Bandidos
de Farda: Estupro, roubos, assassinatos - Os crimes da ditadura escondidos por
Cyro Etchegoyen
“Dr.
Bruno – baixo, meio gordo, tipo sírio-libanês. Pareceu-me o oficial mais
graduado do grupo (coronel). Defendeu tese na Escola Superior de Guerra,
segundo me contou. É gaúcho”. Foi assim que a ex-presa política Inês Etienne
Romeu descreveu o primeiro dos 20 homens que a violentaram por 91 dias na “Casa
da Morte”, o maior cárcere clandestino da ditadura militar, localizado no morro
Caxambu, em Petrópolis, região Serrana do Rio. Por mais de quatro décadas, o
codinome “Dr Bruno” escondeu o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da
seção de Contra-Informações do gabinete do ministro do Exército no governo do
ditador-presidente Emilio Garrastazu Médici. A atuação do coronel foi revelada
por um antigo subordinado, o tenente-coronel Paulo Malhães, em 2014. Só
que, ao ser descoberto como um dos chefes do centro clandestino criado pelos
militares para torturar e desaparecer com opositores, o coronel Cyro já tinha
morrido. Ele morreu dois anos antes, em 2012, em decorrência de complicações de
um AVC.
A
partir deste domingo (26), o ICL Notícias publica o
projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma
série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O
projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo
mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de
documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro,
mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com
um outro militar após a sua morte.
Em
outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo
por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz,
idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil,
Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está
desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação
foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana
Dal Piva, repórter do ICL Notícias.
Entre
os documentos, obtidos com exclusividade, o coronel guardava, por exemplo,
relatórios de monitoramento do presidente Lula, no fim dos anos 1970. Mas o
documento mais perturbador é uma denúncia feita por um soldado do Centro de
Informações do Exército (CIE), órgão do gabinete do ministro, informando a
existência de um estupro perpetrado, em 1969, por uma equipe de militares que
atuava na área de operações e inteligência do CIE contra uma mulher que alugava
quartos a integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN). O crime aponta para a
existência de uma nova vítima da ditadura, desconhecida quando o relatório da
Comissão Nacional da Verdade foi finalizado em 2014. Na ocasião, foram
reconhecidas 434 vítimas, das quais 210 desaparecidas.
No
arquivo de Cyro Etchegoyen estava ainda uma apostila que detalha um curso de
interrogatório feito por ele, em dezembro de 1970, na Inglaterra, a convite do
próprio governo inglês. No documento, é possível verificar a indicação para a
construção de locais isolados, nos quais os presos são levados vendados e após
técnicas de desorientação.
Essas
duas primeiras histórias você conhecerá neste domingo e as demais serão
publicadas nos próximos dias até à estreia do documentário “Bandidos de
farda”.
O
coronel Cyro tinha relatórios que registravam metodicamente sistemáticos roubos
de móveis, objetos e dinheiro feitos por militares nas casas e apartamentos em
que prendiam pessoas. Segundo o soldado Israel Sturne, o produto do roubo era
levado para os escritórios do CIE, um dentro do Palácio Duque de Caxias e outro
que ficava em prédio da Avenida Presidente Vargas. Havia ainda um apartamento
que, de acordo com o militar, era utilizado pelos agentes para “encontros
ocasionais com pessoas do sexo feminino”.
O
coronel tinha em seu poder um extenso relatório informando como foi o trabalho
para o planejamento de operações que resultaram em prisões e assassinatos de
diversos opositores políticos entre 1969 e 1974, período em que ele esteve no
CIE. No documento, os militares nomeiam e dão detalhes inéditos da atuação de
dois agentes infiltrados que a ditadura colocou dentro das organizações de luta
armada. A documentação ainda aponta que o Exército teve, até 1974, ao menos 30
agentes infiltrados. Desses, pelo menos seis no exterior, entre Argentina,
Chile e Uruguai. No documento, a maioria é apresentada por meio de codinomes.
Não é possível saber se são militares treinados ou ex-integrantes dos grupos de
resistência que trocaram de lado.
O
arquivo inédito também possui uma caderneta empoeirada de 83 páginas na qual o
coronel expõe os gastos com todo o planejamento de várias operações que
resultaram em assassinatos. Um cruzamento de informações feito pelo ICL
Notícias entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com os dados
produzidos pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos
e Desaparecidos encontrou pagamentos no total de R$ 1 milhão para cerca de 30
ações militares que resultaram em mortes cometidas por agentes do CIE durante o
período mais violento da repressão política da ditadura militar.
O
registro dos pagamentos, que inclui a indicação de um centro clandestino de
tortura, desconhecido até aqui, também aponta para o controle e a prestação de
contas que era feito dentro do gabinete do então ministro do Exército, Orlando
Geisel. Os dados reforçam as informações existentes do controle da cúpula da
ditadura sobre os crimes do período, conforme também ficou registrado em um
memorando da CIA de 11 de abril de 1974. No documento do governo dos EUA, é
descrita uma reunião em 30 de março daquele ano na qual os
ex-ditadores-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo discutem com os
generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino,
respectivamente os chefes de saída e chegada do Centro de Inteligência do
Exército (CIE), à época, a manutenção da política de assassinatos e
desaparecimentos desenvolvida no governo Médici. Na ocasião, eles registravam
104 mortes de opositores.
O
próprio coronel Cyro, ainda em 1994, tinha apontado para essa proximidade da
cúpula em relação às decisões do gabinete. “Eu cansei de ver assuntos do CIE
irem direto para o presidente da República. Não que não tenham ido ao SNI. Mas
eram tão importantes que o general Orlando Geisel (ministro da Justiça) os
levava direto ao gabinete do presidente, e lá se encontrava também com o chefe
do SNI”, afirmou Cyro, em uma entrevista concedida aos pesquisadores Maria
Celina D’Araujo e Gláucio Ary Dillon Soares, publicada no livro “Os anos de
chumbo: a memória militar da repressão”, que inclui o professor Celso Castro,
do CPDOC, da FGV. Cyro Etchegoyen não costumava receber jornalistas ou
pesquisadores. Esse é o único registro de declarações públicas dele em vida.
E foi
por meio de uma cópia dessa entrevista que o ICL Notícias também
averiguou a veracidade desse arquivo. No meio dos documentos, há uma carta
manuscrita da professora Maria Celina com a cópia da entrevista entregue por
ela em 1993 para o coronel Cyro, pouco antes da publicação do livro. A
pesquisadora reconheceu a cópia da carta e lembrou da entrevista. “Todos eram
muito educados. Eu acho que é parte até da masculinidade e a parte do machismo,
você ser educado com uma dama. Ele não me chamou a atenção, assim em termos de
ser uma pessoa que tivesse vaidade de falar sobre seus feitos, do ponto de
vista do que foi a repressão. Bem, porque ele negava. Ele negava que tivesse
havido uma repressão nos moldes que os presos políticos falavam. Ele negava a
tortura, por mais que a gente tentasse saber detalhes. Mas ele vai falar sempre
de uma forma muito orgulhosa do trabalho deles. Isso era uma coisa que me
impressionava. Era o orgulho que eles tinham de falar da contribuição que eles
tinham dado para o golpe de 64, para a ditadura, para ter combatido o
comunismo”, conta a pesquisadora. Sobre a apostila do estágio na Inglaterra,
Maria Celina pontuou a importância da descoberta. “Quer dizer, obviamente que o
governo inglês não faz um convite assim… ó, vem aqui. Ele faz um convite a
partir de uma conjuntura. Deve ter havido negociações anteriores”, explica.
Cerca
de um mês depois do retorno do coronel Cyro da Inglaterra, ele coordenou a
criação da “Casa da Morte” em moldes semelhantes ao que descreveu ter aprendido
no curso. “A tortura era uma política de Estado. A gente se diferencia dos
países da América Latina, porque de fato a gente vai ter um grupo específico a
frente dessas ações”, explica Samantha Quadrat, pesquisadora da Universidade
Federal Fluminense. “Eles se beneficiavam economicamente, seja através das
pilhagens (roubos) que eram feitas, mas também porque eles tinham boas
gratificações nessa atuação. Eles recebem as melhores promoções. Eles tinham
uma série de benesses para estar atuando ali e eram homens formados para
aquilo. Havia uma ciência ao redor daquilo”, completa.
Há
ainda uma lista com 73 nomes de integrantes do CIE, dos quais a metade recebeu
a Medalha do Pacificador com Palma naquele período, revelando uma série de
novos potenciais integrantes das ações da repressão da ditadura.
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Cyro, o “dr Bruno”
Cyro
nasceu em 1929 e é filho de Alcides, o patriarca do Etchegoyen. Nasceu na
fronteira entre o Brasil e o Uruguai a ponto de inspirar entre seus conhecidos
uma certa lenda sobre se era brasileiro ou uruguaio. Torcia pelo Fluminense,
não costumava beber, mas manteve até os últimos dias, em 2012, o hábito de
fumar. Guardava consigo quatro armas: uma pistola .38, uma Beretta 22 e duas
Magnum, uma .48 e outra .45.
Pertence
a uma longa família de militares. O primeiro Etchegoyen militar é o pai:
Alcides. Ele aderiu à chamada Coluna Relâmpago, em 1926, e tentou um
levante em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, contra a posse do
presidente Washington Luís. Depois, apoiou o movimento que levou Getúlio Vargas
ao poder e cresceu na carreira. Em 1942, substituiu Filinto Müller na chefia de
Polícia Civil do Distrito Federal — o mesmo Müller que havia prendido e
entregado à Gestapo de Hitler a judia alemã Olga Benário, mulher de Luís Carlos
Prestes, então grávida, que foi executada na câmara de gás do campo de
extermínio de Bernburg. Alcides foi promovido a coronel e passou a perseguir o
jogo do bicho e a prostituição, além de dar continuidade à repressão dos opositores
políticos do governo.
Nos
anos 1950, Alcides se envolveu em novas conspirações. Em agosto de 1954,
assinou o manifesto que exigia a renúncia de Getúlio Vargas e acabou
preso em 1955 pelo ministro Henrique Teixeira Lott, quando este resolveu depor
o presidente interino Carlos Luz. Naquele mesmo ano, Alcides também se somou
aos que tentaram barrar a posse de Juscelino Kubitschek. Um ano depois, morreu
de infarto fulminante e não chegou a ver a ascensão militar dos filhos Cyro e
Léo. Ambos seguiram a carreira militar e despontaram com a ascensão dos
militares após o golpe de 1964.
Em
março e abril de 1964, o envolvimento pessoal de Cyro foi decisivo. Ele
estudava na Escola do Comando do Estado Maior e lá integrou as articulações do
golpe. Quando as tropas do general Olímpio Mourão deixaram Juiz de Fora rumo ao
Rio, Cyro ajudou a proteger o governador Carlos Lacerda, simpático à ideia dos
militares derrubarem o presidente João Goulart. Nesse alinhamento de forças,
encontrou o então tenente Freddie Perdigão Pereira, que guardava a entrada do
Parque Guinle, no bairro de Laranjeiras, com cinco tanques M-41 inicialmente
disponibilizados para proteger Goulart. Com o desenrolar dos acontecimentos,
Perdigão foi convidado a trocar de lado. Hesitante, negociou com seus
subordinados e, horas depois, saiu com quatro tanques em direção ao Palácio
Guanabara. O major Cyro Guedes Etchegoyen liderou o comboio dirigindo um
Volkswagen. Discursos e fotos se seguiram, com o governador Carlos Lacerda
bradando sobre o que chamou de “salvação do Brasil e a de si próprio”.
Naquele
mesmo ano, em junho de 1964, Leo, então chefe da polícia gaúcha em Porto
Alegre, recebeu o policial norte-americano Dan Mitrione, especialista em
torturas e responsável no Brasil do Office of Public Safety (OPS), braço da CIA
que atuava na América Latina sob a fachada da USAID. Os dois posaram para fotos
na escadaria do Palácio da Polícia. A primeira visita de Mitrione a Porto
Alegre havia ocorrido entre 21 de janeiro e 1º de fevereiro de 1964, com um
curso de 30 horas intitulado “Supervisão e operações de patrulhamento”.
Mitrione voltou no mesmo ano, dois meses após o golpe, para um curso de 25
horas sobre “Técnica de patrulhamento”, entre os dias 19 e 26 de junho.
Ao
longo dos anos seguintes, Cyro subiu na hierarquia militar. Em 1967, foi adido
militar no Paraguai e chegou a conviver com o ditador Alfredo Stroessner, que
comandou aquele país entre 1954 e 1989 e deixou mais de 3 mil pessoas
assassinadas no período. Na sequência do crescimento, veio o convite ao CIE.
Sete
anos após o golpe, era um dos chefes do órgão e foi chamado para dar início ao
trabalho de contra-informação. Sediado no 8º andar do Palácio Duque de
Caxias, no centro do Rio de Janeiro, onde ficava também o Quartel General do I
Exército, o CIE centralizou algumas das principais ações para prender e
assassinar lideranças dos grupos de oposição à ditadura. Junto com outros
oficiais do gabinete do ministro do Exército, Cyro tornou-se expoente do
trabalho de segurança, espionagem e repressão. Ele passou à reserva em 1983 e
morreu em 2012.
O
último dos Etchegoyen a ser conhecido publicamente é o sobrinho de Cyro,
general Sergio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional
no governo de Michel Temer, entre 2016 e 2018.
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Nota Instituto Fernando Santa Cruz
Há
histórias que o tempo tenta enterrar, guardadas em arquivos “reservados”,
escritas com a frieza burocrática de quem transformou o terror em rotina,
reduzidas a números em relatórios de “subversivos postos fora de circulação”.
Há famílias que resistiram ao silêncio imposto pelo Estado, guardando memórias
como brasas acesas. Há o heroísmo dos que disseram não, que escolheram a
consciência em vez da ordem e desapareceram sem túmulo, sem despedida, sem fim.
Foi Juliana Del Piva e a equipe do ICL quem foram até essas famílias,
quem os ouviu, quem reconstituiu os fatos com a coragem de quem sabe que a
verdade, quando finalmente encontrada, dói e liberta ao mesmo tempo. Este
trabalho não é apenas uma séri de reportagens. É um ato de resistência, de
reparação e de memória viva.
O Instituto Fernando
Santa Cruz – IFSC apoia de forma incondicional este trabalho e estende esse
apoio a cada família que abriu suas portas e suas feridas para que ele
existisse. O IFSC leva o nome de Fernando Santa Cruz, estudante, militante,
pai, desaparecido político desde 1974, cujo corpo o Estado jamais devolveu à
sua família. Levamos seu nome não como símbolo de dor, mas de luta: pela
memória, pela verdade e pela justiça que ainda está por vir. O IFSC teve papel
central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem
a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército
que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus
próprios filhos. Cada família encontrada confirma que a história não pertence
aos que tentaram apagá-la, ela pertence aos que sobreviveram para contá-la.
Acreditamos, com toda a força de nossa missão, que um país que não enfrenta o
seu passado não apenas o repete, mas o legitima. Nunca mais!
Instituto
Fernando Santa Cruz-IFSC
Memória,
Verdade e Justiça
Fonte:
ICL Notícias

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