Congresso
estica recesso e adia votação de pautas como o fim da escala 6×1
O
Congresso Nacional encerrou oficialmente o recesso parlamentar na última
sexta-feira (1º), mas deputados e senadores terão mais uma semana sem votações.
A retomada das deliberações foi adiada para 10 de agosto em razão do calendário
eleitoral, comprimindo o tempo disponível para a análise de propostas
relevantes antes do início da propaganda eleitoral, marcado para 16 de agosto.
Na
prática, o Legislativo terá menos de uma semana de atividade deliberativa antes
de a campanha ganhar intensidade. O cenário tende a reduzir ainda mais o ritmo
de votação de matérias que já enfrentavam dificuldades políticas e dependem de
articulação entre governo, oposição e presidências da Câmara e do Senado.
O
adiamento ocorre em um momento decisivo do calendário eleitoral. Os partidos
têm até 15 de agosto para registrar oficialmente seus candidatos e, no dia
seguinte, começa a propaganda eleitoral em rádio, televisão e internet. Com
deputados e senadores cada vez mais envolvidos nas campanhas, a tendência é de
queda no quórum e maior dificuldade para construir acordos em torno de temas
sensíveis.
Embora
o Congresso continue funcionando administrativamente, a ausência de sessões
deliberativas impede a apreciação de projetos de maior impacto político,
transferindo para a semana de 10 de agosto uma pauta que já chega pressionada
pelo calendário.
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Propostas seguem à espera de votação
Entre
os principais projetos que continuam sem avanço está a PEC que extingue a
escala de trabalho 6×1. A proposta ganhou grande repercussão nacional e
mobilizou trabalhadores, sindicatos e parlamentares, mas ainda não avançou de
forma significativa na Câmara dos Deputados.
Outra
matéria que permanece parada é a PEC da Segurança Pública, considerada uma das
principais apostas do governo Luiz Inácio Lula da Silva para reorganizar a
atuação da União no combate ao crime organizado e fortalecer a integração entre
as forças de segurança. O texto também aguarda avanço político para iniciar sua
tramitação nas comissões.
O
adiamento da retomada das votações não é o motivo da paralisação dessas
propostas, mas prolonga um cenário de indefinição e reduz ainda mais a
possibilidade de que elas avancem antes de o Congresso mergulhar
definitivamente na dinâmica da campanha eleitoral.
Além
dessas PECs, continuam pendentes projetos da agenda econômica do governo,
medidas provisórias que precisam ser analisadas pelo Congresso e vetos
presidenciais que aguardam apreciação em sessão conjunta.
Com a
propaganda eleitoral começando em 16 de agosto, a expectativa é que o espaço
para votações de matérias mais controversas fique ainda mais restrito nas
semanas seguintes. Na prática, embora o recesso parlamentar tenha terminado
oficialmente no dia 1º de agosto, a principal atividade legislativa permanecerá
suspensa por mais uma semana, mantendo em compasso de espera parte das
propostas mais relevantes em discussão no Congresso.
• Escala 6×1, PEC da Segurança, minerais
raros: o que o Congresso pode votar durante eleição. Por Vanessa Celina
No
primeiro semestre deste ano, várias pautas que mobilizaram a população e o
governo ficaram pendentes de votação no Congresso brasileiro. A Proposta de
Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala 6×1, a PEC da Segurança
Pública e a Lei da Misoginia – que
criminaliza a prática, equiparando-a ao racismo -, são exemplos de projetos que
têm impacto na sociedade, mas ficaram travados nas articulações do Congresso.
Agora,
com as eleições de outubro, os presidentes das duas casas legislativas, Davi
Alcolumbre (União-AP), do Senado, e Hugo Motta (Republicanos-PB), da Câmara,
decidiram que os parlamentares vão trabalhar em duas semanas antes das eleições
para votar projetos antes das eleições: de 10 e 14 de agosto e de 31 de agosto
a 3 de setembro.
Para
Marco Antônio Teixeira, coordenador do Mestrado e Doutorado em Gestão e
Políticas Públicas da FGV EAESP, o momento eleitoral, na verdade, ajuda a “ampliar o debate” sobre alguns
assuntos”, mas “dificulta a votação de pautas que possam desgastar os próprios
parlamentares”. Mais de 87% dos deputados federais estão concorrendo à
reeleição e, no Senado, 35 das 54 vagas poderão ser renovadas no pleito deste
ano.
“Tudo
agora é agenda eleitoral, não tem como separar. Os projetos, sobretudo, que
interessam ao governo, à bancada governista, vão do momento eleitoral para
tentar acelerar o processo [de votação]”, explica.
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Escala 6×1
Sobre a
PEC 221/2019, que acaba com a escala 6×1 e reduz a carga horária de trabalho de
44 para 40 horas semanais, Davi Alcolumbre ainda não apresentou uma data para
iniciar a sua tramitação. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder no
governo no Congresso, entretanto, afirma que a sua aprovação será prioridade na
volta do recesso, mesmo com o período eleitoral chegando.
A
demora na tramitação da pauta gera críticas a Alcolumbre. Movimentos sociais,
como o Movimento VAT (Vida Além do Trabalho), tem se manifestado contra a
demora da aprovação, com o slogan “Davi Alcolumbre Inimigo do Povo”,
parafraseando manifestações do “Congresso Inimigo do Povo”.
Mesmo
não sendo afetado diretamente, pois não concorre à reeleição este ano, Davi
Alcolumbre não está impermeável aos humores da opinião pública na avaliação de
Teixeira. “Ele tem o grupo político dele no Amapá que terá candidato e pode
sofrer [um impacto] com essa discussão”, diz o professor.
Teixeira
explica que, por mais que a oposição segure pautas como o fim da escala 6×1, a
manifestação pública, já inspirada pelo período eleitoral, junta-se à pressão
do governo, interessado na aprovação da PEC.
Por
outro lado, Teixeira ressalta que outros atores atuam na pressão política
conforme a proposta legislativa. “Sempre tem, por trás, públicos que se
beneficiam e públicos que se prejudicam. O fim da escala 6×1 interessa à
maioria dos trabalhadores. Interessa ao setor de serviço? Alguns sim, outros
não. Interessa ao agro[negócio]? A maioria diz que não. Então, é parte da
democracia esse processo. […] A circunstância da eleição ajuda a dar mais
holofotes para esse debate”.
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PEC da Segurança Pública
A
Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, proposta por Lula
e aprovada na Câmara dos Deputados, está paralisada no Senado desde março. A
PEC é uma iniciativa do governo federal para o enfrentamento do crime
organizado e melhoria na segurança pública brasileira, a proposta cria o
Sistema Único de Segurança Pública (Susp) e cria penas mais duras para chefes
de facções criminosas e autores de crimes violentos.
Teixeira
acredita que debates sobre misoginia e
segurança pública também se fortalecem durante o período eleitoral. Porém, ele
pondera que o governo tem como alternativa, caso as votações não caminhem,
tentar responsabilizar o legislativo.
“Se, por exemplo, os dois principais projetos
de interesse do governo, que são o fim da escala [6×1] e a lei da misoginia,
não forem adiante, o governo vai dizer que a oposição não deixou. [Ou] morreu
mais gente de feminicídio, mas a oposição não tem interesse em discutir regras
que combatam melhor o feminicídio”, exemplifica Teixeira.
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Minerais críticos
A
votação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos também deve
ser cobrada pelo governo. O Projeto de lei 2780/24 cria o Conselho Nacional
para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE) e fomenta a
pesquisa e a extração de minerais críticos. Aprovado na Câmara dos Deputados em
junho, ainda espera avaliação da Comissão de Infraestrutura do Senado.
A
tramitação da pauta divide governistas e setor privado. Para o segundo grupo, a
proposta dá muito poder ao Executivo, atravancando as negociações. Já o governo
argumenta que a política nacional é importante para garantir a soberania.
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Os vetos de Lula
A
oposição, por outro lado, também tem suas estratégias. Parlamentares podem, no
retorno do recesso, rever vetos feitos pelo Governo Lula nas leis sancionadas.
Entre eles, vetos sobre a mudança no número de deputados federais, na Lei
Orçamentária deste ano e no Estatuto Pantanal, que permite uso de áreas
desmatadas ilegalmente ou degradadas na implantação de novos empreendimentos.
Atualmente, 97 vetos feitos pelo presidente Lula aguardam análise e podem ser revistos pelo Congresso Nacional.
• Congresso deixa 32 medidas provisórias à
beira de perder validade no recesso
O
Congresso volta aos trabalhos em agosto com 32 medidas provisórias pendentes de
votação e uma contradição política no colo: deputados e senadores não puderam
entrar formalmente em recesso porque a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027
não foi aprovada, mas, na prática, reduziram o ritmo mesmo assim. Como não
houve recesso oficial, os prazos das MPs continuaram correndo.
O
resultado é uma fila de medidas com efeito imediato, mas ainda sem aprovação
definitiva. Segundo a Agência Senado, há propostas sobre renegociação de
dívidas, ressarcimento de descontos indevidos em benefícios do INSS,
combustíveis, transporte e apoio a empresas afetadas pelo aumento de tarifas
impostas pelos Estados Unidos.
O caso
mais urgente é a MP 1.349/2026, que institui o Regime Emergencial de
Abastecimento Interno de Combustíveis. A medida vence em 4 de agosto e ainda
não foi analisada pela comissão mista. Para virar lei, uma MP precisa passar
primeiro por comissão formada por deputados e senadores, depois pela Câmara e,
por fim, pelo Senado.
Medidas
provisórias têm força de lei assim que são editadas pelo governo, mas precisam
ser aprovadas pelo Congresso em até 120 dias. Se não forem votadas dentro do
prazo, perdem a validade. A contagem normalmente é interrompida durante o
recesso parlamentar. Em 2026, isso não ocorreu porque o Congresso não votou o
projeto da LDO.
A LDO
define as bases do Orçamento do ano seguinte. Pela Constituição, o Congresso
não pode entrar em recesso formal sem votar o texto. O problema é que a
ausência de recesso oficial não impediu a pausa política de julho. Impediu
apenas o congelamento dos prazos das medidas provisórias.
Oito
MPs vencem em agosto. Além da medida sobre abastecimento emergencial de
combustíveis, expiram no mês propostas sobre habitação popular, subvenção à
importação de gás liquefeito de petróleo, linhas de crédito para exportadores,
financiamento de caminhões e ônibus sustentáveis, Novo Desenrola Brasil e ações
de defesa civil.
A fila
inclui medidas de forte impacto econômico e social. A MP 1.355/2026, que cria o
Novo Desenrola Brasil, vence em 31 de agosto e ainda aguarda instalação da
comissão mista. O programa prevê refinanciamento de dívidas para pessoas com
renda mensal de até R$ 8.105, além de regras para micro e pequenas empresas e
endividados do Fies.
Também
está pendente a MP 1.378/2026, que abriu crédito extraordinário de R$ 547
milhões ao Ministério da Previdência Social para ressarcir aposentados e
pensionistas que sofreram descontos indevidos de entidades associativas. A
medida tem prazo até 17 de novembro, mas compõe a mesma fila de propostas que
ainda precisam ser convertidas em lei.
Na área
de combustíveis, além da MP 1.349, há uma série de medidas sobre subsídios,
subvenções e créditos extraordinários para tentar conter efeitos da alta de
preços. O pacote inclui apoio à venda de combustíveis derivados de petróleo,
subsídio para produtores e importadores de diesel e créditos para ações ligadas
ao GLP, ao diesel e ao querosene de aviação.
O setor
de transporte também concentra parte relevante das MPs pendentes. Há propostas
para financiamento de veículos novos por motoristas de aplicativo, taxistas,
mototaxistas, motoboys, cooperativas e empresas de transporte de cargas e
passageiros. Outra medida simplifica regras para atividades de motofrete e
mototáxi.
A
situação expõe o custo institucional da paralisia em torno da LDO. Como o
Congresso não concluiu a votação do projeto orçamentário, não houve recesso
formal. Como a atividade legislativa também não seguiu em ritmo normal, medidas
provisórias com impacto direto em crédito, combustíveis, transporte, habitação,
INSS e defesa civil ficaram pressionadas pelo calendário.
Na
prática, o Congresso criou uma espécie de meio-recesso: não parou oficialmente,
mas também não resolveu a pauta que precisava resolver. Para as MPs, porém, não
existe meio-termo. O relógio continuou andando.
O risco
agora é concentrar em agosto uma corrida legislativa para instalar comissões,
votar pareceres, levar textos à Câmara e ao Senado e evitar que medidas percam
validade. No caso da MP dos combustíveis, o prazo é praticamente imediato: se
não houver votação até 4 de agosto, o regime emergencial de abastecimento
interno deixa de valer.
A conta
política é simples. A LDO não votada impediu o recesso no papel. Mas não
impediu a paralisia na prática. E quem paga a fatura é a pauta legislativa que
ficou pendurada no calendário.
Fonte:
ICL Notícias/Agencia Pública

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