segunda-feira, 27 de abril de 2026

O LULISMO EM CRISE POR TER DADO CERTO: Por que as conquistas não se convertem em votos?

Em 18 de abril de 2026, na 1ª Reunião da Mobilização Progressista Global, o presidente Lula pronunciou um discurso histórico. Em poucas frases, condensou um diagnóstico que a literatura materialista contemporânea vem construindo há anos: o projeto neoliberal “prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança”; a esquerda, em vez de romper com esse modelo, “sucumbiu à ortodoxia” e tornou-se gestora de suas mazelas – “governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade”; e a extrema direita, então, soube “capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas”, canalizando a frustração e a desesperança de quem foi abandonado pelo sistema e pelo progressismo que prometeu mudá-lo. “Nós somos o sistema”, ele disse.

É o mesmo diagnóstico que Mouffe e Crouch fizeram ao descrever como a centro-esquerda, após 2008, converteu disputas programáticas em gestão técnica dentro dos limites do consenso neoliberal. É o que Hawley e Stefanoni identificaram como o mecanismo pelo qual a direita radical pôde assumir a estética da rebeldia e do antissistema – porque a esquerda havia se tornado o sistema. É o que Karp e Riley/Brenner descrevem como o realinhamento eleitoral inevitável quando os partidos progressistas passam a apelar prioritariamente à fração credenciada, perdendo a classe trabalhadora não-diplomada para o nacionalismo e o ressentimento.

<><> Inclusão social

A inclusão social sob Lula é um fato histórico inegável, apresenta marcos estatísticos significativos. A extrema pobreza, que rondava os 12% no início do século, recuou para níveis inferiores a 5% em 2024 – avanço construído nos primeiros ciclos do PT e em parte revertido no período Bolsonaro, quando o país retornou ao Mapa da Fome da ONU. No terceiro mandato, a recuperação foi acelerada: 26,5 milhões de pessoas saíram da insegurança alimentar grave entre 2023 e 2025, conquista que, na primeira vez, havia levado uma década.

Bolsa Família, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Pé de Meia garantiram dignidade e tempo de vida a milhões de brasileiros que antes simplesmente não existiam para o Estado. Para a maioria pauperizada, o acesso ao consumo de massas — o chuveiro elétrico, a geladeira trocada, remédios — foi a primeira experiência concreta de participação na promessa de modernidade. O fortalecimento do SUS, o Mais Médico, o fortalecimento e abertura das universidades federais e dos institutos federais, tudo isso abriu acesso a saúde e educação.

Os indicadores macroeconômicos da última gestão são também inegavelmente positivos. O desemprego recuou para patamares próximos a 6,5%, com um recorde de 103 milhões de ocupados e uma renda média em ascensão, superando os R$ 3.200. O PIB manteve trajetória de crescimento e o salário-mínimo recuperou sua política de valorização real. Em uma perspectiva de longo prazo, o Ipea aponta que a renda domiciliar per capita cresceu significativamente desde 1995, acompanhada por uma redução de mais de 13% no Coeficiente de Gini, sinalizando uma desconcentração de renda histórica.

Nada disso foi inevitável. Sem o regime democrático reconquistado em 1985, um operário nordestino, líder sindical, jamais teria chegado à Presidência. E sem essa travessia, as políticas distributivas simplesmente não teriam ocorrido.

Não fosse Lula eleito em 2022 e efetivamente tomado posse em 2023, teríamos índices ambientais alarmantes, as capacidades estatais ainda em franca destruição. Tampouco teria ocorrido a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil – aprovada com surpreendente unanimidade no Congresso. Tampouco o provável fim da escala 6×1. Ao contrário: após a queda de Dilma vieram a reforma da previdência e a reforma trabalhista que permitiu a terceirização das atividades-fim, praticamente rasgando a CLT.

E ainda assim a desaprovação ao governo cresce mesmo em suas bases históricas. Nem mesmo uma conquista fiscal da magnitude da isenção do Imposto de Renda – que beneficiou 31% das famílias – rendeu ao governo a melhora na aprovação que a lógica política elementar preveria.

É “culpa da comunicação”? Não.

O próprio Lula o admitiu em seu discurso na Mobilização Progressista Global ao fazer seu mea culpa – que ele já fizera, em 2025, em encontro sobre defesa da democracia na ONU.

<><> A culpa é de quem?

A queda de popularidade não é exclusividade de Lula. Praticamente todos os presidentes eleitos no mundo pós-pandemia enfrentaram desgaste acelerado – Biden, Macron, Scholz, Milei. Mas reconhecer isso não explica todo o problema.

A queda de popularidade de Lula expressa frustrações reais, acumuladas em camadas, que o próprio modelo lulista ajudou a produzir.

  1. A primeira camada é a percepção generalizada de injustiça. O Estado é sentido como distante ou hostil: do judiciário a políticas afirmativas percebidas como privilégio alheio. Esse mal-estar se organiza em torno de uma palavra que a direita soube capturar com precisão cirúrgica: “sistema”. O que a oposição chama de sistema é exatamente o conjunto de instituições, partidos e práticas que o lulismo representa – e que, para uma parcela crescente do eleitorado, é percebido como o problema, não a solução. Esse sentimento é a leitura de experiência concreta de exclusão que o crescimento econômico não dissolveu e que uma inclusão social despolitizada permitiu.
  2. A segunda camada é o endividamento das famílias que resulta de anos de políticas que transformaram direitos e benefícios sociais em garantia de crédito. O consignado do INSS, criado em 2003, permite descontar até 45% do benefício diretamente na aposentadoria. O saque-aniversário do FGTS, criado em 2019, transformou o fundo de proteção contra demissão em crédito antecipável; entre 2020 e 2025, R$ 236 bilhões foram repassados às instituições financeiras, com contratos firmados para pagamento até 2050. Com o consignado via FGTS Digital, a lógica avançou: a própria multa rescisória passou a ser utilizada como garantia real, penhorando a indenização do trabalhador antes mesmo da ruptura do contrato
  3. A terceira camada é a inflação, em particular a dos alimentos. Em abril de 2026, 72% dos brasileiros relatavam que o preço dos alimentos havia subido no último mês, e 71% diziam ter poder de compra menor do que um ano antes.

A economia brasileira é periférica e financeiramente aberta, sem mecanismos robustos de controle de capitais e de proteção cambial, a inflação torna-se fortemente sensível à desvalorização da moeda. É o que Fernando Rugitsky descreve como a “escolha trágica” da política monetária brasileira: juros altos para atrair capital, conter a desvalorização cambial e tentar frear a inflação; ou juros mais baixos, com risco de fuga de capitais, desvalorização do real e corrosão ainda maior do salário real. Optou-se pelo primeiro, drenando recursos públicos para o rentismo (em 2025, o Brasil atingiu um marco histórico: a despesa com juros nominais ultrapassou a casa de R$ 1 trilhão) e comprimindo investimento produtivo, enquanto a indústria atinge sua menor participação histórica no PIB.

Mesmo assim, a inflação dos alimentos resiste porque sua causa principal não é excesso de demanda, e sim estrutura produtiva. Com o agronegócio voltado prioritariamente à exportação e os preços internos progressivamente indexados ao mercado internacional, o preço da comida no prato do brasileiro passa a obedecer mais à cotação do dólar e à demanda externa do que à renda doméstica. Juros altos encarecem crédito, desaquecem a economia e protegem o sistema financeiro, mas não reduzem o preço da cesta básica. A escolha trágica, portanto, cobra seu preço duas vezes: preserva a lógica rentista e mantém a sensação cotidiana de empobrecimento.

  1. A quarta camada é a segurança pública – talvez a mais imediata e visceral nas periferias. O domínio territorial do crime organizado e a sensação de abandono estatal não são criação do lulismo, mas tampouco foram revertidos por ele. Para quem vive sob esse cotidiano, nenhum indicador agregado compensa. Tratar as causas da violência, como é a plataforma da esquerda, precisaria de uma política de desenvolvimento mais robusta. Enquanto isso não ocorre as narrativas vingativas e punitivistas da oposição ganham terreno cada vez maior.
  2. A quinta, e mais estrutural, é a frustração com a mobilidade bloqueada. O lulismo abriu o consumo de massas, mas 84% dos empregos formais criados nos seus ciclos não ultrapassaram dois salários-mínimos (DIEESE). A maioria ascendeu à base do mercado – e ficou lá. Entre os jovens de 18 a 29 anos, persistem altas taxas de informalidade e concentração em ocupações precárias e temporárias. A expansão do Prouni e do Fies gerou uma geração com diploma sem emprego compatível: o jovem periférico formado que se torna entregador de aplicativo ou MEI, sem direitos e sem horizonte.

As pessoas querem a possibilidade de construir algo duradouro e ocupar um lugar percebido como digno. Querem mais: distinção social. Uma inclusão fundada no consumo, e não em uma linguagem forte de pertencimento de classe (que Lula começou a emular somente desde meados de 2024), não só não resolveu os problemas de fundo como na verdade aprofundou a percepção de insuficiência e a aspiração por status. Nesse vazio prospera a ideologia do empreendedorismo – a promessa de autonomia, ascensão rápida e ruptura com a condição subalterna. A direita soube oferecer essa gramática de ambição e ressentimento.

O que conecta essas camadas é precisamente o limite do modelo. O lulismo cumpriu seus objetivos mais imediatos e, ao fazê-lo, deslocou as expectativas para um patamar que ele não tem como satisfazer.

<><> Financeirização e reprimarização

A inclusão social promovida por Lula fundou-se no tripé Bolsa Família, crédito consignado e valorização do salário-mínimo (Singer, Rugitsky). Nas palavras de Lena Lavinas, operou sob a “regência da financeirização”.

Em vez de saúde pública capaz de dispensar o gasto familiar com planos privados, expandiram-se subsídios indiretos e a dependência de soluções de mercado. Em vez de educação pública universal de alta qualidade, ampliou-se o acesso ao ensino superior privado via Fies e Prouni, frequentemente acompanhado de endividamento e frustração ocupacional. Esse modelo produz alívio imediato e melhora real das condições de vida – e nisso reside sua força histórica –, mas também desloca o custo da proteção social para o indivíduo e preserva intacta a estrutura regressiva da economia brasileira.

Tampouco ocorreu uma política desenvolvimentista estrutural capaz de alterar a inserção periférica do Brasil na divisão internacional do trabalho. A “Nova Indústria Brasil” chega tarde e em escala insuficiente para reverter décadas de desindustrialização. Os dados do IBGE e IEDI são inequívocos: a indústria de transformação caiu de 35,9% do PIB em 1985 para cerca de 11% em 2025, a menor participação histórica. Não é uma transição natural para serviços sofisticados: setores de alta intensidade tecnológica perderam quase a metade de peso desde 1980, enquanto informática e eletrônicos (núcleo da Quarta Revolução Industrial) representam apenas 0,5% do PIB. O Brasil desindustrializou prematuramente.

Celso Furtado já mostrava, nos anos 1970, que o subdesenvolvimento é uma forma permanente de inserção dependente no capitalismo global. Maria da Conceição Tavares acrescentou que o arranjo macroeconômico brasileiro sempre premiou a renda financeira em detrimento da produção industrial. A proposta de ruptura que os desenvolvimentistas apontavam – industrialização planejada, reforma agrária, enfrentamento da concentração de renda – não foi realizada nos últimos vinte anos, de modo que o diagnóstico que eles fizeram ainda é o Brasil de Lula em 2026: juros estratosféricos drenando o orçamento para o rentismo, enquanto a indústria de transformação marca sua menor participação histórica no PIB. A “construção interrompida” de Furtado continua interrompida. E o Brasil segue dependente, como reconheceu o próprio Lula em Barcelona: o país “volta a ser visto como mero fornecedor de matérias-primas”.

No lugar da indústria, consolidou-se uma estrutura produtiva assimétrica. Segundo o IBGE, a agropecuária contribuiu com R$ 720 bilhões para o PIB em 2023, a indústria com R$ 2,45 trilhões e os serviços com R$ 7,73 trilhões. O agronegócio (toda sua cadeia) representa 23,2% do PIB e 26% dos empregos – e o saldo da balança comercial só é positivo graças a ele: superávit de US$ 145 bilhões em 2024, enquanto indústria e serviços foram deficitários em US$ 71 bilhões.

Sem um novo horizonte econômico, não há narrativa capaz de sustentar esperança duradoura. As pessoas querem ruptura, mobilidade real e futuro. Diante da reprimarização da economia, o que permanece é apenas a administração da escassez – ou, como disse Lula, “gerir o neoliberalismo” – e esse vazio é precisamente o terreno em que prosperam os álibis da direita e da extrema direita.

<><> Limites da governabilidade

É preciso reconhecer: as margens para uma estratégia desenvolvimentista sempre foram estreitas. Em 2003, antes mesmo da posse, um ataque especulativo forçou Lula a redigir uma carta comprometendo-se com a ortodoxia – a mais brutal demonstração de como o mercado constrange a soberania democrática. Mais tarde, a tentativa de Dilma de reintroduzir controles de capital (2011-2012) foi abandonada sob pressão dos mercados.

A margem no Congresso não é melhor. O cientista político Fabiano Santos demonstra, em pesquisas empíricas, que a política econômica no presidencialismo de coalizão brasileiro opera, de regra, sob tensão nos governos capitaneado pelo PT, em que o Legislativo tende a reagir a iniciativas de cunho desenvolvimentista.

Desde 2023 as margens se apertaram ainda mais. Lula se elegeu com uma frente ampla para salvar as instituições democráticas, que impôs limites: a aliança que derrotou Bolsonaro incluía setores do capital financeiro e do establishment judicial incompatíveis com um projeto desenvolvimentista de fundo.

<><> Barcelona versus Hannover

Singer, Araujo e Belinelli mostram que a reprimarização não é neutra politicamente: foi nas regiões do agronegócio em ascensão, que preencheram o vácuo deixado pela desindustrialização, que se formou a base territorial e cultural do bolsonarismo – o “Novo Oeste” brasileiro. E as políticas públicas do próprio governo Lula, com o maior financiamento ao agronegócio da história, aprofundaram essa inserção em vez de revertê-la.

Esse mesmo setor foi defendido por Lula no dia seguinte ao discurso de Barcelona, na abertura da Hannover Messe, na Alemanha: o presidente afirmou que a União Europeia insiste em “narrativas falsas” sobre o agronegócio brasileiro. Na véspera, na Cúpula Empresarial Espanha-Brasil, celebrava-se “o maior financiamento para o agronegócio da história do Brasil”. O setor que concentra as bases mais leais à extrema direita é o maior beneficiário das políticas públicas neoliberalizantes.

Por que Lula fez um discurso em um dia e o oposto no outro?

O discurso de Barcelona é o diagnóstico correto. A defesa do agro no dia seguinte é a política possível. A contradição entre eles é a medida exata do estreitamento do espaço de manobra do lulismo no seu limite histórico. A autocrítica de Barcelona chega às vésperas da eleição, quando deveria ter sido o ponto de partida do mandato.

Há uma hipótese alternativa, porém. Em entrevista ao ICL, dias antes de Barcelona, Lula sugeriu que o primeiro mandato foi de “arrumação da casa” e que o próximo seria o momento de “olhar para as causas”. Lula sempre gostou de trabalhar nas contradições e haveria aí um jogo de dois tempos: primeiro, estabilizar a democracia e a economia com a frente ampla que derrotou Bolsonaro; depois, num eventual segundo mandato (2027-2031), partir para as transformações estruturais. Sob essa ótica, Barcelona não seria um diagnóstico tardio, mas o discurso de lançamento da segunda fase. O resultado das eleições dirá se isso será possível.

 

Fonte: Por Marina Basso Lacerda, para o Le Monde

 

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