Mattia
Ferraresi: Aquele ponto sensível "papista" - a aversão de Trump por
Leão XIV
A dura
disputa político-teológica desencadeada pelas falas de Donald Trump
contra Leão XIV se
origina de uma fonte muito profunda. A rixa não tem a ver apenas com o debate
sobre a guerra no Irã, com o comportamento
do eleitorado católico no futuro próximo ou com o destino de dois potenciais
candidatos à presidência, mas com a concepção que os Estados
Unidos têm de si mesmos, de sua missão moral e de seu papel no mundo. E
com a Questão Romana em sua versão estadunidense, que evidentemente
ainda permanece sem solução. O primeiro papa oriundo dos Estados Unidos conhece
melhor do que qualquer outro pontífice antes dele aquele emaranhado de
desconfiança, mal-entendidos e tentativas desajeitadas de integração que
caracterizaram a presença dos católicos nos EUA, nascidos como um
projeto ao mesmo tempo secularizado e protestante, gnóstico e bíblico, secular
e messiânico. A experiência estadunidense começou com os puritanos, com a
intenção de restabelecer no Novo Mundo a aliança rompida entre Deus e
o povo de Israel, e a moderação laica de seu projeto de autogoverno era
uma resposta às guerras europeias entre católicos e protestantes.
Os Pais
Fundadores dos Estados Unidos colocaram a tolerância religiosa
no centro da estrutura governamental, mas inevitavelmente tomaram esse conceito
de John Locke, o mais influente
dos filósofos que moldaram a construção estadunidense, que teve o cuidado de
especificar que a tolerância religiosa se estendia a todos, exceto aos
papistas. Os católicos, em sua visão, eram cidadãos traiçoeiros e desleais que
não podiam ser acolhidos como os demais na nascente sociedade liberal.
Assim,
a relação controversa com Roma pesou desde o início sobre o projeto
de uma nação "sob Deus" que, desde suas origens, aspira cumprir
alguma promessa evangélica na história, mas quer fazê-lo em competição, não em
colaboração, com Roma. Robert Prevost, de Chicago,
sabe disso perfeitamente, e quando proclama no conturbado noroeste
de Camarões que "Bamenda, tu és a cidade sobre a colina",
está dizendo algo enorme para um país, o seu, que fez da imagem evangélica da
cidade na colina que resplendece, para que todas as nações a possam admirar,
uma parte central de sua autoconsciência, a ponto que desde sempre os
presidentes a citam sem reservas.
Ronald Reagan era
particularmente apegado a essa expressão, que o papa estadunidense inverte,
dirigindo-a a um lugar remoto e frágil, muitas vezes esquecido até mesmo na
própria região. Trata-se de uma enormidade simbólica com a qual Leão
XIV desafia a ideia civilizadora e evangelizadora que os Estados
Unidos têm de si mesmos, e que na curva histórica do presente se manifesta
também na enésima guerra no Oriente Médio, à qual se opõe com crescente
veemência um papa que inicialmente parecia pacato, mas que, na verdade, não é.
No
sábado, durante o voo de Camarões para Angola, Leão
XIV fez questão de enfatizar que o discurso, que também continha uma
referência aos "senhores da guerra" e a um mundo "devastado por
um punhado de tiranos", havia sido escrito antes do ataque postado
por Trump no Truth.
"Espalhou-se
uma certa narrativa, não totalmente precisa, devido à situação política criada
quando, no primeiro dia da viagem, o presidente dos Estados
Unidos proferiu algumas declarações a meu respeito", disse o papa aos
jornalistas.
"Boa
parte do que foi escrito desde então não passa de um comentário sobre um
comentário, na tentativa de interpretar o que foi dito", acrescentou, mas
o discurso em Bamenda "foi
preparado bem antes daquele presidente fazer comentários sobre mim e a mensagem
de paz que estou promovendo. No entanto, foi interpretado como se eu estivesse
tentando debater com o presidente novamente, o que não é de forma alguma de meu
interesse".
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Das margens ao poder
Ao
longo de 250 anos de história estadunidense, as relações evidentemente
evoluíram, os preconceitos
anticatólicos que
se manifestaram em violência e exclusões sistemáticas de imigrantes irlandeses
e italianos diminuíram com o tempo.
Os
católicos foram sendo integrados cada vez mais na vida política. A disputa
sobre as heresias "americanistas", condenadas por outro Papa, Leão XIII, se esvaziou.
O Concílio Vaticano II redefiniu a
relação entre a Igreja e a modernidade, figuras como o jesuíta John Courtney Murray buscaram
reconciliar o catolicismo e o projeto liberal, dois católicos foram eleitos
para a Casa Branca, a luta contra a União Soviética, travada
conjuntamente por Reagan e João Paulo II, confortou gerações
de católicos estadunidenses (especialmente à direita) sobre o fato de que os
preconceitos de Locke haviam sido arquivados definitivamente e sempre
se minimizou prudentemente quando os alertas do Papa entravam em forte conflito
com aqueles da Casa Branca. Veja-se a guerra no Iraque.
O
alvoroço dialético e psicológico gerado pela posição de Leão
XIV demonstra que a ferida ainda está aberta. E, mais uma vez, o estopim é
uma guerra, algo a que o Papa se opõe não apenas por práxis magisterial, mas
também por realismo político, visto que os desastres causados pelas iniciativas
militares estadunidenses neste século deveriam ser evidentes para todos.
A
peculiaridade dessa disputa reside no fato de que os católicos, nesse ínterim,
se tornaram a força cristã mais importante no cenário estadunidense, corroendo
aquele poder wasp (brancos anglo-saxões protestantes) que, não
muitas décadas atrás, trabalhava incansavelmente para marginalizar os papistas.
Os católicos são numericamente a maior denominação cristã nos Estados
Unidos e emergiram como uma força política e eleitoral formidável. O
católico Joe Biden levou muitos
dos seus para a Casa Branca, e Trump até o superou em seu segundo mandato. Mais
de 30% dos membros do gabinete são católicos, e entre eles estão duas
figuras-chave: o vice-presidente J.D. Vance e o secretário de Estado,
com delegação para tudo, Marco Rubio. Na controversa
reunião no Pentágono em janeiro passado, o cardeal Christophe Pierre, então
núncio apostólico nos Estados Unidos, se viu diante do subsecretário Elbridge
Colby, católico e sobrinho do diretor da inteligência estadunidense, que
colaborou estreitamente com João Paulo II na luta contra a União
Soviética.
Evidentemente,
esse protagonismo católico na vida pública não agrada a todos no governo.
Atualmente, a guerra no Irã é o tema mais
candente das relações, mas um dos pontos de maior atrito entre o governo e a
Igreja é a imigração, assunto em que se entrelaçam as razões do acolhimento,
mas também as tendências demográficas. A imigração nos
Estados Unidos é
predominantemente de latinos, a grande maioria católicos, e as batidas do ICE e o fechamento da
fronteira têm o efeito de retardar uma mudança demográfica e religiosa que
parece inevitavelmente destinada a aumentar as fileiras dos católicos.
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Vance e Rubio
A
decisão de Trump de exacerbar as tensões que vêm se acumulando há
meses colocou os católicos estadunidenses na posição desconfortável
de ter que escolher com maior clareza, sem poder contar com impossíveis
conciliações ou terceiras vias, se ficar do lado do homem de branco ou do homem
do boné vermelho.
Ao
votar em Trump duas vezes, a maioria dos eleitores católicos
demonstrou confiança na possibilidade de uma vida toda MAGA e Igreja, mas agora
todas as certezas estão vacilando. E, acima de tudo, vacilam os católicos no
poder. Trump, nascido presbiteriano e que ficou sem denominação, não por
acaso enviou Vance — a quem vem atormentando há meses — para repreender
o papa na televisão por suas ingerências em assuntos que não lhe dizem
respeito, chegando até a declarar que ele deve ser muito cauteloso ao falar de
teologia, sugerindo uma revisão da teoria da guerra justa. Rubio foi
poupado, por ora, de um confronto direto com o chefe da Igreja, mas os dois são
católicos culturalmente diferentes. Rubio é filho de cubanos, criado
precisamente no tipo de fé conservadora que ensinava a conciliar as razões do
trono e as do altar, optando pelo trono nos poucos casos em que a situação
resvalava para o atrito. Veja-se, mais uma vez, a guerra no Iraque.
Vance é
um convertido pós-liberal que cultiva (ou cultivava) a ideia de uma mudança
paradigmática na relação entre fé e política, a favor de uma abertura a uma
influência mais ampla dos juízos de fé sobre a lei e o poder. Em certo
sentido, Vance havia prometido aos católicos conservadores uma
profunda reforma das relações, não um pequeno reposicionamento.
Trump o
está obrigando a engolir de volta todas as suas palavras.
¨
Leão XIV não queria, mas agora se tornou o anti-Trump do
mundo. Por Marco Politi
Um
súbito retrocesso à Idade Média. Uma época em que reis e imperadores
podiam se insurgir contra o pontífice romano e, talvez excomungados, tentavam
fomentar a ascensão de antipapas.
O
ataque grosseiro de Trump a Leão XIV é tão surreal
que levou as relações internacionais a um estado semelhante ao de Gotham
City. Peter Thiel, o poderoso
tecnocrata libertário embriagado pela pós-democracia, agora precisa decidir: ou
o Papa é o Anticristo ou Trump é o Anticristo.
O
conflito tornou-se tão acirrado que uma solução baseada em métodos diplomáticos
tradicionais é inimaginável. Estamos retrocedendo a séculos
passados. Trump vestindo o saco penitente, jejuando descalço por três
dias em frente à Porta Pia, aguardando absolvição? Prevost, sequestrado
durante a noite em uma "operação Maduro" e levado de F-15 para
Washington para ser julgado no Escritório da Fé, criado na Casa Branca
pelo Imperador Donald? Olhando além da flagrante irracionalidade da
intervenção de Trump, três reflexões se fazem necessárias.
Mais
uma vez, o Conclave — uma reunião
de cardeais frequentemente considerados "velhos" fora de sintonia com
os tempos — demonstrou uma impressionante clareza geopolítica. Ao longo do
último quarto de século, deixando de lado a eleição de Ratzinger, claramente
inadequado para o papel de governança internacional da Igreja, os cardeais
eleitores escolheram três vezes (1978, 2013, 2025) uma personalidade capaz de
fazer sentir a sua presença no cenário mundial. Karol Wojtyla, o primeiro papa do outro lado da Cortina de
Ferro, precisamente no momento certo. Jorge Mario Bergoglio, o primeiro
pontífice do Sul Global. Robert Francis Prévost, o primeiro papa dos
Estados Unidos, nascido e criado na tipicamente americana Chicago, e ao
mesmo tempo bispo e cidadão peruano com o cheiro do trabalho árduo, da
exploração, da pobreza e da esperança do Terceiro Mundo. A escolha de Leão
XIV foi imposta no Conclave por cardeais do Sul Global, convencidos da
necessidade de continuar a internacionalização do pontificado, resistindo à
tentação de retornar ao "porto seguro" de um papa europeu ou mesmo
italiano. Um Sul Global de cardeais dispostos a ousar escolher um nome da
própria superpotência americana. Quão apropriado neste clima geopolítico atual!
A
segunda reflexão diz respeito ao presidente americano. Sua postagem
sobre Leão, rotulada de "fraco no combate ao crime e péssimo em
política externa", com uma série de insultos diversos, é — como
diria Talleyrand — pior que um crime, "um erro". Porque o
presidente dos Estados Unidos, já responsável por perder o apoio de uma
parcela do episcopado e de conservadores americanos fiéis com sua política de
perseguição a imigrantes latinos (mesmo aqueles que obedecem à lei e pagam
impostos), não percebe que um ataque institucional tão frenético contra o chefe
da Igreja Católica é insustentável, mesmo para aqueles no mundo católico que
possam discordar politicamente de algumas das posições de Prevost.
Em
última análise, o efeito político mais marcante do ataque de Trump é
que ele transformou o Papa Leão XIV na voz global do
anti-trumpismo. Prevost não queria ser assim, ele havia deixado isso
claro para seus confidentes. E por essa razão, durante muito tempo, ele
permitiu que os episcopados nacionais e — no caso da Santa Sé — a Secretaria de
Estado se pronunciassem sobre questões políticas sensíveis. A agressão ilegal
dos EUA e de Israel contra o Irã forçou o
pontífice a se tornar cada vez mais direto em suas críticas. Por exemplo, no
Domingo de Ramos, a citação do profeta Isaías, na qual Javé exclama:
"Ainda que você ore muitas vezes, eu não o ouvirei, porque suas mãos estão
cheias de sangue". Finalmente, há a declaração divulgada na última
terça-feira em Castel Gandolfo, depois que Trump ameaçou fazer
o Irã retornar à "Idade da Pedra", insinuando o uso de um
ataque nuclear. Leão classificou a declaração de Trump como
"inaceitável", acrescentando que instou a todos a mobilizarem seus
parlamentares para rejeitarem uma "guerra que muitos consideram injusta,
que continua a se intensificar e não resolve nada".
Até
ontem, o Papa Leão XIV, fiel à tradição da Santa Sé, havia evitado
mencionar Trump especificamente. Agora que o presidente americano o
colocou, com as próprias mãos, no pódio da oposição à política de poder dos
EUA, Prévost, no avião que o levava à Argélia, deu uma resposta que
era meio americana, meio vaticana: "Não sou político, não tenho intenção
de entrar em debate com ele (Trump) ... Não tenho medo do
governo Trump." Em seguida, veio a declaração de princípio:
"Antes, busquemos sempre a paz e paremos as guerras... Não acho que a
mensagem do Evangelho deva ser deturpada da maneira como algumas pessoas estão
fazendo."
O
desafio já começou, e nada pode mudar a oposição que se tornou palpável em
nível popular. No entanto, há um elemento que transcende o acontecimento do
dia. Nesta mudança de era — em que os
padrões do passado foram rompidos, para usar um conceito do
Papa Francisco — a Igreja Católica (com todos os seus erros e pecados
históricos) reaparece sob a liderança de Prevost como uma voz de
forte autoridade moral internacional, uma voz de humanidade, solidariedade e
fraternidade entre as religiões, uma voz de diálogo e respeito pelas pessoas —
especialmente as mais vulneráveis — e de cooperação multilateral entre as
nações.
Um
testemunho precioso em uma era de caos e brutalidade.
¨
"O conflito de Trump com a Igreja nasce da
ignorância. O Vaticano responde com a influência moral", diz Javier Cercas
"O
Papa Leão XIV tem uma visão em continuidade com a de Francisco, que por sua vez
era muito mais semelhante a Bento XVI do que se imagina." O escritor
Javier Cercas, 64, vencedor do Prêmio Internacional Costa Esmeralda, fala sobre
os bastidores de seu livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo"
(Record), com no qual viu as portas do Vaticano serem abertas para ele pelo
antigo pontífice.
>>>>
Eis a entrevista.
·
Como enquadra o conflito entre o atual Papa e Trump?
O
presidente estadunidense desconta sua raiva em todos porque, na visão dele, são
mais fracos do que ele. Ele não entende a força da Igreja porque
ignora sua história, que abrange dois mil anos. Vance me parece mais
prudente. Washington, além disso, ignora o fato de que
o Vaticano não tem um exército e seu poder reside na influência
moral. É um exagero considerá-lo um ator no jogo. O Papa pode intervir com
palavras, e na minha opinião está certo, mas se ele disser 'chega de guerras',
os conflitos não acabam.
·
Vê alguma diferença entre este Papa e o anterior em
termos de atitude em relação aos EUA?
Substancialmente
não. É claro que Francisco teria se manifestado contra Trump imediata e
diretamente. Leão XIV mantém uma postura mais matizada. A diferença
entre os dois papas reside apenas na forma. Talvez Leão XIV seja
menos incisivo na comunicação, mas ambos desejam retornar ao cristianismo
de Cristo. A essência do meu livro é que a Igreja quer voltar a ser mais
cristã. A história do cristianismo, por outro lado, é uma história de perversão
do cristianismo. Cristo era um revolucionário. Hoje, o catolicismo se
aburguesou, então as pessoas buscam o budismo, até irem à Mongólia e
perceberem que essa também é uma religião burguesa, muito prática e pouco
espiritual.
·
Quando esse retorno às origens acontecerá?
Começou
com Francisco, que queria uma ruptura, buscou-a e sacudiu a
Igreja. Leão continua no mesmo caminho de missionário, mas buscando
reunir as diversas almas. Não pode ser um projeto de um único papa, mas de uma
série. Trata-se de uma mudança longa e decisiva, iniciada por Bento
XVI com seu estilo. Cada país, além disso, tem sua própria igreja.
A Espanha é muito reacionária. Os EUA também.
A África, menos. No centro, o Vaticano é, acima de tudo, um
símbolo.
·
Hoje vivemos num mundo sem Deus, como previu Nietzsche. A
ciência e a tecnologia lhe tiraram o sentido. No Vaticano, encontrei grandes
surpresas a esse respeito, por exemplo, muitas ideias anticlericais.” Você
escreveria um romance sobre Trump?
Não
sei. Literatura não é jornalismo, embora o romance possa usar todos os gêneros,
como história e jornalismo. Mas eu não escrevo livros de história; sempre falo
sobre o presente. O passado faz parte do presente e, sem ele, o presente fica
mutilado.
Enquanto
isso, o bilionário estadunidense Peter Thiel teoriza sobre o
apocalipse. O que pensa disso?
Basicamente,
ele diz que o Vaticano é o diabo. Todos em Roma riem dele.
Li seu livro e é um delírio. Ele não é estúpido, apenas um lunático egolátrico.
Nem é o primeiro, mas tem muito dinheiro e pode vir a Roma para
falar.
·
Qual sua opinião sobre a postura do presidente Pedro
Sánchez em relação aos EUA?
Serve
para ele, mas também é correta. Gosto que os políticos façam o que é certo. Não
se pode ser contra a guerra na Ucrânia e a favor da guerra no Irã. É verdade que
existe um regime terrível no Irã, mas não é o caminho certo. Sánchez tem menos poder
que Meloni,
a Espanha é menos forte economicamente que a Itália, mas defende
melhor o direito internacional.
·
Você é socialista?
Votei
em Sánchez duas vezes, mas não me casei com ele. O principal motivo é
que apoio a utopia razoável de uma Europa federal e sou contra
aqueles que querem destruir esse sonho difícil, mas necessário. Hoje também
fala a esse respeito Draghi, que é um sonhador muito pragmático. É claro
que reconheço que a economia espanhola está indo bem nos grandes números, mas
não nas pequenas coisas, e há, por exemplo, um grande problema habitacional. Um
governo de esquerda deveria redistribuir melhor o bem-estar.
·
Como vê a situação em Gaza?
O
ataque inicial do Hamas foi terrível, depois Israel teve um
comportamento totalmente desproporcional e não o está mudando. Não sei se
genocídio é o termo jurídico correto, mas sei que há grandes massacres, como
no Sudão e
no Haiti, sobre os quais se fala bem pouco. Não basta dizer não à guerra
como Sánchez faz, porque
também há guerras que precisam ser travadas, como foi a Guerra
Civil Espanhola. Todos somos contra a guerra, mas, na prática, como
impedi-las de existir? O regime de Franco, por exemplo, não foi de paz, mas de
guerra por outros meios.
·
Qual o papel que você vê para os intelectuais hoje?
Uma
catástrofe. Eles não têm coragem de se expor para não prejudicar suas carreiras
e não criar inimigos. Se você diz a verdade, imediatamente se torna impopular,
porque as pessoas não querem ouvi-la. Eu vivo numa torre de marfim quando
escrevo, mas depois sou um cidadão e saio. Um escritor que diz 'sou um
intelectual' é um idiota. Eu sou um cidadão e falo como tal: a política não
deve ser feita apenas pelos políticos.
·
Então você não é apocalíptico?
Não,
ainda existem pessoas que leem, que querem aprender, que não aceitam ser
ignorantes. Meu filho de 31 anos é melhor do que eu em muitos aspectos, o mundo
está mudando positivamente em muitos sentidos: basta pensar na consciência
feminina ou na consciência ecológica, que não existiam antes. Obviamente,
existem contrarrevoluções, mas sempre foi assim. O passado parece melhor porque
éramos jovens e somos vaidosos, mas é falso. Reclamamos muito das redes
sociais, mas o problema é que as deixamos nas mãos de bandidos que as
transformaram no negócio do século. Todas as inovações têm um lado bom.
Fonte:
Domani/Il Fatto Quotidiano/La Stampa – Tradução por Luiza Rabolini, em iHU

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