Como
usar o relógio biológico a seu favor? Resposta está na raiz do cabelo
Por que
algumas pessoas se levantam animadas antes do despertador tocar, enquanto
outras se arrastam até o meio-dia, como zumbis, sentindo que o mundo acordou
cedo demais? O “culpado” dessa diferença é o cronotipo, uma expressão do nosso
relógio biológico interno, que regula desde o sono até o metabolismo e a
resposta a medicamentos.
Padrão-ouro
para avaliar esse ritmo circadiano, o exame DLMO (sigla em inglês para início
da secreção de melatonina em ambiente de baixa luminosidade) existe há décadas,
mas é raramente usado fora de centros de pesquisa e clínicas especializadas em
sono — porque é trabalhoso, caro e demorado.
Agora,
pesquisadores da Charité - Universitätsmedizin Berlin, na Alemanha,
desenvolveram um método capaz de determinar o cronotipo de uma pessoa — isto é,
se ela é matutina, vespertina ou intermediária — sem laboratório especializado
nem horas de espera.
Publicado
recentemente na revista científica Proceedings of the National Academy of
Sciences (PNAS), o estudo apresenta o HairTime, “um teste simples e não
invasivo que estima a fase circadiana a partir de uma única amostra de cabelo”.
Na prática, o exame funciona analisando a atividade de 17 genes presentes nas
células do folículo capilar — a raiz do fio de cabelo.
Para
identificar, nessa assinatura genética, os padrões que correspondem a
diferentes fases do relógio circadiano, os pesquisadores treinaram um algoritmo
de aprendizado de máquina. Em seguida, validaram o modelo, comparando seus
resultados com os do DLMO em um grupo independente de voluntários. A
correspondência foi forte.
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O que os cabelos revelam sobre nosso relógio biológico?
A
aplicação do HairTime envolveu mais de quatro mil pessoas. Os dados mostraram
que a distribuição dos cronotipos na população segue uma curva normal. A
descoberta mais surpreendente, no entanto, foi que pessoas com emprego formal
tinham seu relógio biológico cerca de 30 minutos mais adiantado do que o de
indivíduos sem emprego.
Em
outras palavras, o emprego não apenas seleciona pessoas matutinas (que já
acordam cedo por natureza e por isso conseguem cumprir horários): o horário de
trabalho também é um fator externo que efetivamente reprograma o ritmo
circadiano. O cronotipo, portanto, não é totalmente fixo, mas tem plasticidade.
Um
padrão já conhecido por autorrelatos foi confirmado agora com medidas
biológicas: jovens na faixa dos 20 anos têm o relógio biológico naturalmente
mais atrasado — ficam com sono cerca de uma hora mais tarde e,
consequentemente, acordam mais tarde. Já pessoas acima dos 50 têm o relógio
adiantado: sentem sono mais cedo e acordam mais cedo.
Em um
comunicado de imprensa, o autor sênior do estudo, Achim Kramer, afirma:
“Presumimos que o gênero afeta o relógio biológico, visto que os hormônios
sexuais também demonstraram influenciar os ritmos biológicos em outros
estudos”. Segundo os autores, o relógio interno das mulheres revelou o início
da noite biológica ligeiramente mais cedo do que o dos homens.
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O caminho para a medicina circadiana
Se o
cronotipo pode ser modificado por fatores externos — como mostrou a pesquisa —,
o potencial clínico do HairTime vai além do diagnóstico. Afinal, o relógio
biológico influencia o metabolismo, a resposta imune e até a forma como o
organismo absorve e reage a medicamentos.
Assim,
adaptar tratamentos ao ritmo circadiano de cada paciente — conceito chamado de
cronoterapia — pode melhorar a eficácia e reduzir efeitos colaterais. Por isso,
pesquisadores já trabalham para padronizar o HairTime em laboratórios clínicos,
tornando-o acessível ao uso em medicina do sono e oncologia.
No
entanto, viabilizar futuras aplicações em cronoterapia personalizada ainda
depende de validar o método em populações mais diversas — os participantes do
estudo foram predominantemente europeus —, além de estabelecer protocolos mais
claros de coleta e análise.
Por
ora, o HairTime representa uma plataforma de pesquisa com promessa clínica
concreta. Simplificar o método de detecção do relógio interno aproximou a
cronobiologia — um campo científico até então basicamente acadêmico — da
medicina cotidiana, em que "quando tratar" pode ser tão importante
quanto "como tratar".
• Uso excessivo de analgésicos agrava
enxaqueca e aumenta incapacidade
O uso
frequente de analgésicos para aliviar dores de cabeça pode transformar as dores
esporádicas em uma condição crônica. Especialistas alertam que o consumo
excessivo desses medicamentos está diretamente associado ao agravamento da
enxaqueca, criando um ciclo difícil de interromper e que impacta na qualidade
de vida dos pacientes.
Conhecida
como cefaleia por uso excessivo de medicação, essa condição surge quando
remédios indicados para o alívio imediato da dor passam a ser utilizados de
forma recorrente, muitas vezes por mais de três dias por semana. Com o passar
do tempo, o cérebro se torna mais sensível aos estímulos de dor, reduzindo a
eficácia dos próprios medicamentos e aumentando a frequência e a intensidade
das crises de enxaqueca.
Essa
conclusão está no Estudo Global da Carga de Doenças, Lesões e Fatores de Risco
(GBD), publicado pelo The Lancet, que analisou dados de 1990 a 2023 sobre
enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia associada ao uso excessivo de
medicamentos.
De
acordo com o levantamento, 2,9 bilhões de pessoas em todo o mundo conviviam com
algum tipo de dor de cabeça em 2023, o que corresponde a 34,6% da população.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a enxaqueca está entre as
principais causas de incapacidade no mundo, principalmente entre pessoas em
idade produtiva.
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O que diz o estudo?
O
mecanismo por trás do agravamento da dor de cabeça esporádica para a enxaqueca
envolve alterações nos sistemas de modulação da dor no cérebro. O uso repetido
de substâncias analgésicas pode provocar mudanças neuroquímicas que facilitam a
cronificação da enxaqueca, fazendo com que episódios antes esporádicos se
tornem quase diários. Como resultado, muitos pacientes passam a depender cada
vez mais da medicação, o que gera um ciclo de dor e consumo de medicamentos.
Para
especialistas, o fácil acesso a medicamentos sem prescrição contribui
diretamente para esse cenário. “Se o paciente começa a usar o remédio de crise
com frequência e começa a ter na bolsa medicamento, isso é um sinal de alarme e
ele provavelmente já está no uso excessivo de medicamentos”, diz Tiago de
Paula, neurologista especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina
(EPM/UNIFESP).
Ainda
segundo os especialistas ouvidos pela reportagem da CNN existe uma frequência
segura para o uso de analgésicos, mas esse uso não deve ultrapassar 15 dias ao
mês.
“De
forma geral, recomenda-se que analgésicos simples não sejam utilizados por mais
de 10 a 15 dias no mês. Já medicamentos específicos para enxaqueca, como
triptanos ou combinações analgésicas, devem ser usados com ainda mais cautela,
idealmente em menos de 10 dias mensais. Ultrapassar esses limites aumenta
significativamente o risco de desenvolver cefaleia por uso excessivo de
medicação”, acrescenta Ulysses Caús Batista, neurocirurgião e
neurorradiologista intervencionista do grupo Kora Saúde.
Além da
piora clínica, o uso excessivo de analgésicos também está associado a maior
risco de efeitos colaterais, incluindo problemas gastrointestinais, renais e
cardiovasculares, dependendo do tipo de medicamento utilizado e da duração do
consumo.
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O que fazer?
Pessoas
com crises frequentes de dor de cabeça devem buscar avaliação médica para
diagnóstico adequado e definição de estratégias de tratamento preventivo. O
acompanhamento profissional é importante para evitar a automedicação e reduzir
o risco de evolução para formas crônicas da doença, que tendem a ser mais
difíceis de controlar e mais limitantes no dia a dia.
“O
tratamento é de acordo com o grau de doença do paciente e a retirada dos
medicamentos é gradual. Geralmente usamos estratégia com equipe
multiprofissional, fazemos o bloqueio de nevo ucraniano para aliviar essa dor.
Quando a gente retira o uso desses medicamentos e importante que o paciente
também receba apoio psicólogo, porque ele poderá ter sintomas de abstinência da
retirada desses remédios e ter sintoma de dor, ansiedade, tremor e até mesmo
febre. É igual os sintomas de retirada de qualquer outra substância”,
acrescenta Tiago.
Fonte:
CNN Brasil

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