Mulheres
que cuidam precisam ser cuidadas
O
avanço da ciência e dos cuidados em saúde tem permitido que muitas doenças
crônicas sejam acompanhadas não apenas em ambiente hospitalar, mas também
dentro de casa. Com isso, as famílias passaram a ocupar um papel central no
cuidado, assumindo funções que antes estavam mais restritas aos serviços de
saúde. É nesse contexto que se consolidam os cuidadores informais, responsáveis
por auxiliar no cuidado físico e na gestão de condições complexas, como doenças
oncológicas e quadros demenciais de pessoas em situação de dependência.
Esse
aumento na demanda por cuidado no ambiente doméstico também evidencia como essa
responsabilidade ainda é distribuída de forma desigual. Um estudo recente feito
por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) aponta
que cerca de 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres que dedicam,
em média, 9,6 horas semanais a mais às tarefas de cuidado e domésticas do que
os homens. Na maioria das vezes, esse trabalho é realizado sem remuneração,
capacitação ou apoio estruturado, como indicam dados da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).
Para a
professora Rosana Dantas, do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada
da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, essa desigualdade
começa a ser construída desde cedo. “O ideal de maternidade e feminilidade na
nossa sociedade reforça a ideia de que cuidar é uma função intrínseca às
mulheres. Além das normas culturais, as estruturas sociais e econômicas não
valorizam nem atribuem de forma igual as responsabilidades do cuidado,
resultando nas chamadas dupla ou tripla jornadas de trabalho que muitas
mulheres executam diariamente. Mulheres negras, famílias pobres ou de áreas
rurais costumam afetar ainda mais restrições estruturais para romper com o
padrão tradicional de cuidado.”
A
professora coordena um grupo de pesquisa que entrevistou cuidadores de
pacientes com insuficiência cardíaca atendidos no Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP. “Até o momento, dos
221 cuidadores entrevistados, a maioria é composta de mulheres, com média de
idade de 53 anos, sendo esposas, companheiras ou filhas e que residem com o
familiar doente; 59% disseram nunca ter recebido ajuda nas tarefas do cuidar”,
afirma.
Os
dados também mostram que 73% desses cuidadores têm menos de 60 anos e poderiam
estar inseridos no mercado de trabalho, enquanto 57% acumulam atividades
remuneradas além do cuidado com o familiar doente, o que intensifica a
sobrecarga.
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Impactos na vida dos cuidadores
Esse
modelo, sustentado principalmente no âmbito familiar, gera impactos diretos na
vida dessas mulheres, como sobrecarga física e emocional, além de prejuízos à
trajetória profissional e à autonomia financeira. De acordo com Rosana, como o
cuidado informal é pouco reconhecido como trabalho, dificilmente gera direitos
trabalhistas formais, como licenças remuneradas, aposentadoria ou
seguro-desemprego, o que amplia a vulnerabilidade econômica das cuidadoras.
Nesse
contexto, há também reflexos na saúde. As mulheres tendem a apresentar menor
qualidade de vida e menor adesão aos cuidados pessoais, muitas vezes
negligenciando a própria saúde. “Nossa sociedade precisa cuidar também de quem
cuida”, destaca Rosana.
A
professora ainda destaca que, para aquelas que conciliam o cuidado com
atividades remuneradas, os impactos atingem diretamente a carreira e a renda.
“Por exemplo, a oferta de creches e de escolas de educação infantil nem sempre
atende à demanda, especialmente em regiões menos favorecidas. Portanto, existe
a necessidade do reconhecimento explícito do cuidado informal como componente
econômico e social, como o estabelecimento de políticas de apoio direto às
cuidadoras e também aos cuidadores, como apoio financeiro, emocional,
formativo, além da expansão de serviços de cuidado acessíveis e de qualidade”,
compartilha.
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Reconhecimento e desafios do cuidado
Para
Miguel Hypólito Gimenez, estudante de psicologia e autor do estudo Relação
entre felicidade e síndrome de burnout de cuidadores remunerados e não
remunerados de pessoas idosas: Um estudo transversal, da Faculdade de Medicina
de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, cuidadores não remunerados tendem a apresentar
menor letramento em saúde da pessoa idosa em comparação aos profissionais, o
que pode influenciar na forma de cuidar e aumentar os níveis de estresse tanto
do cuidador quanto da pessoa assistida.
Segundo
o estudante, ainda é comum que esses cuidadores não se reconheçam como tal.
“Acaba que esse não reconhecimento do trabalho não vem só de pessoas por fora,
mas é muito comum ver em ambulatórios especializados, por exemplo, algumas
cuidadoras que não se reconhecem como cuidadoras. Nós perguntamos ‘ah, você é
cuidadora?’ e ela fala que não, apenas a filha, mas então quando perguntamos
‘mas você presta atividade de cuidado nessa pessoa idosa?’ e ela diz ‘presto,
dou banho, cuido’.”
Em seu
estudo, Gimenez destaca ainda que, ao analisar 17 pesquisas sobre a relação
entre felicidade e cuidado, a questão de gênero sobressaiu. Em dois desses
estudos as mulheres apresentaram níveis mais baixos de felicidade em comparação
aos homens. Segundo o pesquisador, isso está diretamente ligado à sobrecarga
acumulada. “Além do cuidado, as atividades domésticas continuam sendo
majoritariamente atribuídas às mulheres, o que amplia a pressão no dia a dia.
Elas precisam conciliar tarefas como organizar a casa, lavar roupa e, ao mesmo
tempo, prestar assistência à pessoa idosa, tudo ao mesmo tempo, o que impacta
diretamente o bem-estar”, explica.
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Políticas públicas e iniciativas de apoio
No
campo das políticas públicas, iniciativas como a Lei nº 15.069/2024, que
institui a Política Nacional de Cuidados, reconhece o cuidado como um direito
social e com o objetivo de estruturar políticas públicas voltadas ao direito ao
cuidado, à corresponsabilização entre Estado, família, comunidade e setor
privado e à proteção de quem cuida.
Além
disso, segundo Gimenez, existem outras iniciativas, como a plataforma
iSupport-Brasil, um programa de treinamento on-line e gratuito desenvolvido
pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adaptado no País para apoiar
cuidadores informais e familiares de pessoas com demência. O programa reúne 23
lições distribuídas em cinco módulos, com foco no desenvolvimento de
habilidades de cuidado e na saúde mental do cuidador.
Fonte:
Por Joyce Pezzato, no Jornal da USP

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