Bandidos
de Farda: Seis décadas depois, descoberta nova vítima de estupro por militares
da ditadura
A
vendedora de joias Marilene dos Santos Mello, à época com 32 anos, nem pôde se
despedir dos três filhos. Arrancada de casa à força por agentes do Centro de
Informações do Exército (CIE), em 19 de dezembro de 1969, ela foi brutalizada
por três dias. Não era militante da luta armada contra o regime e nem sequer se
envolvia com política, mas acabou capturada ao lado de três guerrilheiros da
Aliança Libertadora Nacional (ALN). Foi estuprada pelo menos duas vezes, uma na
viatura do Exército, logo após a captura, e outra em um apartamento de
Copacabana, usado como aparelho da ALN.
O
estupro no imóvel, na Rua República do Peru 143, está descrito em informe sobre
“Irregularidades na Seção de Operações”, de 12 de fevereiro de 1970, um dos
mais importantes papéis encontrados no acervo pessoal do coronel Cyro
Etchegoyen. O documento estava guardado dentro de uma pasta intitulada “Ordem
dos gorilas” e com um desenho na capa.
Em
outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo
por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz,
idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil,
Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está
desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação
foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal
Piva, repórter do ICL Notícias. Em nota, o Instituto Fernando Santa Cruz
disse que “teve papel central na reunião, preservação e publicização dos
documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro
de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado
brasileiro fez aos seus próprios filhos”. Além disso, o IFSC vai atuar pelo
reconhecimento oficial de Marilene como vítima da ditadura militar brasileira.
No
depoimento que prestou a Cyro, o então sargento Israel Sturne, indignado com a
atitude dos colegas do CIE, denunciou não apenas a violência praticada contra
Marilene, mas o roubo sistemático, por parte de agentes, de bens encontrados
com os presos políticos. Na segunda-feira (27), o ICL
Notícias publicará novos dados sobre essa denúncia na sequência da série
de reportagens.
O
documento interno descreve que as “irregularidades que estariam ocorrendo na
seção de Operações (do CIE), a qual era acusada de praticar violências
desnecessárias e excessivas durante os interrogatórios e de apropriação, para
uso pessoal de seus integrantes, de objetos pessoais encontrados em aparelhos
estourados”. Denominado “Resumo das declarações do sargento Sturne”, de 12 de
fevereiro de 1970, o documento diz que, após ser presa na Tijuca, Marilene foi
levada para outro local usado como aparelho pela ALN, em Copacabana, e foi
estuprada.
Sturne
descreveu a violência a Etchegoyen. “Consta que o sargento Iraci forçou a
senhora Marilene a dormir com ele na frente dos demais”, relatou. Na sequência,
ainda disse ter ficado absolutamente chocado com o episódio. “Sintetizando,
disse que funcionalmente o fato que mais o chocou foi a limpeza no apartamento
de Domingos e, do ponto de vista humano, chocou-se com a violência sexual sobre
a sra Marilene e com as torturas violentas observadas durante os
interrogatórios”, completou Sturne. Segundo ele, o sargente Canaã também
presenciou o crime. Sturne ainda definiu os colegas como “os piores sem sombra
de dúvidas”.
O
agressor descrito pelo colega é o sargento Iracy Pedro Interaminense Correa e
Canaã é o sargento Jairo de Canãa Cony. Em 2014, em depoimento ao Grupo de
Justiça de Transição do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro,
Iracy disse que serviu 15 anos no Exército e admitiu que trabalhou no CIE e que
conheceu o coronel Cyro. Na ocasião, tanto Iracy como Canaã tinham sido
apontados pelo tenente-coronel Paulo Malhães como os sargentos que atuaram com
ele na operação para ocultar os restos mortais do ex-deputado federal Rubens
Paiva, desaparecido desde janeiro de 1971.
Ao
depor, Iracy negou a participação no crime. Questionado sobre seu trabalho, ele
reconheceu que atuava junto com Canaã. “Esse Canaã ele era muito ligado na
brigada. Então, era um companheiro meu da brigada. Ele era da minha equipe, mas
eu não trabalhava quase com ele”, disse. “Eles iam sair, iam fazer a informação
e eu ia cuidar da viatura e cuidar de rádio”, informou. Ambos também foram
integrantes das equipes que atuaram nas torturas da “Casa da Morte”, de
Petrópolis.
Inês
Etienne Romeu, única sobrevivente a passar pelo local, também denunciou que foi
estuprada ao longo dos três meses em que foi torturada no aparelho clandestino
da ditadura. Ela acusou o soldado Antonio Waneir Pinheiro Lima, o Camarão, de
tê-la violentado. Ele responde a um processo na Justiça Federal do Rio de
Janeiro que aguarda apenas a sentença desde o ano passado. Camarão mora em Mogi
das Cruzes, em São Paulo.
Canaã
morreu em 1982 e Iracy em 2024.
<><>
Sequestrada por três dias
Marilene
morava com os filhos e a avó centenária em um sobrado na Rua Tenente Villas
Boas 16, na Tijuca. Ela era enteada do ator Modesto de Souza, um velho
militante do PCB, que atuou em filmes como “Terra em transe”. Depois que o
padrasto morreu, em agosto de 1967, o sobrado passou a ser usado como “casa de
passagem” para os militantes da ALN chegados do treinamento de guerrilha em
Cuba. A mãe de Marilene, Laura Santos Mello, organizava a acolhida em comum
acordo com Zilda Xavier Pereira, sua amiga e uma das mais importantes
dirigentes da organização guerrilheira.
A rua,
estreita e sem saída, parecia uma vila de casas e prédios baixos. Um bom
esconderijo para quem tramava contra o regime militar. O clima insuspeito do
local era reforçado pela vizinhança, formada por famílias tradicionais,
moradores pacatos e muitos militares. O tenente médico Amilcar Lobo, que seria
denunciado anos depois por atuar nas sessões de tortura no Destacamento de
Operações de Informações (DOI) na Rua Barão de Mesquita, era vizinho de porta.
Nunca desconfiou da existência do aparelho.
O
ex-deputado Carlos Marighella, o fundador da ALN que chegou a ser considerado o
inimigo “número um” do regime, frequentava o aparelho da Tijuca para se reunir
com os militantes da organização. O líder sindical Virgílio Gomes da Silva, o
Jonas, que coordenou o sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles
Elbrick, em setembro de 1969, esteve escondido no local. Ambos foram
assassinados pelos militares naquele ano.
Hoje
morando em Brasília, o ex-integrante da ALN Gilney Viana lembrou que passou
alguns meses no local e conviveu com Marilene e os filhos. “Ela era, no máximo,
uma simpatizante”, conta Viana, ao dizer que Marilene sabia que os hóspedes
eram integrantes da oposição à ditadura. “Foi o aparelho que eu fiquei
mais tempo. De final de maio até o dia 2 de novembro de 1969″, relembra. “O
Marighella, veja bem, eles tinham confiança nesse aparelho porque é um aparelho
que normalmente era de trânsito”, explica.
Tanto
Viana como o agora advogado Aton Fon Filho, outro integrante da ALN, recordam
de encontros com Marighella naquele local. Aton agora vive em São Paulo, mas
recorda de cada detalhe daquele 19 de dezembro de 1969.
“Tinha
regra na organização: se tiver algo estranho, uma pessoa diferente, foge. Eu
descumpri a regra. Subi e entrei. Quando eu entro na casa, a Linda Tayah já
havia sido presa e estava sendo torturada numa banheira no banheiro lá dessa
casa. Eu sou preso também. Subindo a escada. Eu tomo uns pontapés. Rolo escada
abaixo”, relembra. Depois, Aton foi levado para a mesma banheira onde estava a
companheira da ALN. “Eles molhavam a gente e puxaram o fio de lá de cima do
chuveiro elétrico para aplicar choques elétricos na gente. Então, as torturas
começaram ali mesmo, na casa”, revela. Aton depois foi levado pelo capitão
Maurício Lima para São Paulo e ficou preso até novembro de 1979. Ele não chegou
a ver o que ocorreu com Marilene naquele dia.
Quem
soube o que Marilene sofreu foi o sargento do Exército Israel Sturne. Ele
integrava a equipe que, no dia 19 de dezembro de 1969, estourou o aparelho da
ANL na casa de Marilene. No local, foram presos três nomes importantes da
organização na cidade: Aton Fon Filho, guerrilheiro treinado em Cuba, que
morava no sobrado, Linda Tayar, sua companheira, e Domingos Fernandes, primeiro
chefe militar da ALN carioca. Marilene foi levada pelos militares para o
endereço onde ficava o “aparelho” de Domingos, em Copacabana. Nas palavras do
sargento, do “ponto de vista humano” ele “chocou-se com a violência sexual
sobre a sra Marilene”.
Fon
Filho era um quadro importante da ALN. Meses antes da prisão, em junho de 1969,
ele participou da ação que detonou uma bomba-relógio no elevador da Câmara
Americana de Comércio, nos arredores do viaduto do Chá. O objetivo do atentado
era protestar contra a missão do então governador de Nova York, Nelson
Rockefeller, enviado ao Brasil pelo presidente norte-americano, Richard Nixon.
Na
memória de Augusto dos Santos Mello, 61 anos, existe uma lembrança viva daquele
dia. Ele é um dos cinco filhos de Marilene e hoje mora no interior do Rio de
Janeiro com a mulher. Ele diz que saiu com Marilene para fazer a feira naquele
dia e ela reparou em carros cheios de armas no caminho. Por isso, parou e
resolveu telefonar para sua mãe em casa. “Aí quando volta, é o terror, né? Eu e
meus irmãos fomos levados para uma sala no centro da casa, toda fechada, a
portas fechadas, janelas fechadas e ficamos lá. Ficamos lá até eles saírem da
casa e nos jogarem no vizinho”.
No
entanto, ao longo do tempo em que os militares torturavam Aton, Linda e
Domingos, as crianças ouviram tudo. “Eles encheram a banheira. Nós tínhamos uma
banheira de encher com água. E torturavam com fios. Estupraram ela e tudo mais
e bateram nela. E foi isso lá que aconteceu. A gente escutou”, relembra.
Depois, a mãe ficou desaparecida por cerca de três dias. “Quando nós voltamos
para casa, a minha avó que foi tomar conta da gente”, explica. Augusto diz que
a mãe retornou diferente. Calada, distante e por um bom tempo continuou assim.
“Ela voltou meio afastada da gente”, revela.
Sobre o
que aconteceu a ela no período em que desapareceu, Marilene guardou a dor por
muito tempo. A única vez em que revelou parte da violência sofrida foi quando a
família estava num carro e precisava passar por um túnel. “Ela só relatou
depois de muito tempo, porque a gente tinha que ir visitar minha avó e tinha
que passar pelo túnel. Ela não queria passar. Ela tinha trauma do túnel porque
ela foi retirada de casa e foi estuprada dentro do túnel”, revela.
O
militar Israel Sturne já morreu, mas o comerciante Reinaldo Sturne, um de seus
filhos, recorda bem de um período em que ele e a família passaram a ser
perseguidos pelos colegas do pai. “Lembro dele ter dito que foi fazer uma
inspeção nesse chamado aparelho, como diziam na época, e que lá era dividido em
paredes falsas e que provavelmente um militar que estava lá na operação haveria
dormido com a senhora do apartamento”, conta.
Na
memória do comerciante, há uma infância sob tensão e na qual o convívio com o
pai foi pequeno por um longo período. “Aí ele fez essas denúncias. Depois disso
que começou o vai e vem, que até então a nossa vida era tranquila. Depois
disso, começou a perseguição em cima dele”, recorda. “Nós tivemos que sair
dessa casa e ir para outra, aí novamente não dava dois ou três meses, tinha que
mudar dessa casa aí para outra. Então, morei em Olaria, Ramos e depois fui
parar na Ilha do Governador”, completa.
Dois
meses depois do depoimento para Etchegoyen, Sturne foi dispensado da função de
auxiliar no gabinete do ministro do Exército — enquadramento funcional dado aos
agentes do CIE. O ato administrativo indica que ele deixou de integrar a equipe
do órgão de repressão.
Segundo
Reinaldo, esse foi o começo da retaliação contra o pai, que teve consequências
para toda a família.
“Realmente
ele se sentiu perseguido porque ele denunciou alguns colegas de farda. O
pessoal estava ameaçando ele, praticamente. Tanto é que ele não tinha local
fixo. Ele quase que não ficava com a gente. Passei minha infância todinha
prejudicado porque não via meu pai. Ele não vinha pra casa para não expor a
família dele a risco”, relembra.
Por
conta desse afastamento, o sargento também deixou de receber uma gratificação
paga aos agentes do CIE, valor que se somava ao soldo dos militares que eram
designados para o órgão. A movimentação foi confirmada pela reportagem com base
em uma publicação no Diário Oficial da União em 16 de abril de 1970.
Fonte:
ICL Notícias

Nenhum comentário:
Postar um comentário