Artur
Sabino de Carvalho: A desvalorização da profissão de professor
A
sociedade brasileira aponta à educação como a base para o futuro; contudo,
segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico), o Brasil ainda figura nas últimas posições no ranking de
valorização docente, com um dos piores salários de professores do planeta. Com
base nisso, é necessário refletir sobre como essa contradição é construída e os
aspectos estruturais intrínsecos à educação brasileira. Nesse sentido, em meio
a um cenário de luta sindical, piso salarial desrespeitado, estereótipos da
mídia e violência em sala de aula, os educadores de hoje em dia são vistos como
um projeto de descarte, onde só são utilizados para a manutenção da base social
e são desvalorizados constantemente. É pressuposto que, ao se falar do projeto
docente brasileiro, também se aplique a todos os funcionários participantes do
circuito de aprendizado do aluno. A partir disso, as questões da educação
brasileira evidentemente não vão se restringir apenas à vocação professoral,
mas também a todos os trabalhadores da área, isto é, zeladores, coordenadores,
técnicos da informação, psicopedagogos, etc.
Todavia,
é válido ressaltar que, por mais que as profissões da área de docência
compartilhem dos mesmos desafios em frente ampla, nem todas são essencialmente
iguais, pois cada profissão tem sua própria luta de classes para disputar e
suas próprias questões para resolver.
De
acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, um terço dos
municípios brasileiros desrespeita o piso salarial do magistério a professores
da rede pública em 2023. Além disso, a região Sudeste, mais abastada do Brasil,
é a região que pior paga seus docentes, com cerca de 45% de suas prefeituras
desprezando o piso do magistério. Os dados acima refletem uma clara situação de
desvalorização da profissão, pois é incompreensível a concepção de que uma
região rica como o Sudeste desrespeite deliberadamente o piso salarial imposto
em 2008. Na verdade, somente é incompreensível caso o leitor não tenha em mente
o avanço do neoliberalismo na sociedade brasileira, justamente porque não se
trata de um equívoco ou má administração, mas sim de um projeto desenvolvido
perfeitamente para a desconstrução da base educacional canarinha. Assim como
Darcy Ribeiro discorreu há mais de três décadas, a crise da educação nunca foi
acidente, mas um projeto.
Em meio
ao avanço do neoliberalismo, uma ideologia que prega a desestatização e a
propriedade privada, o Brasil sofreu diversos cortes financeiros em áreas
estratégicas para o funcionamento da nação. Ademais, o Novo Teto de Gastos
impôs uma série de limitações e obstáculos para o desenvolvimento de setores
fundamentais do governo, um deles sendo a educação. Aliás, faz-se necessária a
ressalva de que, mesmo com as limitações financeiras diante de setores
estratégicos, a limitação retirada do Arcabouço fiscal é a de juros sobre a
dívida pública, consumidora de R$ 747 bilhões. Nesse sentido, é compreensível
concluir que os beneficiários do orçamento público brasileiro são os rentistas,
e não as dezenas de milhões de estudantes da rede estatal.
O
excelente texto “A cruzada de Haddad contra a saúde e educação”, de Antônio
Martins, aborda toda a questão do neoliberalismo opositor do desenvolvimento
brasileiro; além disso, também reflete acerca do neoliberalismo ser uma força
histórica que não se prende aos governos, estando presente, principalmente, no
atual governo Lula. Diante de todas as consequências ocasionadas pela força do
novo pensamento capitalista, representado quase como uma maré, as grandes lutas
políticas irão, inevitavelmente, ser pautadas por este paradigma estrutural.
Sendo assim, para conquistar o poder, aquele que nada contra a correnteza tem
uma clara desvantagem comparado àquele que deixa a maré levar,
independentemente do resultado. Por isso, a polarização brasileira segue à risca
a lógica de combate aos setores fundamentais; isso explica a criação de
diversas pautas que pretendem desvalorizar a educação, a saúde, a ciência, etc.
Desse modo, influenciadores e políticos como Wilker Leão surgem para criar uma
oposição da extrema direita no ambiente da sala de aula contra o professor,
popularizando o esquema de debate que pauta o fantasma da doutrinação
estudantil – debate este que simplesmente é irreal, tendo em vista todas as
condições precárias que vive o trabalhador docente e a falta de argumentos que
sustentam o ponto discutido.
Durante
a crise educacional e o avanço da política de privatização, no governo Lula,
foram ampliados os projetos de Parcerias Público-Privadas (PPP), que polemizam
o debate do campo educacional. Por exemplo, o Projeto Somar, criado em 2021 e
continuado no novo Governo Romeu Zema, pretende a combinação de gestão pública
com a privada sob mais de 80 escolas estaduais. Contudo, após a forte luta
sindical do Sind-UTE/MG, o projeto está paralisado e num impasse jurídico desde
2025, com apenas o funcionamento das três escolas piloto do início do projeto.
Outrossim, o Novas Escolas, proposto em São Paulo no governo Tarcísio de
Freitas, é o projeto da construção de 33 escolas previstas e uma concessão de
25 anos, junto de um orçamento bilionário para a empresa responsável. Em abril
de 2026, foi inaugurada a primeira escola do programa e essa já está em
funcionamento. Diferentemente do Projeto Somar, o Novas Escolas foi aceito
mesmo perante as críticas e está em realização concreta do proposto. Logo, é
crucial o debate de como é preocupante a ampla privatização de campos
educacionais, pois, no momento em que a prioridade é o lucro e não o bem-estar
social de todos os envolvidos, o chão de funcionários começa a se tornar ainda
mais instável, à medida que seus direitos são confrontados em diversas frentes.
Exemplo
mais preciso desse fenômeno é a atual luta do Sindicato dos Trabalhadores e
Professores dos Estabelecimentos Privados de Ensino de Campina Grande
(SINTENP), que anuncia paralisação por conta da sobrecarga e dos baixos
salários. Assim, é registrado no Estado da Paraíba uma legislação que obriga as
instituições de ensino a fornecerem estrutura devida para as mais diversas
ocasiões relacionadas à educação. No entanto, o que há, de fato, é a quebra
dessa legislação, pois as escolas não mantêm uma estrutura adequada para a
prática do ensino e obrigam, substancialmente, os funcionários a se exaurirem
bolando soluções para o problema. Porém, mesmo com o trabalho excessivo dos
funcionários para solucionarem questões que não deveriam existir, as
instituições continuam a sufocar o salário de maneira mais agressiva e a
desafiar ainda mais os direitos dos trabalhadores.
Não só
a estrutura precária de trabalho é problema, mas também o baixo salário é um
desafio. O Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino de Campina
Grande registrou uma decisão unilateral de cada escola de Campina Grande,
centro do confronto sindical, de ajustar um aumento da mensalidade das escolas
variando entre 10% e 13%. Paralelamente, o aumento da mensalidade não acompanha
um possível aumento do salário dos funcionários, que permanece desrespeitado e
menosprezado. O trabalho excessivo dos funcionários, comentado anteriormente,
também significa a dificuldade de suceder à adaptabilidade de situações para
estudantes neurodivergentes. Dentre as reivindicações do SINTENP, está entre
elas a remuneração adequada para cada funcionário que teve de exercer uma
função de mediador do estudante neurodivergente. É inadmissível que a
instituição possa, de forma parasitária, cobrar aumento de mensalidade e,
simultaneamente, terceirizar o trabalho dos funcionários para não entregar a
mínima estrutura de funcionamento. Isto é, entregar um ambiente conflituoso e
estressante, não só para o funcionário explorado, mas também para o aluno
neuroatípico. Somado a isso, integrantes do SINTENP afirmam que está sendo
colocado como moeda de troca, pelo sindicato patronal, o direito imposto pela
Paraíba de bolsa estudantil aos filhos de funcionários da instituição. Em suma,
é nítida a tendência capitalista de tratar direitos como substância de
privilégio, a fim de ampliar sua capacidade exploratória em virtude do lucro.
Exemplificando
essa tendência e não se restringindo somente à rede privada, a quantidade de
professores temporários na rede estadual é de 52%, representando maioria. À
guisa de explicação, um professor temporário é um funcionário que não passou
por concurso público e, por isso, possui contrato maleável para atuar na rede
de ensino; assim, são mais instáveis e vulneráveis. A expansão dos vínculos
temporários no magistério brasileiro não pode ser compreendida apenas como uma
medida administrativa de flexibilização da gestão pública. Trata-se, em grande
medida, de um mecanismo que, ao fragilizar a estabilidade do professor, o
insere em uma relação de dependência direta com o poder político local. Nesse
contexto, a ausência de concurso público e a natureza transitória do contrato
produzem uma condição de vulnerabilidade permanente.
O
docente temporário passa a depender da renovação contratual, frequentemente
subordinada à discricionariedade de gestores públicos, como prefeitos e
secretários de educação. Tal dependência não raro se converte em instrumento de
coerção indireta, sobretudo em períodos eleitorais. Em síntese, o professor
contratado se torna alvo de coerção por políticos que visam o funcionário como
somente uma massa a ser manipulada e utilizada para apoio político. Dessarte, a
existência de um educador é completamente reduzida à instabilidade, sobrecarga,
clientelismo e massa de manobra. Por conseguinte, um país que objetiva a
educação como forma de adquirir um futuro positivo jamais, em hipótese alguma,
deve permitir que a situação de um funcionário tão importante quanto o
professor seja colocada a esse nível.
Mas não
são apenas os vínculos precários e os salários baixos que compõem o projeto de
descarte. Há também um discurso que culpa o professor pelo fracasso escolar e
propõe soluções. Evidentemente, uma profissão tão desvalorizada quanto a de um
funcionário estudantil é vítima de diversas críticas – críticas essas que visam
apenas enfraquecer ainda mais o solo da vocação, e não fortalecê-la. Nesse
sentido, pensamentos neoliberais de que um professor deve ser avaliado por
desempenho e de que as reclamações são desnecessárias são frutos de um projeto,
já esclarecido, de precarização do processo formativo. Sendo esse último
pensamento completamente absurdo: como a denúncia de um aparelho pedagógico tão
incompleto pode ser desnecessária? Simples, é preferível pelo modelo neoliberal
que as denúncias sejam omitidas, pois assim fica mais fácil o controle da
educação como mercadoria.
A
respeito do primeiro senso comum neoliberal que considera a avaliação por
desempenho como solução, pesquisadores da Universidade do Texas e da Cambridge
University demonstram que os chamados “modelos de valor agregado” apresentam
três falhas fatais: falha causal, falha de escala e falha estatística.
Falha
causal: Afirmar que mudanças nas notas dos alunos são causadas pelo professor
ignora dezenas de variáveis – condição socioeconômica, apoio familiar,
alimentação, saúde mental, estrutura da escola. Em ambiente não controlado,
essa relação é extremamente frágil.
Falha
de escala: Pressupor que testes aplicados em séries diferentes podem ser
comparados igualmente é “heroico”, ou seja, sem base empírica sólida.
Falha
estatística: Dados faltantes e amostras pequenas tornam as estimativas anuais
de “crescimento” pouco confiáveis.
Portanto,
além do viés neoliberal por trás da proposta, trata-se de reconhecer que o
instrumento é cientificamente frágil. Medir professor por nota de aluno sem
controlar variáveis socioeconômicas é como medir a eficácia de um médico sem
considerar se o paciente chegou ao hospital já em estado terminal. Ademais,
quando o professor é avaliado pela “satisfação do cliente”, ele deixa de ser
educador para tornar-se prestador de serviços. Assim, o serviço mais demandado
não é aprender, mas sim passar de ano sem esforço. O sistema de avaliação por
desempenho, ao incorporar a opinião de alunos e pais como métrica, não estimula
qualidade pedagógica, mas estimula achatamento curricular e rebaixamento de
padrões. Nesse sentido, é crucial ter em mente que o projeto de desprezo aos
membros do aparelho escolar não é resultado de mau planejamento; na verdade,
trata-se de um planejamento bem executado. O arquiteto dessa estrutura não são
somente alguns governos – embora esses governos ampliem a estrutura –, mas sim
todo o paradigma neoliberal de décadas que nossa sociedade enfrenta.
À guisa
de conclusão, o projeto de descarte docente não é falha do sistema, é função
dele. São necessárias mudanças em todo o sistema para que se possa enxergar uma
nova realidade dos funcionários da formação humana; é inviável para o futuro do
Brasil um cenário tão absurdo e desastroso da educação. Hoje, o que se quer não
são cidadãos críticos, mas trabalhadores treinados para executar. E para isso,
o professor precisa ser descartável. Diferentemente do pensamento neoliberal,
valorizar o magistério não é privilégio – é condição para uma sociedade que não
se limite a reproduzir desigualdades. Logo, é preciso nomear o projeto para
enfrentá-lo: o professor não é descartável, porém o sistema que o trata como
lixo – esse sim, precisa ser descartado.
• O saber que nasce da insurreição
popular. Por Vladimir Safatle
No
último final de semana, Verônica Toste Daflon alinhavou uma série de críticas a
meu último livro, A ameaça interna: psicanálise dos fascismos globais. Creio
que elas são frutos do que ocorre quando abandonamos a análise de processos
estruturais e acusamos quem o faz de se afogar no mar de analogias fracas, de
praticar a arte de “esticamentos conceituais”, de usar a história como quem
abre um armário e escolhe algumas peças de roupa de acordo com a conveniência
do momento ou ainda de operar com conceitos de forma idealista como se fossem
sujeitos que agem, andam e produzem realidades. Há séculos Blaise Pascal
costumava insistir na necessidade de saber articular dois tipos de
perspectivas: uma a que chamou de “espírito de geômetra” e outra de “espírito
de finesse” (fineza, sutileza). Ou seja, enxergar relações e estruturas, como
faz um geômetra, e aprofundar-se em casos e articulações regionais, como quem
tem um olhar pronto a vislumbrar detalhes e diferenças sutis.
Há toda
uma tradição que toma por “rigor” a simples cegueira positivista incapaz de ver
processos estruturais de larga duração que influenciam simultaneamente várias
dimensões de nossas formas de reprodução material da vida. Para uma perspectiva
dessa natureza, algo como mobilizar, por exemplo, “a lógica de autovalorização
do capital” para expor relações entre coisas tão díspares quanto a crise
ecológica, o sofrimento psíquico da classe trabalhadora, a destruição colonial
nas Américas, a superprodução de mercadorias, as teologias da prosperidade e o
sucesso da Beyoncé seria simplesmente um delírio de analogia.
Bem, há
décadas tradições críticas do pensamento social denunciam os resultados
deletérios dessa forma de amputação do pensamento. Isso que para uns parece uma
abstração é, na verdade, o que nossas sociedades têm de mais concreto, pois
descreve forças de unificação a operar transversalmente em um tempo longo. Por
exemplo, indignada pela minha descrição de dinâmicas fascistas internas à nossa
sociedade, a resenhista afirma: “Algumas analogias apresentadas no livro são
tão extremas que chegam a comparar discursos de CEOs a falas de administradores
de campos de concentração, ou donos de lanchonetes a agitadores fascistas da
Europa entreguerras. Se o conceito de fascismo permite agrupar numa mesma
categoria executivos, microempresários de fast-food e agentes do aparato
totalitário dos anos 1930, cabe perguntar: o que ele de fato explica?”.
O
problema nessa colocação é que eu estava a descrever casos reais. No Brasil, na
época da pandemia, um dono de cadeia nacional de lanchonetes realmente gravou
um vídeo convocando a população a não se importar com os milhares de mortos e a
continuar a trabalhar e se expor a morte, como faria um administrador de campo
de concentração. Um dono de loja de departamento fazia continuamente discursos
de caça a comunistas dignos de qualquer agitador fascista de província. Isso me
leva a dizer que, quando em certas situações não se “esticam conceitos”, até o
que é normal e acontece diante de nossos olhos se torna impensável. Há um
núcleo real em nossas sociedades que sempre retorna sob diferentes roupagens.
Valeria a pena lembrar, nesse contexto, o que Walter Benjamin escreveu sobre
“repetição histórica”. Da mesma forma, seria o caso de entender tais repetições
como algo fundamental na compreensão da temporalidade psíquica que compõe as
dimensões inconscientes da vida social e organiza o sistema de ações dos indivíduos.
Há uma larga bibliografia que insiste em como atualizamos comportamentos
fascistas estruturalmente similares quando o Eu percebe-se enfraquecido e em
colapso.
O
fascismo depende da atualização de estruturas de segregação, agressividade e
dessensibilização imanentes à formação do indivíduo moderno. Isso pode ajudar a
entender por que um CEO pode falar como agitador fascista dos anos 1930. De
toda forma, quando escrevi esse livro já esperava por desqualificações dessa
natureza. Se setores da academia passaram os últimos anos a cunhar termos meio
fantasistas como “populismo de direita”, “ultranacionalismo”,
“ultraconservadorismo”, “regimes híbridos”, “democracia iliberal”,
“identitarismo de direita”, “soberanismo” e tantos outros que lemos em papers e
na imprensa para falar da ascensão das forças conservadoras atuais, não era por
uma pretensa precisão conceitual. Era por interesse político de preservar o que
chamamos de “democracia liberal” de uma crítica interna. Mas um pressuposto
fundamental do pensamento crítico é nunca fechar os ouvidos para os conceitos
que populações nas ruas mobilizam em suas lutas. Ao invés de ver neles apenas
uma expressão retórica, devemos entendê-los como fruto maduro e consciente da
sensibilidade aos perigos.
Há um
saber que nasce das dinâmicas de insurreição popular. Foi por isso que entendi
que seria importante analisar a hipótese de estarmos diante de uma ascensão
fascista, uma vez que populações nas ruas no mundo inteiro estavam
sistematicamente expressando isso. Nesse sentido, o artigo da resenhista já
começa por me imputar uma tarefa que nunca assumi: examinar a “crise das
democracias liberais”. Na verdade, esse nunca foi meu alvo porque não acredito
haver algo como uma “crise” das democracias liberais. O que defendi foi que o
acirramento atual dos conflitos sociais, o aumento exponencial da violência de
Estado e as ações cada vez mais explícitas de vulnerabilização da vida e de
segregação fazem parte de um processo de extensão de um traço constituinte e estável
do que chamamos de “democracias liberais”. As “democracias liberais” não estão
em crise, elas estão generalizando para toda a população a violência que é sua
regra na gestão de certas populações e territórios. Elas estão mostrando sua
face terrorista.
Creio
que muito da confusão da resenhista vem da incapacidade de trabalhar com
teorias do Estado moderno que lidam com clivagens territoriais e populacionais.
Quando falamos que um Estado-nação é uma democracia, alguns acreditam que as
mesmas leis e a mesma forma de aplicação da lei valerão em todo seu território
e para todas as populações. Uma atenção maior à lógica colonial das sociedades
liberais lembraria como tais Estados não tiveram dificuldade alguma em serem
“Estados duais”, vulnerabilizado a vida em certos territórios enquanto
protegiam populações em outros. Essa dinâmica continuou, mesmo depois do fim
das relações coloniais explícitas. Ela é o traço normal das democracias
liberais.
Por
exemplo, se marxistas negros como George Padmore, Walter Rodney, Fred Hampton,
Angela Davis utilizavam o termo “fascismo” para descrever os EUA, não era por
“retórica” ou imprecisão analítica, mas porque, da perspectiva dessas
populações, a dita democracia norte-americana desaparecia para dar lugar a um
sistema contínuo de superexploração do trabalho, de segregação explícita, de
guerra de raças e de vulnerabilidade estrutural de suas vidas. Com o
acirramento das crises terminais do capitalismo, tal dinâmica, como todos estão
a ver, muda de intensidade.
É
possível dizer que entender as ditas democracias liberais como fascismos
restritos impediria a compreensão dos processos históricos de ampliação de
direitos civis e sociais. No entanto, tais direitos foram ampliados não graças
a um potencial interno das democracias em gerir conflitos através de mediações
institucionais, mas pela força da suspensão da ordem produzida pelas
mobilizações da classe trabalhadora tendo em vista contestações
anti-institucionais.
Foram
greves gerais, sequestros de patrões, bloqueios de circulação, insurreições
populares que expandiram direitos. Quando essa força se dispersou, tais
conquistas foram decompostas uma após a outra.
Por
isso, não creio ter muito sentido questões como esta, propostas pela
resenhista: “Afinal, se essas democracias já são formas de fascismo, é difícil
entender o que ocorre quando aspirantes a autocratas passam a atacar tribunais,
restringir liberdades civis, manipular eleições ou violar a separação de
poderes”.
Na
verdade, não é difícil entender, principalmente quando esses que manipulam
eleições e restringem liberdades civis não são “autocratas”, mas os gestores
normais. A história da democracia liberal é plena de uso de leis de exceção, de
utilização de dinâmicas de guerra contrainsurrecional e casuísmos os mais
refinados, para impedir ou paralisar mudanças estruturais.
A
questão realmente interessante é: por que atualmente liberdades acadêmicas e de
manifestação estão sendo destruídas, eleições estão sendo desconsideradas em
países que não são governados por “autocratas”? Os exemplos não vêm apenas da
Turquia ou Hungria, mas da Alemanha, Inglaterra e França. Os próprios
defensores das democracias liberais entenderam que ela não precisa mais fingir
existir, pois a ilusão de que seria possível gerir conflitos sociais tendo em
vista a ampliação irrestrita de direitos saiu de cena. A questão fundamental
agora é gerir uma era na qual não haverá mais sociedade para todos. E isto
exige generalizar níveis extremamente elevados de violência e
dessensibilização. Por isso, a alternativa fascista se generaliza.
Por
fim, duas precisões. O texto me acusa de não falar sobre Rússia, China, a
guerra do Sudão e “outros conflitos devastadores”. A razão não é difícil de
entender: não quis fazer uma teoria geral das formas atuais de autoritarismos,
mas uma reflexão sobre a decomposição sócio-política de nós mesmos. Esse é meu
objeto de estudos desde um livro chamado Cinismo e falência da crítica. Era
fundamental mostrar como o que acreditamos ser a cura para nossas desagregações
sociais (a democracia liberal, o indivíduo moderno) são partes do problema. Sei
muito bem que nem todos autoritarismos são fascismos. Mas quis mostrar que o
fascismo que julgamos estar longe do funcionamento normal de nossas sociedades
liberais é uma ameaça interna criada por elas mesmas. Nesse sentido, falar do
autoritarismo na China, por exemplo, não acrescentaria em nada na argumentação
central do livro, embora seja algo extremamente relevante a ser feito por quem
conhece a língua do país, tem experiência de terreno e interação com seus
debates internos. Por outro lado, em certa altura de seu texto, a autora diz
que o diagnóstico de um mundo em insurreição constante não encontra sustentação
nos dados. Eu poderia fazer uma lista das insurreições populares no século 21,
começando pelo México zapatista e indo para Tunísia, Egito, Irã, Síria,
Turquia, Espanha, Equador, EUA, França, Brasil, Chile, Colômbia, Sérvia, Peru,
e ainda assim a relação não estaria completa. Todos esses casos foram marcados
por insatisfação econômica e exigência de reinvenção política.
Tenho
dificuldades em saber de qual mundo Verônica Toste Daflon está a falar e que
dados tão decisivos ela tem em mãos. Que tais insurreições não tenham passado
de força destituinte a força constituinte, isso não muda em nada o fato de o
fascismo ser convocado atualmente como uma contrarrevolução preventiva, visando
impedir que o descontentamento social profundo de nossa época acabe por
produzir uma mudança política e econômica real. Mas há quem ache que tudo isso
não passe de uma crise momentânea da “democracia liberal”. Da minha parte,
creio ser melhor deixar os mortos carregarem seus mortos.
Fonte:
A Terra é Redonda

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