Como
viver a menopausa?
Os
termos menopausa (do grego mēn, mês ou Lua, indicando o ciclo menstrual, e
pausis, parada ou cessar) e climatério (do grego klimacter) foram cunhados no
início do século XIX, pelo médico francês Charles Pierre de Gardanne. Em De la
Ménopause, ou de l’âge critique des femmes, publicada em 1816, Charles Gardanne
considerou a menopausa uma síndrome e utilizou o termo climatério para nomear o
período que antecede o fim da vida reprodutiva das mulheres, em que ficariam
mais vulneráveis a doenças e alterações físicas.
Apesar
de criar um imaginário patológico e pejorativo, já indicado pelo próprio
título, em torno de um fenômeno natural na vida das mulheres, a obra é um marco
importante na história da medicina e orientou os estudos sobre a menopausa
durante todo o século XIX.
Contudo,
estudar a menopausa não atraiu o meio médico, uma vez que, até o início do
século XX, a expectativa de vida das mulheres era inferior a 40 anos (no
Brasil, a média era de 33 anos), ou seja, a grande maioria não vivenciava a
menopausa. Apenas nos anos 1940, a ciência e a medicina começaram a investigar
a menopausa, suas causas e sintomas, de forma mais intensa.
A obra
do médico Robert Wilson, publicada no Brasil em 1966, é um marco da época. Em
Eternamente feminina, Robert Wilson considerou a menopausa uma doença e sua
prevenção, tratamento e cura estariam associados à terapia de reposição
hormonal, que manteria a mulher eternamente em sua condição feminina, sugerindo
que as mulheres deveriam ser eternamente férteis e procriadoras.
Há uma
certa linha de continuidade entre as reflexões de Charles Gardanne e Robert
Wilson, mesmo que escritas numa distância temporal significativa. Ambos
valorizaram a mulher jovem, bonita, fértil e bem-disposta e difundiram uma
imagem da mulher na menopausa como descontrolada e beligerante, cheia de
calores e chorosas, temida pelos filhos e fonte de problemas para seus
companheiros.
De
forma geral, ao longo do século XX, a menopausa foi ignorada, menosprezada ou
temida e seus sintomas foram considerados patologias que deveriam ser curados.
O ambiente médico, marcado pela presença maciça de homens, e as pesquisas
clínicas sendo realizadas mais com homens do que com mulheres dificultaram e
até impediram a compreensão dos corpos das mulheres. Nesse cenário, lentes
patriarcais explicaram a menopausa de forma equivocada, como sendo um período
em que a mulher, ao deixar de ser fértil, perderia a juventude, a beleza e seu
valor social, deixando de ser útil para a comunidade.
O
assunto era tabu, inclusive entre as mulheres. Cercada de silêncio e sigilo, a
menopausa era vivida com medo, insegurança e vergonha. Desinformadas e
desemparadas, sem compreender o que se passava com os próprios corpos, ao longo
de décadas as mulheres viram (e muitas ainda vêm) a menopausa com pessimismo e
desesperança, como um símbolo do fim da vida.
Em
1980, a Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs uma padronização da
terminologia, caracterizando as fases reprodutivas da mulher. O termo
climatério, por ser pejorativo e pouco explicativo, foi substituído por
perimenopausa, período em que a menstruação fica irregular, devido à queda de
produção hormonal (o estrogênio) e alguns sintomas podem aparecer, como ondas
de calor, irritabilidade, insônia, ressecamento vaginal e redução da libido.
A
perimenopausa é seguida da menopausa, a última menstruação natural. Depois de
passado um ano inteiro da última menstruação, as mulheres entram na fase da
pós-menopausa. Contudo, esse ano é um processo dinâmico, variável de mulher
para mulher e pode demorar mais de um ano. Tal busca por termos mais adequados
que caracterizem cada fase da vida reprodutiva da mulher, também revela uma
preocupação da OMS em entender melhor cada fase. Esse foi o primeiro passo para
melhor acolher as mulheres em suas dúvidas e sintomas.
Mas,
foi somente em 2002 que se realizou um dos maiores estudos, o Women’s Health
Iniciative (WHI), financiado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados
Unidos, sobre a saúde das mulheres na perimenopausa, menopausa e pós-menopausa,
identificando uma série de sintomas (físicos, emocionais, psíquicos e
cognitivos) e como enfrentá-los, incluindo informações esclarecedoras sobre a
terapia de reposição hormonal e o momento certo de fazê-la.
Em
2024, com a publicação de O cérebro e a menopausa, da neurocientista Lisa
Mosconi, novas luzes foram lançadas sobre o fim do período fértil da mulher. A
partir de pesquisas clínicas com milhares de mulheres, Lisa Mosconi descobriu
que a menopausa é uma experiência que ocorre no corpo todo da mulher, inclusive
em seu cérebro, afetando pensamentos, sentimentos, a autoimagem e o
comportamento. Ondas de calor, insônia, sentimentos de ansiedade e angústia,
mente turva e lapsos de memória são sintomas neurológicos decorrentes de como o
cérebro é alterado pela menopausa, pois, graças ao sistema neuroendócrino, ele
está intimamente ligado aos ovários.
Todo o
estrogênio, sobretudo o estradiol, produzido pelos ovários durante a
pré-menopausa (fase reprodutiva da mulher em que os ciclos menstruais são
regulares) alimenta e regula o cérebro. Na menopausa, o estradiol deixa de ser
produzido e o cérebro precisa se organizar de outra forma para funcionar a
partir do estrona, outro hormônio estrogênico. Por isso, durante a menopausa o
cérebro perde 30% de sua energia, mas recupera seu funcionamento na
pós-menopausa, atingindo os mesmos níveis de quando o ciclo menstrual era
regular.
As
pesquisas de Lisa Mosconi (2024) também constataram que os cérebros de mulheres
e homens são hormonal, energética e quimicamente diferentes. Essa diferença não
está associada à capacidade cognitiva ou intelectual e não pode ser utilizada
para reforçar estereótipos de gênero, mas é um fator importante para pensar na
saúde das mulheres, sobretudo na menopausa.
Um
ponto importante de virada nessas pesquisas realizadas a partir do início do
século XXI, foi a participação maciça de mulheres, como médicas e
pesquisadoras, e o fato de serem pesquisas clínicas, analisando o
comportamento, não apenas hormonal, de inúmeras mulheres durante a
perimenopausa, a menopausa e a pós-menopausa. Tais estudos favoreceram muitas
mulheres que passaram a ter mais acesso a informações confiáveis e orientaram
ginecologistas a aplicar com mais eficácia as terapias de reposição hormonal.
Apesar
de tais avanços científicos provarem que a menopausa e a pós-menopausa são
períodos naturais da vivência das mulheres, muitas culturas, sobretudo as
urbanas e tecnoindustriais, continuam valorizando a mulher que consegue se
manter jovem, ativa e bonita.
Basta
um passeio por redes sociais virtuais de mulheres famosas (sobretudo atrizes e
influencers), para percebermos o quanto a busca pelo corpo perfeito (magro e
musculoso), o rosto sem rugas (graças às harmonizações faciais e ao uso
indiscriminado de toxina botulínica, o famoso Botox, que se popularizaram entre
as mulheres da classe média) e os cabelos sem fios grisalhos ainda estão em
pauta.
Esse
projeto de uniformização, universalização e dominação dos corpos é orquestrado
pela acumulação de capital. Nas redes sociais, como bem afirma Vassort (2012),
existe uma massificação disseminada que captura a vida e a torna superfluida,
pois no capitalismo mundializado, a generalização da superfluidade, como valor
subjetivo e objetivo, tornou-se central.
Tais
mulheres famosas assumem estar na menopausa, mas o envelhecimento natural do
corpo é contornado e raramente admitido, pois estaria associado ao fim de sua
sexualidade e feminilidade. São muitas que postam fotos e vídeos cômicos sobre
alguns sintomas da menopausa, sobretudo os fogachos, a insônia e a
irritabilidade, e como elas e seus parceiros enfrentam tais oscilações.
Esse
destaque excessivo dos sintomas, faz com que eles deixem de ser o que de fato
são, sinais de um processo em curso, para serem considerados o próprio
processo. Ou seja, a discussão não gira mais em torno do que é a menopausa e
sim, apenas, dos seus sintomas, o que mascara o processo natural, alienando as
mulheres de seus corpos.
Outras
redes sociais oferecem às “mulheres 50+” programas de alimentação e atividade
física eficientes para “manter a forma”. Na verdade, se trata de imagens que
valorizam “uma determinada forma”, a que expresse juventude, beleza e alta
libido, como se o corpo fosse capaz de responder sempre aos estímulos,
independente da idade biológica. O fato de preferirem a expressão 50+, não
utilizando os termos menopausa e pós-menopausa, já é um indício de negação
desse período na vida da mulher.
Nas
redes sociais também é divulgada uma série de produtos, cujos fabricantes
prometem eliminar rapidamente todos os sintomas da menopausa. Uma grande gama
de suplementos alimentares, rastreadores de sintomas, roupas terapêuticas, além
de coachs especializados, todos garantem restituir a juventude. Nesse sentido,
é preciso destacar que, no Ocidente, segundo relatório da WHAM (2026), a
menopausa é um grande negócio para o capital, tendo movimentado em torno de
US$17 bilhões em 2024 e projeta-se US$24 bilhões para 2030.
Essas
imagens invadem o cotidiano e a subjetividade, capturando, do outro lado das
telas, as mulheres reais, sobretudo das classes média e baixa. Para essas
mulheres, cada vez mais solitárias, isoladas, frágeis e massacradas pelas
inúmeras atividades cotidianas que precisam cumprir, essas imagens assumem um
lugar pseudossagrado, num sistema de produção de sentido e de verdade.
Quanto
mais contemplam, quanto mais aceitam reconhecer-se nessas imagens, menos as
mulheres vivem, menos compreendem sua própria existência e seu próprio desejo e
se tornam cada vez mais alienadas dos processos naturais de seus próprios
corpos. Ou seja, essas imagens produzem consequências socialmente
hierarquizadas, pois o abismo entre a realidade que vivem e aquela que queriam
desfrutar torna-se uma enorme fonte de frustração e sofrimento adicional.
As
imagens espetacularizadas oferecidas ao espectador, como bem disse Guy Debord
(1967), produzidas em profusão pelos meios de comunicação de massa e
diretamente ligadas ao modo de produção capitalista neoliberal, substituem as
relações sociais reais, transformando tudo o que antes era vivido diretamente
em apenas uma representação, que torna as pessoas submissas à lógica destrutiva
do “parecer ser”.
Criando
necessidades artificiais, tais imagens afastam as mulheres da concretude de
seus problemas reais e da possibilidade de compreenderem suas próprias
existências e de realizar seus desejos autênticos. As representações
edulcoradas, mercantilizadas e massificadas da menopausa e pós-menopausa, as
impede de adquirir as “armas” subjetivas para formação de uma consciência
social real, o que possibilitaria o enfrentamento com menos sofrimento e maior
eficiência de um período que é, ao mesmo tempo, biológico, psicológico e
social.
As
imagens espetacularizadas impedem a formação dessa consciência real e, por
conseguinte, dificultam o ingresso na pós-menopausa, momento em que, na medida
das possibilidades e dos limites impostos socialmente, seriam realizados os
desejos legítimos e autênticos da mulher.
Nas
redes sociais, ao serem tratadas apenas como uma grande massa de clientes,
seguidoras e espectadoras, as mulheres não são consideradas em sua
individualidade, nem são respeitadas em seus medos e em suas angústias.
As
imagens da supermulher glamourosa, que passa imune à força do tempo, levam as
mulheres a acreditarem que a juventude pode ser eterna e facilmente restituída,
tornando-as incapazes de perceber que a verdade dessa possibilidade é muito
relativa. Afinal, a indústria do rejuvenescimento traz, a cada momento, uma
novidade que nega ou subestima o processo natural de envelhecimento, que se
impõe, mais cedo ou mais tarde, a todo mortal.
Evidentemente,
envelhecer, hoje, é muito diferente do que era envelhecer há vinte ou trinta
anos. Avós e mães de mulheres que hoje vivem a menopausa aparentavam ser muito
mais velhas do que suas netas/filhas com a mesma idade. É verdade que estamos
envelhecendo cada vez mais lentamente e, de certa forma, com mais qualidade de
vida, muito embora tal aquisição se distribua desigualmente no tecido social.
As
conquistas nessa área são fruto de uma série de opções mais saudáveis (que
incluem exercícios físicos e alimentação), além dos avanços médicos e
tecnológicos, que proporcionam diagnósticos mais rápidos e tratamentos
personalizados. Segundo dados do IBGE, formulados a partir do Censo de 2022,
enquanto a expectativa de vida das mulheres era de 78 anos em 2010, a previsão
é de 82 anos para 2040.
Ou
seja, cada vez mais, o número de anos que as mulheres vivem na pós-menopausa é
muito próximo de quando seus ciclos menstruais eram regulares, uma média de 30
anos em cada período. A naturalização, o respeito e a compreensão desse
processo podem ajudar as mulheres a viverem mais e melhor, assimilando e
aceitando seu processo natural de envelhecimento.
Sem
dúvida, essa mudança exigirá uma luta, ao nível das consciências, contra o
fetiche da beleza eterna e padronizada instituído pela indústria cultural
capitalista, culminando na construção de novos valores estéticos. Isso
implicará, possivelmente, a adoção de uma ética semelhante àquelas das culturas
dos povos indígenas, onde o respeito aos mais velhos também é, para os jovens,
a aquisição do respeito ao envelhecimento de seus próprios corpos.
Se nas
sociedades urbanas e industriais, as mulheres vivem imersas em imagens
espetaculares que procuram vender a juventude eterna e raramente a menopausa é
associada à ideia da inevitabilidade do envelhecimento e seus desdobramentos
biopsicossociais, ficando mais restrita aos sintomas e às terapias naturais e
de reposição hormonal, em outras sociedades o fim da vida fértil da mulher é
visto com mais naturalidade, clareza, dignidade e otimismo.
Segundo
dados da OMS (1996), os sintomas associados à menopausa estão diretamente
ligados a como as diferentes sociedades encaram o processo de envelhecimento.
Quanto mais as mulheres mais velhas são valorizadas, menos sintomas elas
apresentam ou os superam de forma mais rápida e saudável.
As
Guarani, por exemplo, não possuem uma palavra em sua língua para designar
menopausa, como também não associam o evento do fim da menstruação com qualquer
sintoma. De forma geral, entre os povos indígenas, a menopausa é vista como uma
fase natural da vivência feminina, ligada ao sagrado e à espiritualidade. Por
estarem mais velhas e já terem passado por muitos problemas e desafios, elas
são reconhecidas como detentoras de sabedoria, não raro assumindo a liderança
nas comunidades. Elas também mantêm seu papel ativo, tanto na rotina de
trabalho, como nas decisões políticas.
Algo
similar ocorre com as mulheres anciãs dos Hadza, grupo étnico de
coletores-caçadores que vive no norte da Tanzânia. Nessa sociedade, as avós são
responsáveis pela coleta de frutos e raízes, alimentos fundamentais para a
existência do grupo. Também são elas que cuidam das crianças, liberando as
mulheres mais jovens para a procriação e para a continuidade da etnia.
Para a
medicina tradicional chinesa, que orienta muitas pessoas no mundo inteiro, a
menopausa é considerada a segunda primavera, sendo equiparada à mudança
hormonal que ocorre na adolescência, e a pós-menopausa é reconhecida como o
período da mulher sábia. Na menopausa ocorre uma transformação natural de
energia, em que a mulher para de perder sangue e passa a conservar sua
essência.
Durante
a vida fértil, o sangue flui para baixo pelos vasos Chong Mai (mar de sangue) e
Ren Mai (vaso concepção) para sustentar a reprodução. Na menopausa, esse canal
se fecha, e todo o sangue e energia que eram direcionados para a concepção e
nutrição de um novo ser, passam a ser direcionados para o coração, há uma
inversão do fluxo e uma nova economia energética: o que antes estava
direcionado para gerar outra vida, agora alimenta e expande a própria
existência.
O corpo
entende que precisa guardar sua essência para nutrir órgãos vitais e garantir
sua longevidade. A energia ancestral (Jing), guardada nos rins, deixa de ser
gasta com a fertilidade e é refinada em energia espiritual (Shen), ou seja, o
que antes estava destinado para a matéria é transformado em sabedoria e
consciência, ocorrendo uma transmutação alquímica. A menopausa é um convite
para deixar de ser a nutridora dos outros, para se transformar na detentora da
própria sabedoria.
Estudos,
como os de Mosconi (2024), têm descoberto que passados os anos de adaptação da
menopausa, ou seja, quando as mulheres chegam na pós-menopausa, elas se tornam
muito mais felizes. Muitas relatam que passam por uma nova onda de energia e
uma mudança de interesses, que as incentiva a mudar de carreira, construir
novos relacionamentos, conhecer lugares ou até mudar de lugar para viver e
experimentar novas formas de cuidar da saúde.
Muitas
mulheres também relatam uma maior capacidade de impor limites às necessidades
dos outros, estando mais concentradas em sua liberdade e em suas próprias
necessidades. Tendo passado por diversos desafios, perdas e desilusões, as
mulheres mais velhas desenvolveram muitas habilidades e sentem-se mais fortes,
seguras e confiantes para enfrentar novos problemas e desafios. Também foram
relatados um aumento dos sentimentos de resiliência, compaixão e empatia.
Já a
terapeuta Miranda Gray (2024) aposta numa visão mais holística e espiritual da
menopausa, promovendo a conexão natural com o sagrado feminino. Para Gray, o
término dos ciclos menstruais representa um caminho transformacional energético
(o Labirinto), que leva as mulheres ao encontro com a anciã sábia interior (a
Crone), detentora das profundas energias espirituais e poderosas da
feminilidade.
Trata-se
de uma jornada desafiadora em que as mulheres experimentam novos limites e
descobrem um novo papel na vida. Contudo, essa jornada não é totalmente
desconhecida. Em cada ciclo, todos os meses, as mulheres percorrem o labirinto
e ao menstruarem encontram a Crone: “cada ciclo menstrual é um ciclo de
renovação, um caminho labiríntico de retrair e emergir – porém, com frequência,
não nos lembramos dessa sabedoria. E, então, quando os ciclos menstruais por
fim cessam, ainda temos um Labirinto a percorrer, mas agora descemos os degraus
da menopausa do Labirinto da Vida” (GRAY, 2024, p. 23).
A Crone
simboliza um período de quietude, potência e renovação e está presente nos
ciclos da natureza: no inverno da Terra, na escuridão da Lua Nova e no vazio da
maré baixa.
Tal
jornada pode causar medo e angústia, porque as mulheres não sabem em quem se
tornarão, desconhecem os desafios da velhice e podem resistir em percorrer o
Labirinto. A resistência é ainda maior em sociedades que valorizam em demasia a
juventude, que associam as mulheres anciãs à incapacidade, à perda de autonomia
e à decrepitude. Porém, como trata-se de um caminho percorrido em cada ciclo
menstrual, é possível despertar o saber do corpo, que Gray (2024) denomina de
“sabedoria do útero”, que conduzirá com segurança e otimismo mais uma jornada
da vida.
Em seus
estudos sobre o cérebro das mulheres, Mosconi (2024) chegou a conclusões
análogas as de Gray (2024). Ela identificou, em centenas de mulheres, uma
similaridade entre os sintomas das tensões pré-menstruais (TPM), que acompanham
o ciclo reprodutivo, e os sintomas da menopausa. Descobriu, também, que os
sintomas da TPM e menopausa possuem uma carga genética, sendo muito semelhantes
entre as mulheres da mesma família, sobretudo mães e filhas e irmãs. Ou seja, o
corpo possui uma memória de enfrentamento bem-sucedido aos sintomas, que pode
ser acionado durante a menopausa.
Apesar
dos desafios, apesar da desinformação, apesar das imagens que insistem em
depreciar o envelhecimento, sobretudo das mulheres, a menopausa é um momento de
aprendizado e de conquista de um novo lugar no mundo. Cada mulher pode
(re)aprender com a Mãe Terra o eterno ciclo da natureza de vida-morte-vida, que
vivenciou em seu corpo em cada ciclo menstrual, vivendo esses anos de
transformação com sabedoria e harmonia.
Trata-se
de criar uma nova tradição, resgatando o saber ancestral das mulheres que
viveram, e em algumas sociedades ainda vivem, vidas cíclicas, abraçando o
mistério de fazer parte de algo muito maior que o corpo físico e o eu
individual. Trata-se de abrir-se aos ciclos que residem dentro de cada mulher e
estão presentes em toda a natureza, rumo à consciência expandida de sermos o
que somos e sermos suficientes para nós mesmas, fazendo emergir um sentimento
de realização e de autoaceitação.
Conhecer
nossos corpos, respeitar e viver com dignidade nossos ciclos é conhecer nossa
história e nossa ancestralidade. É, também, uma forma de honrar todas as
mulheres que vieram antes de nós, que enfrentaram preconceitos e não puderam
viver seus ciclos com confiança. Conhecer nossos corpos é uma forma de resistir
e de enfrentar os tabus e apagamentos.
Fonte:
Por Soleni Biscouto Fressato, em A Terra é Redonda

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