Tarifas
dos EUA sobre genéricos reacendem debate sobre autonomia farmacêutica do Brasil
O
anúncio do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor tarifas de 100% sobre
medicamentos genéricos importados a partir de agosto de 2028 — percentual que
deverá subir para 200% um ano depois — reacendeu o debate sobre a
vulnerabilidade das cadeias globais de produção de medicamentos.
A
medida faz parte da estratégia de reduzir a dependência estadunidense de
medicamentos e Ingredientes Farmacêuticos Ativos (IFAs), matérias-primas
utilizadas na produção dos medicamentos, também chamadas de princípio ativo ou
fármaco e dão ao produto capacidade de tratar, curar, prevenir e diagnosticar.
O
movimento ocorre em paralelo à implementação da Estratégia Nacional do Complexo
Econômico-Industrial da Saúde (Lei nº 15.471) no Brasil, que tem o objetivo de
fortalecer a capacidade nacional de desenvolver, produzir e inovar em
tecnologias estratégicas para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Em
2025, o país também alcançou um marco ao se tornar o primeiro da América Latina
a produzir o IFA do Buscopan, medicamento indicado para aliviar cólicas e dores
abdominais. Os desafios, porém, permanecem expressivos. Dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que os produtos
farmoquímicos importados representam mais de 80% da oferta nacional.
A
Sputnik Brasil ouviu especialistas sobre os impactos da medida anunciada por
Trump no mercado global de medicamentos, bem como riscos e oportunidades para o
Brasil.
Ralph
Santos Oliveira, professor da Faculdade de Ciências Biológicas e Saúde da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), pontuou que as cadeias de
produção de medicamentos são interdependentes, mas estão concentradas em poucos
hubs — a Europa tem uma forte indústria de antibióticos; Índia e China são
referência em IFAs; o mercado consumidor dos Estados Unidos é um dos maiores do
mundo.
"O
aumento de qualquer tarifa cria desigualdade de acesso, amplia risco
epidemiológico, coloca uma população sobre um risco de saúde pública. Isso é
ruim em qualquer cenário."
Fundador
da Barbosa Clinic, clínica médica voltada para o atendimento de pessoas e
famílias com casos complexos de saúde, o médico Expedito Barbosa ressaltou a
complexidade da cadeia que envolve a produção de medicamentos.
"Um
medicamento fabricado no Brasil, por exemplo, pode utilizar um ingrediente
farmacêutico ativo produzido na Índia ou na China, além de equipamentos,
matérias-primas e componentes provenientes de outros países."
Nesse
sentido, afirmou, barreiras comerciais muito elevadas, como tarifas de
importação, podem aumentar custos de produção, redução do número de
fornecedores e reorganização abrupta das cadeias internacionais, impactando
diretamente a saúde de milhões de pessoas.
"O
problema é ainda mais delicado no mercado de medicamentos genéricos, que
normalmente trabalha com margens de lucro menores. Diante de uma tarifa muito
alta, determinadas empresas podem considerar economicamente inviável continuar
fornecendo alguns produtos. Isso pode provocar aumento de preços, retirada de
medicamentos do mercado e, nos casos mais graves, desabastecimento".
O
impacto para o Brasil não será forte, no curto prazo, avaliou o
presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos
Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos), Tiago de Moraes Vicente, por não ser
grande exportador de genéricos para os EUA.
Entretanto,
alertou, a medida sinaliza que esta é uma agenda de segurança nacional
estadunidense, com consequências de longo prazo para todos os países.
"Uma
possibilidade é que fabricantes estrangeiros redirecionem investimentos e
linhas de produção para os Estados Unidos, buscando evitar as tarifas. Isso
pode reduzir a capacidade disponível para atender outros mercados e aumentar a
competição mundial por IFAs, matérias-primas, equipamentos e profissionais
especializados", conjecturou o médico.
Desde a
pandemia da COVID-19, as principais economias passaram a tratar a produção de
medicamentos, insumos farmacêuticos e tecnologias em saúde como tema de
segurança nacional, soberania produtiva e resiliência das cadeias de
abastecimento.
"Na
prática, diferentes países vêm adotando instrumentos para incentivar a produção
local, reduzir a dependência de fornecedores externos, atrair investimentos
industriais, fortalecer pesquisa, inovação e transferência de tecnologia e
proteger cadeias consideradas estratégicas para a saúde pública",
argumentou Barbosa.
Existe
ainda um cenário oposto: empresas que perderem competitividade no mercado
estadunidense podem tentar direcionar parte de sua produção para outros países,
aumentando temporariamente a oferta. "No entanto, esse efeito é incerto e
não elimina a vulnerabilidade estrutural brasileira."
Oliveira
ponderou que a taxação provocará aumento de preços, mas pode representar uma
guinada positiva para países como o Brasil.
"Isso
deve servir como estímulo para o complexo social e econômico da saúde e o
Brasil deve implementar de maneira específica uma política de Estado na
soberania da produção de medicamentos", defendeu ele.
Os
entrevistados foram uníssonos ao afirmar que os medicamentos genéricos são
estratégicos para qualquer país, e, no caso brasileiro, contribuem para
garantir tratamento de qualidade para milhões de pessoas que não teriam
condições de comprar remédios de patenteados.
Os
genéricos não são apenas alternativa comercial, são instrumento de acesso,
adesão ao tratamento, redução das desigualdades e sustentabilidade do SUS,
destacou Barbosa, que acrescentou que, por ser pelo menos 35% mais barato que o
medicamento de referência, esses fármacos aumentam a concorrência, contribuindo
para a redução dos preços de outros medicamentos, acrescentou o médico.
Para
ele, os medicamentos genéricos representam uma das políticas públicas mais
importantes para a ampliação do acesso à saúde no Brasil, a tratamentos
eficazes, seguros e de qualidade por um custo mais baixo a milhões de pessoas.
"Para
pacientes com hipertensão, diabetes, epilepsia, doenças cardiovasculares e
diversas outras condições crônicas, por exemplo, o preço do medicamento pode
determinar se o tratamento será seguido corretamente ou interrompido."
Mais
baratos, os medicamentos genéricos possuem o mesmo princípio ativo, a mesma
concentração, forma farmacêutica, a mesma via de administração e a mesma
indicação terapêutica do medicamento de referência, além de comprovar
equivalência farmacêutica e bioequivalência perante a Agência Nacional de
Vigilância Sanitária, a Anvisa.
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Esforços brasileiros
Nesse
movimento, de corrida global pela internalização de cadeias estratégicas, os
entrevistados avaliaram a Estratégia Nacional do Complexo Econômico-Industrial
da Saúde como iniciativa robusta e urgente para o setor.
"A
estratégia transforma em política de Estado instrumentos voltados ao
fortalecimento da produção no Brasil, da inovação e da autonomia tecnológica em
saúde", disse o presidente da PróGenéricos.
A
produção nacional do IFA utilizado no Buscopan foi outro passo importante do
Brasil na opinião do dono da Barbosa Clinics. Trata-se de um esforço capaz de
aumentar a segurança do abastecimento, a capacidade de resposta em situações de
emergência, além de estimular a indústria nacional, gerando empregos
qualificados, fortalecendo a pesquisa, ampliando a capacidade de inovação do
país.
"O
caminho mais adequado é identificar quais medicamentos e insumos são essenciais
e estratégicos, garantir capacidade nacional para parte deles, diversificar os
fornecedores internacionais e manter estoques de segurança", completou
ele.
O
professor da UERJ também elogiou a iniciativa, mas frisou que a medida não é
suficiente para garantir soberania e independência de maneira isolada. E um dos
grandes gargalos, na sua avaliação é a falta de profissionais capacitados:
"A
gente precisa entender que isso é um caminho complexo, porque deve estar
alinhado com a formação de profissionais [...] O curso de farmácia tem tido um
enfoque assistencial muito grande, não que não seja importante, mas não
prioriza, de maneira absurda, a formação técnica", disse, ao sugerir
investimentos em um polo de pesquisa e desenvolvimento em fármacos.
"Porque
só replicar o que é feito lá fora não é soberania. Soberania é ter a manutenção
de um parque tecnológico ativo com a contribuição contínua de novas moléculas,
novos fármacos e novos medicamentos. E além disso, isso precisa estar associado
ao sistema legal do país. A gente precisa de um sistema célere de registro de
medicamentos, para registro de insumos farmacêuticos ativos", completou o
professor da UERJ.
Fonte:
Sputnik Brasil

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