quinta-feira, 30 de abril de 2026

Antonio Martins: Lula, sua última eleição e seus demônios

O homem à minha frente, no caixa de supermercado, aceita constrangido que a funcionária tire da balança quase a metade dos tomates que pretendia levar. Ficam os que pode pagar com a cédula rosada que traz em suas mãos. Feita a transação, ele exibe à fila o pacote minguado que restou e exclama, entre lamento e revolta: “Seis tomates por dez reais!”. Dezenas de milhões de brasileiros viveram sufuco semelhante nas últimas semanas – e é provável que o drama persista. A agressão de Trump ao Irã provocou, numa economia mundial já em desarranjo, um novo surto de tremores financeiros, ruptura das cadeias produtivas (em especial de petróleo, gás e fertilizantes) e inflação, particularmente de alimentos. Em março, os preços dispararam no Brasil. Em algumas regiões, a cesta básica subiu 7,12% em 30 dias, chegando próxima ao patamar recorde de abril de 2025.

O impacto eleitoral da alta é evidente. Num governo que não ousou reformas estruturais, e colocou em si mesmo a camisa-de-força do “ajuste fiscal”, a popularidade depende de melhoras no padrão de vida e de consumo (a proverbial “picanha com cerveja”). Se não for detida, a alta da comida corroerá rapidamente a pequena elevação dos salários e os ganhos obtidos por parte dos trabalhadores com a isenção do Imposto de Renda. Mas os ordenados sobem uma vez por ano e o benefício fiscal ocorre uma vez na vida. Já o espinho da carestia espeta todos os dias. Além disso, há 74 milhões de inadimplentes (45% da população adulta) e os juros consomem 29,3% da renda das famílias. A fila na concessão de aposentadorias ultrapassou 3 milhões de prejudicados e o repasse básico do Bolsa-Família está congelado em R$ 600 há mais de três anos. A pouco mais de cinco meses do pleito, Lula parece estar numa enrascada. O plano de assegurar o quarto mandato sem estabelecer choque de projetos, confiando apenas no impulso de aprovação pós-junho de 2025, vacila. Flávio Bolsonaro avança. O governo ainda tem em mãos trunfos poderosos, como a luta contra a jornada 6×1, uma possível (porém ainda desconhecida) salvação dos endividados e a campanha pela tarifa zero nos transportes públicos. Mas não está sendo capaz de costurá-los num discurso claro e mobilizador. Ainda poderá fazê-lo?

<><> Das cordas ao contra-ataque

É possível reverter uma derrocada?

Para compreender o contrapé de Lula e os possíveis caminhos para revertê-lo é útil examinar  o gráfico de aprovação do presidente – em especial, as duas reviravoltas notáveis verificadas num curto período de seis meses. Os dados são da pesquisa Genial/Quaest. Lula3 atinge o ápice da popularidade por volta de setembro de 2023, ao final do intervalo 1. Nove meses depois de iniciar seu mandato, ele havia sido capaz até mesmo de dissipar, em parte, a polarização áspera que marca a política institucional brasileira desde a segunda eleição de Dilma, em 2014. É possível que o desgaste da ultradireita após o golpe de 8 de janeiro tenha contribuído. Seja como for, Lula tinha 60% de aprovação contra 25% de rejeição, uma margem folgada de 35 pontos positivos. Para comparação, Donald Trump tinha, à mesma altura de seu atual período, – 16 e o alemão Friedrich Merz tem hoje – 69. Segue-se, porém, um período de corrosão lenta e constante do apoio ao presidente, que se prolonga por 21 meses. Ocorre por etapas. Lula desgasta-se primeiro entre os homens, os brancos, as faixas de maior renda, os sulistas e sudestinos. Mas a desilusão é contínua. Por volta de maio de 2025, está em minoria entre as mulheres, os negros e em todas as faixas de renda – exceto a dos que ganham até 1 salário mínimo. Das regiões, só o Nordeste ainda o apoia majoritariamente. A conclusão é óbvia. A frustração com o descumprimento das promessas de mudança vai se espalhando em ondas, até chegar ao coração do lulismo. Mas deve-se considerar um fator adicional, que pode estar se repetindo agora. Entre outubro de 2024 e maio de 2025, há um surto inflacionário. A cesta básica dispara: 12,8% em São Paulo, segundo o Dieese. A partir de janeiro de 2025, o apoio ao presidente entra em território negativo e cai com maior velocidade.  Mas a partir de junho ocorre a primeira reviravolta, que impressiona pela rapidez com que se desenrola. Em 25/6, sem apoio também no Congresso, o presidente é emparedado pelo Centrão, que questiona até mesmo seu direito legal a alterar as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Lula reage, aceita o confronto e parte para a ofensiva. O mote é a injustiça fiscal. Afrontado no campo tributário, o presidente denuncia as leis que praticamente isentam os mais ricos de pagar impostos. Uma campanha vibrante de memes, que viraliza e forma uma rede espontânea de criadores e difusores em todo o país, acrescenta novo elemento à disputa: aponta a cumplicidade do Legislativo com a mamata. Na avenida aberta por sua investida, o governo pressiona pelo Projeto de Lei 1087/25, que isenta de IR as rendas até R$ 5 mil e estabelece alguma tributação sobre os mais ricos. Em julho, a escalada prossegue. O Brasil é agredido por um “tarifaço” de Trump, que tenta impor sobretaxa aduaneira de 50% sobre as exportações nacionais, Lula não recua, ao contrário do que fizeram dirigentes de países e blocos mais poderosos – União Europeia, Japão e Coreia, por exemplo. Aponta “chantagem inaceitável”, recorre à OMC e, mais importante, ameaça retaliar por meio da Lei de Reciprocidade Econômica. Ficam expostos os enormes interesses das “big techs” norte-americanas no país

A contraofensiva se amplia em 21 de setembro. Um passo em falso do Centrão, que tenta aprovar a “PEC da Blindagem”, leva multidões às ruas, em protestos que se espalham pelo país. São convocados essencialmente por movimentos sociais e artistas (com alguma participação dos partidos de esquerda). Abrem a perspectiva de um enfrentamento popular e politizado à ultradireita e às maiorias conservadoras do Congresso. Lula recupera sua popularidade. Já no início de outubro, pouco mais de três meses depois de reagir, explicitar diferenças políticas e aceitar o confronto, o presidente vê a mudança de postura aprovada pela população. O saldo de aprovação sobe dos 17 negativos a neutro, em óbvia tendência de alta, como se vê, no gráfico, ao final do intervalo 3. Os setores mais fiéis ao lulismo são os que retornam mais rapidamente, o que amplia as possibilidades de mobilização. Nas sondagens sobre a intenção de voto em 2026, o presidente lidera com ampla folga. Tem doze pontos à frente do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que àquele momento é seu adversário melhor posicionado. A primeira reviravolta político-eleitoral está completa.

<><> Ressurge o Conciliador

A ofensiva popular frustrada a meio-caminho

Mas, tal como ocorreu desde 2003, os planos de Lula não incluíam um estímulo a mais mobilização social, a tensionar a institucionalidade conservadora ou a sustentar o choque de projetos. Todos os gestos do presidente sugerem que ele concebeu, entre outubro e novembro, a estratégia que orienta até aqui sua campanha ao quarto mandato. Significa arrancar pequenos espaços fiscais, recusando-se, ao mesmo tempo, a questionar a “austeridade” e a destinação prioritária do dinheiro público aos rentistas. O Estado brasileiro continuará pagando R$ 1 trilhão ao ano (3,5 vezes o orçamento do SUS) ao 0,1% que se beneficia com a maior taxa de juros do planeta. O país permanecerá regredido. Mas o recuo do Centrão rendeu ao governo algum espaço. Além de abandonar a PEC da Blindagem, o Congresso aprovou medidas que representaram um pequeno alívio no Orçamento de 2026. O presidente pensa que contará, no ano eleitoral, com “programas sociais” como o “Vale-gás”, o “Pé-de-meia” e algum reforço ao “Minha Casa, Minha Vida”. Satisfeito, Lula prepara um acomodamento. No plano interno, as tensões com o Centrão são esquecidas pouco a pouco. Na primeira semana de novembro, Câmara e Senado aprovam, ambos por unanimidade, o projeto que altera o Imposto de Renda. Pouco mais de uma semana antes, o presidente havia se encontrado com Trump na Malásia. Obtivera a promessa de revisão do “tarifaço” contra o Brasil. Em contrapartida, imaginara o fim das tensões entre os dois países: “O Brasil tem interesse de ter uma relação extraordinária com os Estados Unidos. Não há nenhuma razão para qualquer desavença entre Brasil e Estados Unidos”, dissera.

O breve tempo de luta havia se encerrado com vitória. Era hora de assumir de novo o figurino do Lula conciliador, o que governa para todos. A reeleição viria naturalmente – não a partir da disputa de visões de país e de projetos de futuro, mas de uma política de alianças ainda mais ampla. No plano externo, uma relação “normalizada” com a Casa Branca supostamente ajudaria a minar as forças dos Bolsonaro. Neste ponto, o presidente cometeu seu grande engano. Passados cinco meses, não dá mostras de tê-lo compreendido. Há um claro abismo entre a formação de Lula e as características da política no século XXI. É útil explorá-lo, para entender por que se dá, a partir de novembro de 2025, uma segunda reviravolta na curva de apoio popular ao presidente – desta vez, francamente desfavorável e ele e até o momento não contida. Examinado a fundo por pensadores como Wolfgang StreekChantal Mouffe e Ernesto Laclau, o colapso do antigo centro (não confundir com o Centrão, que expressa a direita fisiológica) é um dos fenômenos cruciais de nossa época. As respostas das elites à crise iniciada em 2008 acirraram como nunca a desigualdade e resultaram em desencanto disseminado com a democracia liberal. Produziram-se mudanças dramáticas e inesperadas. A convergência do eleitorado para posições tidas como “moderadas”, que havia marcado o Ocidente desde o pós-II Guerra, dissipou-se. Abriu-se um vácuo propício a alternativas de sentido oposto.

À direita, emergiu uma vasta constelação de (pós-)fascismos de várias estirpes – as mais recentes, como de Elon Musk, Milei, Bukele e, no Brasil, Renan Santos e o Missão, de tendência ultraliberais. Professam, em essência, a descrença na política (e em especial, na redistribuição da riqueza), o salve-se-quem-puder e a revalorização do patriarcado e da branquitude. À esquerda, surgiu um populismo progressista, que já não busca enxergar os conflitos sociais apenas a partir do trabalho e procura constituir novos sujeitos políticos, capazes de enfrentar a radicalização do capital. Sua força política não se compara à da ultradireita, mas sua existência indica a possibilidade de novos caminhos. Expressa-se em Lopez Obrador e Cláudia Sheinbaum (México), Gustavo Petro (Colômbia), Bernie Sanders, Alexandra Ocasio e Zohran Mamdani (EUA). Na África, produz apoio popular aos militares que tomaram o poder pelas armas, com discurso anticolonial.

A trajetória de Lula é, ao contrário, marcada pela busca de convergências entre os desiguais e pelo esforço de evitar ao máximo os conflitos. Esta natureza acompanha-o desde os tempos de sindicalista, como notou há poucas semanas seu biógrafo. “O Lula já era paz e amor antes de isso virar slogan (…) Talvez tenha emergido [na presidência] um personagem que já era. O Lula já era um negociador, um homem capaz de fazer conciliações”, disse Fernando Moraes a Carta Capital, no início de abril. Partindo desta perspectiva, é provável que o presidente não tenha compreendido a necessidade de manter a denúncia do parasitismo das elites e a disputa com o Centrão, após os primeiros êxitos. Pode ter julgado, ao contrário, que o sucesso se deu graças a sua inteligência e habilidade políticas incomuns; e que o eterno exercício de alternar acenos à direita e à esquerda poderia ser retomado e mantido até o pleito. Os eleitores não parecem ter pensado da mesma forma. Quando Lula abandonou a tensão com as institucionalidade conservadora, sua recuperação não se sustentou. Um outro fator passou a pesar: o desgaste a que estão submetidos os governos, em tempos de crise. Há governantes que denunciam as elites e a desigualdade (como Gustavo Petro), ou que se comunicam permanentemente com o país, para ditar a pauta política (como Cláudia Sheinbaum). Ambos constroem vínculos de solidariedade. Mas os que não agem, quando as condições de vida se deterioram, correm o risco de ser vistos como cúmplices das circunstâncias que infernizam o cotidiano das maiorias. A carestia aprofunda esta erosão. O que pensará de Lula o trabalhador humilhado por deixar seus tomates no caixa do supermercado? Ou o que deixa quase um terço de sua renda minguada com os bancos? Que ressentimentos serão disparados pelo gatilho da frustração?

<><> De como se perdem oportunidades

Em 2023, o governo vestiu camisa-de-força. Agora sentem-se os efeitos

O mais preocupante é que, perdida a dinâmica do confronto com as injustiças, o governo parece incapaz de lançar uma ação coordenada, que projete à maioria dos brasileiros um futuro melhor. Sem orientação clara da presidência, os ministros adequam as prioridades do Palácio do Planalto a seus próprios interesses e relações com o mundo dos negócios e a política institucional. Lula prometeu medidas de alívio ao hiperendividamento da população, provocado por taxas de juros indecentes. Em 2/4, o ministro Dario Durigan, que substitui Haddad na Fazenda, previu um programa “em dez dias”. Em 27/4, mais de duas semanas depois de vencido o prazo, seguia em longas negociações com a Febraban. Num claro desvirtuamento da ideia original, aventava a hipótese de “liberar” os endividados a queimar seus depósitos no FGTS, para satisfazer o apetite dos banqueiros. Se a fórmula prosperasse, equivaleria a desfinanciar o BNDES e a quebrar a poupança dos assalariados para alimentar a fornalha dos rentistas – sem obrigá-los a rever a agiotagem e os abusos.

Na luta contra a escala 6×1, que assumiu tardiamente, o governo está às voltas com dois percalços. Como mostrou o sociólogo Rudá Ricci, a campanha – que começou em ação espontânea de Rick Azevedo, do movimento Vida Além do Trabalho (VAT) e da deputa Érika Hilton, repercutiu rapidamente e poderia ter enorme efeito mobilizador. Mas assumiu, depois de encampada pelo Planalto, ares de chapa branca. Despreza o apelo à mobilização social. Pode terminar identificada (e nesse caso, neutralizada) como mera bandeira eleitoral.  Além disso, o governo está no momento impedido de assumir seu protagonismo no plano institucional, devido a hesitações. O ministro Guilherme Boulos insistiu, por muito tempo, que Lula enviasse um projeto próprio ao Congresso, reduzindo a jornada de trabalho. Estava claro que o Centrão, aliado às confederações empresariais, protelava a tramitação de proposta de emenda constitucional (PEC) sobre o tema, postergando-a ao máximo – se possível, até depois das eleições. As alas institucionalistas do governo, porém, adiaram a decisão, buscando acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta. Em 14/4, quando o projeto do governo foi finalmente apresentado, Motta já havia levado a PEC a um ponto em que ela passará a concentrar as atenções do noticiário político, escanteando e obscurecendo a iniciativa governamental.

Em 28/4, não há também sinais de redução da fila das aposentadorias, porque o “arcabouço” de Fernando Haddad continua retendo os parcos recursos necessários a contratar mais servidores e honrar as obrigações do Estado junto aos trabalhadores. O governo também parecia ter desistido de apresentar a tarifa zero com proposta legislativa em 2025. Até mesmo os R$ 20 bilhões que reforçariam o Minha Casa Minha vida foram liberados apenas em 15/4, tarde demais para produzir efeito eleitoral relevante. O subprograma voltado à reforma de residências saiu com intermediação dos bancos privados, e juros tão abusivos (1,99% ao mês, ou 26,7% ao ano) que, em meio aos baixos salários e à carestia, menos de 10% dos recursos disponíveis foram solicitados. A mesma aversão à disputa repete-se na arena externa. Aqui, as oportunidades político-eleitorais desperdiçadas são tão óbvias que sugerem um Lula, de algum modo, alheio aos fatos. Estão em pauta as terras raras e os minerais críticos, essenciais às tecnologias do século 21. O Brasil tem a segunda maior reserva do planeta. A US Rare Earth avança sobre ela, adquirindo a Serra Verde, única mina brasileira em atividade. Dois expoentes da ultradireita – Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado – assumem posição claramente entreguista. O governo tem um cardápio de alternativas à mão; das mais políticas e ousadas (estabelecer por Medida Provisória a Terrabrás e propor por lei o monopólio estatal) às mobilizadoras (expor, com a capacidade comunicativa de Lula, a importância da riqueza e os riscos de sua perda) e às meramente defensivas (questionar judicialmente a operação). Bem ao contrário de sua reação altiva ao “tarifaço”, há poucos meses, Lula opta agora pelo silêncio. E o governo adota a conivência: nem criar a estatal, nem judicializar, “para manter comunicação de alto nível com a Casa Branca”, segundo teriam dito funcionários graduados à mídia. Em meio a uma disputa acirrada, a ousadia de Flávio e Caiado pode passar impune. Haverá maior sinal da impotência política a que o recuo de outubro-novembro conduz?

<><> Voo em céu de tempestade

Alternativas para cinco meses turbulentos

É possível superar a maré desfavorável? A resposta, evidentemente, é sim! Os contrapés do goleiro e do político igualam-se no desenho, mas diferem no tempo. No futebol, o atleta calcula mal a trajetória do chute e escolhe o pé de apoio errado, para constatar tarde demais o engano e assistir em desconsolo à impossibilidade de correção e defesa. A agonia dura as frações de segundo do deslocamento da bola. Na política, em especial nos dias acelerados e na memória curta era digital, os erros se esquecem rápido e as recuperações improváveis são possíveis. Exercendo o governo, e prestes a uma derrota certa nas eleições parlamentares de abril de 2025, o Partido Liberal do Canadá inverteu o resultado em três meses, entre janeiro e abril de 2024. Embora de centro-direita, Mark Carney, seu líder, soube denunciar a submissão do Partido Conservador (seu adversário) à Casa Branca, que também ameaçava o país com um tarifaço. Em poucas semanas, uma desvantagem de 25 pontos (20% x 45%) converteu-se numa liderança estreita porém vitoriosa (43,7% x 41,3%). Mesmo em viés de baixa, Lula parte de uma posição muito menos desconfortável que a de Mark Carney. Falta corrigir os rumos, rápido. Mas qual o escopo de uma possível nova virada?

Não se deve esperar do presidente que, aos 80 anos, lidere a reconstrução do Brasil em novas bases – pós-capitalistas e anticoloniais. Esta é uma trama histórica, a ser tecida no médio e longo prazos (embora precise começar já). Vai requerer reconexão com as bases populares, consciência política, formulação teórica, mobilização social e mesmo alianças internacionais inéditas. Não pode depender de um só homem – menos ainda de quem jamais abandonou a lógica sindicalista que leva a lutar por um quinhão maior da riqueza produzida, e não por um novo modo de produzir. O que se espera de Lula (e o que só ele pode oferecer, a pouco mais de cinco meses das eleições) são ações e narrativas que permitam à maioria dos brasileiros compreender o que se passa à sua volta num mundo em transe – sem sucumbir, em desespero, ao ressentimento, à rejeição da política e à ultradireita. Há caminhos claros e viáveis para isso, que talvez possam ser resumidos em quatro pontos.

A luta contra a Escala 6×1 precisa ser resgatada das mãos traiçoeiras de Hugo Motta e do Centrão. Há uma fórmula certeira para tanto. O núcleo da batalha deve ser deslocado do Parlamento para as ruas e locais de trabalho. Instrumentos simples, que fazem parte há muito do repertório dos movimentos sociais, podem ser úteis novamente – turbinados, agora, pela comunicação em rede. Imagine, como ferramenta básica, um abaixo-assinado difundido em todo o país, dirigido ao Parlamento, reivindicando a aprovação, anterior às eleições, da redução da jornada e do direito a dois dias de descanso semanal. Imagine também oferecer, a milhões de brasileiros que se sentem oprimidos pela 6×1, a oportunidade de criar um comitê em sua seção de fábrica, loja ou escritório; coletar assinaturas; gravar vídeos ou postar textos relatando experiências pessoais e coletivas relacionadas à campanha; vê-los compartilhados e comentados. Imagine, por fim que, uma vez por mês, estes comitês articulem-se em cada cidade, em manifestações públicas. Ao abraçar – com recursos infinitamente menores – esta bandeira, Rick Azevedo passou do anonimato absoluto a um dos vereadores mais votados do Rio. Por que seria impossível alcançar agora dimensão nacional?

Livrar os brasileiros do hiper-endividamento não pode, por motivos escancaradamente óbvios, ser uma agenda subordinada a um acerto com a Febraban. A federação dos banqueiros representa o núcleo do problema, não a solução. Enquanto insistir nessa grotesca “parceria”, a ação do governo resultará em medidas tímidas, precárias e fugazes – quando não contraproducentes, como a transferência dos saldos de FGTS para os credores. A aposta errada do acordo com os rentistas foi feita no programa Desenrola, de 2023, apenas para que as dívidas saltassem a novo patamar, três anos depois. A alternativa óbvia, por produzir resultados e consciência, é acionar os bancos públicos (BB e Caixa, especialmente), permitindo-lhes assumir os créditos das instituições privadas, oferecer descontos e reduzir drasticamente as taxas. Colocará a agiotagem em xeque e significará, por certo, desafio a um setor muito poderoso – mas como governar sem correr riscos? Revelará pedagogicamente, a captura da riqueza social pelo rentismo e a possibilidade real de revertê-la. Do ponto de vista prático e imediato, reduzirá a parcela da renda das famílias sequestrada pelo pagamento dos juros e as colocará diante de um presidente que age para aliviar seus dramas.

É possível enfrentar a carestia questionando e começando a reverter o desmonte e a captura da Petrobras pelos grandes fundos internacionais. A inflação estão sendo pressionada, essencialmente, por dois itens: combustíveis e fertilizantes. No primeiro caso, os subsídios podem ser medida emergencial válida. Mas a recriação, mesmo que muito embrionária, de uma rede de postos de abastecimento estatal evidenciará os lucros extorsivos que as redes privadas obtêm, quando compram barato da Petrobras e vendem com margens de oligopólio. Permitirá falar em reestatização da BR Distribuidora. Pense no efeito de um pequeno número de postos por capital, vendendo combustíveis a preços substancialmente inferiores aos demais.No segundo, abre-se a brecha para abordar dois temas cruciais: por um lado, o desmonte do setor de fertilizantes da Petrobras e a dependência dos produtos importados, que se estabeleceu num setor essencial. Por outro, os potenciais de agroecologia, e do uso de adubos orgânicos. Também aqui, a eventual concessão de benefícios fiscais, para minorar o sofrimento atual, precisa ser acompanhada de ações sinalizadoras de que não se trata de “enxugar gelo”, mas construir um futuro mais justo e seguro.

A fila na concessão de aposentadorias, quase duas vezes maior que no fim do governo Bolsonaro, não é apenas uma brecha gigantesca nas pretensões eleitorais de Lula. É também um emblema das injustiças sociais produzidas pelo “arcabouço fiscal” e dos constrangimentos absurdos a que o governo se submeteu, sem que isso resultasse em benefício algum. O presidente tem meios para zerar a fila nos próximos meses. Se necessário, pode, para cumprir a meta legal de “resultado primário” no Orçamento, propor ao Congresso que as despesas correspondentes sejam excluídas do arcabouço – como se já se fez, em novembro de 2025, para destinar R$ 30 bilhões ao reequipamento das Forças Armadas. Ainda que não se reverta, por enquanto, uma política de “austeridade” anacrônica e concentradora de renda ao extremo, o gesto sinalizará que gastos públicos essenciais não podem continuar submetidos à lógica do rentismo. Se as eleições são normalmente complexas e imprevisíveis, em 2026 estas características serão mais agudas. As últimas pesquisas, divulgadas em 28/4, mantêm empate técnico, no segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro. A rejeição muito alta dos dois candidatos permite que outros – como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e até Ciro Gomes – mantenham esperanças. Há, mais do que isso, fatores imponderáveis. Que rumos tomará a agressão dos EUA ao Irã? Trump, cujo poder bélico descomunal vê-se em apuros diante de um adversário muito menor, tentará a invasão terrestre? Até quanto irão os preços do barril de petróleo, que se mantêm em torno de 100 dólares (mais de 50% acima do patamar pré-ataque) e podem subir? O Brasil seguirá com acesso reduzido aos fertilizantes? De que forma tudo isso pesará sobre a carestia e os tomates na balança? Qual será a estratégia das big techs norte-americanasque são atores centrais no espaço público brasileiro, têm ligações notórias e assumidas com a ultradireita global e sabotam abertamente as tentativas de regulação do Estado brasileiro? O bolsonarismo, que tem importante capacidade de mobilização popular e histórico de intentonas golpistas, tentará repeti-las? Como reagirão as Forças Armadas? Diante de tantas eventualidades possíveis e potencialmente desestabilizadoras, Lula e a esquerda permanecerão desarmados politicamente? Confiará apenas na manutenção da normalidade e nos instrumentos “de mercado”? Em que momento recorrerá a seus trunfos históricos: a consciência popular e o poder de lançar, a partir do governo, ações que alteram o status quo e mobilizam as maiorias?

Os próximos cinco meses serão um voo em meio tempestade, contra inimigos ardilosos e com poder. O piloto, e os que esperam sua vitória, precisam conhecer as armas de que dispõem – e estar prontos a empregá-las.

 

Fonte: Outras Palavras 

 

Operações militares da ditadura para assassinar opositores custaram cerca de R$ 1 mi

No dia 8 de janeiro de 1973, o Centro de Informações do Exército (CIE) finalizou uma de suas ações mais brutais. Militares ligados ao principal órgão de repressão da ditadura militar invadiram um sítio em Abreu e Lima, na região metropolitana do Recife, e assassinaram cinco integrantes do comando da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma das principais organizações da luta armada contra o regime.

A ação, conhecida como massacre da Chácara São Bento, foi a etapa final do plano da ditadura para exterminar a iniciativa da Vanguarda Popular Revolucionária de retomada de uma guerrilha e também uma resposta dos militares à descoberta do agente duplo José Anselmo dos Santos, o “cabo Anselmo”. Mas nos arquivos do coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, aquele era o final da Operação Kymball, uma das dezenas de ações clandestinas conduzidas pelo órgão entre 1969 e 1974.

Os dados de uma caderneta empoeirada de 83 páginas, coordenada pelo coronel Cyro Etchegoyen, expõe os gastos com todo o planejamento desses cinco assassinatos. Além disso, o ICL Notícias fez um cruzamento de informações entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com as informações produzidas pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos e encontrou pagamentos de ações militares que resultaram em,  pelo menos, outras 29 mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

O coronel Cyro registrou informações de despesas e receitas detalhadamente por 54 meses –de dezembro de 1969 a junho de 1974–, os gastos da equipe do órgão com o dia a dia da repressão política durante os governos Médici e Geisel. De acordo com essa contabilidade, o CIE gastou ao menos 615 salários mínimos em operações clandestinas. Em valores de hoje, isso equivale a um orçamento de aproximadamente R$ 1 milhão.

A caderneta faz parte dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte, em fevereiro deste ano, à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias, entre estes a caderneta.

<><> Contabilidade da barbárie

Registrada meticulosamente a mão pelo coronel Cyro Etchegoyen, chefe de contrainformação do órgão, a contabilidade aponta para a existência de pelo menos dois aparelhos clandestinos do CIE. Um deles é a “Casa da Morte”, em Petrópolis, mas um registro em agosto de 1971 indica pagamentos para a “manutenção de um aparelho em Raiz da Serra”, localidade próxima a Magé, no interior do Rio.

Nas minúcias dos custos, há também dados que apontam para, ao menos, 29 operações e ações sigilosas realizadas pelo CIE contra organizações de esquerda. Destacam-se entre as anotações os custos envolvidos na infiltração de agentes duplos em organizações de esquerda.

A primeira delas, segundo o próprio Cyro é a “Operação Morro Velho”, codinome dado a Victor Luiz Papandreu, que o militar descreve como um agente duplo. Papandreu era da VPR, tinha o codinome “Grego” e é registrado como desaparecido desde 1971. O tenente médico Amilcar Lobo contou em livro ter presenciado seu assassinato dentro da “Casa da Morte” quando os militares teriam avaliado que ele não tinha mais condições de dar informações. No entanto, não há comprovação de que ele, de fato, tenha morrido.

Em outro documento do arquivo de Cyro Etchegoyen, ele detalha que só nessa ação foram assassinados cinco integrantes de “comandos nacionais”, seis foram presos e um total de 25 opositores foram identificados. No livro, “Seu Amigo esteve aqui”, da jornalista Cristina Chacel, a autora detalha que os últimos contatos de Carlos Alberto Soares de Freitas e Antonio Joaquim Machado teriam sido com Papandreu.

<><> Casa da Morte de Petrópolis

As anotações de Cyro Etchegoyen também dão pistas sobre a rotina da Casa da Morte de Petrópolis – aparelho clandestino onde mais de uma dezena pode ter sido assassinada. As vítimas depois tiveram seus corpos ocultados.

A única sobrevivente foi a militante Inês Etienne Romeu – a responsável por denunciar os crimes cometidos por militares no local e por identificar parte dos torturadores que atuavam na casa, inclusive, o “dr Bruno”, codinome de Cyro Etchegoyen. A dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária foi levada para o aparelho na Região Serrana do Rio em maio de 1971, onde foi presa e torturada por cerca de três meses.

Em julho daquele ano, a contabilidade registra “despesas com Inez”, no valor de 100 cruzeiros, quase meio salário mínimo na época. Os militares do CIE tinham o objetivo de transformar Inês em uma infiltrada, coisa que nunca aconteceu. Como parte do plano, a colocaram em liberdade em agosto de 1971. Inês, no entanto, chegou na casa de sua irmã Geralda e denunciou a família todo o que aconteceu durante sua prisão.

Naquele mês, a caderneta de Etchegoyen registra várias despesas relativas à ida de Inês –identificada com o codinome de Maristela pelos militares– para Minas Gerais.

Uma delas, confirma a tentativa frustrada de transformá-la em um agente duplo. O coronel Etchegoyen anota “Pago a Maristela, conforme contrato”, também no valor de 100 cruzeiros.

<><> “Cabo Anselmo”

O caso mais famoso de agente duplo, porém, é o do “cabo Anselmo”. Na contabilidade de Cyro Etchegoyen, os custos relacionados à infiltração de Anselmo na VPR no Recife estão rotuladas como Operação Kymball — codinome dado pelos agentes do CIE a ele. Somente nessa ação, a reportagem identificou gastos que somaram mais de 172 salários mínimos –o equivalente a R$ 279,3 mil em valores de 2026.

A operação que resultou no massacre da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, consumiu boa parte desses R$ 279,3 mil. A ação foi desencadeada para resgatar Anselmo, que, segundo os arquivos de Cyro Etchegoyen, chegou a ser preso pelos militantes da VPR. A ação de resgate e assassinato dos militantes da VPR mobilizou um total de 18 homens, em cinco equipes do CIE, duas do DOPS de São Paulo e uma outra do DOI do IV Exército, do Recife.

Uma ação clandestina  focada no Rio Grande do Sul, batizada de Operação Pampa, consumiu outros R$ 102,1 mil. Os registros da Operação Pampa mostram a participação direta de Etchegoyen em campo, bem longe do escritório do CIE, no Rio de Janeiro.

Há registros de gastos com duas viagens de “Dr Bruno” – codinome de Cyro Etchegoyen no aparato de repressão– para Porto Alegre durante o ano de 1972. As datas coincidem com viagens oficiais do coronel para a capital gaúcha, conforme anotações encontradas pela reportagem na ficha funcional do militar –nela há ainda uma terceira viagem ao Rio Grande do Sul não registrada na contabilidade em 1972.

 

Fonte: ICL Notícias

 

Conflito de interesse: Regra é ignorada por médicos, e farmacêuticas investem em presentes

Pessoas bonitas, bem vestidas, empurrando malas e aguardando em consultórios médicos. Elas cumprimentam secretárias, trazem quitutes apetitosos, exibem sorrisos e fazem convites para que profissionais médicos discursem ou compareçam a congressos em destinos paradisíacos, regados a álcool, festas e até acompanhantes de luxo. Hollywood já fez você reconhecer facilmente este retrato. A relação entre representantes comerciais da indústria farmacêutica e profissionais de saúde já foi apresentada nas telas do cinema inúmeras vezes, sempre ilustrando escândalos de corrupção ou atentados à saúde pública, baseados em histórias reais que chocam por duas semanas, antes de entrarem no esquecimento coletivo. Quando não há registros de mortes ou golpes financeiros, no entanto, o enredo é outro — como no uso de canetas emagrecedoras. Especialmente no Brasil, onde há espaço para a naturalidade. Os mesmos profissionais que prescrevem as novidades de mercado são, por vezes, contratados pela indústria farmacêutica. Outras vezes, recebem mimos que vão das tradicionais inscrições em congressos e viagens com despesas pagas incluídas até presentes para consultórios, como poltronas ou aparelhos de uso diário. Tudo dentro da lei, nada ilegal — e quase regular.

Desde março de 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM) supostamente exige que todos os médicos brasileiros declarem, na plataforma CRM Virtual, eventuais conflitos de interesse relacionados à indústria farmacêutica, incluindo o tema das canetas emagrecedoras. A exigência foi publicada no Diário Oficial a partir da Resolução 2386/24 e prevê que os médicos podem enfrentar processos disciplinares e até ter o registro cassado caso não deem transparência às contratações, como palestras, pesquisas ou consultorias, que tenham prestado às farmacêuticas. As partes do “quase regular” e do “supostamente” encontram amparo na realidade prática em três pontos. O primeiro é que a norma rege que, antes de qualquer manifestação pública e até de entrevistas, os médicos apresentem seus conflitos de interesse – o que se mostra incomum, mesmo em transmissões de TV, rádio e ainda mais nas redes sociais. O segundo é que, a contragosto até de quem a propôs, a regra deixa de fora a exigência de transparência quanto a presentes pessoais ou profissionais recebidos pelos profissionais. “O meu texto original tinha isso [exigência de declaração de tudo o que for recebido], mas foi retirado”, afirma Raphael Câmara, um dos 28 conselheiros do CFM e autor da proposta que norteou a resolução, que diz acreditar ser difícil que um nível mais duro de transparência venha a ser aprovado num futuro próximo. “Só se vier uma lei, se vier por outro caminho. […] Mas nada impede que, daqui a um ano, até com a pressão da mídia e pressão popular, isso venha a ser considerado”. O médico destaca, ainda, que, em sua avaliação, a falta de cuidados com o assunto dos presentes, congressos, jantares e outros “mimos” representa um problema mais significativo do que vem sendo percebido pela categoria. “De irrelevante não tem nada; a resolução, inclusive, é por isso. É um problema maior para o sistema público, porque você, hoje, tem uma pressão enorme dessas indústrias para que os medicamentos sejam incorporados ao SUS, né? Ficam dizendo que são as melhores coisas do mundo [canetas emagrecedoras] e se utilizam de porta-vozes de notório saber, respeitados pela sociedade – e muitas vezes é a imprensa que cria essas pessoas”, adiciona Câmara.

<><> Por que isso importa?

•        A intrincada relação financeira entre a indústria farmacêutica e os médicos, evidencia como a falta de transparência e de fiscalização pode comprometer a imparcialidade das prescrições, o que impacta diretamente a saúde da população, deixando uma alerta aos pacientes sobre os possíveis incentivos por trás do crescimento exponencial nas vendas de canetas emagrecedoras.

O terceiro ponto impressiona pelo caráter oficial: literalmente quase nenhum médico cumpre a obrigação de realizar a declaração na plataforma nacional. No Brasil existem quase 600 mil médicos em atividade. Em 2025, apenas 94 profissionais cumpriram a exigência em todo o país, segundo o próprio conselho. “A gente entende que muitos médicos ainda talvez não estejam cientes da lei”, avalia Câmara. Ele esclarece também que o CFM prevê punições pelo descumprimento de resoluções, que podem chegar até à cassação; no entanto, nenhum procedimento de fiscalização foi realizado para fazer valer a regra até o momento. Uma campanha de conscientização vem sendo planejada desde 2025 para que os conselhos regionais, presentes em todos os estados, realizem ações que informem os médicos sobre a exigência de declaração de conflitos de interesse, mas, até o momento, não há prazo de veiculação definido pelo órgão.

A resolução do CFM é o único dispositivo nacional para coibir a cooptação de médicos pela indústria farmacêutica e visa ampliar a transparência das transações econômicas e dos benefícios indiretos entre a indústria e os profissionais de saúde. Na prática, a norma é uma versão nacional, porém desidratada, de uma obrigação estadual em vigor em Minas Gerais, com adesão muito superior, ainda que não disponha de fiscalização relevante. A plataforma DeclaraSUS reúne as doações e patrocínios de indústrias farmacêuticas a médicos e sociedades médicas e expõe, por tipo de benefício, os recebimentos dos profissionais de saúde do Estado, abrangendo desde despesas com alimentação até contratos particulares e até mesmo inscrições em eventos. O site é de acesso aberto à população e foi concebido em conformidade com as leis 22.440/16 e 22.921/18. Segundo o UOL, a indústria farmacêutica investiu R$ 200 milhões entre 2017 e 2024 apenas com médicos mineiros. Um em cada dez profissionais de saúde listados entre os beneficiados pela indústria farmacêutica no estado é de endocrinologia.

<><> Canetas emagrecedoras: boom nos dois lados do “balcão”

De acordo com a Associação dos Distribuidores Farmacêuticos do Brasil (Abafarma), os medicamentos para emagrecimento e diabetes, incluindo os chamados “análogos do GLP-1”, dominam o mercado brasileiro e seguem em ascensão. São R$ 19,2 bilhões apenas entre setembro de 2024 e setembro de 2025, metade de tudo o que se vende hoje nas farmácias nacionais e uma dominância completa do top 5 dos remédios mais vendidos, segundo levantamento da IQVIA para a Abafarma. Os números não chocam quem observa a corrida que se formou no setor nos últimos dois anos. Uma outra curva significativa no período, mais discreta, não é facilmente percebida. O mesmo DeclaraSUS, que exibe as doações recebidas por médicos, também serve de termômetro das tendências de mercado das companhias farmacêuticas. Desde 2017, o desembolso só cresce por conta de duas desenvolvedoras das chamadas “canetas emagrecedoras”, que detêm três dos cinco medicamentos mais vendidos no Brasil no ano passado – a Novo Nordisk, que comercializa a semaglutida sob as marcas Ozempic e Wegovy, e a Eli Lilly, que vende a tirzepatida sob o nome de Mounjaro. Juntas, as empresas declararam ter investido quase R$ 24 milhões para beneficiar ou contratar médicos apenas em um estado da federação: Minas Gerais, o único em que a declaração transparente é obrigatória.

Não é possível atestar correlação entre as duas curvas, ou uma relação de causa e efeito, apenas evidenciar seus comportamentos proporcionais e simultâneos. Segundo a Abafarma, o Brasil, que consumia 4,1 milhões de unidades de canetas emagrecedoras em 2021, passou para 7,3 milhões no ano passado, um crescimento de 78,3%. Enquanto isso, entre 2021 e 2024, ambas as empresas quase triplicaram o investimento em relacionamento com profissionais médicos. A Eli Lilly passou de investir R$ 586 mil em um ano para aplicar R$ 1,4 milhão em profissionais de saúde mineiros em 2024. A Novo Nordisk, no mesmo período, passou de R$ 1,4 milhão para R$ 3,9 milhões.

A Novo Nordisk se firmou entre os dez laboratórios que mais investem na relação com profissionais médicos em Minas Gerais nos últimos dez anos. Um dos esforços para a integração com profissionais é o programa Discussão de Caso Clínico, no qual a empresa aprova um estudo de caso elaborado por um médico convidado que tenha acompanhado pacientes com o uso da semaglutida, para que, durante um jantar, ele possa ter uma troca direta com pequenos grupos de três ou quatro outros profissionais, em geral endocrinologistas ou nutrólogos, sobre a experiência com os medicamentos. A interação entre os profissionais durante confraternizações pós-análises é publicada de forma recorrente em perfis de médicos nas redes sociais.

<><> Canetas emagrecedoras: do convite à ação

•        Médicos, em geral endocrinologistas e nutrólogos, registram encontros informais com colegas da área de saúde em jantares promovidos por fabricantes de canetas emagrecedoras

•        Médicos, em geral endocrinologistas e nutrólogos, registram encontros informais com colegas da área de saúde em jantares promovidos por fabricantes de canetas emagrecedoras

Procurada pela Agência Pública, a Novo Nordisk alegou, sobre as canetas emagrecedoras, que o programa discute “casos clínicos reais, anonimizados, trazidos pelos médicos” e se apresenta sob a crença de que a “capacitação de quem está na linha de frente é a forma mais responsável de contribuir para a saúde da população”. A companhia informa que “se trata de uma iniciativa de educação médica continuada, uma prática padrão da indústria e considerada essencial para a evolução da medicina e, consequentemente, para a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes” e destaca que “nessas iniciativas não há contato algum da indústria com o paciente”.

A Eli Lilly diz que os investimentos na relações com médicos serviria para embasar a decisão de profissionais, não para influenciá-los sobre canetas emagrecedoras, e destacou que as colaborações feitas com médicos refletem “o ciclo de inovação que a Lilly viveu em 2025” e que essas relações “são regidas por rígidos padrões de transparência e compliance, em conformidade com o Código de Conduta da Interfarma e as diretrizes do CFM”. Além disso, a empresa norte-americana afirma que “a empresa não apoia financeiramente profissionais de saúde com o objetivo de recompensar ou incentivar práticas de prescrição – passadas, presentes ou futuras”.

A presidenta da Sociedade Brasileira de Bioética, Marisa Palácios, lembra que, na década de 1970, representantes comerciais sequer eram autorizados a adentrar ambientes hospitalares, o que mudou a ponto de se tornar naturalizado na contemporaneidade. Ela avalia que o contato das indústrias com os profissionais e com o ambiente de pesquisa científica deve ser controlado, e que a discussão precisa ser levada a sério. “Essa relação interfere na forma como o médico atende o paciente e na pesquisa que realiza, e precisa ser controlada. É preciso que isso seja discutido no âmbito das publicações [científicas], das profissões e das instituições”.

>>> Entrevista

•        Líder em recebimentos da indústria, médica mineira detalha R$ 833 mil em benefícios: “amo essa classe medicamentosa”

“Ana Paula, seus olhos brilham quando você fala disso (canetas emagrecedoras)”. É assim que a endocrinologista Ana Paula Xavier Zanini conta que se referem a ela quando apresenta seus conhecimentos sobre os análogos de GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras. A médica mineira lidera a lista de profissionais de saúde do estado de Minas Gerais que mais receberam recursos das produtoras desses medicamentos, a dinamarquesa Novo Nordisk e a norte-americana Eli Lilly. Desde 2017, declarou o recebimento de R$ 833 mil das duas empresas, sendo R$ 782 mil apenas da farmacêutica europeia que produz a semaglutida sob os nomes comerciais Wegovy e Ozempic. Em entrevista à Pública, ela falou, entre outros assuntos, sobre o universo dos medicamentos, sobre sua experiência em consultório e os desafios no enfrentamento à obesidade. Os trechos a seguir foram os destaques da conversa em que ela detalha a participação no programa Discussão de Casos Clínicos, da Novo Nordisk, conta as preocupações que mantém para não burlar limites legais e éticos e como a prática de aproximação da indústria farmacêutica já se tornou parte regular da sua rotina nos últimos anos.

•        Com a queda da patente da semaglutida em março de 2026, o que muda na expectativa de tratamento da obesidade e do diabetes no Brasil?

Eu acho que isso é uma evolução, um processo de ampliar o acesso da população com diabetes e obesidade a esses medicamentos, porque vão entrar no mercado – é o termo que o pessoal usa na nossa área – “novos players”, né? Então seriam outras empresas do ramo farmacêutico que vão disputar esse mercado e, consequentemente, quando a gente tem várias disputando o mercado, o preço é uma questão que vai ser o primeiro ponto para atrair os pacientes. Existe uma diferença entre a medicação atual e uma medicação biológica, a semaglutida sintética, que vai entrar no mercado, o que envolve, às vezes, alguns custos de produção, que são mais baixos. Do ponto de vista do médico, nós vamos ter a curiosidade de avaliar se não vamos encontrar diferenças do ponto de vista clínico e de prática, porque eles (os medicamentos) têm essa diferença.

•        A patente da liraglutida, anterior e mais fraca que a da semaglutida, já caiu no Brasil, e há biossimilares no mercado brasileiro, mas fala-se bem menos sobre essa substância do que sobre as que vieram depois. Por que a senhora acha que a semaglutida (Ozempic) não seguirá o mesmo roteiro de sucesso da tirzepatida (Mounjaro)?

Eu acho que é porque a potência da semaglutida é realmente superior à da liraglutida. Ela atende um grande volume de pacientes porque a gente tem expectativas muito altas quanto à perda de peso. Às vezes, você tem pacientes que perdem 15% do peso. E, como no Brasil a gente tem uma população em que a maior parte não tem obesidade mórbida, e sim uma obesidade mais leve, essa medicação seria suficiente para atender. Eu acho que o que está tirando um pouco do brilho desse momento é que tenho a entrada desses produtos manipulados e, de origem, vamos dizer assim, duvidosa. Por que você tem produtos de que você não sabe nada, de onde eles surgem, de onde eles vêm? É uma farmácia que manipula. De onde vem essa base? Não passa por fiscalização; gera muita insegurança para nós, médicos. Eficácia tem, mas eu não sei se tem segurança; não sei o que tem ali dentro, nem como foi feito o transporte desse produto. Eu tenho mais de 30 anos de formada e nunca vi nada do tipo durante a patente de uma molécula. Você tem um tanto de marcas chegando do Paraguai e da China, produtos manipulados. Eu nem sabia que podia fazer isso…

•        Na verdade, nem pode, né?

Coisas que acontecem no Brasil. Existe uma brecha legal. A Anvisa permite a manipulação de alguns produtos sob patente sob a alegação muito exclusiva de “aí eu preciso de uma dose específica para aquele meu paciente porque a dose que seria adequada para ele não existe”. Então, há uma brecha nesse campo para realizar manipulações. Mas o que nós estamos assistindo não é uma dose individualizada, fora do padrão; é uma indústria de produção em massa, nada individualizada, com produtos, infelizmente, sem nenhum tipo de documentação que ofereça segurança. A pessoa pode desenvolver complicações ao longo do uso ou devido ao emagrecimento significativo. E aí a gente está usando uma molécula que a gente não sabe exatamente o que é. Eles alegam que é uma tirzepatida, mas eu não tenho documentação sobre aquilo ali, como tenho ali na farmácia, com todo o rigor.

•        Ana Paula, como é que a senhora, pessoalmente, utiliza a sua experiência com esses medicamentos e também mantém um distanciamento ético em relação à indústria farmacêutica? Para, de repente, não cair na coisa da propaganda, do estímulo ao uso?

O paciente que chega aqui é um paciente doente. Eu não tenho essa demanda, assim, da pessoa que está vindo aqui puramente por estética, por 2, 3 quilos, não é? Os meus pacientes são pacientes com patologia associada, ou seja, diabéticos ou com alterações coronarianas, que realmente precisam manter controle metabólico. Então, o medicamento não é a questão. Talvez o grande desafio para o médico seja escolher qual medicamento você vai tomar. E o que pesa é a eficácia, a segurança, o custo, o fato de que essa medicação precisa ser mantida a longo prazo… Então, também não adianta a pessoa ter condições financeiras para realizar apenas um mês de tratamento. Eu preciso pensar em uma medicação contínua. Agora, ética é ética. Ou você tem ou você não tem. Eu acho que isso é muito mais uma questão de caráter do indivíduo.

•        Pergunto por que, em Minas Gerais, a gente tem um caso muito significativo, diferente do resto do país, porque a gente tem aquela questão da declaração obrigatória com a Secretaria de Saúde, o DeclaraSus, que é justamente para falar sobre a relação das indústrias com os médicos. Por exemplo, quando a gente entra na base de dados, há contratações dessas empresas, Novo Nordisk e Eli Lilly, de uma série de profissionais, a maioria deles, endocrinologistas, o tipo de coisa que não fica tão transparente para o paciente, ou que poderia colocar em xeque a opinião do profissional de saúde. Por exemplo, eu chequei aqui: o seu nome aparece como o que mais recebeu benefícios da Novo desde 2017, em contratação, hospedagem, estudo de caso clínico…

Não, são aulas. São aulas que a gente faz pelo Brasil. É de todos porque eles têm três produtos. E eu divulgo, vou dizer assim, o que apresento aos médicos. É um comprimido de semaglutida, chamado Rybelsus, sobre o qual não se fala muito na mídia. Tem o Victoza, depois, veio o Ozempic e, depois, o Wegovy. E a empresa faz uma escolha entre duas opções. Primeiro, quem tem muito volume de prescrições. Eu sempre gostei muito de tratar a obesidade. Então, eu sempre tive volume de prescrição. Se existisse um dado, por exemplo, sibutramina, seria a única opção; você acharia meu nome lá. Como é que surge esse convite para dar aula? Aí tem uma característica do profissional. Você tem que ter um pouco do perfil de saber falar bem, de não ficar com vergonha em público. São pessoas diferentes que fazem convites para o médico. Ah, tem um gerente lá em Manaus, ele precisa de uma aula. Quando é que eles chamam a gente? Eles chamam quando, exatamente, veem que o volume de vendas naquele lugar está baixo. Tem eventos em congresso também, patrocinados, né? O congresso, todos os congressos médicos, o que você falou da questão da ética? É muito complicado isso. Como funciona isso no congresso médico? Eu tenho que pagar pelo auditório. Se eu for trazer um palestrante internacional, tenho que custear o transporte dele e assim por diante. Então, as empresas que são fabricantes de medicamentos, se aquele congresso tem um público de médicos prescritores de seus produtos, é interessante para elas patrocinarem aquele congresso. Então, é uma via de mão dupla. Eu vou falar sobre o seu produto e você vai viabilizar esse encontro científico. Mas uma coisa que aí, eu falo aqui, entra também a ética e o estado profissional. A empresa, quando você está contratada por ela, lhe fornece o material que pode apresentar. Todo o material que pode ser apresentado no evento consiste em artigos científicos. Eu não posso falar nada sobre a minha opinião. Se eu for perguntar sobre a minha experiência para alguém lá, eu posso falar “eu faço assim, eu faço assim”, mas eu tenho que apresentar aquilo que está na bula, dentro das indicações da bula. Por exemplo, quando eu dava aula sobre Ozempic, ele não estava aprovado para o tratamento da obesidade. Eu usava no meu consultório, off-label, para o tratamento da obesidade, porque já havia publicações internacionais que respaldavam essa conduta. A empresa não pode falar nada sobre obesidade num evento médico, senão o que consta na bula da Anvisa; senão, vai pagar multa também. E eles cobram isso muito do profissional.

•        Mas do jeito que a senhora falou, por exemplo, que a senhora fazia esse uso off-label antes de ele ser aprovado, quando você apresenta isso em outros estados para outros profissionais e acaba respondendo sobre sua experiência pessoal, isso não seria uma forma de influenciar seus colegas?

Se alguém me perguntar uma opinião pessoal, eu tenho que falar “olha, gente, isso não está na bula, isso não tem respaldo, mas eu tenho o costume de fazer de tal forma”. Por exemplo, como é que eu vou contornar os efeitos colaterais? Prisão de ventre é efeito colateral comum a esses dois medicamentos. Na bula não fala que deve usar o remédio A, B, C ou D, mas aí eu posso, se for me perguntar, “ah, gente, eu tenho feito assim e assim. É uma opinião, mas o que é apresentado durante a aula é só o que está na documentação científica e o que está na bula. Não pode passar nada ali em cima. Quando a gente está fazendo uma discussão científica, a gente fala sempre em nível de evidência, né? O nível de evidência ocorre quando você tem um artigo publicado, mas sua experiência clínica não alcança esse nível. Na medicina, nem tudo vai estar no papel, algumas coisas vão estar realmente na experiência de como cada um vai encontrando um caminho para, às vezes, gerar melhor tolerância, melhor adaptação ao tratamento, mas isso não é considerado errado ou antiético do ponto de vista médico.

•        Aqui consta, desde 2017, que a senhora recebeu R$ 782 mil por contratações, hospedagens, inscrições, refeições e transporte da Novo Nordisk.

Eu não sei se dá esse dinheiro todo, gente.

•        Eu só queria confirmar se o registro estava correto na base de dados.

Eu gerei essa despesa toda. Onde eu descubro isso?

•        É no site do DeclaraSus, do governo de Minas. Hospedagens, R$ 428 mil. Contratações R$ 268 mil…

Eu não faço a menor ideia por que, quando a gente é contratado, eles mandam para a gente: “Você vai ficar no hotel tal”. Não sou eu que escolho. Não pode ser um hotel de luxo; tem que ser de três estrelas. Justamente essa preocupação com as questões de “ah, está comprando médico e tal”. Não, é um hotel bom, decente. Aí tem o cara que se transporta do aeroporto ao evento. Ele se transporta do aeroporto ao hotel. A alimentação eles pagam na área do hotel: R$ 250 para almoçar e isso tem que ser no hotel. Então a gente tem uma série de coisas. O protocolo, né? Eu só posso chegar, no máximo, 12 horas antes da aula, 8 horas antes, pra não configurar o turismo. Se no dia seguinte eu quiser ficar, tenho que pagar do meu próprio bolso. Eu não posso ficar muito tempo, então é sempre um bate e volta.

•        A senhora já fez muitas dessas aulas? Essas viagens para dar aula são costumeiras?

Não.

•        Não atrapalha a dinâmica do seu consultório?

Aqui, como a gente consegue remanejar os pacientes, porque, como eu falei, para eu fazer um evento desses, eu fico ausente do consultório 24 horas. Então, eu falto por um dia e meio, no máximo. Às vezes também tem aula na minha cidade ou em uma cidade próxima. Tem cidade que eu vou, a Divinópolis; vou e volto no mesmo dia. Eu dou aula e volto à meia-noite pra Belo Horizonte. Prefiro dormir na minha casa…

•        Entendi…

Agora, voltando à sua pergunta, né, sobre a ética, é uma questão que sempre vai ter. Esse questionamento sempre será oportuno. Por quê? Como a indústria seduz o médico? A indústria seduz o médico com pequenas coisas, até pela vaidade. Quando você é convidado para um evento, você já vai. Você não precisa nem ganhar; você já se sente valorizado.

•        O Conselho Federal de Medicina lançou, em 2025, uma norma para fazer algo semelhante ao que ocorre em Minas Gerais, que exigia declarações nacionais. A senhora chegou a fazer?

Não, eu nem sabia que tinha que fazer a declaração. Os médicos, ninguém sabe. Você está sabendo de algo que eu não sabia.

 

Fonte: Por Ed Wanderley, da Agência Pública

 

Bandidos de farda: Lista inédita de militares da inteligência do Exército aponta novos torturadores

No dia 15 de outubro de 1973, um bimotor brasileiro pousou na pista do Aeroporto Los Cerrillos, em Santiago, capital do Chile. Nele, chegaram a terras chilenas cinco agentes de diferentes órgãos de repressão da ditadura militar brasileira. Faziam parte da comitiva o major Victor de Castro Gomes e o capitão Paulo Barreira. Os agentes brasileiros se concentraram em fazer visitas ao Estádio Nacional do Chile, que àquela altura –34 dias depois do golpe que derrubou o presidente Salvador Allende – era usado como cárcere  para prender e torturar opositores perseguidos pela junta militar comandada pelo general Augusto Pinochet.

A escolha de Victor de Castro Gomes e Paulo Barreira tinha um motivo: os dois oficiais integravam as fileiras do CIE (Centro de Informações do Exército) no Rio de Janeiro. O órgão teve papel central na eliminação de opositores políticos ao longo das década de 1960 e 1970, o auge da violência do regime no Brasil. Castro Gomes e Barreira fazem parte de uma lista inédita com os nomes, patentes – e em muitos casos os codinomes– de 73 oficiais e praças que integraram o CIE  do Rio em meados dos anos 1970.

A lista faz parte dos documentos do coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974 e Felipe é seu filho. Uma segunda parte foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

Victor de Castro Gomes depois se tornaria coronel e, antes de ir ao Chile, atuou nas torturas e assassinatos da “Casa da Morte” de Petrópolis. O ICL Notícias descobriu que ele é o “Dr Pepe” apontado por Inês Etienne Romeu como um de seus torturadores. Ela morreu em 2015, mas desde que foi presa no cárcere clandestino, em 1971, denunciou uma série de militares, alguns constam da lista do coronel Cyro.

A identificação nominal dos agentes revela uma grande parte do efetivo do CIE no período em que o coronel Cyro chefiou a seção de contrainformações, entre 1969 e 1974. Até hoje, muitos ex-integrantes da repressão não foram identificados e não há dimensão do total do efetivo utilizado nas operações secretas de captura, assassinatos e tortura.

Apenas sete dos 73 militares na lista do coronel Cyro constam entre os 377 torturadores identificados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV). Outros dois integrantes do CIE – os sargentos Carlos Quissak e Clodoaldo Paes Cabral aparecem no relatório da CNV em uma denúncia de tortura, mas não foram incluídos na relação dos torturadores.

Desses nove torturadores que constam no relatório da CNV, foi possível identificar que apenas um segue vivo: o sargento Jacy Ochsendorf e Souza, um dos réus pela tortura, assassinato e desaparecimento forçado do ex-deputado Rubens Paiva.

O ICL Notícias cruzou diversas bases de dados para identificar cada um dos nomes apontados. Os 73 militares listados no documento guardado por décadas por Etchegoyen – com direito a anotações feitas a mão pelo coronel– tomaram parte de vários dos episódios de violência mais infames dos 21 anos do regime militar, como o sequestro e assassinato do ex-deputado federal Rubens Paiva, a perseguição ao líder guerrilheiro Carlos Lamarca e na Operação Condor.

Não é possível saber a data exata em que a planilha –uma espécie de controle de pessoal do CIE do Rio– foi elaborada. Contudo, há pistas. Entre as informações contidas no documento está a data da última promoção de cada um dos militares. Essa informação mostra que a relação foi elaborada depois de fevereiro de 1974, já durante o governo Geisel. Isto porque é a promoção mais recente, referente à mudança de patente do então 1º sargento Américo da Costa Magalhães.

Durante 50 anos, a memória sobre a ditadura militar brasileira convencionou tratar o aparato de repressão como algo marginal dentro do autoritarismo do regime. Essa narrativa foi condensada em uma expressão: os porões da ditadura. No entanto, os documentos inéditos obtidos com exclusividade pelo ICL Notícias contam uma versão diferente dessa história.

Das condecorações mais cobiçadas a compensações financeiras, a análise das carreiras dos 73 militares listados em um desses documentos mostra um grupo de profissionais altamente valorizado pelos generais que governavam o país.

Ao menos 28 dos oficiais e praças listados na planilha de Cyro Etchegoyen foram contemplados com a Medalha do Pacificador, uma dos mais importantes reconhecimentos oferecidos pelo Exército brasileiro.

A pesquisadora Maria Celina Araújo se dedica há alguns anos a sistematizar todas as pessoas que já receberam a medalha. Nem todos os homenageados ao longo dos anos estão envolvidos em crimes de direitos humanos, em especial, durante a ditadura. Mas, segundo ela e as demais pesquisas sobre os crimes da época, a grande parte dos militares que foram premiados naquele período foram reconhecidos por suas ações contra opositores políticos.

“Foram as pessoas (militares da ditadura) que mais se envolveram com repressão, que mais foram longe no sentido de às favas com os escrúpulos, né? As pessoas que tiveram mais iniciativa no sentido de prender, de torturar, de. Enfim, demonstrar serviço, né?”, explica Maria Celina.

A valorização pela cúpula do regime, no entanto, era bem mais do que simbólica. Mais da metade dos mencionados no documento recebeu durante vários anos uma gratificação financeira especial por estar lotada oficialmente no gabinete do ministro do Exército.

Essas bonificações financeiras deixaram rastros no Diário Oficial da União (DOU). A pesquisa no acervo mostra que, em vários casos, movimentações como a concessão e fim das gratificações, bem como transferências de local de serviço eram feitas em bloco. O fato aponta que os militares listados na planilha de Etchegoyen de fato trabalhavam em uma mesma equipe.

O caso mais emblemático diz respeito a uma publicação no DOU de 21 de dezembro de 1972. As duas portarias do general Orlando Geisel –ministro do Exército e irmão do futuro presidente Ernesto Geisel– transfere do estado da Guanabara para Brasília um grupo de 12 oficiais e 39 praças. Eles foram lotados, a partir de 1973, em Brasília.

O grupo viria a participar do planejamento e das ações operacionais que acabaram por desmantelar a Guerrilha do Araguaia, mantida pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

Entre os transferidos estavam o coronel José Luiz Coelho Netto, subcomandante do Centro de Informações do Exército no Rio, e o próprio Etchegoyen. Também figuram na relação vários dos mais famosos torturadores da ditadura brasileira, todos lotados no CIE carioca: casos do capitão José Brandt Teixeira –um dos militares que atuou na “Casa da Morte” de Petrópolis e nos desaparecimentos da Guerrilha do Araguaia.

Brandt foi denunciado pelo MPF (Ministério Público Federal) no Pará pelo assassinato, decapitação e desaparecimento forçado do militante do PCdoB Arildo Valadão, em novembro de 1973. Também figuram na lista 15 dos 73 militares contidos na planilha de Etchegoyen, incluindo ele próprio.

¨      Militares roubavam móveis, dinheiro e até brinquedos de imóveis em que faziam batidas

Brinquedo de criança, canetas, poltronas, estantes, sapatos, dinheiro, armas e até um carro. Esses são alguns exemplos dos itens que militares do Exército brasileiro roubaram de casas e apartamentos nos quais efetuaram revistas, buscas e prisões de militantes da luta armada. Não importava a quem pertencesse. Agentes inconformados com os desvios dos colegas denunciaram que a pilhagem atingiu pessoas que não integravam grupos de oposição à ditadura. O esquema contava até com o uso de um apartamento na Rua Tenente Possolo, no Centro do Rio, utilizado para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”

Um dos militares do CIE, de acordo com a denúncia, chegou a usar os objetos furtados para pagar seus caseiros em um sítio de Teresópolis. Alguns bens, após o assalto, eram levados para a sede do Centro de Informações do Exército (CIE), no Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio, mas também para um outro escritório secreto que o órgão mantinha na Avenida Presidente Vargas, mobiliado com móveis furtados.

A denúncia desses crimes consta do depoimento de Israel Sturne, sargento do CIE, tomado em 17 de fevereiro de 1970 pelo coronel Cyro Etchegoyen no informe “Irregularidades na Seção de Operações”. Além dos assaltos, Sturne denunciou um estupro feito por um colega durante uma ação para prender integrantes da ALN em dezembro de 1969. O documento integra o arquivo secreto do oficial que é publicado pelo ICL Notícias no projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio.

O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

<><> Móveis roubados para encontros com amantes

No relato, Sturne diz que os paraquedistas que vieram servir no CIE eram os principais envolvidos nos crimes relatados. Ele estranhou o fato de os colegas serem voluntários para qualquer tipo de missão, especialmente estouro de aparelhos.“Em sua impressão todo o problema começou com a vinda dos referidos paraquedistas para o CIE, pois a partir de certo tempo verificou que quando se estourava um aparelho, este era cercado por eles e ninguém entrava no recinto sinão depois de certo tempo”, afirmou o sargento.

Logo adiante, Sturne completou: “Com o correr do tempo soube que os objetos retirados dos aparelhos eram, em sua maioria, levados para a rua Tenente Possolo, local utilizado pelo pessoal da Seção de Operações para encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino. Tal apartamento é de propriedade de um amigo do capitão Malhães que lhe cedeu particularmente”. O endereço completo do apartamento para os encontros com amantes não foi informado no documento.

Nas palavras do sargento, do “ponto de vista humano”, ele “chocou-se com a violência sexual sobre a sra Marilene” que alugava quartos para integrantes da Ação Libertadora Nacional e sequer era integrante do grupo. Além de estuprá-la, segundo Sturne, os agentes que atuaram na ação roubaram até um brinquedo de seu filho. “Que dona Marilene pediu-lhe para reaver um objeto (um carrinho de corda) que comprara para dar a seu filho no Natal e que deixara no quarto de Aton. Que informou na S-104 mas tal objeto não reapareceu”, contou.

Quem também lembra do episódio é Augusto dos Santos Mello, filho de Marilene. Ele tinha seis anos, na época, e o dia marcou sua memória para sempre: “Quando eles invadiram minha casa, eles rasgaram o colchão, brinquedo de palha, meu cavalinho todo, os brinquedos. Tudo foi destruído procurando dinheiro. Não ficou nada”.

No depoimento ao CIE, Sturne relatou ainda que, em outra ação, um móvel foi levado para o CIE. “O apartamento era muito bem montado e foi completamente desmontado; sabe que o móvel da sala (tipo estante) foi levado para o escritório do CIE na Avenida Presidente Vargas”, disse. Outro destino dos bens relatados pelo denunciante foi a garagem de um imóvel ocupado por uma mulher e duas crianças ligadas ao ao “tenente-coronel Caldeira” na Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.

Na denúncia, o sargento identificou que esse comportamento não era só dos subordinados, mas também dos oficiais superiores, seus chefes de operações, e citou o caso do então Major Rubens Paim Sampaio. “Quanto ao Major Sampaio (Paraquedista), que soube apenas de uma troca de móveis, isto é, que o referido oficial ao saber que umas poltronas haviam sido enviadas a Jacarepaguá, foi buscá-las e as trocou por outras existentes em sua residência. Nessa ocasião, foi utilizado o caminhão do gabinete para a mudança”, revelou. Sampaio, já morto, também foi denunciado como um dos torturadores de Inês Etienne Romeu, na “Casa da Morte”, de Petrópolis, e é um dos acusados pelo assassinato do deputado federal cassado Rubens Paiva.

Além de Sampaio, algumas das ações que terminaram com assaltos tinham o comando do tenente-coronel Paulo Malhães, morto em 2014.  “Quanto ao capitão Malhães, que sabe ser da teoria de que todas as coisas retiradas devem vir para o CIE, ou para o escritório do Presidente Vargas, ou, finalmente, para a Ten Possolo; que as coisas retiradas devem ser de utilização coletiva pelo pessoal da seção de operações”. Segundo Sturne, para Malhães, o ato de levar objetos das casas não seria ilegal na lei deles. Malhães “considera roubo retirar coisas para uso pessoal”.

<><> “Louco com prazeres sádicos”

Sturne foi mais duro com alguns. “Quanto ao sgt Canaã que lhe parece um louco cheio de prazeres sádicos; que é um irresponsável e que leva tudo o que pode para sua casa”

O sargento Iracy, apontado por Sturne como o estuprador de Marilene, admitiu a retirada de itens, mas negou a violência sexual. “Que apanhou para si alguns lápis, 3 canetas esferográficas, 1 par de sapatos usados, 1 grill”, afirmou. Ele disse ainda que “um monte de dinheiro apreendido pelo cap Mauricio da Operação Bandeirante na Ten Villas Villas Boas; não sabe a quantia nem destino”. O capitão Maurício Lima foi apontado pela ex-presidente Dilma Rousseff como um dos agentes que a torturou na Operação Bandeirante em São Paulo.

Após a denúncia de Sturne, um soldado identificado como “Gordo” prestou depoimento em 16 de fevereiro de 1970 e confirmou os assaltos. “Ouvido pelo chefe da Seção de Contra-Informações, o referido soldado confirmou que fez várias mudanças para o pessoal da Seção de Operações do CIE”, disse.

Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma inspeção nesse chamado aparelho que diziam na época e que lá era divididos em paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria dormido com a senhora do apartamento”, conta.

Na memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o pai era pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que mudar dessa casa  ai para outra. Então, morei em laria, Ramos e depois fui parar na Ilha do Governador”, completa.

Dois meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe do órgão de repressão.

Por conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.

 

Fonte: ICL Notícias