quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Lula, Milei e Trump: a disputa pela liderança da América Latina

Todos, no Brasil e na Argentina, devem estar se perguntando por que Javier Milei voltou a atacar, no último domingo (2), o ministro Alexandre de Moraes e o presidente Lula.

Depois da repercussão negativa de suas declarações durante a convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, seria natural esperar mais cautela por parte do presidente argentino. Ocorreu exatamente o contrário. E o fracasso da estratégia ficou evidente logo após seu discurso no Pacaembu, em São Paulo. Levantamento da Ativaweb DataLab, realizado entre o sábado e a segunda-feira (27), mostrou que das 158 mil menções a Milei no Instagram e no Facebook, apenas 5,2% manifestaram apoio às declarações do líder argentino.

Uma das explicações para essa nova escalada de ataques pode estar no cenário interno argentino. Milei enfrenta o momento de maior desgaste desde que assumiu a Presidência. Segundo o jornal britânico The Times, pesquisas realizadas na Argentina indicam que sua aprovação caiu para cerca de 35%, enquanto a desaprovação já supera 60%, o pior desempenho de seu governo até agora.

Embora a inflação tenha desacelerado, a recuperação econômica prometida ainda não chegou à maioria da população. O consumo segue enfraquecido, os salários permanecem pressionados e o desemprego voltou a preocupar os argentinos.

Há, contudo, uma dimensão geopolítica que ajuda a explicar a intensidade dos ataques. O Brasil ocupa posição estratégica na política de Donald Trump para ampliar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina. Nesse contexto, as declarações de Milei podem ser interpretadas como parte de uma ofensiva destinada a contestar a liderança regional exercida por Lula e reduzir o protagonismo brasileiro no continente.

Também é possível enxergar esses movimentos dentro de uma articulação mais ampla entre governos alinhados a Trump na região. Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Paraguai e Bolívia aparecem como peças importantes dessa engrenagem, cujo objetivo seria pressionar o Mercosul e construir um discurso contrário ao governo brasileiro, justamente em uma das áreas em que Lula desfruta de maior reconhecimento internacional: a política externa.

Não se pode descartar, portanto, a possibilidade de que essa estratégia vá além da retórica. Em um cenário internacional marcado pela disputa por influência geopolítica, crises políticas, econômicas ou diplomáticas podem ser estimuladas para desgastar governos considerados obstáculos aos interesses de Washington.

Os acontecimentos recentes em Ceuta, na Espanha, demonstram como tensões migratórias e políticas podem ser instrumentalizadas em disputas internacionais. Guardadas as diferenças entre os contextos, é legítimo considerar a possibilidade de que o Brasil também venha a enfrentar episódios de forte pressão política e diplomática durante a campanha presidencial de 2026. Mais do que nunca, será necessário discernimento para distinguir fatos de operações políticas e preservar a soberania nacional diante de um ambiente internacional cada vez mais polarizado.

¨      Governo Trump afirma ter revogado visto de embaixadora brasileira nos EUA e escala crise diplomática

O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou nesta terça-feira (4) a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida amplia a crise diplomática entre os dois países e foi vinculada pelo governo de Donald Trump à demora de Brasília em conceder aval a Daniel Perez, indicado para chefiar a embaixada americana no Brasil.

Segundo a administração americana, Viotti não será expulsa e poderá permanecer nos Estados Unidos, embora esteja sem um visto válido. Washington informou ainda que o documento poderá ser restabelecido caso o governo brasileiro autorize a nomeação de Perez. O Itamaraty ainda não havia se pronunciado sobre o anúncio.

A decisão ocorre dez dias depois de o Brasil negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam visitar o país. O governo brasileiro já considerava provável uma retaliação no campo diplomático, especialmente por meio de restrições aplicadas a seus representantes.

<><> Washington vincula medida ao aval para Perez

Indicado por Trump em junho, Daniel Perez depende da concordância prévia do governo brasileiro e da confirmação pelo Senado dos Estados Unidos para assumir o posto em Brasília.

O consentimento do país que receberá o diplomata, conhecido como agrément, é uma etapa obrigatória no processo de nomeação de embaixadores. A aprovação do Senado americano, portanto, não substitui a autorização brasileira.

O Departamento de Estado afirma que o governo Lula ainda não concedeu o aval. Segundo a versão apresentada por Washington, autoridades brasileiras teriam indicado que a decisão seria tomada somente depois das eleições presidenciais.

Ao condicionar o restabelecimento do visto de Viotti à aceitação de Perez, o governo Trump transformou a pendência sobre o novo embaixador em um ponto central da relação bilateral.

O posto está vago desde janeiro de 2025, quando Trump retornou à Casa Branca. O último titular foi Elizabeth Bagley, nomeada durante a Presidência de Joe Biden.

<><> Revogação sucede negativa brasileira de vistos

A medida contra Maria Luiza Viotti foi anunciada após o Itamaraty negar vistos ao secretário-assistente Riley M. Barnes e ao subsecretário-assistente Samuel Samson, ambos integrantes do Departamento de Estado.

Os dois funcionários foram apontados como participantes de uma estratégia destinada a questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. As informações provocaram preocupação no governo Lula com possíveis ações estrangeiras relacionadas às eleições.

Washington negou qualquer intenção de interferência. De acordo com o Departamento de Estado, Barnes e Samson viajariam ao Brasil para discutir “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão” com autoridades e representantes da sociedade civil.

Na quarta-feira (29), integrantes do Itamaraty já avaliavam que os Estados Unidos poderiam responder à negativa brasileira com novas restrições de vistos. A revogação anunciada nesta terça-feira confirmou essa expectativa e elevou o impasse a um novo patamar.

Embora tenha adotado a retaliação, o governo americano deixou aberta a possibilidade de uma solução imediata. Para Washington, a concessão do aval a Perez seria suficiente para permitir a revisão da medida contra Viotti.

<><> Maria Luiza Viotti é diplomata de carreira

Maria Luiza Ribeiro Viotti assumiu a embaixada brasileira nos Estados Unidos em 2023. Ela foi a primeira mulher nomeada para chefiar a representação do Brasil em Washington, considerada um dos postos mais estratégicos da diplomacia nacional.

Nascida em Belo Horizonte, Viotti ingressou no Itamaraty em 1976, após concluir o curso de preparação do Instituto Rio Branco. É formada em Ciências Econômicas e possui mestrado em Economia pela Universidade de Brasília.

A diplomata foi representante permanente do Brasil nas Nações Unidas entre 2007 e 2013. Nesse período, chefiou a delegação brasileira no Conselho de Segurança da ONU e presidiu o órgão em fevereiro de 2011.

Entre 2013 e 2016, comandou a embaixada do Brasil em Berlim. Posteriormente, de 2017 a 2022, chefiou o gabinete do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

A medida anunciada pelo governo Trump atinge, portanto, a principal autoridade brasileira nos Estados Unidos e pode dificultar a interlocução entre os dois governos em um momento de crescente desgaste político e comercial.

<><> Indicado de Trump comandou Câmara da Flórida

Filho de imigrantes cubanos, Daniel Perez nasceu em Nova York e mudou-se ainda criança para a Flórida, em 1993. Filiado ao Partido Republicano, construiu sua trajetória política no estado e mantém alinhamento com as principais pautas defendidas por Trump.

Perez assumiu a presidência da Câmara dos Representantes da Flórida em 2024. No ano seguinte, chegou a ser apontado como possível candidato ao cargo de procurador-geral estadual, mas decidiu permanecer no comando da Casa legislativa.

Caso obtenha a aprovação do Senado americano e a autorização do Brasil, ele será o primeiro embaixador dos Estados Unidos no país desde a saída de Elizabeth Bagley.

<><> Crise diplomática se soma às disputas comerciais

A controvérsia ocorre após uma tentativa de reaproximação entre Lula e Trump. As relações bilaterais começaram a se deteriorar em julho de 2025, quando o presidente americano anunciou tarifas sobre produtos brasileiros.

Negociações realizadas nos meses seguintes reduziram temporariamente a tensão. No fim de 2025, os Estados Unidos aliviaram parte das tarifas e retiraram algumas sanções aplicadas a autoridades brasileiras. Lula e Trump também se encontraram duas vezes.

O presidente brasileiro esteve em Washington em 7 de maio para conversar com Trump. Apesar dos sinais de distensão apresentados naquele momento, o governo americano voltou a elevar a pressão sobre o Brasil poucas semanas depois.

Em 22 de julho, entrou em vigor uma tarifa de 25% resultante de investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Washington alegou que determinadas políticas brasileiras “oneram ou restringem” o comércio bilateral.

Entre os pontos questionados pelo governo Trump estavam o sistema de pagamentos Pix e as regras brasileiras para as plataformas digitais.

Em 24 de julho, os Estados Unidos confirmaram outra tarifa, de 12,5%, sobre produtos do Brasil e de dezenas de outros países. A administração americana atribuiu a medida à alegada insuficiência das ações adotadas por essas nações no combate ao trabalho forçado.

¨      Investidores processam Milei por corrupção milionária com criptomoedas

Um grupo de aproximadamente 30 investidores que afirma ter sido prejudicado pelo escândalo da criptomoeda $Libra ingressará com uma ação civil contra o presidente da Argentina, Javier Milei, sua irmã Karina Milei, o empresário Mauricio Novelli e outros envolvidos no caso. A decisão foi tomada após o fracasso de uma tentativa de mediação extrajudicial e ocorre paralelamente ao andamento da investigação criminal sobre o episódio.

Os investidores buscam obter reparação financeira pelos prejuízos sofridos e também fortalecer sua posição jurídica para participar diretamente da ação penal que apura possíveis crimes relacionados ao lançamento da criptomoeda.

<><> Perícias apontam envolvimento de Milei e Karina

Segundo os advogados das vítimas, perícias reunidas durante a investigação confirmam que Javier Milei e sua irmã Karina participaram da articulação que antecedeu o lançamento da $Libra.

A criptomoeda foi divulgada como uma iniciativa destinada a financiar pequenas empresas e estimular investimentos na economia argentina. Entretanto, de acordo com a acusação, a operação beneficiou principalmente seus criadores e operadores, enquanto milhares de investidores sofreram perdas após o colapso do ativo.

Os advogados sustentam que houve um esquema organizado para impulsionar artificialmente o valor da criptomoeda antes da venda em massa dos ativos pelos idealizadores do projeto.

<><> Juiz excluiu investidores da ação penal

Os investidores também contestam uma decisão judicial que os retirou da condição de partes na investigação criminal.

O magistrado responsável pelo caso entendeu que os compradores assumiram voluntariamente os riscos inerentes ao mercado de criptoativos e, portanto, não poderiam ser considerados vítimas de fraude apenas pelo fato de terem registrado prejuízos financeiros.

A decisão provocou forte reação entre os advogados dos investidores, que afirmam existir elementos suficientes para caracterizar um esquema criminoso de manipulação do mercado.

<><> Câmara Federal analisará recurso

No próximo dia 10 de agosto, a Câmara Federal deverá analisar o recurso apresentado pelos investidores para que eles sejam reintegrados ao processo criminal.

Os advogados pretendem demonstrar que a $Libra não pode ser tratada como uma simples “memecoin”, mas sim como um ativo de investimento estruturado para captar recursos do público mediante informações supostamente enganosas.

Segundo a defesa das vítimas, a operação foi concebida para beneficiar um grupo restrito de pessoas em detrimento dos investidores.

<><> Mediação terminou sem acordo

Em maio, representantes dos investidores participaram de uma audiência de mediação realizada por videoconferência.

Durante a reunião, Mauricio Novelli e um de seus sócios negaram a existência de qualquer fraude e afirmaram desconhecer irregularidades na operação.

Também foram discutidas possibilidades de compensação financeira aos investidores, mas nenhuma proposta foi aceita pelas partes, levando ao ajuizamento da ação civil.

<><> Transferências de US$ 5 milhões são investigadas

As investigações também revelaram movimentações financeiras realizadas antes do lançamento da criptomoeda.

Segundo documentos incorporados ao processo, o empresário Hayden Davis teria transferido cerca de US$ 5 milhões para intermediários ligados a Mauricio Novelli e a uma empresa financeira sediada em Vicente López, na província de Buenos Aires.

Essas operações passaram a integrar uma das principais linhas de investigação do Ministério Público.

<><> Pagamentos a Milei e Karina são apurados

Os investigadores também analisam mensagens, registros financeiros e movimentações patrimoniais que indicariam uma relação estreita entre Hayden Davis, Mauricio Novelli, Javier Milei e Karina Milei.

De acordo com a investigação, parte dos recursos movimentados antes do lançamento da $Libra teria sido utilizada para pagamentos destinados ao presidente argentino e à sua irmã.

Esses elementos ainda estão sendo analisados pela Justiça, que busca verificar a origem dos recursos e sua eventual conexão com a promoção da criptomoeda.

<><> Caso ainda aguarda avanço na Justiça

Apesar do volume de documentos reunidos ao longo da investigação, até o momento nenhum dos principais envolvidos foi chamado para prestar depoimento na condição de investigado.

A demora tem sido alvo de críticas por parte dos investidores e de seus representantes legais, que cobram maior celeridade da Justiça argentina diante da gravidade das acusações.

O escândalo da $Libra tornou-se um dos maiores desafios políticos enfrentados por Javier Milei desde o início de seu governo e segue produzindo repercussões tanto no campo judicial quanto no cenário político argentino.

¨      Milei muda agenda para impedir que sua vice Victoria Villarruel decida votação sobre venda de terras a estrangeiros

Uma intensa articulação política tomou conta da Casa Rosada e do Senado argentino às vésperas da votação da reforma da Lei de Terras. Segundo informações da emissora C5N, o presidente Javier Milei alterou sua agenda internacional para impedir que a vice-presidente Victoria Villarruel presida a sessão e tenha a possibilidade de desempatar a votação de um dos projetos mais controversos de seu governo.

A estratégia evidencia a crescente tensão entre Milei e Villarruel, que vêm acumulando divergências públicas e privadas nos últimos meses, especialmente em relação à política de venda de terras para estrangeiros.

<><> Mudança de última hora na agenda presidencial

Inicialmente, Milei participaria da posse do presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, na sexta-feira, e seguiria para o Equador no sábado.

No entanto, a agenda foi alterada. O presidente decidiu antecipar sua viagem ao Equador para a noite de quarta-feira e adiar a visita à Colômbia, numa tentativa de impedir que Villarruel assuma interinamente a Presidência da República durante a sessão do Senado.

Pela Constituição argentina, quando o presidente está fora do país, o vice assume suas funções. Nessa condição, Victoria Villarruel deixaria de presidir o Senado, impossibilitando que exercesse o voto de desempate em caso de empate.

<><> Governo teme derrota na Lei de Terras

O principal objetivo da manobra é evitar que Villarruel tenha influência decisiva na votação da reforma da Lei de Terras, considerada estratégica para o governo Milei.

O projeto amplia de 15% para 25% o limite de terras rurais que podem ser adquiridas por estrangeiros. A proposta substitui a versão original, que eliminava praticamente todas as restrições, mas enfrentou forte rejeição da opinião pública e de diversos setores políticos.

Mesmo com o recuo, o governo continua enfrentando dificuldades para formar maioria no Senado.

<><> Placar permanece indefinido

As negociações seguem intensas porque o cenário continua extremamente equilibrado.

Segundo estimativas divulgadas pela C5N, o governo conta atualmente com cerca de 32 votos favoráveis, reunindo senadores do La Libertad Avanza, parte da União Cívica Radical e do PRO.

Do outro lado, aproximadamente 33 senadores já manifestaram posição contrária à proposta, incluindo o bloco peronista e parlamentares de diferentes províncias preocupados com os impactos da flexibilização sobre a soberania territorial.

<><> Sete senadores podem decidir o resultado

O desfecho da votação dependerá do posicionamento de um pequeno grupo de parlamentares que ainda não definiu seu voto.

Entre os nomes considerados decisivos estão Flavia Royón, Edith Terenzi, Julieta Corroza, Beatriz Ávila e integrantes da bancada radical.

A expectativa é de uma votação apertada, na qual um ou dois votos poderão definir o futuro da proposta.

<><> Relação entre Milei e Villarruel segue deteriorada

A preocupação do governo em evitar que Victoria Villarruel tenha papel decisivo na sessão também evidencia o aprofundamento da crise entre o presidente e sua vice.

Villarruel já manifestou reservas à flexibilização da Lei de Terras e também divergiu do governo em outras iniciativas econômicas e institucionais.

A disputa transformou a votação da reforma em mais um capítulo da crise interna do governo argentino, que busca aprovar um projeto considerado prioritário enquanto enfrenta resistência crescente no Congresso e em setores da sociedade.

 

Fonte: Por Florestan Fernandes Jr, em  Brasil 247

 

Nenhum comentário: