Trump:
índices de aprovação em níveis historicamente baixos
Desde a
construção de um salão de baile na Casa Branca até deportações em massa e a
criminalização de democratas: o presidente dos EUA está usando o ataque
fracassado de Cole Thomas Allen para reforçar seus objetivos políticos.
A
reportagem é de Andrés Gil, publicado por El Diario, 26-04-2026.
“Este
incidente jamais teria acontecido se tivéssemos a sala de segurança de nível
militar que está sendo construída na Casa Branca.” Foi assim que Donald Trump
começou o dia após o ataque frustrado de Cole Thomas Allen no Jantar dos
Correspondentes da Casa Branca, no sábado à noite, no Hotel Washington Hilton.
O
presidente decidiu unilateralmente demolir a ala leste da Casa Branca para
construir um salão de estado cujo orçamento já chega a 400 milhões de dólares,
teoricamente provenientes de doações privadas, mas cujo projeto não passou
previamente por nenhum órgão de supervisão, o que gerou críticas de entidades
de conservação, bem como algumas ações judiciais.
“O que
aconteceu ontem à noite é precisamente a razão pela qual nossas magníficas
Forças Armadas, o Serviço Secreto, as forças policiais e, por vários motivos,
todos os presidentes dos últimos 150 anos, vêm exigindo que um grande salão de
baile seja construído, seguro e protegido, nos terrenos da Casa Branca”, disse
Trump, como se agora se descobrisse que o presidente dos EUA não podia realizar
nenhum evento fora da Casa Branca: “Este incidente jamais teria acontecido se
tivéssemos o salão de baile militar de máxima segurança que está sendo
construído na Casa Branca. Eles não conseguem construí-lo rápido o suficiente!
Embora seja belíssimo, ele possui todas as medidas de segurança do mais alto
nível que existem; além disso, não há cômodos no andar superior pelos quais
pessoas não autorizadas possam entrar sorrateiramente, e ele está dentro dos
muros do edifício mais seguro do mundo: a Casa Branca.”
Ele
acrescenta: “O processo ridículo referente ao salão de baile, movido por uma
mulher que passeava com seu cachorro e que não tem absolutamente nenhuma
legitimidade para apresentar tal queixa, deve ser arquivado imediatamente. Nada
deve interferir em sua construção, que está dentro do orçamento e
consideravelmente adiantada em relação ao cronograma!”
Assim
como Trump quer usar o ataque para impulsionar um projeto de legalidade
duvidosa, ele também o está usando para exigir a liberação de verbas para o
Departamento de Segurança Interna, que supervisiona o Serviço Secreto,
responsável pela segurança do presidente dos EUA e que enfrenta críticas por
não ter impedido as tentativas de assassinato em Butler, Pensilvânia, onde uma
bala atingiu de raspão a orelha de Trump, e aquelas em Palm Beach — ao lado do
campo de golfe de Trump — e o ataque deste sábado no Hilton em Washington, DC.
E tudo
isso acontece enquanto Trump está atolado no conflito com o Irã. O presidente
americano anunciou que o conflito duraria entre quatro e seis semanas, e neste
sábado, quando as negociações entre os dois lados deveriam ser retomadas em
Islamabad, no Paquistão, dois meses se passaram com pouca perspectiva de um fim
à vista. Mas o presidente americano precisa que isso termine, porque os preços
da gasolina continuam subindo, o petróleo Brent está a US$ 100 o barril e as
eleições de meio de mandato são em novembro.
As
pesquisas também pintam um quadro muito sombrio para o presidente dos EUA. De
fato, seu índice de desaprovação atingiu o nível mais alto de seu segundo
mandato, segundo a média de pesquisas do New York Times, que revela que 58% dos
americanos desaprovam o desempenho do presidente, enquanto apenas 39% o
aprovam. Assim, os democratas estão tentando transformar as eleições de meio de
mandato em um referendo sobre a presidência de Trump, e alguns dos primeiros
apoiadores de Trump, como Tucker Carlson, se voltaram contra ele nos últimos
dias.
Assim,
Trump consegue passar de elogiar o Serviço Secreto a instar os democratas a
liberarem o financiamento do ICE sem restrições — sem reformar suas práticas
repressivas — na mesma frase durante uma entrevista à Fox neste domingo: “Eles
são patriotas corajosos, são pessoas ótimas com um trabalho difícil, e quando
você tem que deter assassinos e tirá-los do nosso país, e muitos deles vieram
da Venezuela e de outros países, vieram do Congo, temos pessoas fazendo um
trabalho incrível removendo-os do país ou colocando-os na prisão, onde eles
pertencem. Traficantes e chefões do narcotráfico entraram sem serem
verificados. O ICE é incrível, a Patrulha da Fronteira é incrível. E eles têm
dificuldade em obter reconhecimento pelo trabalho que fazem. Eu recebi 100% dos
votos das forças de segurança, vocês puderam ver isso ontem à noite, ninguém ia
entrar. E se eles tivessem entrado na sala, teriam sido atacados rapidamente.
Mas não, eles nem chegaram perto daquelas portas.”
Mas não
é só isso. Trump já está criminalizando a retórica dos democratas ao ser
questionado sobre a violência política nos EUA neste domingo, no programa 60
Minutes da CBS: “Se você olhar para trás, 20, 40, 100, 200, 500 anos, sempre
houve violência. Pessoas morrem. Pessoas se machucam. E não tenho certeza se há
mais violência agora do que antes. Mas acho que o discurso de ódio dos
democratas, por outro lado, é muito mais... é muito perigoso. Acho mesmo que é
muito perigoso para o país.”
E, da
mesma forma, o presidente, menos de 24 horas após o ataque em um evento com
jornalistas, volta a atacar a imprensa: “Por algum motivo, discordamos em
muitas questões. Por exemplo, sou muito rigoroso com o crime; parece que a
imprensa não é. Não é tanto a imprensa em si, mas a imprensa somada aos
democratas, porque são praticamente a mesma coisa. É uma loucura.”
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Uso da religião
Outro
aspecto definidor do governo Trump é o avanço do cristianismo na esfera
pública, especialmente após a guerra no Irã, e que se torna evidente nas
orações matinais de Pete Hegseth no Departamento de Guerra.
Assim,
o presidente dos EUA afirmou que a retórica religiosa presente no suposto
manifesto de Cole era "muito anticristã", colocando o elemento
religioso como fundamental para a motivação do agressor.
“Oferecer
a outra face é para quando você mesmo é oprimido. Eu não sou a pessoa estuprada
em um centro de detenção. Eu não sou o pescador executado sem julgamento”,
escreveu Allen, um californiano de 31 anos acusado de tentar burlar um posto de
segurança em um jantar portando diversas armas, no documento que um parente
entregou à polícia. “Eu não sou um estudante morto em uma explosão, nem uma
criança morrendo de fome, nem um adolescente abusado pelos inúmeros criminosos
desta administração. Oferecer a outra face quando alguém é oprimido não é
comportamento cristão; é cumplicidade nos crimes do opressor.”
Em
cartas enviadas à sua família minutos antes do tiroteio, Allen se
autodenominava um "Assassino Federal Amigável", e as autoridades
acreditam cada vez mais que o ataque teve motivação política.
As
cartas, enviadas pouco antes do tiroteio no Washington Hilton, faziam repetidas
referências a Donald Trump sem o mencionar diretamente e aludiam a queixas
sobre uma série de ações do governo, incluindo execuções extrajudiciais no
Pacífico Oriental.
Os
investigadores estão analisando os escritos, juntamente com um rastro de
postagens em redes sociais e conversas com familiares. De acordo com a
investigação, o irmão de Allen contatou a polícia de New London, Connecticut,
após receber os escritos. Em um comunicado, o Departamento de Polícia de New
London informou que foi contatado às 22h49, cerca de duas horas após o
tiroteio, por alguém que desejava compartilhar informações relacionadas a ele.
Agentes
federais também entrevistaram a irmã de Allen em Maryland, que contou aos
investigadores que seu irmão havia comprado legalmente várias armas em uma loja
de armas na Califórnia e as guardado na casa de seus pais em Torrance sem o seu
conhecimento, segundo a fonte oficial. Ela descreveu o irmão como propenso a
fazer declarações radicais.
Allen
adquiriu legalmente uma pistola semiautomática calibre 0.38 em outubro de 2023
e uma espingarda calibre 12 dois anos depois.
As
autoridades acreditam que Allen viajou de trem da Califórnia para Chicago e
depois para Washington, DC., onde se hospedou no hotel onde o jantar de gala
foi realizado dias antes, de acordo com o procurador-geral interino Todd
Blanche. Acredita-se que ele tenha agido sozinho e enfrentará acusações
criminais na segunda-feira.
Agentes
que entrevistaram familiares de Allen e examinaram os dispositivos eletrônicos
e escritos do atirador acreditam, preliminarmente, que sua intenção era atingir
membros do governo presentes no jantar. "Parece que ele realmente
pretendia atingir pessoas que trabalham no governo, provavelmente incluindo o
presidente", afirmou Blanche no programa da NBC.
De
acordo com registros federais de financiamento de campanha, Allen contribuiu
com US$ 25 para um comitê de ação política do Partido Democrata em apoio à
candidatura presidencial de Kamala Harris em 2024. Investigadores afirmam que
ele treinava regularmente em um estande de tiro, fazia parte de um grupo
chamado The Wide Awakes e participou de alguns protestos do movimento No Kings
na Califórnia, onde estudou na universidade e trabalhou como professor
¨
Conflito no Irã esquenta embate entre Trump e Congresso
Donald Trump gosta de se
apresentar como um presidente forte, que explora plenamente os poderes que lhe
são atribuídos pela Constituição dos Estados Unidos. Como comandante em
chefe das Forças Armadas, ele pode iniciar uma operação militar, mas deve
informar formalmente o Congresso em até 48 horas. Na guerra contra o Irã, ele
cumpriu esse prazo em 2 de março.
Agora,
porém, uma segunda data‑limite se aproxima: sem a aprovação de deputados e
senadores, uma operação desse tipo só pode durar 60 dias. Esse prazo expira
nesta sexta-feira (1º/05).
Caso
até lá não seja encontrada uma solução negociada entre Washington e Teerã, o
presidente precisará adotar novas medidas para continuar legitimando a ação
militar dos EUA contra o Irã. Trump, que em seu segundo mandato frequentemente
governa por decretos, contornando o parlamento, tem várias opções à disposição.
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O que é a Resolução dos Poderes de Guerra?
Há
quase 240 anos, os fundadores dos Estados Unidos dividiram a questão da guerra
na Constituição: o presidente é o comandante em chefe das Forças Armadas, mas
só o Congresso pode declarar guerra.
Mas o
Congresso raramente o faz. A última vez foi em 4 de junho de 1942,
quando o Congresso declarou guerra à Bulgária, Hungria e Romênia, aliadas da
Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
Em vez
disso, muitos ex-presidentes simplesmente usaram a redação vaga da chamada
Resolução dos Poderes de Guerra para autorizar o uso da força militar no
exterior.
A
Resolução dos Poderes de Guerra foi aprovada em 1973 e define como as
competências em tempos de guerra são divididas entre o Congresso e o
presidente. Ela não agradou ao então presidente, Richard Nixon. Seu veto,
no entanto, foi derrubado pelo Congresso com maioria de dois terços, o que
permitiu a entrada em vigor da legislação.
A
resolução é considerada uma lição tirada da Guerra do Vietnã, em que os EUA se
envolveram a partir de meados dos anos 1950 e que só foi formalmente autorizada
pelo Congresso em 1964.
Ela
afirma que os idealizadores da Constituição pretendiam que o Congresso e o
presidente usassem seu "julgamento coletivo" para enviar tropas
para "hostilidades". A Resolução dos Poderes de Guerra exige que
o presidente, "em todas as instâncias possíveis", "consulte o
Congresso antes de mobilizar as Forças Armadas dos Estados Unidos".
A
resolução supostamente preserva o papel do Congresso em conflitos modernos sem
declarações formais de guerra, mantendo, ao mesmo tempo, a flexibilidade do
presidente em situações delicadas.
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Prorrogação possível – mas só por 30 dias
De
acordo com a legislação, o presidente dos Estados Unidos pode prorrogar o prazo
de 60 dias uma única vez por mais 30 dias, especialmente para permitir uma
retirada ordenada das tropas.
Stormy‑Annika
Mildner, diretora do think tank Aspen Institute Deutschland,
sediado em Berlim, considera esse o cenário mais provável. "Acredito
que Trump recorrerá ao prazo adicional de 30 dias – com o argumento de que já
há avanços no conflito, existe um cessar‑fogo e que o fim da guerra se
aproxima, sendo necessário esse tempo para concluir o processo", diz.
Esse
argumento, no entanto, perderia força caso a situação no Estreito de
Ormuz se agrave ainda mais e o atual
cessar‑fogo – que não tem prazo definido – for violado de forma grave e
contínua. "Se o conflito se acirrar novamente, obviamente a
justificativa para esses 30 dias se torna ainda mais controversa do que já
é", afirma Mildner.
O
jornal The New York Times aponta outra
possibilidade: Trump poderia insistir que a regra dos 60 dias não se
aplica ao conflito no Irã. Foi esse o argumento usado em 2011
pelo antecessor frequentemente criticado por Trump, Barack Obama, em relação aos ataques aéreos na Líbia
aprovados pelas Nações Unidas: segundo Obama, a operação não envolvia combates
prolongados, muito menos o uso de tropas terrestres.
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Cinco resoluções contra a guerra rejeitadas
Em
geral, presidentes dos EUA buscam o apoio da população e especialmente do
Congresso antes de grandes ações militares – como fez George W. Bush antes da
Guerra do Iraque em 2003.
O fato
de Trump não ter feito isso no ataque ao Irã é uma vulnerabilidade
explorada repetidamente por deputados e senadores do Partido Democrata. Desde o
início de março, ocorreram cinco votações nas duas câmaras sobre resoluções que
visavam dificultar a atuação de Trump. Como esperado, todas fracassaram devido
às maiorias republicanas – embora algumas por margens relativamente estreitas.
"Além
de aprovar resoluções, o Congresso dispõe apenas de meios limitados
para encerrar a guerra", ressalta Mildner. "Um instrumento
eficaz seria cortar o financiamento, mas isso é politicamente muito difícil de
implementar." Os militares dos EUA estão profundamente enraizados na
sociedade, e interromper os recursos destinados aos soldados provavelmente
enfrentaria forte resistência em ambos os partidos.
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Congresso de olho nas eleições
As
cinco votações realizadas até agora não significam que uma sexta chegue ao
mesmo resultado. De acordo com o New York Times, vários
republicanos já anunciaram que pretendem reconsiderar seu voto. O senador
republicano John Curtis, de Utah, publicou um artigo cujo primeiro parágrafo
deixa claro: "Não apoiarei uma ação militar prolongada além da janela de
60 dias sem a autorização do Congresso."
Mildner,
porém, considera "não muito provável" que tal autorização seja
concedida. "Para muitos republicanos, é politicamente muito mais fácil
votar contra resoluções que visam pôr fim à guerra do que autorizar ativamente
sua continuidade. Essa segunda opção implica assumir uma responsabilidade clara
pela duração, pelos custos e pelos riscos da operação – o que gera grande
vulnerabilidade política, especialmente à luz das eleições de meio de
mandato."
As
eleições de meio de mandato (midterms) ocorrerão em 3 de novembro,
quando, como de costume, todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e
35 dos 100 assentos do Senado estarão em disputa. Historicamente essas eleições
costumam ser usadas pelos eleitores para punir o presidente. Neste ano,
pesquisas indicam que os republicanos podem perder a maioria em ambas as casas
do Congresso.
O
consultor político Jonathan Katz, do think tank americano
Brookings Institution, afirma que, sobretudo em estados e distritos
eleitorais com disputas acirradas, os candidatos acompanham atentamente as
pesquisas. "Ao mesmo tempo, votar contra a operação militar de Trump antes
das midterms seria uma manobra politicamente arriscada.
Parlamentares republicanos tenderão mais a se proteger do que a buscar um
confronto com o presidente, que é conhecido por atacar publicamente colegas de
partido que considera desleais."
Um dos
motivos para a baixa popularidade do presidente são os altos custos de vida,
agravados justamente pelo forte aumento dos preços dos combustíveis como
consequência da guerra com o Irã. Até mesmo dentro da base tradicionalmente
coesa do movimento trumpista Maga há críticas ruidosas à guerra. A pressão
sobre o presidente é, portanto, enorme para que ele encontre, a tempo das midterms,
uma saída honrosa do conflito – independentemente de como o Congresso venha a
ser envolvido no desfecho.
Fonte:
El Diário/DW Brasil

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