Para
além do trilema da transição energética
Este
livro tem como ponto de partida uma premissa fundamental: a transição
energética é uma disputa geopolítica e geoeconômica sobre quem terá ou não
acesso seguro, equânime e sustentável a esse suprimento essencial – que é a
energia – no futuro próximo. Tudo isso em uma quadra histórica em que a demanda
por energia cresce de forma exponencial e a oferta sofre pressão cada vez maior
para reduzir sua pegada de carbono. Noutras palavras, é preciso oferecer mais e
não pode ser do mesmo. Isso torna a jornada por diversificação energética ainda
mais necessária para os povos, mais valiosa para as empresas e mais estratégica
para os Estados. O World Energy Council (WEC) consagrou em uma formulação
sintética aquilo que seria o principal desafio da transição energética:
enfrentar um “trilema energético”, a impossibilidade de conciliar
simultaneamente (i) a segurança energética, que é a garantia de que as nações
tenham energia disponível e confiável, (ii) a acessibilidade energética, que é
a garantia de que os povos tenham oferta de energia de modo universal e a preço
justo, (iii) a sustentabilidade energética, a necessidade de reduzir a pegada
de carbono das matrizes energética, elétrica e de mobilidade para enfrentar as
mudanças climáticas. Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser, no livro, dão um
salto adiante e apresentam a ideia de “tripé da transição energética” como uma
espécie de alternativa crítica e propositiva ao trilema energético. Na leitura
tradicional do WEC, segurança energética, equidade e sustentabilidade ambiental
são tratados como vetores em tensão permanente, criando um trade-off
incontornável que obrigaria governantes e reguladores a priorizarem um ou dois,
sacrificando o restante.
Já na
nova leitura proposta pelos nossos autores, o tripé, ao contrário, propõe que
esses pilares avancem de forma simultânea, coordenada e equilibrada. O
descompasso entre os três pilares pode produzir não apenas atrasos na
descarbonização, mas bloqueios prolongados e irreversíveis com efeitos tanto
para o clima, com eventos climáticos extremos, quanto para a política, com
instabilidades sociais frequentes. Nesse sentido, a construção do tripé de
transição energética exige consciência estratégica do Estado, capacidades
estatais, planejamento governamental, coordenação de políticas econômicas,
industriais e tecnológicas, de minas, energia e meio ambiente, de
infraestrutura, de mobilidade e sociais. A dinâmica do livre-mercado por si só,
sem indução governamental e investimentos públicos, talvez não viabilize a
transição energética no ritmo e na escala compatíveis com a urgência imposta
pelas mudanças climáticas. Uma vez estabelecido esse diagnóstico geral, Schutte
e Fuser elencam uma agenda de diretrizes para a viabilização do tripé da
transição energética. No que se refere à segurança energética é fundamental a
diversificação de fontes, estoques estratégicos, integração de sistemas e
autonomia tecnológica; do ponto de vista da equidade é essencial ter em conta
políticas redistributivas, tarifas sociais, expansão de infraestrutura para
regiões vulneráveis, integração de justiça social na agenda climática; e no que
se refere à sustentabilidade é mister a substituição planejada dos fósseis, com
eficiência energética, proteção de ecossistemas e inovação em tecnologias
renováveis e limpas.
A
efetivação desse modelo, entretanto, requer viabilidade econômica e correlação
política favorável. Propostas irrealistas orientadas pelo negacionismo
climático ou pelo radicalismo ambiental tendem a se desconectar das condições
concretas de implementação e diálogo e por isso acabam por fragilizar o próprio
percurso da transição energética. Sendo assim, a estratégia defendida deve ser
gradualista no método, mas ambiciosa no horizonte: cada passo deve reforçar os
três pilares buscando um ciclo virtuoso entre
segurança-equidade-sustentabilidade, de modo a se acumular resiliência contra
crises e ciclos conjunturais.
A
transição energética é um processo inequívoco e em curso, não será refreada
dada a demanda crescente por energia. Contudo, no interior dessa curva
ascendente há ciclos, pois as rotas dessa transição ainda estão em construção e
sobre elas pesam riscos e incertezas que levam ora a períodos de avanço e
aceleração e ora a períodos de recuo e arrefecimento, mas sempre marchando
adiante. Para perceber esses movimentos diversos é preciso analisar a transição
energética em perspectiva histórica de longa duração, como também fazem nossos
autores. A narrativa histórica do livro não se inicia com turbinas eólicas,
painéis solares e veículos autônomos disruptivos, mas sim com a domesticação do
fogo há 400 mil anos, nos fazendo rememorar que a energia, antes de ser um
insumo econômico, foi condição para a emergência da vida social, da cultura, da
técnica. A história humana, em um certo sentido, pode ser lida como a história
da apropriação e da transformação dos fluxos energéticos, da lenha e da força
muscular às águas e ventos; dos moinhos e velas ao carvão e ao vapor. Ao
concentrar energia fossilizada em carvão, petróleo e gás, a modernidade
construiu um regime de alta intensidade e densidade energética graças ao qual
foi capaz suportar a industrialização e a produção em massa, a urbanização e a
mobilidade de pessoas e cargas em escala. Um regime com alta pegada de carbono
que, a um só tempo e de forma contraditória, viabilizou e aprisionou as
economias e sociedades contemporâneas.
A
perspectiva histórica é instrutiva para preparar o leitor para compreender como
a transição energética é menos uma substituição linear, imediata e unívoca de
uma fonte de energia fóssil para uma fonte de energia renovável; a transição
energética é mais uma adição difusa, gradativa e plural de novas energias
renováveis em uma matriz de energia fóssil. Embora óbvio, nem sempre se lembra,
toda transição energética tem um ponto de partida e uma linha de chegada. Via
de regra, boa parte da bibliografia se debruça sobre a linha de chegada e as
perspectivas de futuro das energias renováveis, mas negligenciam ou recusam a
análise do ponto de partida e o cenário presente com a hegemonia das energias
fósseis. Esse não é o caso deste livro. Os autores nos conduzem também ao
núcleo duro da economia política contemporânea: a centralidade histórica,
geopolítica e tecnológica dos combustíveis fósseis – especialmente do petróleo
– na construção do século XX e na configuração do capitalismo e do poder
global.
A
reconstituição mostra que carvão, petróleo e gás natural não se impuseram
apenas por seu alto poder calorífico ou flexibilidade de uso, mas ganharam
relevância por seu papel estratégico na reorganização do tempo e do espaço
produtivo. O petróleo, em particular, ao se tornar o combustível hegemônico dos
transportes, redefiniu a interdependência entre energia e poder
político-militar. Diferente do carvão, relativamente disperso, o petróleo se
concentra geologicamente de forma desigual, o que deu às potências industriais
sem reservas – como Japão e principais países europeus – uma dependência
estrutural e, aos territórios coloniais ou periféricos com grandes jazidas, uma
vulnerabilidade crônica diante de atores externos. O livro detalha ainda a
inflexão histórica da criação da Opep, em 1960, e sua capacidade de, no
contexto da Guerra Fria e da onda de descolonização, alterar o equilíbrio de
forças internacional. O Choque do Petróleo de 1973, ao elevar os preços em 300%
e impor um embargo aos países ocidentais aliados de Israel, representou um raro
momento de afirmação coletiva do Sul Global, nacionalizando reservas e rompendo
o monopólio das transnacionais. No entanto, o episódio também expôs os limites
estruturais dessa vitória: a “ilusão dos petrodólares” levou muitos países
exportadores, sobretudo de população numerosa, a desperdiçar a renda
extraordinária em armamentismo, consumo suntuário ou políticas ineficientes,
perpetuando dependência e subdesenvolvimento.
Há aqui
uma tensão estrutural: os combustíveis fósseis são, simultaneamente, a base
material do crescimento e uma ameaça climática global. O seu peso geopolítico,
econômico e tecnológico ajuda a explicar por que a transição energética não
será uma substituição simples, mas um processo marcado por rearranjos de poder,
resistência de interesses econômicos consolidados e conflitos distributivos.
A
discussão da teoria do “pico do petróleo”, formulada por M. King Hubbert, é
usada para problematizar o senso comum sobre escassez. Hubbert previa o
declínio inevitável da produção e o colapso da oferta; a realidade mostrou, no
entanto, que a questão é menos geológica e mais política e econômica: novas
tecnologias, altos preços e investimentos massivos expandiram as reservas
comprovadas, deslocando o debate do “choque de oferta” para o “choque de
demanda” – o momento em que o petróleo deixará de ser competitivo frente a
alternativas sustentáveis e pressionado por compromissos climáticos. A história
fez valer o conselho estratégico de Churchill – “variedade, variedade apenas” –
como fundamento da reação pós-1973: diversificar fornecedores e ampliar a matriz
energética. Daí vieram iniciativas como a criação da Agência Internacional de
Energia (AIE), reservada ao clube da OCDE, e investimentos em novas fronteiras
de exploração fora da Opep. O Canadá converteu areias betuminosas em petróleo
exportável; o Mar do Norte colocou o Reino Unido e a Noruega no mapa dos
grandes produtores; os Estados Unidos avançaram no Golfo do México e no Alasca;
o Brasil inaugurou sua era offshore com Garoupa e, décadas depois, com o
pré-sal. A União Soviética, por sua vez, aproveitou a crise para expandir
exportações e inserir seu petróleo e gás no mercado europeu, rompendo barreiras
ideológicas da Guerra Fria.
A
formulação também evidencia um paradoxo estrutural: regiões de maior consumo –
Ásia/Pacífico e União Europeia – possuem reservas reduzidas, enquanto áreas com
abundância de petróleo têm baixo consumo interno e menor desenvolvimento
industrial, criando interdependências assimétricas que alimentam
vulnerabilidades e disputas. Nesse contexto é que também se insere o início do
avanço das energias “alternativas” na década de 1970 – nuclear, gás natural,
biocombustíveis – não como expressão de consciência ambiental, mas como
resposta pragmática à volatilidade do petróleo. Só muito depois, com a
emergência do debate climático, essas fontes passariam a ser vistas como parte
de um projeto de descarbonização e comporiam a atual agenda de transição
energética. Para além do padrão de produção, o livro também se debruça sobre
impactos relacionados ao padrão de consumo, sobretudo ao discutir o papel
central do automóvel na vida moderna e suas implicações para a transição
energética. A reflexão revela que não estamos apenas diante de uma questão
tecnológica ou de infraestrutura, mas de um embate com um padrão de vida
profundamente enraizado, que associa mobilidade individual a liberdade, status
a conforto.
A
“revolução do automóvel” reforçou a primazia do petróleo, estendendo sua
influência para além dos motores e combustíveis: petroquímica, plásticos,
fertilizantes, asfaltos, fibras sintéticas – uma teia material sem a qual a
vida contemporânea parece inconcebível. O automóvel, desde a primeira metade do
século XX, não é apenas um meio de transporte, mas um vetor de organização
urbana, de políticas públicas e de hábitos de consumo. Rodovias, postos de
combustíveis, indústrias de autopeças e serviços, publicidade e crédito ao
consumidor formaram um ecossistema econômico que consolidou o petróleo como
insumo vital e naturalizou a dependência dos combustíveis fósseis. Assim,
qualquer tentativa de substituição desse modelo implica não apenas trocar
motores ou combustíveis, mas redefinir a lógica de ocupação do território, do
transporte público e do próprio imaginário social sobre deslocamento e
qualidade de vida. Ao mesmo tempo, a indústria automotiva, mesmo incorporando
tecnologias limpas como veículos elétricos ou tecnologias renováveis como
biocombustíveis, mantém a lógica do consumo individual e, em muitos casos,
desloca as pressões ambientais para outras cadeias, como a mineração de lítio,
cobalto e níquel para baterias, ou de cana-de-açúcar, milho e soja para
combustíveis sustentáveis. Isso reforça a tese de que a transição energética,
se conduzida apenas pela substituição tecnológica, pode reproduzir as mesmas
contradições que pretende superar.
As
formulações conceituais e históricas são acompanhadas ainda de uma seleta de
experiências comparadas, onde se pode constatar como não há caminho único para
a transição energética. Os autores exploram as experiências de Estados Unidos,
Europa, China, África e Brasil, e mostram como o tripé da transição energética
pode coletar lições aprendidas e deixar alertas para a reflexão. A primeira
trajetória analisada é a dos Estados Unidos, revelando uma história de avanços
tecnológicos e reconfigurações produtivas que, ao mesmo tempo em que projetaram
o país como líder da chamada “revolução energética”, também expuseram os
limites e contradições de um modelo que não se orienta prioritariamente pela
lógica da descarbonização. A história mostra que, após décadas de declínio
relativo e dependência crescente das importações de petróleo, os Estados Unidos
protagonizaram, no início do século XXI, uma virada estratégica com a expansão
da exploração de petróleo e gás não convencionais, especialmente pelo
fraturamento hidráulico (fracking). Essa tecnologia, combinada com altos preços
internacionais, transformou a matriz energética estadunidense, reposicionando o
país como grande produtor e exportador, reduzindo sua vulnerabilidade externa e
ampliando seu poder de barganha geopolítica.
Essa
“revolução” – celebrada como exemplo de inovação e autonomia –, no entanto, é
também uma desaceleração da transição energética, pois consolidou a permanência
dos combustíveis fósseis no centro da economia e da política energética
norte-americana. Ou seja, mesmo com o crescimento expressivo das renováveis e
avanços em eficiência energética, o peso estrutural do petróleo e do gás
continua a moldar investimentos, infraestrutura e alianças internacionais dos
Estados Unidos. Se levarmos em conta ainda a relação estreita entre política
energética e interesses estratégicos de defesa, perceberemos a manutenção da
presença militar em regiões-chave do petróleo, a utilização da exportação de
gás natural liquefeito como instrumento de política externa e a defesa ativa do
setor fóssil por parte de governos e corporações. Esse vínculo umbilical entre
defesa nacional e segurança energética explica por que a transição energética,
nos Estados Unidos, tende a ser subordinada à lógica de competitividade e
liderança geopolítica, mais do que ao imperativo climático. O caso
estadunidense ilustra como a transição energética não é um movimento linear ou
inevitável, mas um campo de disputa em que retrocessos, avanços seletivos e
resistências estruturais coexistem.
Os
autores examinam também o percurso europeu de transição energética, revelando
um continente que se apresenta como vanguarda climática, mas que convive com
contradições profundas entre ambição normativa, dependência externa e
vulnerabilidade estratégica. Desde o início dos anos 2000, a União Europeia
(UE) atua como protagonista na formulação de metas ambientais, acordos
internacionais e políticas de incentivo às renováveis, mas ao mesmo tempo
manteve laços estruturais com investidores e fornecedores fósseis. A liderança
europeia se consolidou pela capacidade de transformar o imperativo climático em
instrumento de poder normativo. Diretivas de eficiência energética, metas
obrigatórias de redução de emissões e sistemas de comércio de carbono foram
apresentadas como modelos globais. Contudo, essa posição foi construída sobre
um equilíbrio delicado: a diversificação das fontes internas – solar, eólica,
biomassa, nuclear – coexistiu com forte dependência de gás natural,
especialmente da Rússia, que se tornou o elo mais frágil da segurança
energética europeia.
A
eclosão da guerra na Ucrânia, em 2022, expôs de forma abrupta essa
vulnerabilidade. O corte ou redução do fornecimento russo provocou uma crise
energética que obrigou a Europa a recorrer, em caráter emergencial, a fontes
mais poluentes, como o carvão, e a buscar novos fornecedores de gás, inclusive
via contratos de longo prazo que projetam a presença dos fósseis para além de
2040. Esse movimento, ainda que necessário para manter a estabilidade do
abastecimento, gerou tensões internas e comprometeu o ritmo de algumas metas
ambientais. Além disso, os autores não negligenciam a diversidade de realidades
energéticas dentro do bloco: países como Alemanha, França, Espanha e Dinamarca
lideram investimentos em renováveis, mas divergem quanto ao papel da energia nuclear
e ao desenho das políticas de transição; já Estados-membros do Leste Europeu
enfrentam maiores dificuldades para financiar e colocar em prática mudanças
estruturais. Essa heterogeneidade impõe desafios à construção de uma estratégia
comum e consistente. A Europa é exemplo e alerta: liderança climática não se
sustenta apenas em metas ousadas, mas deve vir acompanhado pela capacidade de
resistir às turbulências de um cenário global marcado por choques energéticos,
conflitos e reconfigurações geopolíticas. Os autores nos oferecem ainda uma
análise da trajetória chinesa na transição energética, revelando um paradoxo
singular: a China é, ao mesmo tempo, o maior emissor de gases de efeito estufa
do planeta e a principal investidora global em energias renováveis. Esse duplo
papel não decorre de incoerência, mas de um projeto nacional que procura
conciliar – em escala inédita – crescimento econômico acelerado, segurança
energética e liderança tecnológica na nova economia verde.
O ponto
de partida é o peso estrutural do carvão na matriz energética chinesa. Recurso
abundante e barato, ele foi a base da industrialização rápida e da urbanização
massiva das últimas quatro décadas. No entanto, o atual nível de emissão de
gases do efeito estufa, os impactos ambientais e a pressão internacional por
metas climáticas obrigaram o país a iniciar, já nos anos 2000, um movimento
gradual de substituição e diversificação. Essa transição, contudo, não
significa abandono imediato do carvão: a estratégia de Pequim combina sua
redução relativa com a manutenção de capacidade instalada para garantir
segurança energética e estabilidade de abastecimento. A China investe em todas
as frentes do tripé da transição energética. No eixo da segurança, promove diversificação
de fontes e fornecedores, amplia o uso de gás natural e fortalece a
infraestrutura de redes elétricas. No campo da sustentabilidade, lidera a
expansão global da energia solar e eólica, investindo pesadamente em P&D e
produção em escala de turbinas, painéis e baterias, consolidando-se como
principal exportadora desses equipamentos. Quanto à equidade, a transição é
pensada em termos de coesão interna, com políticas que buscam assegurar
eletrificação rural, tarifas acessíveis e redução das desigualdades regionais
de acesso à energia. A China não tenta apenas suprir sua demanda interna, mas
procura ocupar posições estratégicas nas cadeias globais de valor da transição
energética, controlando minerais críticos, tecnologias-chave e mercados externos.
Essa postura lhe confere vantagens competitivas e capacidade de influência, mas
também desperta reações e disputas com outras potências, especialmente Estados
Unidos e União Europeia.
O caso
chinês demonstra que a transição energética, quando tratada como política de
Estado e integrada a um projeto nacional de desenvolvimento, pode avançar mesmo
em contextos de alta demanda e dependência de fósseis. Contudo, também deixa
claro que a conciliação entre crescimento e descarbonização exige planejamento
de longo prazo, investimentos massivos e coordenação centralizada – condições
que nem todos os países conseguem reproduzir. A África, por seu turno, pode
exercer papel estratégico na transição energética. A análise parte de um dado
fundamental: a África é hoje a região mais carente de acesso à energia e, ao
mesmo tempo, um dos maiores depósitos do planeta de recursos fósseis e minerais
críticos para a economia verde. Essa condição dual a coloca no centro das
disputas geopolíticas do século XXI.
No
campo dos combustíveis fósseis, há uma nova corrida para explorar petróleo e
gás em países que até pouco tempo estavam fora do mapa energético global, como
Namíbia, Senegal, Moçambique e Uganda. Essas reservas são vistas por governos
locais como oportunidade única de financiar desenvolvimento, industrializar
economias e melhorar o bem-estar social – mesmo que isso ocorra em pleno avanço
da agenda mundial de descarbonização. Essa postura, longe de ser mero
negacionismo climático, é apresentada como reação legítima de nações que
historicamente ficaram à margem dos benefícios da era dos fósseis.
Paralelamente, a África é rica em minerais estratégicos como cobalto, lítio,
manganês, grafite e platina, essenciais para baterias, turbinas e tecnologias
limpas. A extração desses recursos, porém, levanta dilemas sobre soberania,
impactos socioambientais e novas formas de dependência externa. Os autores
alertam que, sem políticas de industrialização local e agregação de valor, o
continente pode repetir o ciclo histórico de exportar matérias-primas e
importar produtos de alto valor agregado. No campo das energias renováveis, o
potencial é vasto: insolação abundante para solar, ventos constantes para
eólica, recursos hídricos e geotérmicos em diversas regiões. No entanto, o
aproveitamento ainda é incipiente, limitado por falta de infraestrutura,
financiamento e capacidade tecnológica. Iniciativas multilaterais e
investimentos estrangeiros já mapeiam essas oportunidades, o que insere a
África em novas disputas de influência entre potências tradicionais e
emergentes. Para o tripé da transição energética, a experiência africana é
campo de prova: sem justiça social e soberania, a transição corre o risco de
reforçar as mesmas assimetrias que promete superar.
Por
fim, nos aproximamos da análise do Brasil, que tem como ponto de partida a
seguinte constatação: somos um dos poucos grandes países que entraram no século
XXI com uma matriz elétrica majoritariamente limpa e diversificada, mas que, ao
mesmo tempo, mantém significativa dependência dos combustíveis fósseis em
outros segmentos da economia. Essa condição híbrida oferece vantagens
estratégicas, mas também revela vulnerabilidades e desafios de coordenação
política e institucional.
A
matriz elétrica brasileira – baseada sobretudo na energia hidrelétrica,
complementada por eólica, solar e biomassa – já garante mais de 80% de geração
a partir de fontes renováveis. Esse é um diferencial competitivo que projeta o
país como referência internacional, especialmente em fóruns climáticos e
negociações multilaterais. Contudo, na matriz energética total, que inclui
transporte, indústria e outros usos, os fósseis ainda respondem por parcela
expressiva, com destaque para o petróleo e seus derivados. A segurança
energética brasileira contou com o papel central do pré-sal: as descobertas e a
produção em larga escala transformaram o Brasil em exportador líquido de
petróleo, fortalecendo sua balança comercial e sua presença geopolítica. E a
nossa inovação energética e liderança destacada se vislumbram nos
biocombustíveis, com destaque para o etanol de cana-de-açúcar e milho, além do
biodiesel. O Brasil tem condições ímpares para liderar globalmente a transição
energética, mas essa liderança não será automática. Ela dependerá de
planejamento integrado, estabilidade regulatória, inovação tecnológica e
capacidade de transformar vantagens naturais em estratégia nacional de longo
prazo. No tripé da transição energética, o país pode ser exemplo de equilíbrio
entre segurança, equidade e sustentabilidade – desde que saiba usar sua
abundância como alavanca de soberania e não como justificativa para a inércia.
Essa
pluralidade de estratégias nacionais também exige que o foco do debate se
amplie das moléculas e elétrons de energia em direção aos minerais e minérios,
pois, embora protagonizada por fontes renováveis e tecnologias limpas, a
transição energética depende profundamente de uma nova base material, finita e
desigualmente distribuída. Quem controlar a extração, o processamento e a
cadeia de valor desses minerais controlará não apenas mercados, mas também
posições importantes na geopolítica da energia no século XXI. Turbinas eólicas,
painéis solares, baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de
energia demandam volumes crescentes desses insumos minerais. Diferente do
petróleo, cuja geopolítica se estruturou em torno do transporte e da refinação,
a geopolítica dos minerais críticos envolve a disputa pela mineração, o domínio
de tecnologias de beneficiamento e a segurança das cadeias de suprimento. Esse
cenário cria rotas comerciais, novas alianças e novas vulnerabilidades. Há que
se considerar pelo menos três características centrais desse mercado emergente:
concentração geográfica – muitos desses minerais têm reservas significativas em
poucos países, frequentemente no Sul Global, como o cobalto da República
Democrática do Congo, o lítio do Triângulo do Cone Sul (Argentina, Bolívia e
Chile) e as terras raras concentradas na China; sensibilidade socioambiental –
as áreas de exploração muitas vezes coincidem com ecossistemas frágeis ou
territórios indígenas, o que impõe dilemas entre expansão produtiva e proteção
ambiental e cultural; controle tecnológico – a vantagem competitiva não está
apenas em possuir reservas, mas em dominar o processamento e a fabricação de
componentes de alto valor agregado.
A
corrida pelos minerais críticos já está em curso, com China, Estados Unidos e
União Europeia competindo por liderança. O risco é que a transição energética,
em vez de romper com as desigualdades da era dos fósseis, crie um
“neocolonialismo verde”, no qual países detentores de recursos permanecem
presos à exportação primária, enquanto o valor agregado e o poder tecnológico
se concentram em outros centros.
A
soberania na transição energética não se medirá apenas pela capacidade de gerar
energia renovável e limpa, mas também pelo controle sobre os insumos que a
tornam possível. Para países do Sul Global, isso significa que a gestão
estratégica dos minerais críticos será decisiva para evitar que a promessa de
uma economia verde reproduza as assimetrias de um passado movido a carbono. O
tripé da transição energética só será sólido se esses recursos forem alavancas
de desenvolvimento, e não armadilhas de dependência. Por fim, um alerta: se a
transição energética for guiada apenas por critérios de mercado ou por agendas
fragmentadas, corre o risco de se transformar numa janela perdida de
oportunidades: tecnologias limpas convivendo com desigualdades estruturais e
novas formas de dependência. A pressão do tempo – expressa nas metas para 2030
e 2050 – agrava essa tensão, pois aumenta a tentação de priorizar ganhos
rápidos em detrimento de transformações duradouras. Com esta obra, os
professores Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser nos oferecem um importante
instrumento para que o debate sobre a transição energética no Brasil seja feito
de maneira racional e informada, enfrentando sua real complexidade e suas
verdadeiras contradições, mitigando calores e trazendo luzes ao debate
energético do país; é o que precisamos para enfrentar esse que é um dos maiores
desafios da humanidade no presente século.
Fonte:
Por William Nozaki, no Le Monde

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