Maria
Luiza Falcão: Quando a democracia falha - quem governa — e para quem?
Há uma
ilusão confortável que ainda resiste no debate público: a de que a democracia
se sustenta simplesmente porque há eleições. Como se votar, por si só,
garantisse legitimidade, representação e compromisso com o interesse coletivo.
Não garante. Nunca garantiu.
A
democracia liberal — tal como estruturada no pós-guerra — sempre combinou dois
elementos distintos: o procedimento eleitoral e um conjunto de instituições
destinadas a limitar o poder e assegurar direitos. Durante décadas, esse
arranjo foi apresentado como o horizonte superior da organização política.
Hoje, no entanto, ele atravessa uma crise que não é episódica, mas estrutural.
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Essa
crise não se expressa apenas no avanço da extrema direita, embora isso seja seu
sintoma mais visível. Ela se revela, sobretudo, na incapacidade crescente
desses sistemas de responder às demandas concretas da população. A distância
entre governantes e governados deixou de ser uma metáfora — tornou-se
experiência cotidiana.
É nesse
ponto que a pergunta central emerge, incômoda e incontornável: para quem se
governa?
A
formulação inspira-se em diferentes intervenções de Xi Jinping sobre governança
e democracia, especialmente na defesa da chamada “whole-process people’s
democracy”, sistematizada em discursos oficiais e no documento China: Democracy
That Works (State Council Information Office, 2021), onde se argumenta que a
legitimidade política deve ser avaliada não apenas por procedimentos
eleitorais, mas pela capacidade de resposta do sistema às demandas populares.
A
concepção reiterada pelo presidente chinês Xi — sobretudo ao defender uma
“democracia centrada no povo” e, mais recentemente, a ideia de “democracia
popular em todo o processo” — desloca o debate do plano formal para o plano
substantivo. Em diferentes intervenções, Xi tem insistido que a qualidade de um
regime político não pode ser medida apenas pela existência de eleições, mas
pela capacidade efetiva de o poder responder às demandas da sociedade e
produzir resultados concretos.
A ideia
associada a Xi Jiping não é apenas retórica política; ela expressa uma
concepção distinta de legitimidade. Ao deslocar a pergunta clássica — “como se
governa?” — para “para quem o poder é exercido?”, o eixo da análise sai das
regras formais (eleições, separação de poderes, procedimentos institucionais) e
passa a avaliar os resultados concretos do exercício do poder. Essa mudança de
eixo expõe com nitidez a fragilidade das democracias liberais contemporâneas.
O que
está implícito nessa perspectiva é uma crítica direta à tradição liberal
ocidental: a ideia de que a legitimidade de um regime decorre essencialmente de
seus mecanismos — eleições livres, alternância de poder, garantias jurídicas. A
perspectiva evocada por Xi tensiona esse pressuposto ao sugerir que tais
mecanismos podem coexistir com formas de governo que não entregam bem-estar,
inclusão ou estabilidade para a maioria da população.
Nesse
sentido, a afirmação não nega a importância das instituições, mas relativiza
seu papel como critério suficiente. Ela propõe que a legitimidade política deve
ser julgada também — ou sobretudo — pela capacidade do Estado de produzir
resultados: crescimento econômico, redução da pobreza, coesão social,
capacidade de planejamento de longo prazo. Em outras palavras, desloca-se de
uma legitimidade procedimental para uma legitimidade substantiva.
E é
justamente aí que sua indagação ganha potência analítica: esse deslocamento
expõe a fragilidade das democracias liberais contemporâneas porque revela um
descompasso crescente entre forma e conteúdo. Países que mantêm eleições
regulares e instituições formais intactas enfrentam, ao mesmo tempo, aumento da
desigualdade, perda de capacidade estatal, captura por interesses econômicos e
crescente descrédito popular.
O
ponto, portanto, não é afirmar que um modelo substitui o outro, mas evidenciar
a tensão: quando a democracia é avaliada apenas por seus rituais, ela se
protege formalmente — mas se esvazia socialmente. A formulação chinesa entra
nesse debate como provocação estratégica: obriga a perguntar se a legitimidade
política pode continuar sendo definida apenas pelas regras do jogo, ignorando
os resultados que esse jogo produz.
No
Ocidente, consolidou-se ao longo das últimas décadas uma dinâmica em que o
desempenho dos governos passou a ser medido por indicadores que pouco dizem
sobre a vida real das pessoas. Crescimento agregado, estabilidade financeira,
metas fiscais — todos importantes, mas insuficientes. Enquanto isso, o
cotidiano da população se deteriora: precarização do trabalho, dificuldade de
acesso à moradia, insegurança social, perda de perspectivas.
A
política, nesse contexto, transforma-se em gestão de expectativas frustradas.
Mais
grave ainda: em muitos casos, transforma-se em captura.
O que
se observa é a crescente influência de interesses econômicos concentrados sobre
decisões públicas. A ideia de representação cede lugar a uma lógica
oligárquica, em que políticas são formuladas não para atender à maioria, mas
para preservar estruturas de poder já estabelecidas. O resultado é um sistema
que mantém suas formas, mas esvazia seu conteúdo.
E
quando a forma permanece, mas o conteúdo desaparece, o que resta já não é
plenamente democracia.
É nesse
vazio que propostas alternativas ganham espaço.
A
experiência chinesa, frequentemente ignorada ou caricaturada no debate
ocidental, oferece um contraste relevante — não como modelo a ser simplesmente
replicado, mas como referência para reflexão. A ideia de uma governança
orientada pelo bem-estar da população, na qual o desempenho dos dirigentes é
avaliado por sua capacidade de resolver problemas concretos, introduz um
critério que as democracias liberais progressivamente abandonaram.
Não se
trata de slogans. Trata-se de método.
Evitar
“projetos de vitrine” e priorizar soluções reais; valorizar investimentos de
longo prazo mesmo quando não geram retorno político imediato; medir o sucesso
não por indicadores abstratos, mas pela melhoria efetiva das condições de vida
— esses elementos redefinem o próprio sentido de governar.
Esse
ponto é crucial.
Porque
a crise da democracia liberal não decorre apenas de falhas institucionais. Ela
decorre de uma ruptura mais profunda: a desconexão entre poder político e
finalidade social.
Governos
continuam operando, eleições continuam ocorrendo, instituições continuam
funcionando — mas a percepção dominante é de que nada disso altera
substantivamente a vida das pessoas. Essa percepção corrói a legitimidade de
dentro para fora. E abre espaço para soluções perigosas.
Quando
a população deixa de acreditar que a política pode melhorar sua vida, ela passa
a buscar alternativas fora do campo democrático — ainda que essas alternativas
prometam ordem à custa de direitos. O avanço de lideranças autoritárias não é,
portanto, um desvio inexplicável. É, em grande medida, uma resposta ao
esvaziamento da própria democracia.
No caso
brasileiro, essa tensão assume contornos ainda mais delicados.
O país
mantém eleições regulares e instituições formalmente sólidas, mas enfrenta
sinais claros de desgaste. A politização do sistema de justiça, as suspeitas
que recaem sobre o funcionamento de instâncias decisórias e a percepção de
seletividade na aplicação das regras fragilizam a confiança pública. Ao mesmo
tempo, melhorias econômicas objetivas convivem com uma sensação difusa de
estagnação.
Essa
dissociação entre realidade e percepção não é trivial.
Ela
indica que os critérios pelos quais a população avalia a ação do Estado já não
coincidem com os indicadores tradicionais de desempenho. Em outras palavras:
governar bem, nos termos convencionais, já não é suficiente. É preciso que esse
governo faça sentido para quem vive seus efeitos.
E isso
nos devolve à pergunta inicial.
Para
quem se governa?
Se a
resposta continuar sendo mediada por interesses restritos, por métricas
desconectadas da realidade ou por lógicas de curto prazo, a crise da democracia
liberal tende a se aprofundar. Não haverá reforma institucional capaz de
compensar essa desconexão.
Por
outro lado, recolocar o povo no centro da avaliação da ação pública não é uma
tarefa trivial. Exige redefinir prioridades, alterar mecanismos de
accountability, repensar a própria lógica de formulação de políticas. Exige,
sobretudo, abandonar a ideia de que o processo basta. Não basta.
Democracia
é conflito organizado; é correlação de forças; é método de contenção do poder;
é um arranjo institucional sob tensão constante.
E só se
sustenta quando o exercício do poder se traduz em melhoria concreta das
condições de vida da população. Caso contrário, o que permanece é apenas a
aparência — e aparências não resistem por muito tempo.
No fim,
a questão não é se um sistema se chama democracia. A questão é se ele ainda é
capaz de cumprir aquilo que promete. Se não for, a crise deixa de ser um risco.
Ela já terá se consumado.
• A captura do orçamento e o colapso da
representação democrática. Por Paulo Cannabrava Filho
O
orçamento público, que deveria ser o principal instrumento de planejamento e
promoção do desenvolvimento nacional, vem sendo progressivamente capturado por
interesses particulares no interior do próprio Parlamento. O crescimento das
emendas parlamentares — individuais, de bancada e de comissão — tornou-se um
dos principais vetores dessa distorção.
Para
2026, cerca de R$ 61 bilhões estão destinados às emendas parlamentares. Desse
total, aproximadamente R$ 26,6 bilhões correspondem às emendas individuais e R$
11,2 bilhões às emendas de bancada. Em termos proporcionais, esse montante
representa cerca de 0,9% de um orçamento federal estimado em R$ 6,5 trilhões. À
primeira vista, pode parecer pouco. Mas a relevância política e o grau de
discricionariedade desses recursos conferem a eles um peso muito maior do que o
percentual sugere.
Por
outro lado, o custo da dívida pública consome mais de 40% do orçamento,
comprimindo ainda mais a capacidade do Estado de investir em políticas públicas
estruturantes. O resultado é um orçamento engessado, onde uma pequena fração,
altamente politizada, passa a ser disputada de forma intensa e, muitas vezes,
distorcida.
Reportagem
da Folha de S. Paulo, publicada em 19 de abril, revela um dado alarmante: em
2025, apenas sete deputados concentraram R$ 1,5 bilhão em emendas de comissão,
o equivalente a 20% do total distribuído pela Câmara. Embora representem apenas
1,4% dos parlamentares, esses poucos congressistas controlaram uma fatia
desproporcional dos recursos.
Enquanto
isso, cerca de R$ 6 bilhões foram distribuídos entre 423 deputados, e 83
parlamentares sequer indicaram emendas. A desigualdade na distribuição é
evidente e levanta questionamentos sobre os critérios adotados e os mecanismos
de controle.
As
emendas de comissão, que durante anos operaram sob forte grau de opacidade,
passaram a ser obrigatoriamente transparentes por determinação do Supremo
Tribunal Federal. Ainda assim, o Executivo mantém a prerrogativa de não
executar essas emendas, embora não possa redirecionar os recursos, o que mantém
um espaço de tensão institucional permanente.
Entre
os parlamentares, o deputado Júlio Arcoverde (PP-PI) aparece como o maior
beneficiado, com R$ 244,3 milhões em recursos, que, segundo ele, foram
destinados a obras no Piauí. Em seguida, figura o presidente da Câmara, Hugo
Motta (Republicanos-PB), com R$ 180,5 milhões. Esses números evidenciam a
concentração de poder e influência na alocação de verbas públicas.
Esse
quadro se insere em um contexto mais amplo de deterioração institucional.
Pesquisas recentes indicam uma crescente crise de confiança da sociedade não
apenas em relação ao Parlamento, mas também ao Judiciário. A percepção de que
decisões fundamentais estão sendo capturadas por interesses particulares
fragiliza os pilares da democracia representativa.
O que
está em jogo não é apenas a distribuição de recursos, mas a própria
credibilidade das instituições. Em ano eleitoral, torna-se ainda mais urgente
exigir dos candidatos não apenas promessas pontuais, mas propostas estruturais
capazes de reordenar o sistema político, restabelecer a transparência e
garantir que o orçamento público volte a cumprir sua função essencial: servir
ao interesse coletivo e ao desenvolvimento soberano do país.
Mais do
que uma distorção administrativa, trata-se de um problema estrutural. A
apropriação do orçamento por grupos restritos e a subordinação da política
econômica aos interesses do sistema financeiro revelam um Estado capturado,
incapaz de responder às necessidades da maioria da população. Romper com essa
lógica exige mais do que ajustes pontuais: requer um projeto nacional que
recoloque o desenvolvimento, a soberania e a justiça social no centro das
decisões. Sem isso, a crise de confiança tende a se aprofundar, corroendo ainda
mais os fundamentos da vida democrática.
Para
mudar as regras desse jogo, será necessário alterar a correlação de forças no
Congresso, hoje amplamente favorável à oposição — direita e ultradireita — que
conta com cerca de 300 votos, contra pouco mais de 100 dos setores
democráticos. Em outubro, nas eleições gerais, será a hora de mudar esse
quadro. Trata-se de um momento decisivo: ou se constrói uma maioria
comprometida com a reconstrução do Estado e a transparência no uso do
orçamento, ou se aprofunda o modelo atual de captura e distorção dos recursos
públicos.
Fonte:
Brasil 247/Diálogos do Sul Global

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