Britânicos
ensinaram à ditadura brasileira técnicas e estratégia para montar a ‘Casa da
Morte’
Cerca
de um mês depois de retornar de um “estágio de informações” na Inglaterra, em
dezembro de 1970, o então chefe da seção de contrainformações do gabinete do
ministro do Exército durante a ditadura militar, coronel Cyro Guedes
Etchegoyen, liderou a criação de um centro clandestino de tortura e
assassinatos na região Serrana do Rio que ficou conhecido como “Casa da Morte
de Petrópolis”. Documentos inéditos
produzidos por ele e outros três militares contam que o estágio foi feito após
um “convite do governo inglês” e mostram detalhes de como os quatro aprenderam
com britânicos do MI-5 técnicas e estratégias para criar um “centro de
interrogatório próprio, em lugar afastado e isolado”, onde o preso chegaria de
capuz e ficaria “incomunicável, isolado do mundo”, para quebrar a resistência
da vítima.
Além
disso, Etchegoyen e os colegas que fizeram o curso registraram que os militares
britânicos “demonstravam compreensão, não crítica” em relação aos casos de
tortura denunciados no Brasil durante a ditadura. Os ingleses ensinaram
Etchegoyen que o melhor para um interrogatório é que ele seja longo e
extenuante. “Em princípio, o preso não dorme ou lhe é permitido cochilar
(sempre levado à cela) por cerca de dez minutos (o melhor processo) e depois
volta a ser interrogado. Um exemplo de resistência é um interrogatório que
durou 58 horas seguidas, sem nenhum intervalo”, registraram os militares
brasileiros no relatório.
De
acordo com os papéis, de 14 a 19 de dezembro de 1970, estiveram no Reino Unido
o coronel Milton Machado Martins, do SNI, e o tenente-coronel Cyro Etchegoyen,
do CIE. De 15 a 26 de fevereiro de 1971, foi a vez dos tenentes-coronéis Moacyr
Coelho, do SNI; e Milton Masselli Duarte, do CIE. “A visita foi exclusiva para
oficiais brasileiros, os quais foram considerados hóspedes oficiais do governo
inglês”, informaram os militares no relatório.
O
“Relatório do Estágio de Informações na Inglaterra” faz parte dos documentos do
coronel Cyro Etchegoyen que estão sendo publicados no projeto “Bandidos de
farda”, do ICL Notícias, produzido nos últimos sete meses com uma série de
reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela
os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até
sua morte. São 23 pastas e 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que
pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente
pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua
morte. Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em
sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa
Cruz, idealizado pelo ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe
Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP), está desaparecido
desde 23 de fevereiro de 1974 e Felipe é seu filho. Uma segunda parte dos
documentos do coronel Cyro foi entregue pela mesma fonte em fevereiro deste ano
à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.
A Casa
da Morte foi um aparelho clandestino mantido pelo Centro de Informações do
Exército (CIE), órgão do gabinete do ministro do Exército, na época. O local
foi criado entre janeiro e fevereiro de 1971, durante o governo do
presidente-ditador Emílio Garrastazu Médici, período mais violento do regime. O
centro funcionava em uma casa cedida por um alemão, aliado dos militares, no
morro Caxambu, ponto isolado de Petrópolis, na região serrana.
Não há
dados precisos sobre o número total de presos levados para o local, mas a
ex-guerrilheira Inês Etienne Romeu, ex-dirigente da Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR), é considerada a única vítima a sair viva de lá, em agosto
de 1971. Ao sair do local, ela relatou informações sobre as execuções de sete
pessoas que foram reconhecidas pelo estado brasileiro como desaparecidos
políticos porque seus corpos nunca foram encontrados e ainda mencionou dados
sobre outros quatro opositores do regime que foram assassinados. Inês morreu,
em 2015, aos 72 anos.
A
cientista política Maria Celina D’Araújo, professora da PUC-Rio, entrevistou o
coronel Cyro entre 1992 e 1993, junto com o pesquisador Gláucio Ary Dillon
Soares. O material foi publicado no livro “Os anos de chumbo: a memória militar
da repressão”, que inclui o professor Celso Castro, do CPDOC, da FGV. A
entrevista de Etchegoyen é o único
registro de declarações públicas dele. Mas, na ocasião, ele não relatou sua
experiência no curso.
Quem
mencionou o envio de militares à Inglaterra, sem mencionar que Cyro foi um dos
alunos, foi o coronel Adyr Fiúza de Castro. Ele foi um dos criadores do CIE, em
1967, mas deixou o órgão dois anos depois para assumir uma das posições de
chefia do I Exército, no Rio de Janeiro, acumulando esse cargo a partir de 1972
com o comando do Centro de Operações de Defesa Interna (CODI). “Nós cedemos
umas dependências na Barão de Mesquita ao CIE para eles fazerem uma espécie de
“cela preta” que aprenderam nos Estados Unidos e na Inglaterra. Mas o ClE tinha
autonomia para trabalhar em qualquer lugar do Brasil. Eles tinham aparelhos
especiais, não oficiais, fora das unidades do I Exército, para
interrogatórios”, contou Fiúza, para os pesquisadores.
Ao
verificar a apostila, a pesquisadora Maria Celina D’Araujo recordou a surpresa
com que recebeu dos militares a informação dos cursos na Inglaterra, no início
dos anos 1990, e avaliou o manual
produzido por Cyro como um novo instrumento importante de pesquisa sobre
a colaboração dos ingleses com o governo ditatorial brasileiro. “Obviamente que
o governo inglês não faz um convite assim…ó vem aqui. Ele faz um convite a
partir de uma conjuntura. Devem ter havido negociações anteriores. E depois
você convida alguém”, aponta.
Autor
de “Segredos de Estado: o governo britânico e a tortura no Brasil”, o cientista
político João Roberto Martins Filho apontou o inédito manual escrito pelo
coronel Cyro como a prova mais importante surgida até agora sobre a colaboração
britânica com a ditadura brasileira. O
relatório “Estágio de Informações da Inglaterra”, com 165 páginas, descreve o
programa cumprido por quatro oficiais brasileiros em unidades militares
ingleses.
O
objetivo foi o de receber “uma apresentação geral do Serviço de Informações
Britânico (Bis) e do Serviço de Segurança Interna (Sv Seg Int ou MI-5), a fim
de possibilitar a seleção de assuntos de interesse dos órgãos de informações
brasileiros”. “Os britânicos, que sempre tiveram muito cuidado em esconder essa
colaboração com o Brasil, vão ficar muito irritados ao descobrir que os
brasileiros deixaram tudo escrito, detalhe por detalhe”, disse o professor
Martins Filho.
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‘O capuz é o melhor processo’
As
coincidências entre as técnicas de interrogatório, um dos capítulos do
documento, e os fatos relacionados à Casa da Morte são amplas. Os ingleses
ensinaram aos brasileiros que a localização do “centro” deveria ser um “segredo
de estado”. Somente as chefias e as equipes deveriam conhecer a sua
localização. O documento preconiza ainda que “só tem acesso livre ao centro os
interrogadores e a guarda”, que os “interrogadores podem trabalhar à paisana” e
que “não há arquivo e nem registro do centro”.
Um dos
oficiais que fizeram o “estágio”, o coronel Cyro Etchegoyen, ocupava no período
a chefia do Serviço de Contrainformações do CIE, e, segundo Inês Etienne Romeu
e alguns de seus ex-subordinados, assumiu a gestão da “Casa da Morte” de
Petrópolis. Era Etchegoyen quem definia os presos a serem conduzidos ao local e
avaliava o resultado dos interrogatórios, por exemplo.
As
condições espartanas das celas, com apenas um vaso sanitário e maca, “nada
mais”, condizem com os relatos de Inês Etienne sobre os três meses passados na
Casa da Morte. Além disso, os britânicos ressaltaram a necessidade de os
deslocamentos do preso deveriam sempre obedecer às seguintes regras: andar
algemado (com as mãos pra trás) e olhos vendados. Segundo Etchegoyen descreveu,
a orientação foi de que “o capuz é o melhor processo”. Para completar as
dificuldades, o deslocamento deveria ser feito em círculos para “perder a noção
de tempo, distância e orientação”.
As
condições descritas por Inês sobre seu deslocamento para a casa em Petrópolis
foram bastante semelhantes. “Retiraram-me à força do hospital e jogaram-me numa
caminhonete C-14 que estava estacionada no pátio do hospital. Deitada e com os
olhos vendados, fui conduzida para uma casa que, com o decorrer do tempo,
descobri situar-se em Petrópolis”, contou Inês.
O
objetivo, ao deixar o preso incomunicável, isolado do mundo, em condições
degradantes, era quebrar a resistência e a vontade para torná-lo um agente
duplo, como foi tentado com a sobrevivente do aparelho do CIE. Pressões como
deixar a vítima sempre alerta e com a
inatividade forçada, pouca alimentação, dominada por um sentimento de
fracasso e de desconfiança dos companheiros, além da falta de notícias, estão
entre os aspectos prescritos pelos britânicos no tratamento dos presos no
centro. Etchegoyen descreveu que a orientação dos britânicos foi para que o
preso não tivesse o básico. “Inicialmente, a alimentação (após a autorização do
interrogador) deve ser péssima e água ruim”.
Carlos
Alberto Soares de Freitas, o “Breno”, militante da VAR-Palmares, foi um dos
primeiros presos políticos levados para a Casa da Morte. Ele desapareceu no Rio
de Janeiro em 15 de fevereiro de 1971, no mesmo período em que os oficiais do
CIE e do SNI recebiam as instruções sobre interrogatórios. O “estágio”
recomendava a seleção de presos a serem conduzidos ao centro secreto,
priorizando os que tinham informações relevantes a fornecer. O coronel Paulo
Malhães, ex-CIE, que se dizia responsável pela organização da casa, revelou que
a prioridade era escolher comandantes e chefes dos “grupos de fogo” das
organizações da esquerda armada, como Breno e Inês.
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Tortura com ‘geladeira’ aprendida na Inglaterra
Professor
do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, João
Roberto Martins Filho disse que a
técnica de tortura com o uso da “geladeira” foi outro ensinamento dos
britânicos. Na “geladeira”, explicou, os presos eram expostos a mudanças
bruscas de temperatura, a ponto de sentir frio extremo depois de períodos de
forte calor. Esse tipo de sala foi citado por pelo menos 52 ex-presos
políticos, a maioria torturada no Destacamento de Operações de Informações do
Exército no Rio de Janeiro (DOI-I), na Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, zona
norte do Rio.
A
introdução da geladeira é um dos temas abordados no livro “Segredos de estado:
o governo britânico e a tortura no Brasil (1969-1976)”, no qual João Roberto
Martins Filho investiga documentos britânicos que detalham o conhecimento e a
colaboração do Reino Unido com a ditadura brasileira em relação a métodos de
tortura. Na obra, o autor cita o depoimento do ex-preso político Álvaro Caldas,
que escreveu “Tirando o capuz”. Caldas disse que ficou preso na geladeira do
DOI por uma semana, “sujeito a mudanças de temperaturas e ruídos fortes”, só
saindo de capuz para o banheiro.
O
relatório produzido pelos militares brasileiros sobre o estágio na Inglaterra
menciona salas com silêncio quase absoluto e, depois de certo tempo, a
introdução de um pequeno silvo, constante e contínuo, que não permitia definir
pulsações ou ritmo. “Aumenta-se ou diminui-se a temperatura do ambiente (de
acordo com o clima) e coloca-se o elemento na posição mais incômoda possível.
Normalmente, o interrogatório fica facilitado depois disso, mas já houve casos
de necessidade de repetir todo o processo preparatório algumas vezes”, descreve
o documento.
“O
relatório é um dos documentos mais importantes já encontrados sobre as áreas de
sombra do aparelho repressivo. É um raríssimo caso de relatório secreto sobre
laços entre o aparelho repressivo brasileiro e aparelhos de outros países. Foi
tão secreto que o sistema de espionagem americano não captou. Os americanos não
conseguiram saber a origem de mudanças nos métodos de interrogatório. Muito
menos as vítimas. Foi uma coisa ultrassecreta, que se concretizou na vinda de
pessoas do Exército britânico para cá e a construção do que ficou conhecido
como a geladeira”, afirmou Martins Filho.
Parte
dos ensinamentos britânicos foi desenvolvida na violenta repressão às ações do
Exército Republicano Irlandês (IRA), organização paramilitar que, no início dos
anos 1970 lutava pela independência da Irlanda do Norte. Em agosto de 1971,
segundo o professor Martins Filho, 16 “militantes do IRA” foram capturados,
levadas encapuzadas para uma base secreta inglesa ao norte de Belfast (capital
do país), sendo submetidas no local ao que se pareceu com “o experimento de um
método terrível de tortura”, que acabaria denunciado mais tarde em um livro
chamado “As cobaias”, de John McGuffin.
“Como
no episódio, tudo indica que os britânicos queriam fazer antes um teste das
instalações em algum lugar”, avalia o professor.
Dividido
em 17 capítulos, o relatório leva o carimbo de “secreto” em todas as páginas. A
“técnica de interrogatório” está no 11º capítulo. O documento também descreve
detalhes sobre o sistema de segurança do Reino Unidos à época, conceitos de
contra-informação e de contra-espionagem, sabotagem e seleção e adestramento de
pessoal.
Na
conclusão, os oficiais brasileiros relataram que os britânicos ensinaram
estratégias para o enfrentamento das denúncias de tortura no Brasil levadas aos
países desenvolvidos e demonstraram certo desconforto sobre a atuação das
agências americanas. Etchegoyen escreveu que o interesse dos britânicos para o
convite tinha, entre outras razões, uma “compreensão para com a campanha da
tortura” e ainda uma “preocupação voltada específicamente para a Rússia, e
agora também para Chile, Colômbia, Venezuela e Guianas”.
O
relatório informa que, no estágio nas unidades secretas britânicas, eram
proibidas anotações, “exceção aberta” para os quatro oficiais brasileiros”,
fato que explica os dados detalhados que preenchem as páginas do relatório
secreto.
Fonte:
ICL Notícias

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