geopolíticas que favorecem discursos de segurança em detrimento das liberdades.

Mas a democracia está realmente acabando? Para alguns estudiosos essa conclusão seria exagerada. Em muitos países, instituições democráticas continuam funcionando e, em alguns casos, demonstraram capacidade de resistir a tentativas de captura do Estado. Também ocorreram, nos últimos anos, alternâncias pacíficas de poder, fortalecimento de tribunais constitucionais e mobilizações populares em defesa da democracia.

Por isso, muitos especialistas preferem falar em erosão democrática, retrocesso democrático ou autocratização gradual, em vez de afirmar que a democracia esteja desaparecendo. No entanto, em síntese, há evidências robustas de que muitos países enfrentam um processo de enfraquecimento das instituições democráticas. O debate está menos em se esse fenômeno existe e mais em sua intensidade, suas causas e até que ponto ele representa uma transformação estrutural da ordem política mundial.

•        O que está em jogo nas eleições de 2026? Por Everton Rodrigo Santos

Brasil irá às urnas em 2026 na condição de quarta maior democracia eleitoral do mundo, em uma disputa que ganha peso especial no cenário internacional. Este pleito ocorre em um momento em que diversas democracias no planeta enfrentam processos de autocratização, isto é, dinâmicas pelas quais regimes democráticos passam a adotar características cada vez mais autoritárias. Nesta perspectiva, é importante lembrar que a democracia não avança de forma linear, mas em ondas.

Ondas – A primeira onda democrática ganhou força ainda no final do século 19, impulsionada pela ampliação do voto. A segunda onda emergiu no pós-guerra, quando o voto feminino se consolidou e o nazifascismo foi derrotado. A terceira tomou corpo a partir das transições democráticas na Europa e na América Latina e se espalhou com a queda do muro de Berlim. Cada uma dessas ondas foi seguida igualmente por ondas reversas. Nós estaríamos hoje vivendo a terceira onda reversa, em curso desde o início do século 21, marcada pela erosão democrática e pela ascensão de uma extrema direita global, da qual o trumpismo tornou-se um dos símbolos mais visíveis.

É dentro desse contexto que o eleitor brasileiro fará suas escolhas. Segundo o relatório V Dem, há uma piora da democracia no mundo: 74% da população mundial vive sob regimes autoritários, enquanto apenas 26%, em democracias. Os dados da The Economist ressaltam que os Estados Unidos perderam o status de “democracia plena” para “democracia imperfeita”, recuando 0,2 ponto em relação ao ano passado. Nas pesquisas conduzidas pela WVS (Pesquisa Mundial de Valores), observamos, longitudinalmente, que o apoio específico à democracia também enfraqueceu no mundo, em particular no Brasil. Guardadas as diferenças metodológicas entre pesquisadores, há uma convergência crescente em apontar que essa onda reversa não surge ao acaso, mas é impulsionada por fatores estruturais, entre eles, estão:

# Desigualdade

– A desigualdade, que neste início do século 21 aumentou no mundo, manifestou-se de forma peculiar: os ricos ficaram mais ricos, enquanto os pobres ficaram menos pobres. O resultado foi o esmagamento da classe média, que viu os mais ricos se distanciarem e os mais pobres avançarem sobre ela. As classes médias foram as que mais perderam postos de trabalho, devido à substituição de tarefas rotineiras pelas novas tecnologias e pela inteligência artificial.

# Mudança de valores

– Somado a isso, o avanço de direitos da comunidade LGBTQIAP+, negros e mulheres, tem provocado uma crise de masculinidade. Homens que perderam renda e status alimentam a “macho-esfera”, os red pills nas redes sociais. Facilmente reconhecidos nas ruas do país, são, em geral, de meia-idade, dirigem picapes adesivadas com bandeiras enormes do Brasil ou dos EUA, têm encontrado sentido político no voto na extrema direita.

# Redes sociais

– Esse grupo, e muitos outros, tem cada vez mais seu ponto de encontro nas redes sociais, que desempenham papel central na intensificação da crise democrática ao encapsularem milhões de pessoas em uma “midioesfera extremista”. Verdadeiras bolhas de desinformação, “câmaras de eco”, nas quais cada pessoa recebe apenas o conteúdo que confirma suas crenças e valores.

# Cenário eleitoral

– Neste cenário, Flávio Bolsonaro e seu entourage (Caiado, Zema e Renan Santos) inscrevem-se na versão autocrática da onda reversa brasileira. Flávio fez menções ao “uso da força” contra o STF para libertar seu pai. Alinhando-se às políticas trumpistas, sua participação na Conferência de Ação Política Conservadora, oferecendo reservas brasileiras de minerais críticos, é autoexplicativa. A democracia está sob ataque, e isso não é um argumento eleitoreiro, mas um alerta sustentado por pesquisas e por padrões amplamente documentados na literatura sobre erosão democrática no mundo. Quando atores políticos passam a flertar com soluções autoritárias, embalados por uma onda autocrática planetária, o que está em jogo não é uma eleição, mas o futuro da democracia.

•        2026: O ponto de não retorno da democracia algorítmica. Por Marcelo Senise

O Parlamento brasileiro e as instituições democráticas enfrentam uma ameaça silenciosa que avança em uma velocidade muito superior à capacidade de reação do nosso ordenamento jurídico. Não se trata mais da tradicional disputa ideológica ou da velha guerrilha de bastidores que historicamente moldaram a política nacional. O desafio que se impõe agora atinge o coração da soberania popular: ingressamos definitivamente na era da pós-verdade automatizada, onde a inteligência artificial sem regulamentação ameaça sequestrar o processo eleitoral e a estabilidade dos mandatos.

Até recentemente, o ecossistema político combatia a mentira artesanal — o boato de rede social, o recorte malicioso, a descontextualização intencional. Esse tempo acabou. O perigo que bate às portas do Congresso Nacional é a mentira sintética em escala industrial. Com ferramentas de IA de acesso massivo, tornou-se trivial forjar realidades inteiras. Clonagem de voz com entonações idênticas, deepfakes em vídeo com sincronia labial perfeita e falsificação de documentos digitais são gerados em segundos. A assimetria desse cenário é brutal e perigosa: de um lado, temos o rito analógico e processual da Justiça Eleitoral; do outro, laboratórios de desinformação operando em velocidade algorítmica.

Contudo, o ponto mais crítico e menos debatido pelos formuladores de políticas públicas reside nos chamados fenômenos emergentes da tecnologia. Na ciência da computação, um fenômeno emergente ocorre quando um sistema de IA desenvolve habilidades, lógicas de processamento e comportamentos autônomos que não foram previstos ou programados pelos seus desenvolvedores. Quando essa autonomia ganha o terreno da disputa eleitoral sem freios regulatórios, as consequências são imprevisíveis.

Na prática, significa que algoritmos avançados podem aprender a cruzar dados públicos, perfis psicológicos e reações emocionais do eleitorado em tempo real, gerando e disparando ataques hiperpersonalizados de forma autônoma. A desinformação ganhou a capacidade de se auto-otimizar. Ela identifica o medo ou o preconceito de um nicho específico de eleitores e molda o ataque para aquela vulnerabilidade, sem necessidade de intervenção humana direta a cada disparo. O risco real já não é apenas a mentira que circula, mas a perda do controle humano sobre a própria narrativa pública.

À frente do IRIA (Instituto Brasileiro para a Regulamentação da IA), temos defendido exaustivamente que a resposta legislativa e a criação de marcos regulatórios robustos são urgentes. O vácuo normativo atual transforma o ambiente político em uma terra de ninguém. Porém, a experiência nos mostra que a lei, sozinha, não vence uma guerra que também é de vanguarda tecnológica. A regulação precisa de dentes jurídicos, mas os mandatos e as instituições precisam, desde já, de escudos técnicos.

É por isso que o IRIA assumiu a responsabilidade de liderar o desenvolvimento de um arsenal de defesa reputacional inédito no país. Em parceria e colaboração estreita com referências do setor de tecnologia, como a Polijetro e a Votli, estamos desenhando sistemas de contra-inteligência digital. São soluções voltadas para identificar anomalias algorítmicas, rastrear o DNA de conteúdos sintéticos e neutralizar redes de ataques coordenados antes que eles alcancem o ponto de não retorno e destruam a credibilidade de um líder ou de uma instituição.

A metodologia da "Blindagem Essencial" migrou do campo do marketing eleitoral para se tornar uma estratégia de segurança institucional. O velho modelo de gerenciamento de crise reativo — aquele comportamento obsoleto de emitir uma nota oficial quando a reputação já está em frangalhos na internet — é o equivalente político a levar uma faca para um duelo de fuzis. Diante da automação do ataque, a defesa precisa ser preditiva, baseada em matrizes de vulnerabilidade minuciosas e no monitoramento ativo de tendências.

O futuro da representação política no Brasil dependerá da capacidade das lideranças de compreenderem que a integridade de um mandato não se defende mais apenas na tribuna ou no corpo a corpo com o eleitor. Ela se defende na vanguarda da tecnologia de proteção. Em um cenário onde a mentira é automatizada, a verdade precisará estar fortemente armada com inteligência e ferramentas robustas se quiser continuar governando.

 

Fonte: Por Luis Pellegrini, em Brasil 247/Congresso em Foco/Extra Classe

 

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