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que eleição de Pernambuco virou 'guerra digital' – e o que isso tem a ver com
'virada' da governadora
Em uma
entrega de equipamentos a policiais de Pernambuco, a governadora Raquel Lyra
(PSD) desceu de seu gabinete no Palácio do Campo das Princesas e resolveu
correr.
Sem
tirar o sapato de salto alto, deu a volta na Praça da República, no centro do
Recife, enquanto anunciava para a câmera novos drones, fuzis e viaturas,
deixando claro que seu "cardio estava em dia".
O
vídeo, do fim do ano passado, acumula mais de 3 milhões de visualizações e 120
mil curtidas no Instagram.
Correr
se tornou uma das marcas das redes sociais da governadora, que tenta a
reeleição e viu sua popularidade disparar — na internet e nas pesquisas
eleitorais — nos últimos meses.
Nos
seis primeiros meses do ano, Lyra ganhou proporcionalmente mais seguidores
(+18%) no Instagram do que qualquer outro candidato ao governo dos Estados do
Nordeste, segundo relatório da AtivaWeb Datalab, empresa de análise de dados
focada no monitoramento do comportamento político.
Em 30
dias, entre março e abril, ela chegou a ganhar 76 mil seguidores — são 1,9
milhão hoje ao todo.
São
números importantes para as ambições de Lyra em Pernambuco, onde as redes
sociais têm se mostrado especialmente um campo de batalha acirrado.
Segundo
o mesmo relatório, o Estado concentra 31% do número de seguidores em redes
sociais ligadas aos candidatos nas eleições estaduais no Nordeste.
"É
o centro da influência política digital nordestina", analisa Alek
Maracajá, diretor da empresa, que tem sede na Paraíba.
Contra
Lyra, está João Campos (PSB), popular ex-prefeito do Recife reeleito em 2022
com quase 80% dos votos que conquistou seguidores pelo país pelo jeito jovem de
engajar nas redes, das dancinhas ao cabelo platinado.
Campos
segue como um dos políticos mais populares nas redes no país, sendo o candidato
a governo estadual no Nordeste mais seguido no Instagram: são 3 milhões de
pessoas.
Mas,
enquanto Lyra vem numa crescente, Campos tem enfrentado desafios em um ambiente
que ele sempre dominou. Segundo a Ativaweb, o ex-prefeito chegou a ter quedas
em suas taxas de engajamento em 2026 — ou seja, a porcentagem de seus
seguidores que comentam, curtem ou compartilham seus posts.
Segundo
Maracajá, o comparativo técnico indica que Campos domina pelo tamanho e alcance
nacional de sua rede, mas Lyra chegou a ter engajamento superior à do
ex-prefeito. "João tem o tamanho. Raquel tem o momento", cravou no
relatório.
A
temperatura digital nas eleições pernambucanas é tão alta que virou rotina a
troca de acusações entre os candidatos.
Raquel
Lyra tem sido acusada por adversários políticos locais de instrumentalizar uma
"milícia digital" contra adversários nas redes sociais.
João
Campos disse a jornalistas em junho que "tem sido atacado manhã, tarde e
noite por uma verdadeira milícia digital, instrumentalizada de forma
inorgânica, com presença de robôs, informações falsas e automatizadas".
"Essa
presença que já foi identificada, denunciada e hoje é apurada pela PF em
Pernambuco", disse Campos.
A
Polícia Federal (PF) não confirmou a abertura da investigação e disse que não
comenta apurações em andamento.
A
acusação se soma ao caso de um assessor de Lyra flagrado numa lan house num
shopping do Recife fazendo uma denúncia anônima contra uma deputada da
oposição.
O
presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), Álvaro Porto
(PSDB), disse na época que o caso mostrava uma "milícia digital" da
governadora. O inquérito iniciado na Polícia Legislativa foi posteriormente
anulado pela Justiça porque o juiz considerou que não cabia ao órgão investigar
os fatos.
Em
outro caso, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF),
determinou que a PF investigasse um suposto monitoramento ilegal realizado pela
Polícia Civil de Pernambuco contra aliados de Campos.
Procurada,
a campanha de Lyra não comentou as acusações específicas.
A
governadora, por sua vez, também anunciou que recorreria à Justiça contra a
guerra digital no Estado. À CNN Brasil, ela disse que "com crescimento nas
pesquisas, tem recebido ataques de fake news".
"Tenho
sofrido ataques de quem não acreditava que uma mulher do interior, que foi
prefeita e governadora, pudesse fazer um governo com entregas. A gente está
fazendo um acionamento judicial contra perfis falsos, fake news e aqueles que
buscam deturpar a realidade em busca de reocupar o poder", declarou.
Na
sexta-feira (31/7), a campanha de Lyra informou que entrou com ações na Justiça
eleitoral com pedidos de investigação de uma suposta rede de desinformação da
campanha adversária. As ações são acompanhadas de um dossiê apontando supostos
aliados de Campos por trás de perfis nas redes sociais que direcionam ataques à
governadora.
Em
nota, a equipe da governadora disse que "não se trata de retórica de
campanha. Trata-se de documentos."
"A
campanha levou à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público um conjunto de
provas técnicas, entre ofícios de plataformas e de operadoras de telefonia,
decisões judiciais e registros dos próprios processos, que apontam a existência
de uma rede coordenada de perfis falsos operando contra a governadora nas redes
sociais", diz a nota à reportagem.
Procurada,
a campanha de João Campos não comentou as acusações até a publicação desta
reportagem.
Mas, em
meio à disputa pelo Palácio do Campo das Princesas, o que está por trás da
guerra de likes que tem balançado as previsões para as eleições de Pernambuco?
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O crescimento de Lyra e a 'fórmula' Campos
As
pesquisas eleitorais divulgadas nas últimas semanas indicaram uma mudança
importante no cenário da disputa entre Lyra e Campos.
Depois
de aparecer atrás nas primeiras sondagens do ano, Lyra passou a liderar ou a
empatar tecnicamente na liderança, enquanto Campos registrou queda nas
intenções de voto.
Na
pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 28 de julho, Raquel Lyra aparece com 43%
no primeiro turno, um crescimento de nove pontos desde a última pesquisa, de
abril, contra 37% de João Campos, que caiu cinco pontos. No cenário de segundo
turno, também houve inversão: Raquel foi de 38% para 45% (sete pontos a mais do
que em abril), e João caiu de 46% para 39% (sete pontos menos).
Em
agosto de 2025, portanto um ano atrás, a Quaest mostrava o então prefeito do
Recife com 55%, enquanto a governadora tinha 24% — uma diferença de 31 pontos.
A
Quaest também mostrou que a aprovação da governadora subiu de 62% para 68%.
O
movimento de virada também foi captado pelo Instituto Datafolha. Em abril, num
cenário com mais pré-candidatos, João Campos liderava com 50% no primeiro
turno, contra 38% de Raquel Lyra.
Em
maio, Lyra aparecia com 48%, enquanto Campos tinha 43%. Em 31 de julho, o
Datafolha mostrou estabilidade no cenário, de 48% contra 42% no primeiro turno.
Mas até
que ponto é possível relacionar o sucesso nas redes à melhora nas pesquisas?
Para o
cientista político Túlio Velho Barreto, na Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no
Recife, havia no Estado uma euforia inicial com a candidatura de João Campos,
muito associada à construção de uma imagem de um jovem político pronto a
"surfar muito bem nas ondas propiciadas pelas redes sociais".
"A
impressão era a de que a governadora Raquel Lyra seria incapaz de usar as redes
sociais da mesma maneira. Tal avaliação está se mostrando incorreta ou
precipitada", avalia Barreto.
"A
governadora conseguiu melhorar a sua comunicação, tanto institucional como
pessoal, deixando a sua imagem mais palatável também frente ao eleitorado
metropolitano."
Raquel
Lyra é de Caruaru, maior cidade do Agreste pernambucano, onde foi prefeita. Nas
redes, ela, que é filha de João Lyra Neto, que governou Pernambuco por alguns
meses, costuma usar sua posição de interiorana para criar mais relação com essa
parte do Estado.
Já João
Campos, filho do ex-governador Eduardo Campos e bisneto do ex-governador Miguel
Arraes, tem sua base mais forte no Grande Recife, já que foi prefeito da
capital.
Segundo
o levantamento da Ativaweb, Lyra mantém sua base mais fiel nas redes no
interior, mas tem crescido no Recife. Já Campos tem seguidores predominantes na
capital e em cidades como Rio e São Paulo.
A
jornalista Simone Graf, que pesquisa no mestrado na Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE) a construção da imagem de Campos nas redes sociais, conta que
nos últimos meses é possível observar uma "aproximação entre as
estratégias digitais" dos candidatos rivais.
"Raquel
Lyra passou a publicar conteúdos com linguagem mais leve, maior valorização da
imagem pessoal, bastidores, vídeos curtos e uma edição bastante dinâmica,
elementos que se tornaram característicos da comunicação digital de João
Campos", avalia Graf.
Para a
jornalista, isso mostra que "determinados formatos de comunicação política
acabam sendo apropriados por diferentes lideranças quando demonstram capacidade
de gerar engajamento".
Dentro
do governo Lyra, conforme apuração da BBC News Brasil, a sensação é de que
houve um avanço importante nas redes sociais da governadora do ano passado para
cá.
Uma
fonte ligada à campanha disse à BBC que a presença massiva de Campos nas redes
durante a reeleição para prefeito no Recife, com uma projeção nacional, era
enxergada "como um desafio".
"O
timing político dele era a reeleição em 2024. Ou seja, ele precisava crescer
antes. Já esperávamos que ele fosse muito bem nesse período".
A fonte
argumenta que, a partir da segunda metade do governo, Lyra conseguiu mostrar
seus projetos e suas entregas para a população. "Isso permitiu trabalhar
uma comunicação mais direta. Até deixou a governadora mais tranquila para
aparecer mais, circular mais".
A
avaliação é de que a estratégia de comunicação teve um "papel
relevante" no crescimento da popularidade, mas apenas "porque o
governo como um todo entrou em um ritmo diferente, voltado para as
entregas".
O
cientista político Adriano Oliveira, professor da UFPE, também avalia que as
redes sociais apenas refletem uma popularidade crescente da governadora entre a
população, e não o contrário.
"Minhas
pesquisas qualitativas mostraram desde o ano passado que a governadora iria
crescer, porque existia um sentimento forte no eleitorado pernambucano de que
ela estava trabalhando. Isso iria se refletir nas pesquisas desse ano",
analisa Oliveira.
Lyra
também tem conseguido se equilibrar politicamente entre não se opor ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que mantém grande aprovação no seu
Estado-natal, nem afastar o eleitor bolsonarista.
O
candidato oficial do presidente em Pernambuco é João Campos, mas a governadora
mantém uma boa relação com o petista. O presidente do PT no Recife, Osmar
Ricardo, licenciou-se do comando do partido para apoiar Lyra, indo contra o
próprio partido, que já acumulou no passado rusgas contra o PSB dos
Campos-Arraes.
Do lado
da direita, Lyra tem entre seus aliados todos os nomes do bolsonarismo
pernambucano, mas tenta não se vincular à pauta da extrema-direita nem faz
acenos de apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o rival de Lula melhor
posicionado nas pesquisas, como mostra o Agregador da BBC News Brasil.
Na
avaliação de Oliveira, a configuração nacional também não deve afetar o quadro
em Pernambuco. "A disputa para o governo do Estado, em qualquer Estado da
federação, é bem simples. Ela é guiada para verificar se o governador trabalha
e tem entrega ou não", diz.
Barreto,
da Fundaj, ressalta3 ainda que, ao manter-se no cargo para uma disputa à
reeleição, a governadora mantém todo o poder de quem tem a caneta à disposição
em mãos.
"Ou
seja, para nomear, distribuir recursos, o que é fundamental se considerarmos a
medida da dependência financeira dos municípios", completa.
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O fenômeno João Campos pode ser parado?
Com a
forte presença de João Campos nas redes sociais — seus 3 milhões de seguidores
no Instagram superam em muito ex-prefeitos e prefeitos de capitais maiores como
Eduardo Paes (PSD), do Rio, ou Ricardo Nunes (MDB), de São Paulo —, ele é
apontado desde sua reeleição como candidato ao governo.
De uma
tradicional família da esquerda pernambucana, ele demonstrou uma habilidade com
o mundo digital que foi vista como um modelo a ser seguido, especialmente por
políticos que não são alinhados à direita.
A
jornalista Simone Graf, que acompanha esse processo, conta que a projeção
nacional de Campos vem de uma mudança na forma como ele passou a se comunicar,
especialmente durante o Carnaval de 2024.
"Ele
incorporou uma linguagem muito próxima da cultura dos influenciadores digitais,
utilizando humor, músicas, danças e referências à cultura popular
recifense", explica Graf. Assim, Campos entendeu a lógica das redes que
privilegiam conteúdos com alto potencial de compartilhamento.
Mas, em
dezembro de 2025, Campos viveu uma crise na sua imagem junto ao eleitorado
pernambucano.
Causou
muita repercussão o caso do concurso de procurador municipal do Recife, quando
um candidato que ficou em 63º lugar acabou sendo nomeado por ele ao ser
incluído na lista de candidatos com deficiência (PcD), após um diagnóstico
tardio de autismo. A decisão retirou a vaga do candidato aprovado originalmente
na cota PcD que aguardava nomeação havia mais de dois anos.
O
nomeado era filho de uma procuradora do Tribunal de Contas de Pernambuco e de
um juiz do Tribunal de Justiça estadual, o que alimentou suspeitas de
favorecimento. Diante da repercussão negativa, a Prefeitura voltou atrás poucos
dias depois.
Mesmo
assim, o episódio gerou forte desgaste político para João Campos, motivando
pedidos de investigação e uma tentativa de impeachment na Câmara do Recife que
não foi para frente.
Segundo
Graf, episódios como esse costumam provocar mudanças na estratégia de
comunicação de políticos.
"Quando
um episódio ganha ampla repercussão, especialmente após cobertura intensa da
imprensa, é comum que as redes sociais deixem de ser apenas espaços de
divulgação de agendas e passem a ser utilizadas para administrar narrativas e
reconstruir a imagem pública", diz a pesquisadora.
Na
avaliação de Velho Barreto, somou-se a esse caso o fato de Campos deixar a
Prefeitura do Recife em abril para se lançar candidato ao governo. Sem a
máquina municipal na mão, "João Campos deixou de ter um lugar privilegiado
para se expor ao eleitorado". Isso é, sem fatos novos diariamente para
postar, ao contrário de Lyra.
Apesar
de um cenário de momento que favorece Lyra, as eleições em Pernambuco seguem
indefinidas, com os dois candidatos empatados tecnicamente na maioria das
pesquisas.
Em
declarações, Campos tem recorrido à trajetória política de sua família para
defender que as pesquisas não definem a eleição.
Eduardo
Campos, seu pai, saiu de menos de 10% das intenções de votos para ser eleito
governador em 2006. Caso seja eleito, João Campos chegaria ao Palácio do Campo
das Princesas com 33 anos de idade, um recorde de juventude no Estado. Já
Raquel Lyra, que foi a primeira governadora pernambucana, se tornaria também a
primeira mulher reeleita no Estado.
Fonte:
BBC News Brasil

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