O
planeta em febre: emergência climática, El Niño e a urgência de um novo Estado
para o século XXI
A onda
de calor que atingiu a Europa em julho de 2026 revela uma transformação
histórica em curso com a crise climática deixando de ser uma previsão sobre o
futuro, pois já vem produzindo efeitos concretos sobre a vida humana.
Estimativas recentes apontam para mais de 10 mil mortes em excesso associadas
ao episódio de calor extremo na Europa, com levantamentos que indicam números
próximos de 14 mil óbitos adicionais. O calor extremo tornou-se um novo fator
de mortalidade, evidenciando a convergência entre aquecimento global,
envelhecimento populacional e fragilidades sociais.
Essa
realidade ocorre em um mundo marcado por uma profunda inflexão demográfica. A
redução do número de nascimentos e o aumento da longevidade ao nascer estão
produzindo sociedades mais envelhecidas, com redução populacional em diversos
países.
Europa,
Japão e partes da Ásia e da América convivem com uma nova estrutura demográfica
na qual cresce a proporção de idosos e aumenta a exposição aos riscos
climáticos. A combinação é preocupante, uma vez que a população mais
envelhecida encontra um planeta mais quente e sujeito a eventos extremos.
O
fenômeno El Niño, por exemplo, amplia essa complexidade ao demonstrar que os
riscos climáticos não respeitam fronteiras nacionais. Suas alterações na
circulação atmosférica afetam diversas regiões do planeta, especialmente a
América do Sul, a Ásia e a Oceania, modificando padrões de chuva, elevando
temperaturas e favorecendo eventos extremos como secas prolongadas, enchentes e
ondas de calor. Seus impactos atingem agricultura, disponibilidade de água,
geração de energia, saúde pública e segurança alimentar em diferentes
continentes.
Apesar
dessa dimensão global, a resposta internacional permanece fragmentada. A
ausência de maior coordenação entre países revela uma contradição do século
XXI. Os fenômenos climáticos são planetários, mas as respostas continuam
predominantemente nacionais.
Enquanto
o clima opera em escala global, os governos ainda atuam muitas vezes de forma
isolada, com pouca integração de dados, planejamento conjunto e mecanismos
compartilhados de prevenção. A crise climática exige uma nova governança
internacional baseada em cooperação científica, sistemas de alerta antecipado e
políticas coordenadas de adaptação.
Esse
novo cenário exige também um novo Estado para o século XXI. A era digital
oferece instrumentos inéditos para transformar a capacidade de governar:
integração de grandes bases de dados, inteligência artificial, monitoramento
territorial em tempo real e modelos preditivos permitem identificar riscos
antes que eles produzam tragédias. Um Estado preparado não espera a seca
destruir a produção agrícola, a enchente devastar cidades ou a onda de calor
provocar milhares de mortes, pois permite atuar previamente para reduzir danos.
O
desafio contemporâneo é construir governos capazes de antecipar acontecimentos.
A estatística do futuro não poderá ser apenas descritiva, sendo cada vez mais
preditiva, integrando clima, demografia, território, saúde e economia para
orientar decisões públicas. O planeta está aquecendo, as sociedades estão
envelhecendo e os eventos extremos estão se tornando mais frequentes. A
resposta para essa nova era dependerá da capacidade de construir Estados
inteligentes, cooperativos e orientados por conhecimento, capazes de proteger
vidas antes que a emergência aconteça.
Fonte:
Por Marcio Pochmann, em Brasil 247

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