Quando
a cristandade se torna irrelevante, o cristão volta a ser sal
"A
minoria cristã deve ter a possibilidade real de exercer uma verdadeira
influência evangélica no coração da humanidade. Contudo, não se deve ter nem a
obsessão da influência na sociedade, nem a temer. A verdadeira vida cristã
carrega em si uma mensagem de humanização. A espiritualidade cristã é, em
última análise, uma arte de viver humanamente", escreve Enzo Bianchi,
prior e fundador da Comunidade de Bose.
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Eis o artigo.
Durante
séculos, confundimos o Evangelho com o registro civil e a fé com o
pertencimento a um grupo social. Hoje, o desaparecimento da cristandade —
aquele sistema de poder e costumes nascido com Constantino — não é uma tragédia
a ser lamentada, mas a oportunidade que o cristianismo esperava para voltar a
ser ele mesmo. Livre do fardo das instituições que precisam agradar a todos, a
fé pode finalmente retornar ao que era no início: uma escolha radical,
minoritária e, precisamente por isso, revolucionária. O fim da cristandade é
uma oportunidade para o cristianismo, já que até agora o cristianismo viveu em
uma ambiguidade, a de “ser” cristão sem ter que se tornar cristão. Essa
coincidência entre fé e sociedade não existe mais, e a nova situação de minoria
dos cristãos é uma oportunidade para demonstrar que sua fé é vivida em
liberdade e por amor.
Alguns
cristãos temem que se tornar minoria possa levar ao seu futuro desaparecimento,
mas ser minoria não significa ser insignificante. Existem minorias eficazes que
atuam na sociedade para garantir que a mensagem cristã seja ouvida. Devemos,
portanto, ter cuidado para que essa condição de minoria não leve à asfixia, mas
sim sirva como sal ou luz do mundo.
A
minoria cristã deve ter a possibilidade real de exercer uma verdadeira
influência evangélica no coração da humanidade. Contudo, não se deve ter nem a
obsessão da influência na sociedade, nem a temer. A verdadeira vida cristã
carrega em si uma mensagem de humanização. A espiritualidade cristã é, em
última análise, uma arte de viver humanamente.
O
renomado teólogo Armando Matteo — professor de teologia fundamental na
Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma e secretário da Seção Doutrinária do
Dicastério para a Doutrina da Fé — há tempo dedica sua vasta produção
ensaística à análise da relação entre a fé cristã e a sociedade contemporânea.
Recentemente, publicou "La fortuna di essere irrilevanti. Trasformazioni
strutturali di una Chiesa dalla quale nessuno o quasi si aspetta più nulla” (A
sorte de ser irrelevantes. Transformações estruturais de uma igreja da qual
ninguém ou quase ninguém espera mais nada, em tradução livre), pela Edizioni
San Paolo. Um ensaio no qual Matteo se confirma, apesar de seu importante e
delicado papel como secretário do antigo Santo Ofício, como um teólogo livre,
corajoso e apaixonado, capaz de imaginar uma Igreja diferente, um cristianismo
diferente.
É
verdade que hoje quase ninguém espera mais nada da Igreja, no máximo, atividade
social e caritativa, preservação da piedade popular e conservação da religião
como cola de valor e, em determinados casos, de interesses. A tese central de
Armando Matteo é que a irrelevância atual da Igreja não é uma condenação, mas
uma libertação das expectativas mundanas que permite redescobrir a essência do
Evangelho. Assim, ele delineia uma visão do futuro do cristianismo que
transforma a marginalidade social em um recurso estratégico.
O
ocidental médio não vê mais o Evangelho como um recurso para sua própria
felicidade, e essa ruptura estrutural marca o fim definitivo do cristianismo
como "tradição automática". Por essa razão, ser uma realidade
"da qual ninguém espera mais nada" oferece à Igreja a liberdade de
mudar corajosamente, sem o fardo de ter que manter papéis sociais ou
institucionais preestabelecidos, e isso representa uma bênção para a Igreja, a
bênção da liberdade. Certamente, um abandono tão massivo da fé e do
pertencimento à Igreja causa desconforto e sofrimento, mas também pode
representar a oportunidade para transformações profundas que a Igreja necessita
há décadas, mas que foram por demais evitadas e adiadas.
Para o
teólogo Matteo, o futuro do cristianismo não reside na preservação de
estruturas, mas na capacidade de voltar a propor a figura de Jesus como caminho
para uma vida plena e feliz, dirigindo-se sobretudo àquele "vazio"
deixado pelas gerações adultas. A visão do autor sugere uma transformação
estrutural que abandone a autorreferencialidade para se tornar companheira de
jornada para os homens e as mulheres de hoje, aceitando ser uma minoria que se
destaca pela qualidade de sua missão e não pelo número de seus adeptos.
Para
Armando Matteo, o futuro do cristianismo não é um lento declínio rumo à
extinção, mas uma oportunidade de passar de uma pertença por convenção para uma
escolha consciente e alegre, possibilitada justamente porque a Igreja deixou de
ser um centro de poder social. O teólogo não se limita a teorias, mas aponta
escolhas concretas e necessárias, como passar da “pastoral do funil” para a
“pastoral da encruzilhada”, onde a paróquia não deve mais se comportar como um
funil que espera que as pessoas entrem para encaminhá-las em percursos
preestabelecidos (sacramentos, catecismo). A paróquia deve se tornar um lugar
de intersecção com a vida real, saindo de seus próprios limites para encontrar
as pessoas onde elas vivem, trabalham e buscam a felicidade.
Matteo
argumenta que o verdadeiro problema não são os jovens, mas os adultos que
deixaram de ser testemunhas credíveis. As paróquias devem ajudar os adultos a
redescobrir a beleza de sua própria idade e da responsabilidade, parando de
perseguir modelos juvenis. A proposta pastoral deve apresentar a fé como aquilo
que dá sentido a uma vida adulta complexa, ligando-a aos temas de bem-estar
interior e da generatividade. Em um contexto de irrelevância, os sacramentos
não podem mais ser "ritos de passagem" sociais. A liturgia deve
voltar a ser uma experiência espiritual e de encontro real com Cristo, capaz de
transmitir uma mensagem positiva mesmo para aqueles que estão distantes. As
paróquias devem deixar de ser "guichês de certidões" religiosas e se
tornar comunidades de fraternidade onde a fé é uma escolha.
O valor
do belo ensaio de Armando Matteo reside em sua visão profundamente evangélica
da natureza disruptiva da irrelevância do cristianismo. O fim da cristandade
não é o funeral da fé, mas sim sua fuga para a liberdade. Durante séculos,
confundimos o Evangelho com uma certidão de nascimento, reduzindo Deus a um
mero acessório do aparato social; agora que o mundo finalmente deixou de pedir
cerimônias vazias e garantias morais, a Igreja não tem mais desculpas.
Permanecer
irrelevantes significa deixar de ser o guichê burocrático da alma e retornar
àquilo que o poder sempre temeu: uma minoria profética. Se a paróquia deixar de
funcionar como um funil que engarrafa fiéis por inércia, poderá finalmente se
transformar em um laboratório de felicidade subversiva. O paradoxo está posto:
precisamente hoje, quando ninguém espera mais nada da Igreja, ela pode voltar a
oferecer a única coisa que importa — não uma tradição a ser preservada em
formol, mas o encontro com um Cristo que liberta a vida adulta do vazio do
consumismo.
O
futuro não pertence àqueles que resistem ao cerco, mas àqueles que têm a
coragem de habitar o deserto com a fragrância de uma alegria que não precisa de
licenças institucionais para brilhar.
Fonte: La Stampa-Tuttolibr – tradução de Luisa
Rabolini, em IHU

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