terça-feira, 28 de abril de 2026

Como usar o relógio biológico a seu favor? Resposta está na raiz do cabelo

Por que algumas pessoas se levantam animadas antes do despertador tocar, enquanto outras se arrastam até o meio-dia, como zumbis, sentindo que o mundo acordou cedo demais? O “culpado” dessa diferença é o cronotipo, uma expressão do nosso relógio biológico interno, que regula desde o sono até o metabolismo e a resposta a medicamentos.

Padrão-ouro para avaliar esse ritmo circadiano, o exame DLMO (sigla em inglês para início da secreção de melatonina em ambiente de baixa luminosidade) existe há décadas, mas é raramente usado fora de centros de pesquisa e clínicas especializadas em sono — porque é trabalhoso, caro e demorado.

Agora, pesquisadores da Charité - Universitätsmedizin Berlin, na Alemanha, desenvolveram um método capaz de determinar o cronotipo de uma pessoa — isto é, se ela é matutina, vespertina ou intermediária — sem laboratório especializado nem horas de espera.

Publicado recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo apresenta o HairTime, “um teste simples e não invasivo que estima a fase circadiana a partir de uma única amostra de cabelo”. Na prática, o exame funciona analisando a atividade de 17 genes presentes nas células do folículo capilar — a raiz do fio de cabelo.

Para identificar, nessa assinatura genética, os padrões que correspondem a diferentes fases do relógio circadiano, os pesquisadores treinaram um algoritmo de aprendizado de máquina. Em seguida, validaram o modelo, comparando seus resultados com os do DLMO em um grupo independente de voluntários. A correspondência foi forte.

<><> O que os cabelos revelam sobre nosso relógio biológico?

A aplicação do HairTime envolveu mais de quatro mil pessoas. Os dados mostraram que a distribuição dos cronotipos na população segue uma curva normal. A descoberta mais surpreendente, no entanto, foi que pessoas com emprego formal tinham seu relógio biológico cerca de 30 minutos mais adiantado do que o de indivíduos sem emprego.

Em outras palavras, o emprego não apenas seleciona pessoas matutinas (que já acordam cedo por natureza e por isso conseguem cumprir horários): o horário de trabalho também é um fator externo que efetivamente reprograma o ritmo circadiano. O cronotipo, portanto, não é totalmente fixo, mas tem plasticidade.

Um padrão já conhecido por autorrelatos foi confirmado agora com medidas biológicas: jovens na faixa dos 20 anos têm o relógio biológico naturalmente mais atrasado — ficam com sono cerca de uma hora mais tarde e, consequentemente, acordam mais tarde. Já pessoas acima dos 50 têm o relógio adiantado: sentem sono mais cedo e acordam mais cedo.

Em um comunicado de imprensa, o autor sênior do estudo, Achim Kramer, afirma: “Presumimos que o gênero afeta o relógio biológico, visto que os hormônios sexuais também demonstraram influenciar os ritmos biológicos em outros estudos”. Segundo os autores, o relógio interno das mulheres revelou o início da noite biológica ligeiramente mais cedo do que o dos homens.

<><> O caminho para a medicina circadiana

Se o cronotipo pode ser modificado por fatores externos — como mostrou a pesquisa —, o potencial clínico do HairTime vai além do diagnóstico. Afinal, o relógio biológico influencia o metabolismo, a resposta imune e até a forma como o organismo absorve e reage a medicamentos.

Assim, adaptar tratamentos ao ritmo circadiano de cada paciente — conceito chamado de cronoterapia — pode melhorar a eficácia e reduzir efeitos colaterais. Por isso, pesquisadores já trabalham para padronizar o HairTime em laboratórios clínicos, tornando-o acessível ao uso em medicina do sono e oncologia.

No entanto, viabilizar futuras aplicações em cronoterapia personalizada ainda depende de validar o método em populações mais diversas — os participantes do estudo foram predominantemente europeus —, além de estabelecer protocolos mais claros de coleta e análise.

Por ora, o HairTime representa uma plataforma de pesquisa com promessa clínica concreta. Simplificar o método de detecção do relógio interno aproximou a cronobiologia — um campo científico até então basicamente acadêmico — da medicina cotidiana, em que "quando tratar" pode ser tão importante quanto "como tratar".

•        Uso excessivo de analgésicos agrava enxaqueca e aumenta incapacidade

O uso frequente de analgésicos para aliviar dores de cabeça pode transformar as dores esporádicas em uma condição crônica. Especialistas alertam que o consumo excessivo desses medicamentos está diretamente associado ao agravamento da enxaqueca, criando um ciclo difícil de interromper e que impacta na qualidade de vida dos pacientes.

Conhecida como cefaleia por uso excessivo de medicação, essa condição surge quando remédios indicados para o alívio imediato da dor passam a ser utilizados de forma recorrente, muitas vezes por mais de três dias por semana. Com o passar do tempo, o cérebro se torna mais sensível aos estímulos de dor, reduzindo a eficácia dos próprios medicamentos e aumentando a frequência e a intensidade das crises de enxaqueca.

Essa conclusão está no Estudo Global da Carga de Doenças, Lesões e Fatores de Risco (GBD), publicado pelo The Lancet, que analisou dados de 1990 a 2023 sobre enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia associada ao uso excessivo de medicamentos.

De acordo com o levantamento, 2,9 bilhões de pessoas em todo o mundo conviviam com algum tipo de dor de cabeça em 2023, o que corresponde a 34,6% da população. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enxaqueca está entre as principais causas de incapacidade no mundo, principalmente entre pessoas em idade produtiva.

<><> O que diz o estudo?

O mecanismo por trás do agravamento da dor de cabeça esporádica para a enxaqueca envolve alterações nos sistemas de modulação da dor no cérebro. O uso repetido de substâncias analgésicas pode provocar mudanças neuroquímicas que facilitam a cronificação da enxaqueca, fazendo com que episódios antes esporádicos se tornem quase diários. Como resultado, muitos pacientes passam a depender cada vez mais da medicação, o que gera um ciclo de dor e consumo de medicamentos.

Para especialistas, o fácil acesso a medicamentos sem prescrição contribui diretamente para esse cenário. “Se o paciente começa a usar o remédio de crise com frequência e começa a ter na bolsa medicamento, isso é um sinal de alarme e ele provavelmente já está no uso excessivo de medicamentos”, diz Tiago de Paula, neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP).

Ainda segundo os especialistas ouvidos pela reportagem da CNN existe uma frequência segura para o uso de analgésicos, mas esse uso não deve ultrapassar 15 dias ao mês.

“De forma geral, recomenda-se que analgésicos simples não sejam utilizados por mais de 10 a 15 dias no mês. Já medicamentos específicos para enxaqueca, como triptanos ou combinações analgésicas, devem ser usados com ainda mais cautela, idealmente em menos de 10 dias mensais. Ultrapassar esses limites aumenta significativamente o risco de desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicação”, acrescenta Ulysses Caús Batista, neurocirurgião e neurorradiologista intervencionista do grupo Kora Saúde.

Além da piora clínica, o uso excessivo de analgésicos também está associado a maior risco de efeitos colaterais, incluindo problemas gastrointestinais, renais e cardiovasculares, dependendo do tipo de medicamento utilizado e da duração do consumo.

<><> O que fazer?

Pessoas com crises frequentes de dor de cabeça devem buscar avaliação médica para diagnóstico adequado e definição de estratégias de tratamento preventivo. O acompanhamento profissional é importante para evitar a automedicação e reduzir o risco de evolução para formas crônicas da doença, que tendem a ser mais difíceis de controlar e mais limitantes no dia a dia.

“O tratamento é de acordo com o grau de doença do paciente e a retirada dos medicamentos é gradual. Geralmente usamos estratégia com equipe multiprofissional, fazemos o bloqueio de nevo ucraniano para aliviar essa dor. Quando a gente retira o uso desses medicamentos e importante que o paciente também receba apoio psicólogo, porque ele poderá ter sintomas de abstinência da retirada desses remédios e ter sintoma de dor, ansiedade, tremor e até mesmo febre. É igual os sintomas de retirada de qualquer outra substância”, acrescenta Tiago.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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