quarta-feira, 29 de abril de 2026

Para além do trilema da transição energética

Este livro tem como ponto de partida uma premissa fundamental: a transição energética é uma disputa geopolítica e geoeconômica sobre quem terá ou não acesso seguro, equânime e sustentável a esse suprimento essencial – que é a energia – no futuro próximo. Tudo isso em uma quadra histórica em que a demanda por energia cresce de forma exponencial e a oferta sofre pressão cada vez maior para reduzir sua pegada de carbono. Noutras palavras, é preciso oferecer mais e não pode ser do mesmo. Isso torna a jornada por diversificação energética ainda mais necessária para os povos, mais valiosa para as empresas e mais estratégica para os Estados. O World Energy Council (WEC) consagrou em uma formulação sintética aquilo que seria o principal desafio da transição energética: enfrentar um “trilema energético”, a impossibilidade de conciliar simultaneamente (i) a segurança energética, que é a garantia de que as nações tenham energia disponível e confiável, (ii) a acessibilidade energética, que é a garantia de que os povos tenham oferta de energia de modo universal e a preço justo, (iii) a sustentabilidade energética, a necessidade de reduzir a pegada de carbono das matrizes energética, elétrica e de mobilidade para enfrentar as mudanças climáticas. Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser, no livro, dão um salto adiante e apresentam a ideia de “tripé da transição energética” como uma espécie de alternativa crítica e propositiva ao trilema energético. Na leitura tradicional do WEC, segurança energética, equidade e sustentabilidade ambiental são tratados como vetores em tensão permanente, criando um trade-off incontornável que obrigaria governantes e reguladores a priorizarem um ou dois, sacrificando o restante.

Já na nova leitura proposta pelos nossos autores, o tripé, ao contrário, propõe que esses pilares avancem de forma simultânea, coordenada e equilibrada. O descompasso entre os três pilares pode produzir não apenas atrasos na descarbonização, mas bloqueios prolongados e irreversíveis com efeitos tanto para o clima, com eventos climáticos extremos, quanto para a política, com instabilidades sociais frequentes. Nesse sentido, a construção do tripé de transição energética exige consciência estratégica do Estado, capacidades estatais, planejamento governamental, coordenação de políticas econômicas, industriais e tecnológicas, de minas, energia e meio ambiente, de infraestrutura, de mobilidade e sociais. A dinâmica do livre-mercado por si só, sem indução governamental e investimentos públicos, talvez não viabilize a transição energética no ritmo e na escala compatíveis com a urgência imposta pelas mudanças climáticas. Uma vez estabelecido esse diagnóstico geral, Schutte e Fuser elencam uma agenda de diretrizes para a viabilização do tripé da transição energética. No que se refere à segurança energética é fundamental a diversificação de fontes, estoques estratégicos, integração de sistemas e autonomia tecnológica; do ponto de vista da equidade é essencial ter em conta políticas redistributivas, tarifas sociais, expansão de infraestrutura para regiões vulneráveis, integração de justiça social na agenda climática; e no que se refere à sustentabilidade é mister a substituição planejada dos fósseis, com eficiência energética, proteção de ecossistemas e inovação em tecnologias renováveis e limpas.

A efetivação desse modelo, entretanto, requer viabilidade econômica e correlação política favorável. Propostas irrealistas orientadas pelo negacionismo climático ou pelo radicalismo ambiental tendem a se desconectar das condições concretas de implementação e diálogo e por isso acabam por fragilizar o próprio percurso da transição energética. Sendo assim, a estratégia defendida deve ser gradualista no método, mas ambiciosa no horizonte: cada passo deve reforçar os três pilares buscando um ciclo virtuoso entre segurança-equidade-sustentabilidade, de modo a se acumular resiliência contra crises e ciclos conjunturais.

A transição energética é um processo inequívoco e em curso, não será refreada dada a demanda crescente por energia. Contudo, no interior dessa curva ascendente há ciclos, pois as rotas dessa transição ainda estão em construção e sobre elas pesam riscos e incertezas que levam ora a períodos de avanço e aceleração e ora a períodos de recuo e arrefecimento, mas sempre marchando adiante. Para perceber esses movimentos diversos é preciso analisar a transição energética em perspectiva histórica de longa duração, como também fazem nossos autores. A narrativa histórica do livro não se inicia com turbinas eólicas, painéis solares e veículos autônomos disruptivos, mas sim com a domesticação do fogo há 400 mil anos, nos fazendo rememorar que a energia, antes de ser um insumo econômico, foi condição para a emergência da vida social, da cultura, da técnica. A história humana, em um certo sentido, pode ser lida como a história da apropriação e da transformação dos fluxos energéticos, da lenha e da força muscular às águas e ventos; dos moinhos e velas ao carvão e ao vapor. Ao concentrar energia fossilizada em carvão, petróleo e gás, a modernidade construiu um regime de alta intensidade e densidade energética graças ao qual foi capaz suportar a industrialização e a produção em massa, a urbanização e a mobilidade de pessoas e cargas em escala. Um regime com alta pegada de carbono que, a um só tempo e de forma contraditória, viabilizou e aprisionou as economias e sociedades contemporâneas.

A perspectiva histórica é instrutiva para preparar o leitor para compreender como a transição energética é menos uma substituição linear, imediata e unívoca de uma fonte de energia fóssil para uma fonte de energia renovável; a transição energética é mais uma adição difusa, gradativa e plural de novas energias renováveis em uma matriz de energia fóssil. Embora óbvio, nem sempre se lembra, toda transição energética tem um ponto de partida e uma linha de chegada. Via de regra, boa parte da bibliografia se debruça sobre a linha de chegada e as perspectivas de futuro das energias renováveis, mas negligenciam ou recusam a análise do ponto de partida e o cenário presente com a hegemonia das energias fósseis. Esse não é o caso deste livro. Os autores nos conduzem também ao núcleo duro da economia política contemporânea: a centralidade histórica, geopolítica e tecnológica dos combustíveis fósseis – especialmente do petróleo – na construção do século XX e na configuração do capitalismo e do poder global.

A reconstituição mostra que carvão, petróleo e gás natural não se impuseram apenas por seu alto poder calorífico ou flexibilidade de uso, mas ganharam relevância por seu papel estratégico na reorganização do tempo e do espaço produtivo. O petróleo, em particular, ao se tornar o combustível hegemônico dos transportes, redefiniu a interdependência entre energia e poder político-militar. Diferente do carvão, relativamente disperso, o petróleo se concentra geologicamente de forma desigual, o que deu às potências industriais sem reservas – como Japão e principais países europeus – uma dependência estrutural e, aos territórios coloniais ou periféricos com grandes jazidas, uma vulnerabilidade crônica diante de atores externos. O livro detalha ainda a inflexão histórica da criação da Opep, em 1960, e sua capacidade de, no contexto da Guerra Fria e da onda de descolonização, alterar o equilíbrio de forças internacional. O Choque do Petróleo de 1973, ao elevar os preços em 300% e impor um embargo aos países ocidentais aliados de Israel, representou um raro momento de afirmação coletiva do Sul Global, nacionalizando reservas e rompendo o monopólio das transnacionais. No entanto, o episódio também expôs os limites estruturais dessa vitória: a “ilusão dos petrodólares” levou muitos países exportadores, sobretudo de população numerosa, a desperdiçar a renda extraordinária em armamentismo, consumo suntuário ou políticas ineficientes, perpetuando dependência e subdesenvolvimento.

Há aqui uma tensão estrutural: os combustíveis fósseis são, simultaneamente, a base material do crescimento e uma ameaça climática global. O seu peso geopolítico, econômico e tecnológico ajuda a explicar por que a transição energética não será uma substituição simples, mas um processo marcado por rearranjos de poder, resistência de interesses econômicos consolidados e conflitos distributivos.

A discussão da teoria do “pico do petróleo”, formulada por M. King Hubbert, é usada para problematizar o senso comum sobre escassez. Hubbert previa o declínio inevitável da produção e o colapso da oferta; a realidade mostrou, no entanto, que a questão é menos geológica e mais política e econômica: novas tecnologias, altos preços e investimentos massivos expandiram as reservas comprovadas, deslocando o debate do “choque de oferta” para o “choque de demanda” – o momento em que o petróleo deixará de ser competitivo frente a alternativas sustentáveis e pressionado por compromissos climáticos. A história fez valer o conselho estratégico de Churchill – “variedade, variedade apenas” – como fundamento da reação pós-1973: diversificar fornecedores e ampliar a matriz energética. Daí vieram iniciativas como a criação da Agência Internacional de Energia (AIE), reservada ao clube da OCDE, e investimentos em novas fronteiras de exploração fora da Opep. O Canadá converteu areias betuminosas em petróleo exportável; o Mar do Norte colocou o Reino Unido e a Noruega no mapa dos grandes produtores; os Estados Unidos avançaram no Golfo do México e no Alasca; o Brasil inaugurou sua era offshore com Garoupa e, décadas depois, com o pré-sal. A União Soviética, por sua vez, aproveitou a crise para expandir exportações e inserir seu petróleo e gás no mercado europeu, rompendo barreiras ideológicas da Guerra Fria.

A formulação também evidencia um paradoxo estrutural: regiões de maior consumo – Ásia/Pacífico e União Europeia – possuem reservas reduzidas, enquanto áreas com abundância de petróleo têm baixo consumo interno e menor desenvolvimento industrial, criando interdependências assimétricas que alimentam vulnerabilidades e disputas. Nesse contexto é que também se insere o início do avanço das energias “alternativas” na década de 1970 – nuclear, gás natural, biocombustíveis – não como expressão de consciência ambiental, mas como resposta pragmática à volatilidade do petróleo. Só muito depois, com a emergência do debate climático, essas fontes passariam a ser vistas como parte de um projeto de descarbonização e comporiam a atual agenda de transição energética. Para além do padrão de produção, o livro também se debruça sobre impactos relacionados ao padrão de consumo, sobretudo ao discutir o papel central do automóvel na vida moderna e suas implicações para a transição energética. A reflexão revela que não estamos apenas diante de uma questão tecnológica ou de infraestrutura, mas de um embate com um padrão de vida profundamente enraizado, que associa mobilidade individual a liberdade, status a conforto.

A “revolução do automóvel” reforçou a primazia do petróleo, estendendo sua influência para além dos motores e combustíveis: petroquímica, plásticos, fertilizantes, asfaltos, fibras sintéticas – uma teia material sem a qual a vida contemporânea parece inconcebível. O automóvel, desde a primeira metade do século XX, não é apenas um meio de transporte, mas um vetor de organização urbana, de políticas públicas e de hábitos de consumo. Rodovias, postos de combustíveis, indústrias de autopeças e serviços, publicidade e crédito ao consumidor formaram um ecossistema econômico que consolidou o petróleo como insumo vital e naturalizou a dependência dos combustíveis fósseis. Assim, qualquer tentativa de substituição desse modelo implica não apenas trocar motores ou combustíveis, mas redefinir a lógica de ocupação do território, do transporte público e do próprio imaginário social sobre deslocamento e qualidade de vida. Ao mesmo tempo, a indústria automotiva, mesmo incorporando tecnologias limpas como veículos elétricos ou tecnologias renováveis como biocombustíveis, mantém a lógica do consumo individual e, em muitos casos, desloca as pressões ambientais para outras cadeias, como a mineração de lítio, cobalto e níquel para baterias, ou de cana-de-açúcar, milho e soja para combustíveis sustentáveis. Isso reforça a tese de que a transição energética, se conduzida apenas pela substituição tecnológica, pode reproduzir as mesmas contradições que pretende superar.

As formulações conceituais e históricas são acompanhadas ainda de uma seleta de experiências comparadas, onde se pode constatar como não há caminho único para a transição energética. Os autores exploram as experiências de Estados Unidos, Europa, China, África e Brasil, e mostram como o tripé da transição energética pode coletar lições aprendidas e deixar alertas para a reflexão. A primeira trajetória analisada é a dos Estados Unidos, revelando uma história de avanços tecnológicos e reconfigurações produtivas que, ao mesmo tempo em que projetaram o país como líder da chamada “revolução energética”, também expuseram os limites e contradições de um modelo que não se orienta prioritariamente pela lógica da descarbonização. A história mostra que, após décadas de declínio relativo e dependência crescente das importações de petróleo, os Estados Unidos protagonizaram, no início do século XXI, uma virada estratégica com a expansão da exploração de petróleo e gás não convencionais, especialmente pelo fraturamento hidráulico (fracking). Essa tecnologia, combinada com altos preços internacionais, transformou a matriz energética estadunidense, reposicionando o país como grande produtor e exportador, reduzindo sua vulnerabilidade externa e ampliando seu poder de barganha geopolítica.

Essa “revolução” – celebrada como exemplo de inovação e autonomia –, no entanto, é também uma desaceleração da transição energética, pois consolidou a permanência dos combustíveis fósseis no centro da economia e da política energética norte-americana. Ou seja, mesmo com o crescimento expressivo das renováveis e avanços em eficiência energética, o peso estrutural do petróleo e do gás continua a moldar investimentos, infraestrutura e alianças internacionais dos Estados Unidos. Se levarmos em conta ainda a relação estreita entre política energética e interesses estratégicos de defesa, perceberemos a manutenção da presença militar em regiões-chave do petróleo, a utilização da exportação de gás natural liquefeito como instrumento de política externa e a defesa ativa do setor fóssil por parte de governos e corporações. Esse vínculo umbilical entre defesa nacional e segurança energética explica por que a transição energética, nos Estados Unidos, tende a ser subordinada à lógica de competitividade e liderança geopolítica, mais do que ao imperativo climático. O caso estadunidense ilustra como a transição energética não é um movimento linear ou inevitável, mas um campo de disputa em que retrocessos, avanços seletivos e resistências estruturais coexistem.

Os autores examinam também o percurso europeu de transição energética, revelando um continente que se apresenta como vanguarda climática, mas que convive com contradições profundas entre ambição normativa, dependência externa e vulnerabilidade estratégica. Desde o início dos anos 2000, a União Europeia (UE) atua como protagonista na formulação de metas ambientais, acordos internacionais e políticas de incentivo às renováveis, mas ao mesmo tempo manteve laços estruturais com investidores e fornecedores fósseis. A liderança europeia se consolidou pela capacidade de transformar o imperativo climático em instrumento de poder normativo. Diretivas de eficiência energética, metas obrigatórias de redução de emissões e sistemas de comércio de carbono foram apresentadas como modelos globais. Contudo, essa posição foi construída sobre um equilíbrio delicado: a diversificação das fontes internas – solar, eólica, biomassa, nuclear – coexistiu com forte dependência de gás natural, especialmente da Rússia, que se tornou o elo mais frágil da segurança energética europeia.

A eclosão da guerra na Ucrânia, em 2022, expôs de forma abrupta essa vulnerabilidade. O corte ou redução do fornecimento russo provocou uma crise energética que obrigou a Europa a recorrer, em caráter emergencial, a fontes mais poluentes, como o carvão, e a buscar novos fornecedores de gás, inclusive via contratos de longo prazo que projetam a presença dos fósseis para além de 2040. Esse movimento, ainda que necessário para manter a estabilidade do abastecimento, gerou tensões internas e comprometeu o ritmo de algumas metas ambientais. Além disso, os autores não negligenciam a diversidade de realidades energéticas dentro do bloco: países como Alemanha, França, Espanha e Dinamarca lideram investimentos em renováveis, mas divergem quanto ao papel da energia nuclear e ao desenho das políticas de transição; já Estados-membros do Leste Europeu enfrentam maiores dificuldades para financiar e colocar em prática mudanças estruturais. Essa heterogeneidade impõe desafios à construção de uma estratégia comum e consistente. A Europa é exemplo e alerta: liderança climática não se sustenta apenas em metas ousadas, mas deve vir acompanhado pela capacidade de resistir às turbulências de um cenário global marcado por choques energéticos, conflitos e reconfigurações geopolíticas. Os autores nos oferecem ainda uma análise da trajetória chinesa na transição energética, revelando um paradoxo singular: a China é, ao mesmo tempo, o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta e a principal investidora global em energias renováveis. Esse duplo papel não decorre de incoerência, mas de um projeto nacional que procura conciliar – em escala inédita – crescimento econômico acelerado, segurança energética e liderança tecnológica na nova economia verde.

O ponto de partida é o peso estrutural do carvão na matriz energética chinesa. Recurso abundante e barato, ele foi a base da industrialização rápida e da urbanização massiva das últimas quatro décadas. No entanto, o atual nível de emissão de gases do efeito estufa, os impactos ambientais e a pressão internacional por metas climáticas obrigaram o país a iniciar, já nos anos 2000, um movimento gradual de substituição e diversificação. Essa transição, contudo, não significa abandono imediato do carvão: a estratégia de Pequim combina sua redução relativa com a manutenção de capacidade instalada para garantir segurança energética e estabilidade de abastecimento. A China investe em todas as frentes do tripé da transição energética. No eixo da segurança, promove diversificação de fontes e fornecedores, amplia o uso de gás natural e fortalece a infraestrutura de redes elétricas. No campo da sustentabilidade, lidera a expansão global da energia solar e eólica, investindo pesadamente em P&D e produção em escala de turbinas, painéis e baterias, consolidando-se como principal exportadora desses equipamentos. Quanto à equidade, a transição é pensada em termos de coesão interna, com políticas que buscam assegurar eletrificação rural, tarifas acessíveis e redução das desigualdades regionais de acesso à energia. A China não tenta apenas suprir sua demanda interna, mas procura ocupar posições estratégicas nas cadeias globais de valor da transição energética, controlando minerais críticos, tecnologias-chave e mercados externos. Essa postura lhe confere vantagens competitivas e capacidade de influência, mas também desperta reações e disputas com outras potências, especialmente Estados Unidos e União Europeia.

O caso chinês demonstra que a transição energética, quando tratada como política de Estado e integrada a um projeto nacional de desenvolvimento, pode avançar mesmo em contextos de alta demanda e dependência de fósseis. Contudo, também deixa claro que a conciliação entre crescimento e descarbonização exige planejamento de longo prazo, investimentos massivos e coordenação centralizada – condições que nem todos os países conseguem reproduzir. A África, por seu turno, pode exercer papel estratégico na transição energética. A análise parte de um dado fundamental: a África é hoje a região mais carente de acesso à energia e, ao mesmo tempo, um dos maiores depósitos do planeta de recursos fósseis e minerais críticos para a economia verde. Essa condição dual a coloca no centro das disputas geopolíticas do século XXI.

No campo dos combustíveis fósseis, há uma nova corrida para explorar petróleo e gás em países que até pouco tempo estavam fora do mapa energético global, como Namíbia, Senegal, Moçambique e Uganda. Essas reservas são vistas por governos locais como oportunidade única de financiar desenvolvimento, industrializar economias e melhorar o bem-estar social – mesmo que isso ocorra em pleno avanço da agenda mundial de descarbonização. Essa postura, longe de ser mero negacionismo climático, é apresentada como reação legítima de nações que historicamente ficaram à margem dos benefícios da era dos fósseis. Paralelamente, a África é rica em minerais estratégicos como cobalto, lítio, manganês, grafite e platina, essenciais para baterias, turbinas e tecnologias limpas. A extração desses recursos, porém, levanta dilemas sobre soberania, impactos socioambientais e novas formas de dependência externa. Os autores alertam que, sem políticas de industrialização local e agregação de valor, o continente pode repetir o ciclo histórico de exportar matérias-primas e importar produtos de alto valor agregado. No campo das energias renováveis, o potencial é vasto: insolação abundante para solar, ventos constantes para eólica, recursos hídricos e geotérmicos em diversas regiões. No entanto, o aproveitamento ainda é incipiente, limitado por falta de infraestrutura, financiamento e capacidade tecnológica. Iniciativas multilaterais e investimentos estrangeiros já mapeiam essas oportunidades, o que insere a África em novas disputas de influência entre potências tradicionais e emergentes. Para o tripé da transição energética, a experiência africana é campo de prova: sem justiça social e soberania, a transição corre o risco de reforçar as mesmas assimetrias que promete superar.

Por fim, nos aproximamos da análise do Brasil, que tem como ponto de partida a seguinte constatação: somos um dos poucos grandes países que entraram no século XXI com uma matriz elétrica majoritariamente limpa e diversificada, mas que, ao mesmo tempo, mantém significativa dependência dos combustíveis fósseis em outros segmentos da economia. Essa condição híbrida oferece vantagens estratégicas, mas também revela vulnerabilidades e desafios de coordenação política e institucional.

A matriz elétrica brasileira – baseada sobretudo na energia hidrelétrica, complementada por eólica, solar e biomassa – já garante mais de 80% de geração a partir de fontes renováveis. Esse é um diferencial competitivo que projeta o país como referência internacional, especialmente em fóruns climáticos e negociações multilaterais. Contudo, na matriz energética total, que inclui transporte, indústria e outros usos, os fósseis ainda respondem por parcela expressiva, com destaque para o petróleo e seus derivados. A segurança energética brasileira contou com o papel central do pré-sal: as descobertas e a produção em larga escala transformaram o Brasil em exportador líquido de petróleo, fortalecendo sua balança comercial e sua presença geopolítica. E a nossa inovação energética e liderança destacada se vislumbram nos biocombustíveis, com destaque para o etanol de cana-de-açúcar e milho, além do biodiesel. O Brasil tem condições ímpares para liderar globalmente a transição energética, mas essa liderança não será automática. Ela dependerá de planejamento integrado, estabilidade regulatória, inovação tecnológica e capacidade de transformar vantagens naturais em estratégia nacional de longo prazo. No tripé da transição energética, o país pode ser exemplo de equilíbrio entre segurança, equidade e sustentabilidade – desde que saiba usar sua abundância como alavanca de soberania e não como justificativa para a inércia.

Essa pluralidade de estratégias nacionais também exige que o foco do debate se amplie das moléculas e elétrons de energia em direção aos minerais e minérios, pois, embora protagonizada por fontes renováveis e tecnologias limpas, a transição energética depende profundamente de uma nova base material, finita e desigualmente distribuída. Quem controlar a extração, o processamento e a cadeia de valor desses minerais controlará não apenas mercados, mas também posições importantes na geopolítica da energia no século XXI. Turbinas eólicas, painéis solares, baterias de veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia demandam volumes crescentes desses insumos minerais. Diferente do petróleo, cuja geopolítica se estruturou em torno do transporte e da refinação, a geopolítica dos minerais críticos envolve a disputa pela mineração, o domínio de tecnologias de beneficiamento e a segurança das cadeias de suprimento. Esse cenário cria rotas comerciais, novas alianças e novas vulnerabilidades. Há que se considerar pelo menos três características centrais desse mercado emergente: concentração geográfica – muitos desses minerais têm reservas significativas em poucos países, frequentemente no Sul Global, como o cobalto da República Democrática do Congo, o lítio do Triângulo do Cone Sul (Argentina, Bolívia e Chile) e as terras raras concentradas na China; sensibilidade socioambiental – as áreas de exploração muitas vezes coincidem com ecossistemas frágeis ou territórios indígenas, o que impõe dilemas entre expansão produtiva e proteção ambiental e cultural; controle tecnológico – a vantagem competitiva não está apenas em possuir reservas, mas em dominar o processamento e a fabricação de componentes de alto valor agregado.

A corrida pelos minerais críticos já está em curso, com China, Estados Unidos e União Europeia competindo por liderança. O risco é que a transição energética, em vez de romper com as desigualdades da era dos fósseis, crie um “neocolonialismo verde”, no qual países detentores de recursos permanecem presos à exportação primária, enquanto o valor agregado e o poder tecnológico se concentram em outros centros.

A soberania na transição energética não se medirá apenas pela capacidade de gerar energia renovável e limpa, mas também pelo controle sobre os insumos que a tornam possível. Para países do Sul Global, isso significa que a gestão estratégica dos minerais críticos será decisiva para evitar que a promessa de uma economia verde reproduza as assimetrias de um passado movido a carbono. O tripé da transição energética só será sólido se esses recursos forem alavancas de desenvolvimento, e não armadilhas de dependência. Por fim, um alerta: se a transição energética for guiada apenas por critérios de mercado ou por agendas fragmentadas, corre o risco de se transformar numa janela perdida de oportunidades: tecnologias limpas convivendo com desigualdades estruturais e novas formas de dependência. A pressão do tempo – expressa nas metas para 2030 e 2050 – agrava essa tensão, pois aumenta a tentação de priorizar ganhos rápidos em detrimento de transformações duradouras. Com esta obra, os professores Giorgio Romano Schutte e Igor Fuser nos oferecem um importante instrumento para que o debate sobre a transição energética no Brasil seja feito de maneira racional e informada, enfrentando sua real complexidade e suas verdadeiras contradições, mitigando calores e trazendo luzes ao debate energético do país; é o que precisamos para enfrentar esse que é um dos maiores desafios da humanidade no presente século.

 

Fonte: Por William Nozaki, no Le Monde

 

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