Massacre
de Eldorado do Carajás: as perguntas que ficaram na Curva do S
Pouco
mais de duas semanas após o massacre de Eldorado do Carajás (PA), em 17 de
abril de 1996, um gerente de fazenda desembarcou em Brasília sob proteção da
Polícia Federal. Dizia carregar uma informação que, se confirmada, mudaria o
rumo da investigação.
O
gerente era Ricardo Marcondes de Oliveira, então com 30 anos. Em depoimentos à
PF, ao Ministério Público e à Justiça, afirmou que fazendeiros da região teriam
se organizado para arrecadar dinheiro destinado a financiar a operação policial
que há três décadas terminou com 19 trabalhadores sem terra mortos na Curva do
S, na rodovia PA-150, no sudeste do Pará. Outros dois morreram depois, em
decorrência dos ferimentos. O plano,
segundo o relato, teria surgido poucos dias antes do massacre. O valor giraria
em torno de R$ 85 mil, cerca de R$ 500 mil em valores atualizados. O dinheiro
seria repassado ao comando do 4º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela
ação. Nos depoimentos, afirmou que “dez integrantes do MST deveriam morrer”. O
depoimento chegou a ser anexado aos autos do processo judicial, mas foi
posteriormente descartado
A
denúncia sobre a “vaquinha” organizada por fazendeiros do Sudeste do Pará para
custear a operação que resultou no Massacre de Eldorado do Carajás é uma das
inúmeras pontas soltas sobre o episódio que, 30 anos depois, ainda geram mais
perguntas do que respostas. A Repórter Brasil ouviu personagens diretamente
ligados à chacina e analisou milhares de folhas dos autos judiciais sobre o
caso.
Além do
possível rateio feito por produtores rurais, continuam na sombra o telefonema
de um suposto funcionário da então estatal Vale para a empresa de ônibus
Transbrasiliana, usada no transporte de parte da tropa policial, além de
relatos sobre articulações e pressões de fazendeiros antes da operação.
Na
dissertação que defendeu em 2016 na Unifesspa (Universidade Federal do Sul e
Sudeste do Pará), o advogado José Batista, da CPT (Comissão Pastoral da Terra),
situa o massacre dentro de uma mudança nos conflitos por terra no Pará. As ocupações deixaram de envolver apenas
pequenos posseiros e sindicatos de trabalhadores rurais e passaram a mobilizar
grandes acampamentos organizados em áreas pressionadas pela expansão da
mineração e pela valorização das terras ao redor de Carajás, principal
província mineral do planeta. Em uma
região ainda marcada pela Guerrilha do Araguaia e pela repressão militar no
campo, ocupações de terra passaram a ser tratadas por autoridades como ameaça
política. O historiador Airton dos Reis Pereira, professor da Universidade do
Estado do Pará e autor de Do posseiro ao sem-terra (Editora UFPE, 2015),
escreveu que, naquele contexto, “defender as grandes propriedades era proteger
o interesse nacional”.
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Fazendeiros do Sudeste do Pará montaram um consórcio para bancar a operação?
Semanas
antes do massacre, Ricardo Marcondes Oliveira havia assumido a administração da
Fazenda São Carlos, em Xinguara (PA), área marcada por conflitos por terra e
atuação de pistoleiros. Foi nesse ambiente que o gerente disse ter ouvido falar
pela primeira vez na “vaquinha” para a operação policial que terminou no
massacre. Ainda segundo o relato, ele teria sido procurado, dias antes do
massacre, pelo proprietário da Fazenda Macaxeira, o principal alvo das
reivindicações dos sem terra naquele abril de 1996. As famílias acampadas reivindicavam a
desapropriação da área havia meses e marchavam em direção a Belém para
pressionar o governo estadual e o Incra (Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária), órgão federal responsável pelo assentamento de famílias
sem-terra.
De
acordo com o depoimento, fazendeiros da região estariam arrecadando dinheiro
para financiar uma operação policial que desmontaria o bloqueio do MST na
PA-150. O gerente afirmou que se recusou a participar. A denúncia teve repercussão imediata. Em 4 de
maio de 1996, a Folha de São Paulo noticiou que a Polícia Federal já reunia os
nomes de cerca de 20 fazendeiros suspeitos de participar da arrecadação. O então ministro da Justiça, Nelson Jobim,
avaliou que o depoimento ampliava o leque dos investigados. E o relato levou o
ministro extraordinário de Política Fundiária, Raul Jungmann, a suspender a
compra da Fazenda Macaxeira pelo Incra, então em negociação com o proprietário.
O coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Pereira Oliveira foram condenados
por homicídio pela condução da operação policial. Os dois comandavam as tropas
que avançaram sobre os trabalhadores na rodovia PA-150. Nenhum dos outros 153
policiais que participaram da ação foi sentenciado. A denúncia sobre quem mais
poderia ter estado envolvido nunca foi comprovada nos autos.
Após
recusar a proposta da “vaquinha”, o gerente Oliveira relatou ameaças feitas por
um homem armado. Dias depois, já em Marabá, disse ter visto o mesmo homem ao
lado de outro indivíduo, tido como um pistoleiro ligado a fazendeiros da região
que, no dia do massacre, estaria vestido com farda da Polícia Militar. A versão entrou nos autos do processo
judicial. O gerente foi ouvido em Brasília, Belém e no sudeste do Pará. Em
acareação formal, o proprietário da Fazenda Macaxeira, que teria sugerido a
ação conjunta para desobstruir a rodovia, negou integralmente as acusações e
afirmou nunca ter proposto arrecadação de dinheiro. Oliveira manteve sua
versão. Para a Folha de São Paulo, em
novembro de 1996, o dono da fazenda afirmou que foi vítima de um “massacre
moral”. Procurado pela Repórter Brasil, não retornou os pedidos de
posicionamento.
A
investigação, porém, logo se voltou contra o próprio denunciante. A Polícia
Civil apontou contradições nos relatos de Oliveira. Inclusive sobre o tempo em
que de fato trabalhara na região. Também reuniu informações sobre sua
trajetória: respondia, em Goiás, a processos por estelionato e por sequestro e
cárcere privado. Um gerente do Banco
Itaú em Marabá afirmou que Oliveira teria emitido cheques sem fundo e aplicado
golpes em Redenção. Antes que a apuração avançasse, ele fugiu do programa de
proteção da Polícia Federal, em junho de 1996, quando o Ministério da Justiça
já admitia a possibilidade de prisão. A denúncia foi noticiada na época,
incluindo uma investigação do Correio Braziliense, o primeiro veículo a
entrevistar o denunciante, e continuou sendo mencionada em trabalhos
posteriores, entre eles a dissertação do advogado da CPT José Batista e o
livro-reportagem O Massacre — Eldorado do Carajás: Uma história de impunidade
(Editora Record, 2019), de Eric Nepomuceno. Sem provas materiais que confirmassem
a denúncia, a Polícia Civil indiciou Oliveira por falso testemunho. O
Ministério Público pediu novas diligências. Trinta anos depois, a apuração
sobre a chamada “vaquinha” segue sem desfecho conclusivo. Nem a acusação foi
provada, nem os cerca de 20 nomes dos fazendeiros reunidos pela Polícia Federal
levaram a um único indiciamento. Procurado repetidas vezes por meio de contatos
de uma empresa vinculada a ele, Oliveira não respondeu aos pedidos de
entrevista até a publicação desta reportagem.
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Quem bancou a logística da operação?
Na
manhã de 17 de abril de 1996, parte da tropa da Polícia Militar que seguiria de
Marabá até a Curva do S embarcou em ônibus da Transbrasiliana, empresa que
operava o transporte rodoviário na região.
O uso de ônibus civis para deslocamento de policiais não era incomum na
época. O que chamou atenção dos investigadores, ainda nos dias seguintes ao
massacre, foi um episódio ocorrido na véspera da operação. Em oitiva prestada
em 23 de abril de 1996, o gerente da Transbrasiliana, Gumercindo José Marra de
Castro, afirmou que teria recebido, no dia anterior ao massacre, um telefonema
de um homem que se identificou como funcionário da então estatal Companhia Vale
do Rio Doce. Segundo o funcionário da transportadora, o interlocutor, citado
apenas como “James”, teria solicitado dois ônibus para o 4º Batalhão da Polícia
Militar, em Marabá. De acordo com o depoimento, os veículos chegaram a ser
mobilizados, mas retornaram à garagem da empresa, sem uso. No dia seguinte, já
com a operação em curso, a Polícia Militar requisitou formalmente dois ônibus
da mesma empresa. Esses veículos foram utilizados para transportar a tropa até
a Curva do S. O pagamento, segundo documentos do processo, foi feito pela
corporação.James, o suposto funcionário da Companhia Vale do Rio Doce, nunca
foi identificado. Nos autos, não há registro de diligências capazes de
esclarecer quem telefonou para a empresa de ônibus.
Procurado
pela Repórter Brasil em Marabá, o gerente da Transbrasiliana afirmou que já
havia dito, à época, tudo o que sabia sobre o episódio em seu depoimento
oficial. Em mensagem enviada à reportagem, disse não se recordar de outros
detalhes por problemas de saúde. A dúvida sobre a origem do transporte aparece
também nos depoimentos do tenente-coronel Manoel Mendes de Melo, então
subcomandante do 4º Batalhão da PM em Marabá.
Em interrogatório realizado pela Polícia Civil poucos dias após o
massacre, ele afirmou que os ônibus utilizados na operação haviam sido “cedidos
pela Companhia Vale do Rio Doce”. Dias depois, ao depor novamente no Inquérito
Policial Militar, voltou a mencionar o uso dos veículos, sem especificar quem
teria custeado o transporte. No mesmo
processo, mais de um ano depois, já na fase judicial, Melo apresentou outra
versão. Disse não saber quem havia disponibilizado os ônibus e afirmou que,
segundo informação posterior do coronel Mário Colares Pantoja, o pagamento
teria sido feito pela própria Polícia Militar. Ao justificar a mudança,
declarou que associou inicialmente o transporte à Vale porque, segundo ele, era
comum que a empresa disponibilizasse veículos para deslocamento de tropas na
região.
Questionado
em juízo, Castro também mencionou essa prática. Afirmou que a estatal costumava
requisitar veículos da Transbrasiliana para uso de policiais e citou como
exemplo a operação conhecida como Serra Leste, na qual mais de 60 ônibus teriam
sido colocados à disposição da Polícia Militar.
O telefonema de James, as versões contraditórias do subcomandante da PM
e a prática descrita pelo gerente da Transbrasiliana continuam sem explicação
definitiva nos autos. A Vale afirmou à
reportagem que “não teve qualquer relação com o chamado ‘Massacre de Eldorado
do Carajás’”. A empresa foi citada no inquérito, mas não chegou a ser
indiciada. Procurada novamente com perguntas específicas sobre o telefonema de
James, a origem dos ônibus, os convênios com a Polícia Militar e os conflitos
anteriores com o MST, optou por não responder.
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Serra Pelada depois do ouro
A Serra
Leste fica ao lado de Serra Pelada, a mítica jazida de ouro explorada por
garimpeiros durante a ditadura militar, a cerca de 50 quilômetros da Curva do
S. Em 1996, a região vivia um novo ciclo de conflitos, anos depois do
fechamento oficial do garimpo, em 1992. Garimpeiros seguiam reivindicando
direito sobre áreas exploradas, enquanto a Companhia Vale do Rio Doce avançava
com projetos de exploração mineral na região vizinha. Dias antes do aniversário
de 30 anos do massacre, a reportagem esteve em Serra Pelada. Na entrada da
vila, uma antiga casa exibe a inscrição Boate Azul na fachada desbotada. Ao
lado da cooperativa dos garimpeiros, homens idosos passam a tarde de domingo
relembrando histórias do auge da corrida do ouro. A antiga cava da mina virou um lago onde
pessoas fazem churrasco e alugam jet skis. Um estudo da Universidade Federal
Rural da Amazônia identificou contaminação por chumbo acima dos limites
recomendados em amostras de água e solo coletadas na região.
Em
1983, o repórter Ricardo Kotscho encontrou em Serra Pelada uma cratera aberta
por milhares de homens trabalhando manualmente dentro da lama. Da borda do
garimpo, via filas de carregadores subindo encostas escorregadias com sacos de
cascalho nas costas. Os diaristas, conhecidos como “formigas”, carregavam cerca
de 30 quilos por vez entre o fundo da cava e os depósitos de rejeito, subindo
por uma escada imensa apelidada de “Adeus, mamãe”. A reportagem publicada na Folha de São Paulo
depois se tornou o livro Serra Pelada – Uma ferida aberta na selva (Editora
Brasiliense, 1984). Havia donos de barranco, intermediários, comerciantes,
policiais, agentes federais e milhares de homens submetidos a trabalho braçal
extremo. O garimpeiro não negociava diretamente o ouro que encontrava e
dependia financeiramente dos donos das catas, num sistema que Kotscho comparou
aos antigos seringais amazônicos. No
texto, Kotscho também registrou a disputa política em torno da cava. De um
lado, estava a Docegeo, subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce, que detinha
direitos sobre a jazida. De outro, o governo federal, que via o garimpo como
forma de absorver parte da tensão social no sul do Pará, em uma área marcada
por conflitos fundiários, migração desordenada e presença militar após a
Guerrilha do Araguaia. Quando o Estado
interveio diretamente no garimpo, a Polícia Federal cercou a área, órgãos
federais passaram a operar dentro da cava e o major Sebastião Curió assumiu o
controle político do lugar. “Nada se resolvia sem sua palavra”, escreveu
Kotscho.
Antes
de assumir o controle de Serra Pelada, Curió atuou na repressão à Guerrilha do
Araguaia como agente do Centro de Informações do Exército. A operação militar
terminou com desaparecimentos, execuções e ocultação de corpos de guerrilheiros
e camponeses no sul do Pará. Treze anos depois, quando trabalhadores sem terra
bloquearam a PA-150 na Curva do S, Serra Pelada já não produzia a promessa de
enriquecimento rápido, mas continuava concentrando homens sem trabalho fixo. Ao
lado do antigo garimpo, a Vale avançava sobre projetos de exploração em Serra
Leste. Luiz Lima de Oliveira,
ex-garimpeiro de Serra Pelada e atual dirigente do MST na região, lembra que o
fechamento do garimpo empurrou parte dos trabalhadores para a luta por terra.
“Quando o garimpo acabou, ficou uma multidão de gente sem rumo. Nós tínhamos
passado a vida ali dentro, sem estudo, sem outra profissão”, afirma. Ele entrou
no MST em 1995, quando muitos trabalhadores passaram a disputar terras nas mesmas
áreas pressionadas pela expansão mineral. “A terra virou o grande ativo
econômico da região”, afirma o dirigente estadual do MST, Pablo Neri. Filho de
militantes do movimento que participaram da marcha de 1996, Pablo Neri cresceu
em Palmares 2, assentamento na região de Carajás. “Quem luta por terra aqui
acaba entrando em conflito com a mineração”, disse.
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Quando estatal, Vale mantinha convênio com Polícia Militar, diz entidade de
defesa dos direitos humanos
Na
leitura de Batista, da CPT, a disputa por terra na região de Carajás não se
explicava apenas pela concentração fundiária. A implantação dos projetos
minerais da Vale elevou o valor das terras no entorno das minas e atraiu
fazendeiros e investidores interessados na especulação. Em fevereiro de 1996, garimpeiros impediram a
entrada de funcionários da empresa em uma área onde a mineradora afirmava ter
identificado uma nova jazida de ouro. Eles alegavam direito histórico sobre o
território. A companhia sustentava que a área ficava fora dos limites do antigo
garimpo. Uma semana depois do massacre,
cerca de mil garimpeiros ocuparam a área de pesquisa mineral da empresa,
paralisaram sondas e bloquearam a operação. O conflito se intensificou nos
meses seguintes. Em outubro, uma ação conjunta da Polícia Federal e do Exército
desmobilizou os bloqueios e abriu caminho para a retomada das atividades da
empresa. “A polícia sempre agia como se fossem funcionários da empresa, para
defender os interesses da mineradora de forma intransigente”, afirma Batista,
em entrevista à Repórter Brasil. Segundo ele, as ações do MST passaram a ser
tratadas prioritariamente como caso de polícia, e não como expressão de um
conflito agrário.
Documentos
do próprio inquérito descrevem episódios similares. Em junho de 1994, cerca de
2 mil famílias do MST ocuparam parte da área de concessão da Vale na Serra dos
Carajás, em Parauapebas, para pressionar pela destinação de terras para
assentamentos. Três dias depois, mais de 50 policiais, com apoio da segurança
patrimonial da empresa, realizaram a desocupação. Cerca de 1,2 mil famílias
seguiram para Marabá e acamparam diante do Incra. Meses depois, novas
mobilizações voltaram a ser reprimidas. Em novembro de 1994, cerca de mil
famílias se mobilizaram nas proximidades do complexo de Carajás, e
aproximadamente 600 passaram a noite no local. Segundo documentos do inquérito,
nas primeiras horas do dia seguinte, policiais cercaram a área e impediram a
entrada e a saída de pessoas, inclusive de água e alimentos. O documento
registra agressões contra trabalhadores rurais, além de parlamentares e
jornalistas presentes, e episódios de detenção e violência sob custódia. Em
representação à Justiça pela SDDH (Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos
Humanos), a atuação conjunta entre aparato policial e interesses econômicos é
descrita como parte da repressão às ocupações de terra no sul e sudeste do
Pará. O documento afirma que a Companhia
Vale do Rio Doce mantinha convênio com a Polícia Militar do Pará e chegou a
financiar parte dos custos do destacamento policial sediado em Parauapebas.
Segundo a SDDH, entre 1995 e 1996, a empresa destinou cerca de US$ 641 mil (o
equivalente hoje a cerca de US$ 1,35 milhão, corrigidos pela inflação
norte-americana) à então 1ª Companhia Independente de Policiamento de Meio
Ambiente, unidade que atuava na região de Carajás. Os documentos, contudo, não apontam
participação direta da Vale na operação policial de 17 de abril de 1996. O que
mostram é que a empresa apareceu repetidamente nos autos quando a investigação
tratou da logística da PM e dos conflitos fundiários na região.
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Pecuaristas cobraram ação enérgica do governo do Pará contra o MST
Nos
dias que antecederam o massacre, a rodovia PA-150 estava bloqueada por
trabalhadores do MST havia quase duas semanas. O ponto de interdição ficava na
Curva do S, entre Marabá e Eldorado do Carajás, em um trecho estratégico para o
escoamento de produção e o deslocamento de pessoas no sudeste do Pará.
Produtores rurais, comerciantes e empresários pressionavam o governo do estado
por uma solução rápida. Em pesquisa baseada em documentos do período, o
advogado da CPT José Batista descreve reuniões entre fazendeiros nos dias
anteriores à operação e discussões sobre estratégias para enfrentar o
movimento.
Em 14
de março de 1996, em Marabá, cerca de cinquenta fazendeiros reunidos num
encontro da FAEPA (Federação da Agricultura do Estado do Pará) assinaram um
documento que ficou conhecido como Carta de Marabá. O texto fazia críticas severas ao tratamento
dado pelo governo estadual aos trabalhadores acampados e cobrava uma
intervenção para retirar o MST das terras ocupadas. No mesmo dia, o presidente
da FAEPA, Carlos Xavier, anunciou em entrevista que dezenas de representantes
dos fazendeiros se deslocariam a Belém para cobrar uma atitude enérgica das
autoridades. A reunião com o então governador Almir Gabriel (PSDB) aconteceu
entre 28 e 29 de março. Segundo Batista, os pecuaristas ameaçaram pegar em
armas caso o Estado não contivesse as ações do MST. Após o massacre, a imprensa
divulgou o conteúdo de uma fita gravada nos bastidores desse encontro.
Nas
imagens, Carlos Xavier entrega ao secretário de Segurança Pública do estado um
documento com uma lista de lideranças do MST. Na mesma fita, o presidente do
Sindicato Rural de Marabá, Geraldo Capota, aparece afirmando que os fazendeiros
mantinham pessoas infiltradas no acampamento. Segundo Batista, após a visita
dos fazendeiros a Belém, o governo do estado cortou os canais de negociação com
o MST e passou a tratar a PM como único interlocutor com o movimento. Dentro da
PM, um ambiente de repressão planejada também tomava forma. Em março de 1996, o
serviço reservado da corporação produziu um relatório interno descrevendo a
situação na região como de “iminência de guerra civil” e concluindo que o
enfrentamento com o MST deveria seguir “táticas militares”. O documento avaliava que “procedimentos
policiais de rotina não mais seriam suficientes em eventuais enfrentamentos”
com os trabalhadores. O conteúdo do relatório foi revelado pelo jornal Zero
Hora em 25 de abril de 1996, dias após o massacre.
Outro
relatório do mesmo serviço reservado, revelado pelo Jornal do Brasil em 20 de
abril de 1996, apontava três trabalhadores sem terra como responsáveis pela
morte de um capitão da PM ocorrida meses antes, em novembro de 1995. Os nomes
dos três (Oziel Alves Pereira, Raimundo Lopes Pereira e Manuel Gomes de Souza)
aparecem entre os 19 mortos na Curva do S. Dias depois do massacre, outro
episódio veio a público. Após pressão da imprensa, o coronel João Paulo Vieira
admitiu que duas pessoas levadas da Curva do S para o quartel em Marabá eram
policiais militares infiltrados no grupo dos sem-terra pelo serviço de
inteligência da PM.
Enquanto
isso, as negociações para uma solução sem confronto seguiam sem resultado. No
dia 16 de abril, véspera do massacre, representantes do MST mantiveram
conversas com autoridades locais para discutir a possibilidade de deslocamento
dos trabalhadores até Marabá. A proposta, segundo relatos de sobreviventes,
incluía o fornecimento de ônibus e alimentação para permitir a viagem e a
abertura de uma mesa de negociação com o governo do estado. Segundo Batista,
quando o bloqueio da PA-150 foi mantido, a interlocução com o movimento foi
interrompida. A ordem passou a ser a desobstrução da rodovia “a qualquer
custo”, expressão atribuída ao depoimento do coronel Pantoja na ação
penal. Os autos registram que, antes
mesmo de partir para a Curva do S, Pantoja decidiu que não seria empregado
nenhum meio pacífico de dissuasão. Sua instrução ao Major Oliveira foi que, ao
ouvir os primeiros tiros “do lado de Marabá”, ele saberia que a operação havia
começado e poderia avançar com sua tropa. Os tiros eram o sinal combinado.
Na
tropa que partiu de Parauapebas, segundo depoimento nos autos, o arsenal foi
distribuído aos policiais sem o registro de cautela, o documento que permite
correlacionar cada projétil à arma e ao agente que a portava. Segundo um dos
depoentes policiais, a justificativa foi “a situação de emergência”. Por essa
razão, a investigação sobre o massacre ficou impossibilitada de identificar
individualmente quem atirou em quem. A
Polícia Militar do Pará foi procurada para comentar a logística da operação, as
versões sobre os ônibus, a presença de policiais infiltrados e o planejamento
da ação. A corporação não respondeu até o fechamento desta reportagem.
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O que uma Comissão da Verdade poderia esclarecer
Trinta
anos depois, parte dos documentos segue produzindo perguntas. Para o advogado
Diego Diehl, professor da Universidade de Brasília e pesquisador sobre memória
dos massacres no campo, o massacre não pode ser analisado apenas como resultado
de uma decisão operacional da Polícia Militar. “Havia um ambiente de pressão
muito forte na região”, diz. Segundo ele, o bloqueio da rodovia atingia
interesses econômicos relevantes, e a resposta do Estado ocorreu nesse
contexto. Para Diehl, o caso foi capaz de estabelecer responsabilidades
individuais, mas não avançou na reconstrução completa do episódio. “O caso do Massacre de Eldorado do Carajás
precisa de uma comissão da verdade”, afirma. A proposta, segundo ele, seria
revisar documentos já produzidos, ouvir novamente testemunhas e reunir
informações que ficaram dispersas ao longo das investigações.
As
disputas sobre o que aconteceu na Curva do S continuaram anos depois dentro do
próprio processo. Em 2001, às vésperas do julgamento dos comandantes da
operação policial, a juíza Eva do Amaral Coelho rejeitou a inclusão de uma
perícia produzida na Unicamp pelo especialista Ricardo Molina. O laudo analisava imagens gravadas no dia do
massacre e apontava que os primeiros disparos haviam partido da Polícia
Militar. Para o promotor Marco Aurélio do Nascimento, responsável pela
acusação, aquela era “a prova que faltava para acabar com todas as dúvidas”,
conforme declarou à Folha de São Paulo. Na decisão, a juíza classificou o
parecer como “imprestável e espúrio” e afirmou que o documento havia sido
produzido sem conhecimento da defesa e anexado fora do prazo processual. O
documento ficou fora daquele julgamento, em meio à disputa entre acusação e
defesa sobre a reconstrução da dinâmica do massacre.
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‘O massacre não terminou’, diz dirigente do MST
A Curva
do S continua sendo um lugar de passagem. O trecho da PA-150 fica a cerca de
100 quilômetros de Marabá, já próximo de Eldorado do Carajás. Caminhões cruzam
a estrada esburacada o tempo todo. Ao lado da rodovia, um grande posto de
combustível funciona dia e noite. No meio da tarde, o restaurante fica quente,
tomado por moscas e música alta. Poucos dias antes da data de 30 anos do
massacre, jovens do MST montavam um acampamento ao lado da estrada. Alguns
pintavam um muro para marcar a data. Outros organizavam atividades culturais
enquanto aguardavam uma marcha que seguia de Curionópolis até a Curva do S. Uma
pequena construção pintada de vermelho abriga o memorial. Nas paredes,
fotografias de Sebastião Salgado dividem espaço com bandeiras e homenagens aos
trabalhadores mortos. Na manhã de 17 de abril de 1996, a polícia chegou pelos
dois lados da estrada. Primeiro, bombas de gás e balas de borracha. Depois,
disparos com munição real. “Aí apareceu sangue”, diz Haroldo de Jesus Oliveira,
que tinha 17 anos e estava na Curva do S. Muitos trabalhadores tentaram se
proteger na mata quando começaram os tiros.
Raimundo
dos Santos Gouveia também correu. Ao lembrar da fuga, descreve a tentativa de
proteger a família. “Agarrei um dos meus filhos, minha mulher, o outro, e nós
caímos pro mato”, diz. De dentro da vegetação, ouviu os gritos. “O povo gritava
‘não me mata, não me mata’, e eles atirando.” José Carlos Moreira tinha 18 anos
quando foi atingido no olho direito na Curva do S. “O policial apontou na minha
cara. Na testa. Pra matar”, lembra. A bala entrou pelo olho e ele caiu. Nunca
foi retirada. Hoje, aos 48 anos, passa a maior parte do tempo sentado do lado
de fora de casa, com os pés para cima, esperando o cair da noite para deitar. A
dor atravessa a cabeça e, de vez em quando, escorre em pus pela nuca e pelo
ouvido. Três vezes por semana, sai para fazer hemodiálise. Não consegue
trabalhar. A renda da indenização é consumida por empréstimos para despesas
médicas. Mesmo assim, não guarda mágoa de quem atirou: “Se eu encontrasse o
policial, eu chamava ele pra comer uma galinha caipira mais eu. Porque pelo menos
ele me deixou vivo”. A história de Zé Carlos foi contada pela Repórter Brasil
em reportagem publicada no dia do aniversário do massacre.
No
assentamento 17 de Abril, criado na antiga área da Fazenda Macaxeira, a memória
do massacre aparece na paisagem — nas pinturas nas paredes e no nome das ruas,
que homenageiam as vítimas. A entrada fica na estrada entre Eldorado do Carajás
e Curionópolis. Saindo do asfalto, uma estrutura de leilão de gado domina a
beira da estrada. Mais adiante, há um clube de tiro. Depois da entrada, a
antiga área da Fazenda Macaxeira se transforma aos poucos em lotes rurais. A
estrada atravessa pequenas propriedades até chegar à vila central do
assentamento, onde vivem famílias assentadas após anos de acampamento e disputa
judicial. Casas de alvenaria substituíram os barracos de lona. Há praça, quadra esportiva, árvores já
crescidas. O maior orgulho da comunidade é a Escola Oziel Alves Pereira — que
leva o nome de uma das principais lideranças jovens do MST mortas no massacre.
Segundo testemunhas e investigações da época, Oziel foi morto após já estar
rendido e sob controle policial.
Parte
dos sobreviventes da Curva do S vive hoje ali. Gouveia mora no assentamento
desde sua criação. Em 1996, integrava a coordenação do movimento e participou
das negociações com a Polícia Militar na véspera da operação. Lembra daquela
conversa como um momento em que ainda havia expectativa de evitar o
confronto. “A gente achou que ia ter um
encaminhamento”, diz. A proposta era que os trabalhadores deixassem a rodovia e
seguissem até Marabá para negociar com o governo do estado. Haveria transporte
e alimentação. No dia seguinte, nada disso aconteceu. “A gente estava esperando
os ônibus”, recorda. Pablo Neri cresceu ouvindo essa história. O pai dele
participou da marcha interrompida na Curva do S e passou a receber ameaças
depois da chacina. “A gente cresceu entendendo que essa violência nunca tinha
acabado”, disse. Hoje, aos 31 anos, integra a coordenação estadual do MST e se
apresenta como pré-candidato a deputado estadual pelo PT. “O massacre não
terminou. Ele começou no dia 17 de abril e vem matando gente até hoje”, disse
Márcio Lima, um dos coordenadores do bloqueio na Curva do S. Segundo ele,
dezenas de sobreviventes seguem sem acompanhamento médico adequado. No
assentamento, a história segue sendo contada por quem estava lá. Nos autos,
parte das perguntas continuam sem resposta.
Fonte:
Repórter Brasil

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