O
LULISMO EM CRISE POR TER DADO CERTO: Por que as conquistas não se convertem em
votos?
Em 18
de abril de 2026, na 1ª Reunião da Mobilização
Progressista Global,
o presidente Lula pronunciou um discurso histórico. Em poucas frases, condensou
um diagnóstico que a literatura materialista contemporânea vem construindo há
anos: o projeto neoliberal “prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade
e insegurança”; a esquerda, em vez de romper com esse modelo, “sucumbiu à
ortodoxia” e tornou-se gestora de suas mazelas – “governos de esquerda ganham
as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade”; e a extrema
direita, então, soube “capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas”,
canalizando a frustração e a desesperança de quem foi abandonado pelo sistema e
pelo progressismo que prometeu mudá-lo. “Nós somos o sistema”, ele disse.
É o
mesmo diagnóstico que Mouffe e Crouch fizeram ao descrever como
a centro-esquerda, após 2008, converteu disputas programáticas em gestão
técnica dentro dos limites do consenso neoliberal. É o que Hawley e
Stefanoni identificaram como o mecanismo pelo qual a direita radical pôde
assumir a estética da rebeldia e do antissistema – porque a esquerda havia se
tornado o sistema. É o que Karp e Riley/Brenner descrevem como o
realinhamento eleitoral inevitável quando os partidos progressistas passam a
apelar prioritariamente à fração credenciada, perdendo a classe trabalhadora
não-diplomada para o nacionalismo e o ressentimento.
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Inclusão social
A
inclusão social sob Lula é um fato histórico inegável, apresenta marcos
estatísticos significativos. A extrema pobreza, que rondava os 12% no início do
século, recuou para níveis inferiores a 5% em 2024 – avanço construído nos
primeiros ciclos do PT e em parte revertido no período Bolsonaro, quando o país retornou ao Mapa da
Fome da ONU. No
terceiro mandato, a recuperação foi acelerada: 26,5 milhões de pessoas saíram da
insegurança alimentar grave entre 2023 e 2025, conquista que, na primeira vez,
havia levado uma década.
Bolsa
Família, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Pé de Meia garantiram
dignidade e tempo de vida a milhões de brasileiros que antes simplesmente não
existiam para o Estado. Para a maioria pauperizada, o acesso ao consumo de
massas — o chuveiro elétrico, a geladeira trocada, remédios — foi a primeira
experiência concreta de participação na promessa de modernidade. O
fortalecimento do SUS, o Mais Médico, o fortalecimento e abertura das
universidades federais e dos institutos federais, tudo isso abriu acesso a
saúde e educação.
Os
indicadores macroeconômicos da última gestão são também inegavelmente
positivos. O desemprego recuou para patamares próximos a 6,5%, com um recorde
de 103 milhões de ocupados e uma renda média em ascensão, superando os R$
3.200. O PIB manteve trajetória de crescimento e o salário-mínimo recuperou sua
política de valorização real. Em uma perspectiva de longo prazo, o Ipea aponta que a renda domiciliar
per capita cresceu significativamente desde 1995, acompanhada por uma
redução de mais de 13% no Coeficiente de Gini, sinalizando uma desconcentração
de renda histórica.
Nada
disso foi inevitável. Sem o regime democrático reconquistado em 1985, um
operário nordestino, líder sindical, jamais teria chegado à Presidência. E sem
essa travessia, as políticas distributivas simplesmente não teriam ocorrido.
Não
fosse Lula eleito em 2022 e efetivamente tomado posse em 2023, teríamos índices
ambientais alarmantes, as capacidades estatais ainda em franca destruição.
Tampouco teria ocorrido a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5
mil – aprovada com surpreendente unanimidade no Congresso. Tampouco o provável
fim da escala 6×1. Ao contrário: após a queda de Dilma vieram a reforma da
previdência e a reforma trabalhista que permitiu a terceirização das
atividades-fim, praticamente rasgando a CLT.
E ainda
assim a desaprovação ao governo cresce mesmo em suas bases históricas. Nem
mesmo uma conquista fiscal da magnitude da isenção do Imposto de Renda – que
beneficiou 31% das famílias – rendeu ao governo a melhora na aprovação que a
lógica política elementar preveria.
É
“culpa da comunicação”? Não.
O
próprio Lula o admitiu em seu discurso na Mobilização Progressista Global ao
fazer seu mea culpa – que ele já fizera, em 2025, em encontro
sobre defesa da democracia na ONU.
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A culpa é de quem?
A queda
de popularidade não é exclusividade de Lula. Praticamente todos os presidentes
eleitos no mundo pós-pandemia enfrentaram desgaste acelerado – Biden, Macron,
Scholz, Milei. Mas reconhecer isso não explica todo o problema.
A queda
de popularidade de Lula expressa frustrações reais, acumuladas em camadas, que
o próprio modelo lulista ajudou a produzir.
- A primeira
camada é a percepção generalizada de injustiça. O Estado é sentido como
distante ou hostil: do judiciário a políticas afirmativas percebidas como
privilégio alheio. Esse mal-estar se organiza em torno de uma palavra que
a direita soube capturar com precisão cirúrgica: “sistema”. O que a
oposição chama de sistema é exatamente o conjunto de instituições,
partidos e práticas que o lulismo representa – e que, para uma parcela
crescente do eleitorado, é percebido como o problema, não a solução. Esse
sentimento é a leitura de experiência concreta de exclusão que o
crescimento econômico não dissolveu e que uma inclusão social
despolitizada permitiu.
- A segunda camada
é o endividamento das famílias que resulta de anos de políticas que
transformaram direitos e benefícios sociais em garantia de crédito. O
consignado do INSS, criado em 2003, permite descontar até 45% do benefício
diretamente na aposentadoria. O saque-aniversário do FGTS, criado em 2019,
transformou o fundo de proteção contra demissão em crédito antecipável;
entre 2020 e 2025, R$ 236 bilhões foram repassados às instituições
financeiras, com contratos firmados para pagamento até 2050. Com o consignado
via FGTS Digital, a lógica avançou: a própria multa rescisória passou a
ser utilizada como garantia real, penhorando a indenização do trabalhador
antes mesmo da ruptura do contrato
- A terceira
camada é a inflação, em particular a dos alimentos. Em abril de 2026, 72%
dos brasileiros relatavam que o preço dos alimentos havia subido no último
mês, e 71% diziam ter poder de compra menor do que um ano antes.
A
economia brasileira é periférica e financeiramente aberta, sem mecanismos
robustos de controle de capitais e de proteção cambial, a inflação torna-se
fortemente sensível à desvalorização da moeda. É o que Fernando
Rugitsky descreve como a “escolha trágica” da política monetária
brasileira: juros altos para atrair capital, conter a desvalorização cambial e
tentar frear a inflação; ou juros mais baixos, com risco de fuga de capitais,
desvalorização do real e corrosão ainda maior do salário real. Optou-se pelo
primeiro, drenando recursos públicos para o rentismo (em 2025, o Brasil atingiu
um marco histórico: a despesa com juros nominais ultrapassou a casa de R$ 1
trilhão) e comprimindo investimento produtivo, enquanto a indústria atinge sua
menor participação histórica no PIB.
Mesmo
assim, a inflação dos alimentos resiste porque sua causa principal não é
excesso de demanda, e sim estrutura produtiva. Com o agronegócio voltado
prioritariamente à exportação e os preços internos progressivamente indexados
ao mercado internacional, o preço da comida no prato do brasileiro passa a
obedecer mais à cotação do dólar e à demanda externa do que à renda doméstica.
Juros altos encarecem crédito, desaquecem a economia e protegem o sistema
financeiro, mas não reduzem o preço da cesta básica. A escolha trágica,
portanto, cobra seu preço duas vezes: preserva a lógica rentista e mantém a
sensação cotidiana de empobrecimento.
- A quarta camada
é a segurança pública – talvez a mais imediata e visceral nas periferias.
O domínio territorial do crime organizado e a sensação de abandono estatal
não são criação do lulismo, mas tampouco foram revertidos por ele. Para
quem vive sob esse cotidiano, nenhum indicador agregado compensa. Tratar
as causas da violência, como é a plataforma da esquerda, precisaria de uma
política de desenvolvimento mais robusta. Enquanto isso não ocorre as
narrativas vingativas e punitivistas da oposição ganham terreno cada vez
maior.
- A quinta, e mais
estrutural, é a frustração com a mobilidade bloqueada. O lulismo abriu o
consumo de massas, mas 84% dos empregos formais criados nos seus ciclos
não ultrapassaram dois salários-mínimos (DIEESE). A maioria ascendeu à
base do mercado – e ficou lá. Entre os jovens de 18 a 29 anos, persistem
altas taxas de informalidade e concentração em ocupações precárias e
temporárias. A expansão do Prouni e do Fies gerou uma geração com diploma
sem emprego compatível: o jovem periférico formado que se torna entregador
de aplicativo ou MEI, sem direitos e sem horizonte.
As
pessoas querem a possibilidade de construir algo duradouro e ocupar um lugar
percebido como digno. Querem mais: distinção social. Uma inclusão fundada no
consumo, e não em uma linguagem forte de pertencimento de classe (que Lula
começou a emular somente desde meados de 2024), não só não resolveu os
problemas de fundo como na verdade aprofundou a percepção de insuficiência e a
aspiração por status. Nesse vazio prospera a ideologia do empreendedorismo – a
promessa de autonomia, ascensão rápida e ruptura com a condição subalterna. A
direita soube oferecer essa gramática de ambição e ressentimento.
O que
conecta essas camadas é precisamente o limite do modelo. O lulismo cumpriu seus
objetivos mais imediatos e, ao fazê-lo, deslocou as expectativas para um
patamar que ele não tem como satisfazer.
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Financeirização e reprimarização
A
inclusão social promovida por Lula fundou-se no tripé Bolsa Família, crédito
consignado e valorização do salário-mínimo (Singer, Rugitsky). Nas palavras de
Lena Lavinas, operou sob a “regência da financeirização”.
Em vez
de saúde pública capaz de dispensar o gasto familiar com planos privados,
expandiram-se subsídios indiretos e a dependência de soluções de mercado. Em
vez de educação pública universal de alta qualidade, ampliou-se o acesso ao
ensino superior privado via Fies e Prouni, frequentemente acompanhado de
endividamento e frustração ocupacional. Esse modelo produz alívio imediato e
melhora real das condições de vida – e nisso reside sua força histórica –, mas
também desloca o custo da proteção social para o indivíduo e preserva intacta a
estrutura regressiva da economia brasileira.
Tampouco
ocorreu uma política desenvolvimentista estrutural capaz de alterar a inserção
periférica do Brasil na divisão internacional do trabalho. A “Nova Indústria
Brasil” chega tarde e em escala insuficiente para reverter décadas de
desindustrialização. Os dados do IBGE e IEDI são inequívocos: a indústria de
transformação caiu de 35,9% do PIB em 1985 para cerca de 11% em 2025, a menor
participação histórica. Não é uma transição natural para serviços sofisticados:
setores de alta intensidade tecnológica perderam quase a metade de peso desde
1980, enquanto informática e eletrônicos (núcleo da Quarta Revolução
Industrial) representam apenas 0,5% do PIB. O Brasil desindustrializou
prematuramente.
Celso
Furtado já mostrava, nos anos 1970, que o subdesenvolvimento é uma forma
permanente de inserção dependente no capitalismo global. Maria da Conceição
Tavares acrescentou que o arranjo macroeconômico brasileiro sempre premiou
a renda financeira em detrimento da produção industrial. A proposta de ruptura
que os desenvolvimentistas apontavam – industrialização planejada, reforma
agrária, enfrentamento da concentração de renda – não foi realizada nos últimos
vinte anos, de modo que o diagnóstico que eles fizeram ainda é o Brasil de Lula
em 2026: juros estratosféricos drenando o orçamento para o rentismo, enquanto a
indústria de transformação marca sua menor participação histórica no PIB. A
“construção interrompida” de Furtado continua interrompida. E o Brasil segue
dependente, como reconheceu o próprio Lula em Barcelona: o país “volta a ser
visto como mero fornecedor de matérias-primas”.
No
lugar da indústria, consolidou-se uma estrutura produtiva assimétrica. Segundo
o IBGE, a agropecuária contribuiu com R$ 720 bilhões para o PIB em 2023, a
indústria com R$ 2,45 trilhões e os serviços com R$ 7,73 trilhões. O
agronegócio (toda sua cadeia) representa 23,2% do PIB e 26% dos empregos – e o
saldo da balança comercial só é positivo graças a ele: superávit de US$ 145
bilhões em 2024, enquanto indústria e serviços foram deficitários em US$ 71
bilhões.
Sem um
novo horizonte econômico, não há narrativa capaz de sustentar esperança
duradoura. As pessoas querem ruptura, mobilidade real e futuro. Diante da
reprimarização da economia, o que permanece é apenas a administração da
escassez – ou, como disse Lula, “gerir o neoliberalismo” – e esse vazio é
precisamente o terreno em que prosperam os álibis da direita e da extrema
direita.
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Limites da governabilidade
É
preciso reconhecer: as margens para uma estratégia desenvolvimentista sempre
foram estreitas. Em 2003, antes mesmo da posse, um ataque especulativo forçou
Lula a redigir uma carta comprometendo-se com a ortodoxia – a mais brutal
demonstração de como o mercado constrange a soberania democrática. Mais tarde,
a tentativa de Dilma de reintroduzir controles de capital (2011-2012) foi
abandonada sob pressão dos mercados.
A
margem no Congresso não é melhor. O cientista político Fabiano
Santos demonstra, em pesquisas empíricas, que a política econômica no
presidencialismo de coalizão brasileiro opera, de regra, sob tensão nos
governos capitaneado pelo PT, em que o Legislativo tende a reagir a iniciativas
de cunho desenvolvimentista.
Desde
2023 as margens se apertaram ainda mais. Lula se elegeu com uma frente ampla
para salvar as instituições democráticas, que impôs limites: a aliança que
derrotou Bolsonaro incluía setores do capital financeiro e do establishment
judicial incompatíveis com um projeto desenvolvimentista de fundo.
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Barcelona versus Hannover
Singer,
Araujo e Belinelli mostram que a reprimarização não é neutra
politicamente: foi nas regiões do agronegócio em ascensão, que preencheram o
vácuo deixado pela desindustrialização, que se formou a base territorial e
cultural do bolsonarismo – o “Novo Oeste” brasileiro. E as políticas públicas
do próprio governo Lula, com o maior financiamento ao agronegócio da história,
aprofundaram essa inserção em vez de revertê-la.
Esse
mesmo setor foi defendido por Lula no dia seguinte ao discurso de Barcelona, na
abertura da Hannover Messe, na Alemanha: o presidente afirmou que a União
Europeia insiste em “narrativas falsas” sobre o agronegócio brasileiro. Na
véspera, na Cúpula Empresarial Espanha-Brasil, celebrava-se “o maior
financiamento para o agronegócio da história do Brasil”. O setor que concentra
as bases mais leais à extrema direita é o maior beneficiário das políticas
públicas neoliberalizantes.
Por que
Lula fez um discurso em um dia e o oposto no outro?
O
discurso de Barcelona é o diagnóstico correto. A defesa do agro no dia seguinte
é a política possível. A contradição entre eles é a medida exata do
estreitamento do espaço de manobra do lulismo no seu limite histórico. A
autocrítica de Barcelona chega às vésperas da eleição, quando deveria ter sido
o ponto de partida do mandato.
Há uma
hipótese alternativa, porém. Em entrevista ao ICL, dias antes de
Barcelona, Lula sugeriu que o primeiro mandato foi de “arrumação da casa” e que
o próximo seria o momento de “olhar para as causas”. Lula sempre gostou de
trabalhar nas contradições e haveria aí um jogo de dois tempos: primeiro,
estabilizar a democracia e a economia com a frente ampla que derrotou
Bolsonaro; depois, num eventual segundo mandato (2027-2031), partir para as
transformações estruturais. Sob essa ótica, Barcelona não seria um diagnóstico
tardio, mas o discurso de lançamento da segunda fase. O resultado das eleições
dirá se isso será possível.
Fonte:
Por Marina Basso Lacerda, para o Le Monde

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