Ann
Pettifor: O Capitalismo segundo David Harvey
Marx
precisa de David Harvey. Primeiro, porque a linguagem do grande pensador é
frequentemente densa e impenetrável, exigindo a “tradução” esclarecedora de
Harvey para fazer sentido aos leitores de hoje. Segundo, muita coisa mudou
desde 1867, quando o primeiro volume de O Capital foi publicado em Berlim.
Terceiro, Marx e o marxismo precisam de Harvey e deste livro porque os
comentários acadêmicos tendem a se concentrar no Volume I de O Capital e não
nos cruciais Volumes II e III, publicados cerca de vinte anos depois do
primeiro.
Grande
parte do debate marxista atual ignora o papel da teoria e da política
monetária, bem como do capital valorizado por juros, na condução da espiral
infinita de acumulação do capitalismo e na precipitação de crises internas e
internacionais. Como argumentou Michael Hudson , os marxistas frequentemente
negligenciam o fracasso do capitalismo financeiro em libertar as economias da
dinâmica rentista, remanescente do feudalismo e do imperialismo europeus. “O
marxismo acadêmico não se concentrou no setor FIRE – Finance, Insurance and
Real Estate, ou Finanças, Seguros e Imobiliário. É como se os juros e a
extração de renda fossem problemas secundários em relação à dinâmica do
trabalho assalariado”, escreve ele. Harvey não negligencia as finanças. O
capítulo 15 de A História do Capital intitula-se “O Retorno do Rentista” e
argumenta que:
“Agora
é a vez do capitalista industrial submeter-se ao poder de monopsônio dos
comerciantes (como o Walmart ou a IKEA) ou ao poder monopolista dos
financistas, enquanto os proprietários de terras (incluindo os que controlam a
riqueza mineral) extraem sua parte (ou gramas de lítio) onde quer que possam.”
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Mapeando a história do capital
Harvey
é um geógrafo conhecido por sua contribuição à geografia crítica, que explica
como o capitalismo sobreviveu e prosperou organizando e hierarquizando o espaço. Fiel ao seu estilo, o novo livro
começa com seu “mapa” da “história” do capital. O mapa descreve processos: a
circularidade do capital monetário produzindo demanda efetiva, levando à
produção de mercadorias de valor e, em seguida, à valorização da mais-valia,
culminando na materialização do valor em forma de dinheiro. Como todos os
mapas, o processo parece estático. No entanto, como Harvey explica em outro
trecho, o processo capitalista move-se, no mundo real, da forma cíclica
representada no mapa para uma forma em espiral: uma espiral de acumulação
infinita do que Marx chamou de “massa monstruosa”. Como Harvey detalha em seu
fascinante capítulo 7 – “Massas em Movimento” – a “massa cada vez maior de
‘tudo’ ameaça esgotar as possibilidades de acumulação infinita de capital”.
Ecoando preocupações científicas com o Ambiente, Harvey argumenta que “o
crescimento da massa compromete seriamente a própria existência do já tênue
estilo de vida da humanidade, se não a própria humanidade, no planeta Terra”.
Um dos
principais “motores de tais males”, escreve Harvey, reside certamente nos
problemas decorrentes da crescente massa de valores e mais-valias que não têm
para onde ir de forma lucrativa. Essa massa crescente não pode ser revertida,
dada a forma como as leis de movimento do capital estão estruturadas. E, graças
à onipresença do modelo econômico
voltado para a exportação, a economia global sofre com uma crise de
superprodução. Simultaneamente, a repressão salarial e outras formas de
“austeridade” resultam no subconsumo de tudo o que é produzido globalmente.
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Acumulação em espiral
Para
enfatizar a escala de tal acumulação, Harvey cita as estimativas do Banco
Mundial para o PIB global, avaliado em US$ 9,25 trilhões em 1950. Em 2011, esse
valor havia disparado para US$ 94,9 trilhões – um aumento de mais de dez vezes
na produção econômica global em 60 anos. Como essa taxa de crescimento
exponencial pode ser sustentada no futuro?, questiona Harvey. Entre 2011 e
2013, a China consumiu 6,6 gigatoneladas de cimento – uma importante fonte de
gases de efeito estufa. (Para contextualizar esse número, os EUA levaram 100
anos para consumir 4,5 gigatoneladas.)
“Durante
esses dois anos, a China liderou o crescimento econômico mundial, salvando o
mundo da recessão econômica, em parte ao disseminar o cimento por toda parte em
um boom de construção de infraestrutura sem paralelo na história da
humanidade.”
A
dimensão espacial da acumulação de capital em espiral exponencial não poderia
ser mais clara.
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Da produção industrial à renta e aos juros
Após a
grande crise financeira de 2007-2009, eu e muitos outros argumentamos que a
crise foi causada pela desregulamentação dos sistemas financeiros
internacionais e domésticos, e pelo reposicionamento das finanças sob a
autoridade dos mercados privados – em vez da autoridade pública, democrática e
regulatória. Alguns marxistas contestaram esses argumentos com a afirmação – e
aqui parafraseio – de que a crise foi, ao invés disso, desencadeada pela “queda
da taxa de lucro” do capitalismo . Harvey dedica um capítulo inteiro ao tema e
nele aponta para um notável economista marxista, Michael Roberts, que considera
irrefutável que a lei da queda da lucratividade seja a única causa subjacente
das tendências de crise do capitalismo (86).
Marx
não foi o único a prever uma tendência de queda nas taxas de lucro, explica
Harvey. David Ricardo e (de forma mais cautelosa) Adam Smith também acreditavam
que os lucros estavam fadados a cair, sugerindo que o capitalismo industrial
poderia não ser um modo de produção viável a longo prazo. A lei de Marx,
argumenta Harvey, baseia-se na regra de que “um grande volume de capital, com
uma taxa de lucro menor, acumula mais rapidamente do que um pequeno volume, com
uma taxa de lucro maior”. Se a massa de valor já é enorme, ela continua a se
expandir com consequências potencialmente monstruosas (tanto ambientais quanto
sociais), mesmo diante de uma queda acentuada na lucratividade. Aquisições
alavancadas [financiadas por dívidas] vêm à mente como maneiras convenientes
pelas quais certos capitalistas podem obter controle sobre uma enorme massa de
capital com base em um aporte mínimo de recursos próprios.
Harvey
rejeita as apresentações do argumento de Marx que sugerem que a taxa de lucro
está exclusivamente ligada à taxa de exploração da força de trabalho na
produção. Ele cita o exemplo da indústria farmacêutica dos EUA, onde muito
pouco lucro é obtido com a exploração da força de trabalho. A maior parte
deriva, ao contrário, de preços monopolistas extorsivos, em conluio com
seguradoras de saúde e reguladores federais cativos (93). Hoje, o capitalismo
industrial constitui uma parte cada vez menor da economia globalizada de renda
e juros – que caracterizo como um “Cassino Global” em meu livro mais recente .
O retrocesso do capitalismo da produção industrial para a economia de renta e
juros, mais intangível, exige uma reconsideração de O Capital de Marx . Exige
que os marxistas de hoje ultrapassem as teorias baseadas apenas na força de
trabalho e na produção industrial. Neste livro, David Harvey fez isso com
autoridade e de forma acessível.
Escalar
até o topo da pirâmide de riqueza. Por Fernando Nogueira da Costa
O “Raio
X do investidor brasileiro” (9ª edição em 2026), pesquisa amostral realizada
pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de
Capitais), em parceria com o Datafolha, não apresenta um índice macroeconômico
de concentração de renda (como o de Gini), mas divide a população em classes
econômicas com disparidades marcantes na capacidade de investir.
A
classe AB representa 24% da população, com renda média familiar de R$ 9.355,00.
É a faixa mais capaz de investir: 42% desse grupo fez algum investimento em
2025. A classe C representa 47% da população, com renda média de R$ 3.565,00.
Cerca de 31% das pessoas com dívidas em atraso estão nesta classe. A classe DE
representa 28% da população, com renda média de R$ 2.144,00. Apenas 12% deste
grupo conseguiu investir em 2025.
Portanto,
há disparidade de investimento. Enquanto 24% da classe AB faz aplicações
financeiras, esse número cai para apenas 2% na classe DE.
A
população investidora brasileira possuidora de algum produto financeiro soma
60,6 milhões de pessoas (36% da população). Os investimentos realizados em 2025
dividiram-se entre 10% da população fazendo aplicações financeiras e cerca de
9% investindo em imóveis ou bens duráveis.
A
caderneta de poupança continua sendo o produto financeiro mais utilizado (22%
da população geral e 61% dos investidores), mas vem perdendo espaço para outros
ativos. Por exemplo, títulos privados (CDB, LCI, LCA) tiveram um crescimento
expressivo, sendo utilizados por 20% dos investidores diante dos 8% em 2021.
Outros
produtos financeiros também receberam atenção: fundos de investimento (14% dos
investidores), criptomoedas (11%) e ações (6%).
Entre
quem não demanda produtos bancários, 46% investem em imóveis e 44% guardam
dinheiro em casa. A carência em educação financeira e a falta de renda
suficiente levam a ficar fora do sistema financeiro.
O
conhecimento espontâneo sobre investimentos subiu para 43% na população geral,
mas as atitudes variam conforme a riqueza. A classe AB busca prioritariamente
retorno (44%) e segurança (30%). Já a classe DE valoriza a facilidade (17%) e a
imagem da marca (15%).
A
educação financeira está mais presente no topo. Estima-se em 37% da classe AB
já ter participado de cursos ou palestras, contra apenas 8% da classe DE.
Quanto
menor a renda, maior o imediatismo. Na faixa até dois salários mínimos, cerca
de 50% preferem receber um valor menor agora em vez de esperar um mês para
ganhar 10% a mais. Na faixa acima de 20 salários mínimos, esse imediatismo cai
para 17%.
Cerca
69% da população diz ter alguma reserva de emergência, mas para 43% dela o
dinheiro duraria menos de seis meses.
As
gerações apresentam comportamentos distintos em relação ao ciclo de vida e
tecnologia. A Geração Z (16-29 anos) mais diversifica a carteira, usando menos
a poupança (13%) e mais títulos privados, fundos e criptomoedas. Informam-se
majoritariamente pelo YouTube (49%) e Instagram (45%).
Os
Millennials (30-44 anos) possuem a maior proporção de investidores (38%) e,
junto com a Geração Z, são os mais preocupados em iniciar poupança para a
velhice. A Geração X (45-64 anos) valorizam a segurança e ainda preferem o
contato presencial com gerentes de banco (34%).
Os
Boomers (65 anos ou mais) são os mais vulneráveis financeiramente: 62% não
guardam dinheiro de nenhuma forma e quase metade não tem reserva para
emergências. Dependem majoritariamente do INSS (93% dos já aposentados) e 66%
realizam suas aplicações pessoalmente no banco.
Os mais
jovens (Geração Z e Millennials) reportam maior incidência de fraudes
financeiras. Constituem o público-alvo das apostas online (bets), enquanto os
Boomers menos utilizam esses aplicativos.
Os
níveis de escolaridade se distinguem muito por gerações. Apenas com Ensino
Fundamental são 60% entre os Boomers, 48% entre a Geração X, 24% entre os
Millenials e 11% entre a Geração Z. Em contrapartida, com Ensino Superior, os
percentuais são, respectivamente 17% – 17% – 28% – 24% (65% dos nascidos após
1995 já têm ensino médio).
Talvez
por essa escolaridade superior, a renda familiar média da Geração Z é a maior:
R$ 5.398. A dos Millenials é R$ 4.748, Geração Z, R$ 4.078, Boomers, R$ 4.244.
Saber
usar uma calculadora financeira possibilita, por exemplo, fazer um cálculo
surpreendente para muitas pessoas sem essa educação financeira.
A média
mensal do período jan1999-dez2025 foi 1,17%, equivalente a 15% ao ano.
Evidentemente, houve muitas oscilações nesse período de 31 anos ou 372 meses. O
máximo histórico foi 45% a.a., em março de 1999, na adoção do Tripé
macroeconômico, e o mínimo histórico 2% a.a. entre agosto de 2020 e fevereiro
de 2021, durante a pandemia.
Mas se
colocar na calculadora financeira 372n, 1,17i, 10.000.000FV e solicitar a PMT
vai resultar em R$ 1.565, bastante próximo do salário-mínimo oficial em 2025
(R$ 1.518). PMT na HP 12C significa pagamento (sigla de Payment), representando
o valor de parcelas periódicas, constantes e iguais em um financiamento,
empréstimo ou investimento. É usada para calcular o valor de depósitos
regulares, periodicamente, inserindo PV (valor presente), n (prazo) e i (taxa).
Em
outros termos, esse valor nominal, caso fosse investido regularmente durante o
período de 31 anos, por exemplo, dos 35 anos (antes da crise da meia-idade) até
os 66 anos (início da aposentadoria), acumularia cerca de dez milhões de reais.
Esta é a faixa inicial do segmento de clientes Private Banking, considerados
muito ricos por certos bancos.
Este
valor, segundo uma conta simples, renderia inicialmente juros mensais R$ 117
mil. Vai além do dobro do teto do funcionalismo público federal de R$
46.366,19, vigente desde 1º de fevereiro de 2025.
Considerando
o mês de 22 dias úteis (juros “trabalha” só em jornada semanal 5X2 ou 252 dias
por ano), o possuidor de dez milhões de reais aplicados em 100% do CDI ganha R$
5.318 por dia. Equivale a 3,3 salários-mínimos.
Pode-se
argumentar aquele valor nominal de R$ 1.565 seria muito elevado no passado.
A
diferença é adequar os valores reais, por exemplo, o salário-mínimo inicial em
1995 foi R$ 100 e o investidor necessitaria ter investido quinze
salários-mínimos todos os meses durante quatro anos. E assim seria durante
todas as fases.
Por
exemplo, se o investidor já fosse um trabalhador de alta renda, por exemplo,
com renda de trinta salários-mínimos, desde os 45 anos, trabalharia até os 75
anos, quando haveria sua aposentadoria compulsória. Investiria regularmente nos
juros compostos brasileiros na segurança da renda fixa sem volatilidade para
acumular aquele montante. Grosso modo, propiciaria R$ 130 mil mensais ou quase
R$ 6 mil por dia útil.
Esse
exercício de matemática financeira é para demonstrar como ensino superior de
excelência, rede de relacionamentos (networking) – um conjunto estratégico de
contatos profissionais e pessoais cultivado para troca de informações,
experiências e oportunidades –, além de Educação Financeira, são pré-requisitos
para trabalhadores de alta renda obterem uma vida confortável em sua
aposentadoria. E deixarem uma boa herança.
Fonte:
blog da London School of Economics | Tradução: Antonio Martins, em Outras
Palavras/A Terra é Redonda

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