'O
dilema de Malaca': por que outra passagem crítica para a navegação gera
preocupação no comércio global
Em meio
ao bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das vias marítimas mais importantes do
mundo, outra artéria vital para o comércio global começa a chamar a atenção
internacional.
O
Estreito de Malaca, no sudeste asiático, voltou a ser notícia quando
funcionários do governo indonésio confirmaram que os Estados Unidos
apresentaram uma proposta para obter autorização militar para sobrevoar o
território do país.
O
Ministério das Relações Exteriores da Indonésia afirmou não ter ainda chegado a
uma decisão.
A
iniciativa surgiu há cerca de uma semana, após a assinatura de um acordo de
defesa entre os dois países, e pode trazer implicações geopolíticas globais.
Mas o
que é o Estreito de Malaca e por que ele é tão importante?
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Importância global
"O
Estreito de Malaca é fundamental porque constitui a rota marítima mais curta e
eficiente de conexão entre o oceano Índico e o Pacífico", afirma Azifah
Astrina, doutoranda na Universidade de Illinois Urbana-Champaign, nos Estados
Unidos.
"Por
isso, ele é indispensável para o comércio entre o Oriente Médio, a Europa e o
leste asiático", prossegue a pesquisadora. "Ele se conecta
diretamente com o Mar do Sul da China, através do qual flui cerca de um terço
do comércio mundial."
Astrina
é especialista na região e elaborou um estudo sobre os incidentes marítimos no
estreito.
Seu
ponto com menor largura fica em torno do canal de Phillips, perto de Singapura:
cerca de 2,8 km.
O
relatório mais recente da Administração de Informações Energéticas dos Estados
Unidos (EIA, na sigla em inglês) indica que 23,2 milhões de barris de petróleo
transitaram diariamente por Malaca no primeiro semestre de 2025.
Este
volume equivale a cerca de 29% do fluxo mundial de petróleo por via marítima.
No
mesmo período, também transitaram pela via cerca de 260 milhões de metros
cúbicos diários de gás natural liquefeito (GNL).
Além
disso, o professor de transporte sustentável de mercadorias e logística Gokcay
Balci, da Universidade de Leeds, no Reino Unido, destaca que o Estreito de
Malaca constitui uma rota fundamental para "produtos eletrônicos, bens de
consumo, bens industriais, maquinário e automóveis".
"Cerca
de 25% do comércio mundial de automóveis passa por ali", prossegue o
professor. "Também transitam pelo estreito cargas secas a granel, como
cereais e soja."
"Se
combinarmos a geografia, a dependência energética, o volume de mercadorias e a
variedade de produtos, o Estreito de Malaca se diferencia do Estreito de
Ormuz", aponta Balci.
"Ormuz
também é fundamental para o comércio mundial, mas não constitui um centro de
transbordo tão significativo quanto o Estreito de Malaca. Sua função transcende
o âmbito energético e engloba uma gama de mercadorias muito mais ampla."
"Malaca
é uma das artérias centrais da economia mundial", concorda Azifah Astrina.
E a pirataria continua sendo um motivo constante de preocupação.
Segundo
o Centro de Intercâmbio de Informações ReCAAP, com sede em Singapura, foram
notificados 108 incidentes de roubos no mar nos estreitos de Malaca e Singapura
em 2025. Este é o número mais alto registrado desde 2007.
Por
outro lado, o estreito se encontra exposto a diversos riscos naturais, como os
tsunamis e a atividade vulcânica.
O
tsunami de dezembro de 2004 que afetou a região, por exemplo, causou danos
significativos à infraestrutura litorânea perto da sua entrada sul.
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Por que ele é importante?
Especialistas
afirmam que a importância de Malaca não reside apenas no seu peso econômico,
mas também na sua relevância geopolítica cada vez maior.
"Uma
eventual escalada das tensões entre a China e os Estados Unidos, ou a Índia, em
torno do domínio marítimo na região poderá perturbar gravemente o trânsito
através do estreito", explica Balci.
Astrina
defende que a mera possibilidade de um maior acesso militar dos Estados Unidos
ao espaço aéreo indonésio poderia trazer repercussões a longo prazo.
"Eu
qualificaria como um fator potencialmente desestabilizador em termos
estruturais, mesmo se não perturbar o comércio imediatamente", afirma ela.
Suas
pesquisas indicam que a atual arquitetura de segurança no Estreito de Malaca
não está preparada para a rivalidade entre as potências.
"Ela
está projetada para fazer frente a ameaças não tradicionais, como a pirataria,
o contrabando e a criminalidade marítima", explica a pesquisadora.
"Não está projetada para gerenciar a concorrência entre as grandes
potências."
"Consequentemente,
quando uma grande potência, como os Estados Unidos, amplia sua pegada
operacional, ela cria uma dinâmica de segurança para a qual o sistema não foi
concebido."
Mas
Astrina destaca que, a curto prazo, é improvável que surjam perturbações.
"Continuo
não prevendo que o transporte marítimo comercial seja afetado", ela
ressalta. "Os incentivos para manter o fluxo comercial são poderosos
demais."
A
pesquisadora alerta que o maior risco está mais distante no horizonte. Para
ela, "a inquietação reside na trajetória da escalada a longo prazo".
"Se
a China interpretar esta situação como um aumento da vigilância ou do
posicionamento estratégico americano nas proximidades de uma artéria marítima
crítica, ela poderia reagir, não necessariamente causando tumulto no comércio,
mas ampliando sua própria presença ou influência na região e nos seus
arredores."
"É
aqui que reside o perigo", prossegue ela.
"Poderíamos
ser testemunhas de uma transição gradual: de um ambiente de segurança
cooperativo e orientado à aplicação da lei para outro de caráter mais
competitivo e militarizado."
Mesmo
na ausência de um conflito direto, Astrina alerta que essa transformação
poderia acarretar efeitos tangíveis.
"Para
o comércio mundial, as repercussões provavelmente seriam indiretas, mas reais:
prêmios de seguro mais altos, maior percepção de risco e maior volatilidade em
uma rota da qual a economia global depende em grande medida.
Ainda
assim, a pesquisadora recomenda não adotar uma perspectiva excessivamente
restrita ao analisar o papel da Indonésia neste processo.
"É
fundamental não interpretar isso como alinhamento da Indonésia com uma das
partes", destaca ela.
"A
Indonésia parece estar aplicando uma estratégia de equilíbrio: aprofundando sua
cooperação com os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, mantendo sólidos laços
econômicos com a China e interagindo com outros parceiros, como a Rússia."
O
panorama atual não se baseia na formação de alianças, mas na realidade de que a
concorrência entre as grandes potências vem adentrando em um espaço que,
historicamente, foi idealizado como corredor compartilhado e funcional para o
comércio mundial.
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'O dilema de Malaca'
Em
2003, o então presidente chinês Hu Jintao (2003-2013) cunhou a expressão
"dilema de Malaca" para descrever a forte dependência da China em
relação ao estreito, que é a via mais curta tanto para o país escoar sua
produção para outros continentes quanto para receber importações.
Cerca
de 75% das compras chinesas de petróleo e 60% do seu comércio marítimo, em
termos de valores, trafegam pelo Estreito de Malaca e pelo vizinho Mar do Sul
da China, segundo dados da EIA e do projeto ChinaPower, do Centro de Estudos
Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington D.C., nos Estados Unidos.
O
dilema que se coloca, nesse cenário, é a escolha entre manter o foco no
estreito, que é economicamente mais eficiente, mas pode deixar a China
vulnerável caso haja algum evento que interrompa a navegação, ou investir em
alternativas que podem reduzir esse risco, mas devem elevar os custos
econômicos ao país, já que seriam rotas mais longas.
"Mas
não se trata apenas da China", destaca Balci. "O Japão e a Coreia do
Sul também dependem, em grande parte, do estreito para o seu abastecimento
energético, já que 90% das suas importações de petróleo passam por ali."
O
professor acrescenta que a via marítima também é fundamental para Singapura,
que abriga o segundo porto de contêineres mais ativo do mundo e constitui
importante centro de abastecimento de combustível para navios.
Para a
China, Astrina destaca que reduzir a dependência do estreito não constitui uma
opção realista a curto prazo.
"Não
acredito que a China disponha de uma solução realista para reduzir
significativamente essa dependência, pelo menos no futuro imediato",
defende ela.
"As
rotas alternativas, como oleodutos ou outros corredores, podem oferecer uma
ajuda marginal, mas não podem substituir o Estreito de Malaca em grande
escala."
Gokcay
Balci concorda com a avaliação. Ele afirma que as duas alternativas mais
viáveis (os estreitos de Sonda e Lombok) também se encontram em águas
indonésias.
O
Estreito de Torres, perto de Papua-Nova Guiné, é "uma via navegável rasa e
ecologicamente sensível, com recifes de coral", explica ele. "Por
isso, os grandes navios comerciais não poderiam navegar por ali."
Balci
também destaca que contornar o sul da Austrália traria "enormes custos e
grande investimento de tempo".
Com
todas estas limitações, Astrina afirma que, provavelmente, a China continuará
concentrando seus esforços em gerenciar sua vulnerabilidade, em vez de tentar
eliminá-la.
"O
dilema, na verdade, não reside em reduzir a dependência, mas na forma como que
a China gerencia essa dependência."
"Por
isso, observamos que a China se concentra não apenas na diversificação, mas
também em ampliar sua influência e presença em toda a região, especialmente no
Mar do Sul da China e ao longo das principais rotas marítimas", conclui
Azifah Astrina.
• Dorrit Harazim: Narcisos loucos guiam
cegos no planeta
‘É a
desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de
Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase
resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos.
Os
incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade
deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos”
manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como
ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e
perdido o discernimento.
O
sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo
em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo,
imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com
acuidade nossos miseráveis tempos atuais.
O mundo
está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos
comprometidos com o Direito Internacional.
Não é
preciso concordar com o tom combativo do economista Jeffrey Sachs, professor de
políticas públicas na Universidade Columbia, para validar sua preocupação com a
mente transtornada de dois governantes específicos que não dão paz à
humanidade.
Em
artigo no site progressista Common Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de
Deus”, Sachs refere-se assim a Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de
violência israelense:
—
Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina como instrumento
político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que sejam detidos,
todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (…) Eles estão dominados por
três patologias em cascata. A primeira é de personalidade: ambos são
narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que têm o poder
de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer contenção. A
terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que
acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que são
messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo que,
juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.
Para
Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. Foi cunhado em
1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever Adolf Hitler como “fusão
de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial
numa única estrutura de caráter”. “O narcisista maligno não é apenas vaidoso. É
estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e
movido por uma convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser
destruídos”, disse Fromm.
Nunca é
demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a nuvem nuclear ao alcance da
mão.
A
Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta semana, e ninguém — nem
mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito cessar-fogo de duas semanas,
acordado mas não respeitado pelas partes. Israel, escanteado das gestões,
continua a transformar o sul do Líbano em escombros como se não houvesse um
amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura política pode ter sido
ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não coerente o bastante para
sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as bombas caem em Beirute e
que um lado afirma que a área estava coberta pelo acordo enquanto o outro diz
que não, o problema deixa de ser um mal-entendido técnico. Torna-se uma falha
estrutural na própria trégua.
Saltam
aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes sobre os termos do
cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10 pontos era tratado
como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um entendimento muito
mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os Estados
Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco, tanto que, até a
noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à navegação statu quo
ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu engolir um drone militar
de espionagem dos Estados Unidos que fazia bisbilhotagem. Nenhum Departamento
de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um equipamento de US$ 200 mil (mais de
R$ 1 bilhão).
Neste
mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos por natureza, faltam vozes
como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo pai, o Rei Lear.
Shakespeare, presente
Fonte:
Por Luis Barrucho, do Serviço Mundial da BBC/O Globo

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