Eliara
Santana: ‘Dona Maria e a tramoia da extrema direita’ — nada é mera coincidência
Dona
Maria ganhou o Brasil e o mundo. Uma mulher idosa, negra, moradora da
periferia, que fala muito palavrão e se diz “indignada” com a situação do país.
Mas Dona Maria não é uma mulher real – pelo menos não nessa dimensão a que
ainda estamos acostumados.
Dona
Maria é um avatar de Inteligência Artificial que foi SUPOSTAMENTE criado por um
motorista de aplicativo da Baixada Fluminense no Rio de Janeiro, que estava sem
muito o que fazer, meio revoltado com a tal situação do país e fez a personagem
inspirada em sua avó, segundo ele contou à reportagem da BBC Brasil.
Na
descrição do perfil do Insta, aparece o seguinte: “Dona Maria, voz do povo
brasileiro de bem. Conteúdo baseado na realidade dos brasileiros e construído
junto com a comunidade”.
Mesmo
não sendo uma mulher de verdade, Dona Maria é mais, muito mais que um simples
“avatar de IA” criado por um aplicativo. É um fenômeno nas redes.
E um
fenômeno que cumpre uma função bem específica: falar mal, muito mal, de Lula,
do seu governo e do STF.
Ao
contrário do que pode parecer pelo nome do perfil, não se trata de uma vovó
legal falando sobre bordado ou comida. Dona Maria é um perfil político com
altíssimo potencial de engajamento. E até que me provem de verdade o contrário,
esse perfil é o produto perfeito do ecossistema brasileiro de desinformação,
essa estrutura poderosa criada e alimentada pelo bolsonarismo.
Segundo
reportagem da BBC Brasil, pelo menos 12 vídeos da página tiveram mais de 1
milhão de visualizações em menos de um ano.
A
matéria também mostra, a partir de levantamento próprio e de uma consultoria,
uma comparação com outros perfis sobre política no Insta, e o resultado é:
“A
média de interações por publicação (comentários e curtidas) no Instagram desta
personagem de IA no último ano foi semelhante à de políticos de diferentes
espectros, como da senadora Damares Alves (Republicanos) e do deputado
Lindbergh Farias (PT). Foi também maior, no período, em média de interações por
publicação, do que páginas como a do ex-governador de Goiás e pré-candidato a
presidente Ronaldo Caiado (PSD), segundo este levantamento. Foram analisadas
interações em publicações de julho de 2025 até a primeira semana de abril deste
ano”.
E já
que estão tomando o perfil como fruto de uma ação espontânea e alegoria de um
motorista de aplicativo, acho que precisamos desnudar o que Dona Maria tenta
esconder. Vamos a alguns elementos:
>>>
1 – O personagem
Dona
Maria é uma criação perfeita. Até o nome da personagem evoca brasilidade,
brasileiro raiz, gente de bem. Pobre, negra, periférica, possivelmente
evangélica, que mata um leão por dia para sobreviver e reclama no supermercado.
É a vida real de milhares de mulheres. Transposta para a realidade paralela da
desinformação, onde ela ganha os contornos de uma mulher engajada e consciente
de suas raivas e seus direitos e canaliza sua indignação. Dona Maria existe e
não existe ao mesmo tempo. Eis o dilema que o ecossistema brasileiro de
desinformação conseguiu tornar produtivo.
#
Detalhe 1: A avó do criador não falava palavrão. Então, de onde veio a
inspiração para essa criação tão acertada?
#
Detalhe 2: O criador não é negro. Por que, então, a criatura é uma mulher
negra? Um motorista de aplicativo com a silhueta e o perfil do criador iria
criar um personagem baseado em si próprio – homem, branco, meio machão, com
falas indignadas e possivelmente machistas. Nunca uma mulher negra, periférica,
idosa.
#
Detalhe 3: O perfil imagético da personagem foi sendo refinado. Na verdade, são
“donas Marias”, que vão se parecendo mais e mais e mais com vovós indignadas
reais do que com um avatar de IA. Confiram:
>>>
2 – Discurso de base bolsonarista
“Eu já
estou revoltada com essa p*, Brasil. E o molusco (referência ao presidente
Lula) está calado. Agora que o povo está levando no r* com taxa gringa, ele
está calado igual siri na lata. Cadê o povo na rua? Cadê panela batendo, cadê o
grito, cadê a revolta? Ou todo mundo virou planta? Porque eu tô aqui gritando e
só escuto o vento e a taxa vindo.”
De
acordo com a reportagem da BBC Brasil, o vídeo que contém essa fala de Dona
Maria sobre a situação do país, publicado em 10 de julho de 2025, atingiu 8,8
milhões de visualizações e teve mais de 23 mil comentários.
Observem
o tom agressivo, briguento, bem articulado, pontuando os problemas de modo
rápido, resumido e direto – com muitos palavrões recheando tudo.
Em
outro vídeo (analisei vários da página), Dona Maria diz o seguinte, comentando
uma demissão no IBGE: “O golpe está dado no IBGE. Demitiram quem protege a
verdade para fabricar número falso (…) Mataram o dado pra salvar o governo”.
Vejam que resumo contundente, direto ao ponto, nomeando o feito como “golpe”,
palavra cara no momento ao bolsonarismo.
Lembram-se
do que já falei aqui sobre os temas sensíveis que são “traduzidos” pelo
discurso bolsonarista? Pois é. Discursos como esses JAMAIS podem ser
considerados como resultado de simples procura do motorista de aplicativo pelos
temas do momento.
Em
outra postagem, Dona Maria reproduz cards em defesa de Jair Bolsonaro, material
esse muito bem produzido e cujo teor temático circula nas redes bolsonaristas
com grande destaque.
Há
ainda uma série especial feita no supermercado. Nos vídeos, Dona Maria, muito
exaltada, reclama dos preços. Em um deles, ela diz: “O gás tá um roubo, o leite
é artigo de luxo, e o molusco vem dizer que tá tudo sob controle?”.
Quais
são as marcas que ficam explicitadas por esse discurso nesses vídeos?
Agressividade, defesa de Jair Bolsonaro, culpabilização de Lula, apresentado
como inimigo comum, linguagem muito coloquial com muitos palavrões, a marcação
de temas que o espectro bolsonarista evoca a todo o instante (como carestia no
supermercado, corrupção, golpe, Bolsonaro inocente).
Quem
nós conhecemos bem que usa a agressividade como linguagem? Que faz questão de
usar palavreado chulo? Que se gaba da falta de cuidado com a linguagem?
Segundo
o criador do vídeo, na entrevista à BBC, esse tom agressivo não era da avó, mas
ele usou porque entendeu “que é uma linguagem necessária para sobreviver nas
redes sociais”. Que gracinha, muito aplicado o rapaz.
>>>
3 – Construções referenciais
Qual
pessoa comum vcs conhecem, da periferia, que chama Lula de molusco? Não há.
Molusco é uma palavra muito requintada para o linguajar popular cotidiano. O
“adjetivo” pejorativo para se referir ao presidente ganhou notoriedade com o
avanço da Lava Jato, tendo começado ainda no rescaldo do mensalão.
Depois
de prestarem atenção, comparem os vídeos de Dona Maria a vídeos de vários
políticos influentes no campo da extrema direita – vocês verão uma quantidade
imensa de semelhanças.
Por
fim, a ideia de “povo brasileiro de bem” não é algo aleatório, é uma construção
bem marcadora e marcante de determinada corrente política. Não é construção que
brota do imaginário popular.
>>>
4 – Modus operandi
O
perfil e seus vídeos e discursos revelam um jeito de fazer, um modus operandi,
um padrão. Isso não brota, minha gente. Isso não é “espontâneo”.
NADA EM
DESINFORMAÇÃO é espontâneo. Tudo é fruto de MÉTODO e INVESTIMENTO. Muito
investimento. Se seguirmos o rastro do dinheiro, vamos descobrir, tardiamente
claro, quem bancou essa criação.
>>>
5 – A construção narrativa
Observem
as pautas que Dona Maria apresenta e destrincha com propriedade. Temas
complexos traduzidos para a linguagem popular. Temas colocados num timing
perfeito.Temas como preço elevado de alimentos no supermercado, golpe no IBGE,
Previdência, corrupção do STF e vários outros são esmiuçados e traduzidos para
que todo mundo compreenda.
Segundo
o criador do perfil, na entrevista à BBC, ele pesquisa “os assuntos que mais
estão circulando nas redes sociais naquele dia, com mais engajamento, e o mais
popular vira a pauta”.
Alguém
realmente acredita nisso? Que construções narrativas potentes e bem articuladas
brotam assim, só da observação? Os discursos são afinadíssimos, coerentes, sem
furos, bem plásticos, formatados, para pronta-entrega.
O
perfil Dona Maria tem aquele elemento-chave na consolidação da desinformação
que é a mobilização permanente pela manipulação da raiva. Temas importantes,
relevantes, que sensibilizam são exacerbados, explorados, provocam as emoções e
aglutinam, atraem. A mobilização pela raiva é mais efetiva que a mobilização
pelo amor, infelizmente.
O fio
entre o que é real e o que é realidade paralela é cada vez mais tênue no
Brasil. Não interessa se Dona Maria é fake ou não, se é inteligência artificial
ou não. 2 + 2 = 5, já dizia George Orwell lá atrás, em 1984. O que importa é
como se constrói a percepção do real.
Dona
Maria é, em muitas medidas, real sim. Porque ela representa um perfil da
população invisibilizado, que fica com raiva na fila do supermercado porque a
informação que circula diz que a vida piorou. Essa população ganha voz com Dona
Maria.
IA ou
não, pouco importa – que diferença faz, se ela toca o cidadão, se ela interpela
o cidadão em suas raivas, insatisfações, desejo de mudança?
Emoções
negativas que são propositalmente canalizadas para um “inimigo” comum: Lula. É
o roteiro perfeito, sem furos, produzido por mestres e doutores em
desinformação.
Dona
Maria conduz a raiva. E pode conduzir o voto.
• Carlos Bolsonaro ataca Zema após Nikolas
defender chapa BolsoZema e diz que Flávio “está mordendo a isca”
guerra
entre os filhos de Jair Bolsonaro (PL) e Nikolas Ferreira (PL-MG) ganhou um
novo capítulo nesta segunda-feira (27), desta vez em torno da defesa pelo
deputado do nome do ex-governador do Estado, Romeu Zema (Novo), como vice na
chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Candidato ao senado por Santa Catarina,
Carlos Bolsonaro (PL-RJ) assumiu a briga de Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e deu
estocadas nas redes sociais no aliado mineiro.
Neste
domingo (27), Nikolas disse que a chapa “BolsoZema” daria muito certo, embora
acredite que uma mulher poderia atrair mais votos femininos para Flávio.
“Acho o
Zema uma excelente escolha. Só disse que talvez uma mulher também encaixaria e
poderia somar com o público feminino. Somente isso. Bolsozema daria muito
certo”, escreveu Nikolas, compartilhando uma publicação sobre o “perfil”
desejado por ele para vice do senador.
Atuando
como linha auxiliar do bolsonarismo, disparando ataques contra Lula, ministros
do Supremo Tribunal Federal (STF) e pregando um radicalismo privatista, Zema,
no entanto, segue em sua empreitada como pré-candidato, embora sinalize que
pode deixar a disputa para subir na garupa do clã Bolsonaro.
Neste
domingo, o ex-governador mineiro voltou a vociferar a ladainha neoliberal,
dizendo que vai privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil, e acabar com
“mordomias e esquemas que sustentam os intocáveis de Brasília. Sem citar,
porém, que é aliado de muitos desses “intocáveis”.
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Carlos: mordeu a isca
A
defesa de Zema por Nikolas gerou uma reação furiosa de Carlos Bolsonaro, que
divulgou mais um de seus textos ininteligíveis para atacar o ex-governador de
Minas Gerais.
Na
publicação, o ex-vereador carioca compartilha um print de uma notícia de 2023
em que “Zema diz ser ‘totalmente favorável’ à reforma tributária de Lula”.
“É
preciso deixar muito claro: por onde passo em Santa Catarina e pelo Brasil,
investidores e contratados demonstram enorme preocupação com o aumento de
impostos trazido pela reforma tributária, que sequer entrou plenamente em
vigor. Trata-se de mais um verdadeiro cargueiro transatlântico de impostos
sobre a cabeça de todos nós”, inicia o filho de Bolsonaro, sem revelar que a
taxação se deu entre os mais ricos para isentar aqueles que ganham até R$ 5 mil
da cobrança do Imposto de Renda.
“Diferente
daqueles que, além de não apoiarem Jair Bolsonaro, também desejam enterrá-lo
vivo politicamente e utilizam perfis de terceiros para cumprir esse objetivo,
fingindo ingenuidade diante dos olhos de todos, trago aqui apenas mais um fato,
não um ataque”, disparou Carlos, mirando Zema.
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Carlos,
então, manda um recado ao irmão, que tem correspondido aos acenos de Zema e de
Nikolas Ferreira.
“Ouça
ao menos um pouco do que venho lhe dizendo há tempos, e não apenas aqueles que
possuem outros interesses ao seu redor. É preciso ponderar. Você está mordendo
a isca com mais facilidade do que lambari em anzol de mosquito e o peixe vai só
engordando malandramente”, afirma, insinuando que Zema tem se aproveitado da
ligação com o clã.
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Trend
No dia
11 de abril, Zema publicou vídeo ao lado de Flávio Bolsonaro nas redes.
Na
gravação, Zema afirma que está convidando o senador para ser seu vice. Flávio
responde com “será?”. Em seguida, os dois riem. O conteúdo segue um formato que
vem sendo reproduzido nas redes sociais, com respostas curtas a provocações
diretas.
O vídeo
foi registrado em Porto Alegre, durante o Fórum da Liberdade. O ex-governador
enfrenta pressão interna dentro do Partido Novo para que haja alinhamento com o
campo bolsonarista já no primeiro turno.
Parte
das lideranças da sigla, especialmente na região Sul, passou a defender apoio
direto a Flávio Bolsonaro. Entre os nomes estão Deltan Dallagnol, Marcel van
Hattem e Adriano Silva, que vêm se aproximando do PL em articulações regionais.
O
debate interno gira em torno do papel do partido na disputa presidencial. Há
uma divisão entre os que defendem candidatura própria e os que avaliam que o
Novo deve atuar como aliado do bolsonarismo.
Ao
mesmo tempo, a candidatura de Zema enfrenta estagnação nas pesquisas e perda de
espaço.
Fonte:
Hora da Verdade, site do PT Nacional/Fórum

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