quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Como um parafuso ajudou os Estados Unidos a conquistar o mundo

Às vezes, o que te torna poderoso é algo pequeno e comum. E os Estados Unidos provaram isso com um parafuso de rosca de 60 graus.

A história começa no início da década de 1920, quando o mundo era um completo caos em termos de padronização, mesmo em coisas que hoje nos surpreenderiam.

Cada país tinha suas próprias regras e, nos Estados Unidos, a confusão era ainda maior: apesar de formarem uma única nação, cada Estado seguia seus próprios critérios. A ponto de, por exemplo, um semáforo verde em Nova York significar "pare", enquanto em Buffalo, cidade vizinha, significava exatamente o contrário.

"Hoje, todo mundo para no vermelho e segue no verde. Esse é um padrão entre uma lista interminável de padrões, que são tão padronizados que nem sequer pensamos neles como padrões", observa Roman Mars, criador do popular podcast 99% Invisible.

Quem colocou ordem nessa bagunça foi Herbert Hoover — um personagem lembrado com amargura por ter sido, anos depois, o presidente que governou os Estados Unidos durante a Grande Depressão.

Antes disso, porém, Hoover foi secretário de Comércio e, nessa função, era a pessoa ideal para enfrentar o problema.

"Ele simplesmente acreditava em sistemas. Era um burocrata clássico, antes de esse termo ganhar uma conotação negativa e passar a significar alguém que não faz nada", explica Mars.

Convencido de que, com os sistemas certos e uma boa organização da produção, todos prosperariam, Hoover decidiu padronizar todo tipo de coisa: de paralelepípedos a copos e taças.

Seu objetivo era a eficiência — um elemento que é essencial para o bom funcionamento da economia e que começa pelos objetos que a sustentam.

Dessa forma, por exemplo, se em vez de existirem 65 tamanhos diferentes de paralelepípedos para pavimentar as ruas, houvesse apenas 11, substituir uma peça danificada seria muito mais simples.

Bastaria ir ao depósito e escolher outra idêntica, porque sempre haveria peças de reposição compatíveis.

Objeto por objeto, Hoover foi reduzindo o caos.

Lençóis de hospital, molas de cama, forros de freio, pneus... Tudo passou pelo seu filtro de padronização, até coisas que você nem imaginaria que precisassem disso. Ele chegou a definir quantas horas um copo de vidro com água fervente deveria resistir para poder ser comercializado como tal (seis horas) e qual percentual de borracha nova um pneu deveria conter (70%).

"Chegar a esses acordos exigiu longas discussões e, às vezes, confrontos entre reguladores e fabricantes, políticos e lobistas", destaca Mars.

"Mas talvez nenhum caso tenha sido tão desafiador — ou tão determinante — quanto a disputa por aquilo que, literalmente, mantém o nosso mundo unido: a rosca do parafuso."

<><> Diferentes idiomas

Padronizar os lençóis dos hospitais afeta apenas quem fabrica tecidos hospitalares. Mas padronizar o parafuso afeta todo mundo.

"Mesmo que você produza um objeto que não tenha parafusos, ele é fabricado por uma máquina que precisa de parafusos", afirma o historiador Daniel Immerwahr, autor de How to Hide an Empire (Como Esconder um Império, em tradução livre).

O problema era a rosca, aquele filete em espiral que envolve o corpo do parafuso e que precisa se encaixar em um ângulo preciso com a peça que o recebe.

Um parafuso de 60 graus é aquele cuja rosca é formada por filetes com um ângulo de 60°.

Um parafuso de 55 graus e outro de 60 graus são, à primeira vista, indistinguíveis. A diferença só aparece quando um deles não encaixa onde deveria.

"A diferença não é fácil de perceber", diz Immerwahr. "Mas a diferença é tudo."

Chegar a um consenso com os fabricantes de paralelepípedos foi relativamente simples.

Fazer o país inteiro concordar em torno de um único padrão para os parafusos era outra história: ninguém queria sair perdendo, e ninguém queria adotar o padrão de outro.

Ainda assim, em 1924, os Estados Unidos conseguiram: criaram o padrão nacional para parafusos com rosca de 60 graus.

Eufórico, Hoover declarou: "É um sonho realizado! A utopia é nossa."

O problema era que o resto do mundo ainda falava outra língua quando o assunto eram parafusos. E essa anarquia, que os Estados Unidos mal haviam conseguido domar dentro de suas próprias fronteiras, acabaria provocando problemas em escala global.

"No início do século 20, o desenvolvimento tecnológico avançava em um ritmo vertiginoso. A cada ano eram fabricados mais objetos, e começava a importar como eles eram feitos e se eram compatíveis entre si — em outras palavras, se falavam a mesma língua", explica Immerwahr.

"Os Estados Unidos estavam criando um mundo de objetos industriais que falavam 60 graus. Mas, quando esses objetos chegavam ao exterior, encontravam outros que falavam 55 graus, ou qualquer outro padrão."

"Era como se falassem idiomas incompreensíveis um para o outro: 'Não entendo o que você está dizendo. Nunca conseguiremos trabalhar juntos'", ilustra o historiador.

O problema de os objetos não falarem a mesma língua estava prestes a se agravar: logo depois, ia deixar de ser uma questão comercial — e se tornar um assunto de vida ou morte.

<><> Um pôr do sol e um alvorecer

Quando a Segunda Guerra Mundial começou, o presidente Franklin D. Roosevelt precisou convencer os americanos, relutantes em se envolver em um conflito que ainda não havia chegado ao território deles, a ajudar as nações que combatiam a Alemanha nazista.

Em uma das analogias políticas mais famosas do século 20, ele disse: "Suponham que a casa do meu vizinho esteja pegando fogo e eu tenha uma mangueira de jardim a poucos metros. Se ele puder pegar a minha mangueira e conectá-la à torneira dele, poderei ajudá-lo a apagar o incêndio".

Mas, como observa Immerwahr, há um problema evidente nessa metáfora: e se a sua mangueira não encaixar na torneira do vizinho?

Esse pequeno detalhe, multiplicado por milhões de peças, quase paralisou o esforço de guerra dos Aliados.

Nenhum padrão coincidia: um funcionário canadense chegou a dizer que, no início da guerra, não havia um único fuzil nem uma única bala que pudesse ser compartilhada entre os Aliados.

Os Estados Unidos se tornaram o grande fornecedor de armamentos, veículos e suprimentos dos Aliados.

Enquanto boa parte da Europa combatia ou sofria bombardeios, a indústria americana seguia operando a todo vapor e abastecia as frentes de batalha do outro lado do Atlântico.

Mas esses aviões, tanques, caminhões e armas tinham sua montagem, manutenção e conserto feitos a milhares de quilômetros de onde haviam sido fabricados.

E, assim, tudo de que os exércitos precisavam para sobreviver à guerra dependia de parafusos que, muitas vezes, simplesmente não encaixavam.

Ao longo de toda a guerra, os Estados Unidos gastaram US$ 600 milhões enviando parafusos, porcas e pinos extras para o exterior a fim de resolver os problemas de incompatibilidade.

Com esse dinheiro, seria possível construir cerca de mil aviões bombardeiros B-29.

Foi então que o Reino Unido, que adotava um padrão de rosca de 55 graus, sentou-se para negociar com Washington.

Immerwahr analisou as atas dessas reuniões, realizadas entre 1943 e 1945, e descobriu uma negociação que simbolizava o pôr do sol de um império e o alvorecer de outro.

Na primeira reunião, os britânicos disseram que estariam dispostos a discutir o assunto.

Na segunda, afirmaram que considerariam reequipar suas fábricas.

Na terceira, disseram que sim, fariam a adaptação, mas apenas temporariamente, "para os fins da guerra".

Na quarta, simplesmente cederam: adotariam o padrão americano.

"Uma coisa era os Estados Unidos terem declarado sua independência", resume Immerwahr, "mas isso era o Reino Unido declarando sua dependência".

O país estava admitindo que, no reino dos objetos — um terreno de peso econômico imenso —, seria Washington quem ditaria as regras.

Uma derrota aceita, vale lembrar, enquanto as bombas nazistas ainda caíam sobre Londres.

<><> ISO: a 'ONU dos objetos'

Depois que os Estados Unidos e todo o Império Britânico passaram a adotar o mesmo ângulo de rosca, o resto do planeta simplesmente seguiu o exemplo.

Os padrões, explica Immerwahr, provocam um efeito manada: quando a maioria passa a fazer algo de determinada maneira, é mais vantajoso aderir rapidamente do que insistir em uma batalha perdida.

Em 1947, delegados de 25 países fundaram a Organização Internacional de Padronização (ISO), uma espécie de 'Nações Unidas dos objetos'. E, aos poucos, o planeta começou a se ajustar ao tom ditado por Washington.

O exemplo favorito de Immerwahr é a placa de "pare".

Um policial de Detroit, insatisfeito porque a placa quadrada de "STOP" era confundida com outras sinalizações, cortou seus cantos e criou o formato octogonal. A ideia se popularizou nos Estados Unidos e, em 1953, tornou-se o padrão internacional: um octógono amarelo.

Apenas um ano depois, químicos da indústria americana desenvolveram uma tinta vermelha refletiva mais durável, e os engenheiros de trânsito decidiram que o vermelho combinava melhor com os semáforos.

E assim, sem mais, Washington mudou de amarelo para vermelho, obrigando, mais uma vez, o resto do mundo a se adaptar.

Hoje, segundo cálculos feitos por Immerwahr com a ajuda de um pesquisador, os países que adotam a placa octogonal vermelha representam 91% da população mundial, incluindo a Coreia do Norte.

E, no entanto, os Estados Unidos se reservam o direito de ignorar os padrões que não são convenientes para eles.

O exemplo mais claro é o sistema métrico, um projeto nascido na França antes de Washington atingir sua maturidade industrial.

Os Estados Unidos, praticamente sozinhos entre as nações, nunca sentiram obrigação de adotá-lo.

É por isso que, para a maior parte do planeta, o futebol é jogado em um campo com 100 metros de comprimento, conforme o padrão da FIFA, enquanto nos Estados Unidos o futebol americano é disputado em um campo da NFL com 100 jardas.

<><> Um novo império

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tinham bases militares e frotas espalhadas pelo mundo, além de uma das poucas economias industrializadas que continuavam de pé.

Eles poderiam ter seguido o velho manual dos impérios: colônias, governadores e tropas de ocupação. Mas não foi o que fizeram. Não por algum tipo de despertar moral, mas porque haviam encontrado algo melhor.

Como aponta Immerwahr, manter um império tradicional exigia um esforço constante, com soldados, governadores locais e repressão a insurreições. O novo poder americano funcionaria de outra forma: "Ele não abre mão da força nem do território — afinal, há centenas de bases militares espalhadas pelo mundo —, mas coisas como a rosca do parafuso não são impostas por meio de uma arma apontada."

Não era a primeira vez que uma potência exercia sua influência sem governar diretamente outros territórios.

O Império Britânico já havia demonstrado que comércio, investimentos e diplomacia podiam ser tão eficazes quanto colônias.

Mas os Estados Unidos acrescentaram uma nova camada a essa lógica: uma rede de manufatura, padrões técnicos e cadeias de suprimentos que faziam com que boa parte do mundo dependesse de suas tecnologias, produtos e normas.

A força não foi completamente substituída; ela passou a ser complementada por mecanismos muito mais invisíveis.

Às vezes, não é preciso hastear uma bandeira quando os parafusos já foram apertados.

¨      Os Estados americanos que tentam barrar tarifas de Trump contra Brasil e outros países

Uma coalizão de 25 Estados americanos entrou com um processo na Justiça contra o governo do presidente Donald Trump na segunda-feira (03/08) devido a uma onda de tarifas contra dezenas de países que entrou em vigor em julho.

Os EUA afirmam que as tarifas, que variam entre 10% e 12,5%, foram impostas devido ao fato de parceiros comerciais — incluindo Brasil, Reino Unido, China e União Europeia — não terem combatido adequadamente o trabalho forçado.

Em um documento legal consultado pela BBC, uma aliança de Estados governados por políticos do Partido Democrata afirma que a decisão de Trump foi "arbitrária, impulsiva e contrária à lei".

Os Estados que participam dessa coalizão são Nova York, Arizona, Califórnia, Colorado, Connecticut, Delaware, Havaí, Illinois, Massachusetts, Maryland, Maine, Michigan, Minnesota, Nevada, Nova Jersey, Novo México, Carolina do Norte, Oregon, Rhode Island, Virgínia, Vermont, Washington, Wisconsin, Kentucky e Pensilvânia.

Em resposta, o porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, disse: "Os EUA estão usando sua autoridade legal" para lidar com práticas que prejudicam as empresas americanas.

Desai acrescentou que o fato de qualquer país não combater a importação de produtos produzidos com trabalho forçado era "inaceitável" e precisava ser enfrentado.

As novas tarifas, que entraram em vigor em julho, foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA de 1974, uma legislação concebida para atingir países que utilizam trabalho forçado.

As tarifas abrangem 99,4% das importações dos Estados Unidos, segundo o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês).

O processo alega que o governo Trump "não pode usar trabalho forçado como pretexto para dar continuidade ao seu esquema ilegal de tarifas".

"As tarifas impostas pelo USTR são tão abrangentes que desafiam os próprios objetivos declarados do USTR e ridicularizam a legislação usada para justificá-las", afirmou.

"As tarifas ilegais do presidente Trump nada mais são do que um imposto sobre as famílias trabalhadoras", disse a governadora de Nova York, Kathy Hochul.

"Apesar de ter perdido em todas as instâncias, Trump está tentando mais uma vez causar mais caos às famílias trabalhadoras e às empresas locais do Oregon", disse o procurador-geral do Oregon, Dan Rayfield, em um comunicado.

"Todos nós estamos pagando o preço por essas tarifas ilegais, não os governos estrangeiros", acrescentou.

Diversos parceiros comerciais afetados expressaram decepção com as novas tarifas. Os governos do Brasil e do Japão reagiram classificando as medidas como "injustificadas".

Em nota, o governo brasileiro classificou a ação como "arbitrária" e "injustificada" e afirmou que o governo americano "optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais."

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, descreveu as tarifas como uma "desculpa para manipulação política". Washington e Pequim estão envolvidos em uma guerra de tarifas retaliatórias — que está atualmente suspensa.

Alguns analistas também questionaram como os países seriam capazes de demonstrar que abordaram adequadamente as alegações de trabalho forçado.

O processo movido pelos Estados americanos representará um "grande desafio" às tarifas de Trump, afirmou o professor de administração Alex Capri, acrescentando que espera "exceções e recuos que gradualmente reduzirão o impacto dessas tarifas".

Segundo Capri, da Universidade Nacional de Singapura, faltam evidências confiáveis que sustentem as alegações de que os países acusados prejudicaram empresas americanas por meio de violações relacionadas ao trabalho forçado.

Essa medida representa o passo mais recente em uma série de políticas comerciais anunciadas por Trump desde que ele retornou ao cargo em janeiro de 2025.

Muitas das abrangentes tarifas que Trump impôs aos parceiros comerciais globais em suas chamadas tarifas do "Dia da Libertação", em abril do ano passado, foram derrubadas pela Suprema Corte dos EUA.

"A Suprema Corte deixou claro que este governo não pode ignorar a lei para impor tarifas abrangentes", disse Hochul.

A decisão do tribunal resultou em reembolsos de dezenas de bilhões de dólares para empresas que haviam pago os impostos.

O presidente argumenta há muito tempo que as tarifas protegem os trabalhadores americanos e impulsionam a economia dos EUA.

As tarifas que foram anuladas foram substituídas por uma taxa temporária de 10% sobre todas as importações globais. Essas tarifas expiraram em julho.

Mais tarifas podem ser implementadas no futuro, já que os EUA estão atualmente investigando 16 países por alegações de excesso de capacidade produtiva.

 

Fonte: BBC News

 

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