quarta-feira, 29 de abril de 2026

Ann Pettifor: O Capitalismo segundo David Harvey

Marx precisa de David Harvey. Primeiro, porque a linguagem do grande pensador é frequentemente densa e impenetrável, exigindo a “tradução” esclarecedora de Harvey para fazer sentido aos leitores de hoje. Segundo, muita coisa mudou desde 1867, quando o primeiro volume de O Capital foi publicado em Berlim. Terceiro, Marx e o marxismo precisam de Harvey e deste livro porque os comentários acadêmicos tendem a se concentrar no Volume I de O Capital e não nos cruciais Volumes II e III, publicados cerca de vinte anos depois do primeiro.

Grande parte do debate marxista atual ignora o papel da teoria e da política monetária, bem como do capital valorizado por juros, na condução da espiral infinita de acumulação do capitalismo e na precipitação de crises internas e internacionais. Como argumentou Michael Hudson , os marxistas frequentemente negligenciam o fracasso do capitalismo financeiro em libertar as economias da dinâmica rentista, remanescente do feudalismo e do imperialismo europeus. “O marxismo acadêmico não se concentrou no setor FIRE – Finance, Insurance and Real Estate, ou Finanças, Seguros e Imobiliário. É como se os juros e a extração de renda fossem problemas secundários em relação à dinâmica do trabalho assalariado”, escreve ele. Harvey não negligencia as finanças. O capítulo 15 de A História do Capital intitula-se “O Retorno do Rentista” e argumenta que:

“Agora é a vez do capitalista industrial submeter-se ao poder de monopsônio dos comerciantes (como o Walmart ou a IKEA) ou ao poder monopolista dos financistas, enquanto os proprietários de terras (incluindo os que controlam a riqueza mineral) extraem sua parte (ou gramas de lítio) onde quer que possam.”

<><> Mapeando a história do capital

Harvey é um geógrafo conhecido por sua contribuição à geografia crítica, que explica como o capitalismo sobreviveu e prosperou organizando e hierarquizando  o espaço. Fiel ao seu estilo, o novo livro começa com seu “mapa” da “história” do capital. O mapa descreve processos: a circularidade do capital monetário produzindo demanda efetiva, levando à produção de mercadorias de valor e, em seguida, à valorização da mais-valia, culminando na materialização do valor em forma de dinheiro. Como todos os mapas, o processo parece estático. No entanto, como Harvey explica em outro trecho, o processo capitalista move-se, no mundo real, da forma cíclica representada no mapa para uma forma em espiral: uma espiral de acumulação infinita do que Marx chamou de “massa monstruosa”. Como Harvey detalha em seu fascinante capítulo 7 – “Massas em Movimento” – a “massa cada vez maior de ‘tudo’ ameaça esgotar as possibilidades de acumulação infinita de capital”. Ecoando preocupações científicas com o Ambiente, Harvey argumenta que “o crescimento da massa compromete seriamente a própria existência do já tênue estilo de vida da humanidade, se não a própria humanidade, no planeta Terra”.

Um dos principais “motores de tais males”, escreve Harvey, reside certamente nos problemas decorrentes da crescente massa de valores e mais-valias que não têm para onde ir de forma lucrativa. Essa massa crescente não pode ser revertida, dada a forma como as leis de movimento do capital estão estruturadas. E, graças à onipresença do modelo econômico  voltado para a exportação, a economia global sofre com uma crise de superprodução. Simultaneamente, a repressão salarial e outras formas de “austeridade” resultam no subconsumo de tudo o que é produzido globalmente.

<><> Acumulação em espiral

Para enfatizar a escala de tal acumulação, Harvey cita as estimativas do Banco Mundial para o PIB global, avaliado em US$ 9,25 trilhões em 1950. Em 2011, esse valor havia disparado para US$ 94,9 trilhões – um aumento de mais de dez vezes na produção econômica global em 60 anos. Como essa taxa de crescimento exponencial pode ser sustentada no futuro?, questiona Harvey. Entre 2011 e 2013, a China consumiu 6,6 gigatoneladas de cimento – uma importante fonte de gases de efeito estufa. (Para contextualizar esse número, os EUA levaram 100 anos para consumir 4,5 gigatoneladas.)

“Durante esses dois anos, a China liderou o crescimento econômico mundial, salvando o mundo da recessão econômica, em parte ao disseminar o cimento por toda parte em um boom de construção de infraestrutura sem paralelo na história da humanidade.”

A dimensão espacial da acumulação de capital em espiral exponencial não poderia ser mais clara.

<><> Da produção industrial à renta e aos juros

Após a grande crise financeira de 2007-2009, eu e muitos outros argumentamos que a crise foi causada pela desregulamentação dos sistemas financeiros internacionais e domésticos, e pelo reposicionamento das finanças sob a autoridade dos mercados privados – em vez da autoridade pública, democrática e regulatória. Alguns marxistas contestaram esses argumentos com a afirmação – e aqui parafraseio – de que a crise foi, ao invés disso, desencadeada pela “queda da taxa de lucro” do capitalismo . Harvey dedica um capítulo inteiro ao tema e nele aponta para um notável economista marxista, Michael Roberts, que considera irrefutável que a lei da queda da lucratividade seja a única causa subjacente das tendências de crise do capitalismo (86).

Marx não foi o único a prever uma tendência de queda nas taxas de lucro, explica Harvey. David Ricardo e (de forma mais cautelosa) Adam Smith também acreditavam que os lucros estavam fadados a cair, sugerindo que o capitalismo industrial poderia não ser um modo de produção viável a longo prazo. A lei de Marx, argumenta Harvey, baseia-se na regra de que “um grande volume de capital, com uma taxa de lucro menor, acumula mais rapidamente do que um pequeno volume, com uma taxa de lucro maior”. Se a massa de valor já é enorme, ela continua a se expandir com consequências potencialmente monstruosas (tanto ambientais quanto sociais), mesmo diante de uma queda acentuada na lucratividade. Aquisições alavancadas [financiadas por dívidas] vêm à mente como maneiras convenientes pelas quais certos capitalistas podem obter controle sobre uma enorme massa de capital com base em um aporte mínimo de recursos próprios.

Harvey rejeita as apresentações do argumento de Marx que sugerem que a taxa de lucro está exclusivamente ligada à taxa de exploração da força de trabalho na produção. Ele cita o exemplo da indústria farmacêutica dos EUA, onde muito pouco lucro é obtido com a exploração da força de trabalho. A maior parte deriva, ao contrário, de preços monopolistas extorsivos, em conluio com seguradoras de saúde e reguladores federais cativos (93). Hoje, o capitalismo industrial constitui uma parte cada vez menor da economia globalizada de renda e juros – que caracterizo como um “Cassino Global” em meu livro mais recente . O retrocesso do capitalismo da produção industrial para a economia de renta e juros, mais intangível, exige uma reconsideração de O Capital de Marx . Exige que os marxistas de hoje ultrapassem as teorias baseadas apenas na força de trabalho e na produção industrial. Neste livro, David Harvey fez isso com autoridade e de forma acessível.

Escalar até o topo da pirâmide de riqueza. Por Fernando Nogueira da Costa

O “Raio X do investidor brasileiro” (9ª edição em 2026), pesquisa amostral realizada pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), em parceria com o Datafolha, não apresenta um índice macroeconômico de concentração de renda (como o de Gini), mas divide a população em classes econômicas com disparidades marcantes na capacidade de investir.

A classe AB representa 24% da população, com renda média familiar de R$ 9.355,00. É a faixa mais capaz de investir: 42% desse grupo fez algum investimento em 2025. A classe C representa 47% da população, com renda média de R$ 3.565,00. Cerca de 31% das pessoas com dívidas em atraso estão nesta classe. A classe DE representa 28% da população, com renda média de R$ 2.144,00. Apenas 12% deste grupo conseguiu investir em 2025.

Portanto, há disparidade de investimento. Enquanto 24% da classe AB faz aplicações financeiras, esse número cai para apenas 2% na classe DE.

A população investidora brasileira possuidora de algum produto financeiro soma 60,6 milhões de pessoas (36% da população). Os investimentos realizados em 2025 dividiram-se entre 10% da população fazendo aplicações financeiras e cerca de 9% investindo em imóveis ou bens duráveis.

A caderneta de poupança continua sendo o produto financeiro mais utilizado (22% da população geral e 61% dos investidores), mas vem perdendo espaço para outros ativos. Por exemplo, títulos privados (CDB, LCI, LCA) tiveram um crescimento expressivo, sendo utilizados por 20% dos investidores diante dos 8% em 2021.

Outros produtos financeiros também receberam atenção: fundos de investimento (14% dos investidores), criptomoedas (11%) e ações (6%).

Entre quem não demanda produtos bancários, 46% investem em imóveis e 44% guardam dinheiro em casa. A carência em educação financeira e a falta de renda suficiente levam a ficar fora do sistema financeiro.

O conhecimento espontâneo sobre investimentos subiu para 43% na população geral, mas as atitudes variam conforme a riqueza. A classe AB busca prioritariamente retorno (44%) e segurança (30%). Já a classe DE valoriza a facilidade (17%) e a imagem da marca (15%).

A educação financeira está mais presente no topo. Estima-se em 37% da classe AB já ter participado de cursos ou palestras, contra apenas 8% da classe DE.

Quanto menor a renda, maior o imediatismo. Na faixa até dois salários mínimos, cerca de 50% preferem receber um valor menor agora em vez de esperar um mês para ganhar 10% a mais. Na faixa acima de 20 salários mínimos, esse imediatismo cai para 17%.

Cerca 69% da população diz ter alguma reserva de emergência, mas para 43% dela o dinheiro duraria menos de seis meses.

As gerações apresentam comportamentos distintos em relação ao ciclo de vida e tecnologia. A Geração Z (16-29 anos) mais diversifica a carteira, usando menos a poupança (13%) e mais títulos privados, fundos e criptomoedas. Informam-se majoritariamente pelo YouTube (49%) e Instagram (45%).

Os Millennials (30-44 anos) possuem a maior proporção de investidores (38%) e, junto com a Geração Z, são os mais preocupados em iniciar poupança para a velhice. A Geração X (45-64 anos) valorizam a segurança e ainda preferem o contato presencial com gerentes de banco (34%).

Os Boomers (65 anos ou mais) são os mais vulneráveis financeiramente: 62% não guardam dinheiro de nenhuma forma e quase metade não tem reserva para emergências. Dependem majoritariamente do INSS (93% dos já aposentados) e 66% realizam suas aplicações pessoalmente no banco.

Os mais jovens (Geração Z e Millennials) reportam maior incidência de fraudes financeiras. Constituem o público-alvo das apostas online (bets), enquanto os Boomers menos utilizam esses aplicativos.

Os níveis de escolaridade se distinguem muito por gerações. Apenas com Ensino Fundamental são 60% entre os Boomers, 48% entre a Geração X, 24% entre os Millenials e 11% entre a Geração Z. Em contrapartida, com Ensino Superior, os percentuais são, respectivamente 17% – 17% – 28% – 24% (65% dos nascidos após 1995 já têm ensino médio).

Talvez por essa escolaridade superior, a renda familiar média da Geração Z é a maior: R$ 5.398. A dos Millenials é R$ 4.748, Geração Z, R$ 4.078, Boomers, R$ 4.244.

Saber usar uma calculadora financeira possibilita, por exemplo, fazer um cálculo surpreendente para muitas pessoas sem essa educação financeira.

A média mensal do período jan1999-dez2025 foi 1,17%, equivalente a 15% ao ano. Evidentemente, houve muitas oscilações nesse período de 31 anos ou 372 meses. O máximo histórico foi 45% a.a., em março de 1999, na adoção do Tripé macroeconômico, e o mínimo histórico 2% a.a. entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021, durante a pandemia.

Mas se colocar na calculadora financeira 372n, 1,17i, 10.000.000FV e solicitar a PMT vai resultar em R$ 1.565, bastante próximo do salário-mínimo oficial em 2025 (R$ 1.518). PMT na HP 12C significa pagamento (sigla de Payment), representando o valor de parcelas periódicas, constantes e iguais em um financiamento, empréstimo ou investimento. É usada para calcular o valor de depósitos regulares, periodicamente, inserindo PV (valor presente), n (prazo) e i (taxa).

Em outros termos, esse valor nominal, caso fosse investido regularmente durante o período de 31 anos, por exemplo, dos 35 anos (antes da crise da meia-idade) até os 66 anos (início da aposentadoria), acumularia cerca de dez milhões de reais. Esta é a faixa inicial do segmento de clientes Private Banking, considerados muito ricos por certos bancos.

Este valor, segundo uma conta simples, renderia inicialmente juros mensais R$ 117 mil. Vai além do dobro do teto do funcionalismo público federal de R$ 46.366,19, vigente desde 1º de fevereiro de 2025.

Considerando o mês de 22 dias úteis (juros “trabalha” só em jornada semanal 5X2 ou 252 dias por ano), o possuidor de dez milhões de reais aplicados em 100% do CDI ganha R$ 5.318 por dia. Equivale a 3,3 salários-mínimos.

Pode-se argumentar aquele valor nominal de R$ 1.565 seria muito elevado no passado.

A diferença é adequar os valores reais, por exemplo, o salário-mínimo inicial em 1995 foi R$ 100 e o investidor necessitaria ter investido quinze salários-mínimos todos os meses durante quatro anos. E assim seria durante todas as fases.

Por exemplo, se o investidor já fosse um trabalhador de alta renda, por exemplo, com renda de trinta salários-mínimos, desde os 45 anos, trabalharia até os 75 anos, quando haveria sua aposentadoria compulsória. Investiria regularmente nos juros compostos brasileiros na segurança da renda fixa sem volatilidade para acumular aquele montante. Grosso modo, propiciaria R$ 130 mil mensais ou quase R$ 6 mil por dia útil.

Esse exercício de matemática financeira é para demonstrar como ensino superior de excelência, rede de relacionamentos (networking) – um conjunto estratégico de contatos profissionais e pessoais cultivado para troca de informações, experiências e oportunidades –, além de Educação Financeira, são pré-requisitos para trabalhadores de alta renda obterem uma vida confortável em sua aposentadoria. E deixarem uma boa herança.

 

Fonte: blog da London School of Economics | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras/A Terra é Redonda

 

 

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